Abriu os olhos e consultou o relógio a seu lado. Dezoito e trinta e seis. Xingou-se mentalmente por ter dormido demais e pulou da cama. Aprontou-se e dirigiu para o hospital na velocidade da luz.
No momento em que estava adentrando o local, ouve aquela voz.
- Boa noite, Camus! – cumprimentou-o animado. Olhou para o lado e aquele ser irritantemente sexy estava sorrindo verdadeiramente para ele.
- Que animação. – comentou, enquanto caminhavam em direção ao elevador.
- Claro, hoje é minha primeira cirurgia aqui neste hospital, eu realmente espero que dê tudo certo. – falava e gesticulava com as mãos. Ao entrarem no elevador, Camus encostou-se na porta do compartimento e o encarou.
- Vai dar. Os profissionais daqui são muito bons.
- Principalmente você, dizem por aí. – Milo sorriu desafiadoramente, colocando alguns fios que caíam sobre seu rosto para trás.
A porta do elevador abriu e caminharam juntos para o vestiário.
- Pare com essa história, ela já está começando a ficar cansativa. Eu já disse que não sou melhor do que ninguém. – disse, enquanto abria a porta e dava espaço para o grego entrar.
- Cansativa é essa sua indiferença. – falou. Seu tom era levemente magoado.
Milo retirou a camisa preta e a calça jeans azul que vestia, ficando apenas com uma boxer branca. Dobrou as peças de roupa cuidadosamente e as guardou em seu armário. O francês estava completamente estático com a cena. Seus braços não eram fortes como os de Aioria, mas eram tão ou ainda mais bonitos que do outro. Suas coxas eram grossas e torneadas, e quase não possuía pêlos, tanto nas pernas quanto no peito. Havia uma espécie de marca de nascença perto de sua pélvis e ainda algo que atraiu a atenção de Camus de um jeito impressionante. Em seu umbigo, havia um piercing prateado que possuía um pingente em que um pequeno escorpião reluzia e balançava graciosamente a cada movimento que o grego fazia. Estava em uma espécie de transe, e só acordou quando notou Milo o encarando, divertido.
- Err... Legal seu piercing. – comentou, sentindo suas bochechas queimarem e se sentiu ridiculamente estúpido. O grego olhou para seu próprio umbigo.
- Obrigado. É meu signo, sabe... Escorpião. – puxou o pingente levemente, começando a se vestir com suas roupas brancas. – É um segredo, ok? Se souberem que eu possuo um piercing com certeza vão mandar eu tirar.
Camus arqueou uma das sobrancelhas.
- Porque eu iria contar pra alguém? – perguntou.
O grego pareceu pensar sobre o assunto e em seguida deu de ombros.
- Não sei. Do jeito que você parece me adorar... – falou vagamente, colocando a touca branca, fazendo o francês pensar por um momento o quão adorável Milo ficava usando aquele acessório.
- Eu já te falei. Eu não te odeio. – disse, cansado.
- Ok. – falou o grego, simplesmente.
Camus franziu a testa, diante da aparente indiferença do outro.
Desde quando ele agia assim?
Fizeram alguns preparativos e logo seguiram para a sala de cirurgia.
Aos poucos, o francês pôde notar que Milo era realmente talentoso e prestativo. O sempre tão espontâneo rapaz parecia ter sua personalidade modificada quando a situação pedia.
Diante da mobilização de todos para salvar a vida do garotinho de três anos de idade com leucemia, o grego parecia ser um dos mais decididos a ajudar com toda sua capacidade a curar o menino.
E, mesmo que não assumisse para ele mesmo, Camus achou tal ato extremamente doce de sua parte. Porque, para o francês, tanto importava se era um garoto, um velho, uma mulher ou um homem. Ver que ainda existiam pessoas com tal empatia, era quase que admirável.
Mesmo não conhecendo Milo muito bem, Camus poderia afirmar com toda a certeza do mundo que o outro era daqueles tipos de pessoa que odeia ver o sofrimento dos outros. E eram justamente esses tipos de pessoas que mais se machucavam quando percebiam o quão injusta a vida poderia ser.
xxx
Após muitas horas, finalmente a cirurgia havia acabado. E ela havia sido um sucesso. Era notável a felicidade de toda a equipe, tal sentimento só não se aplicava a Camus, que caminhava para o vestiário em passos lentos.
Abrindo a porta, deparou-se com Milo sentado em uma cadeira, com a cabeça abaixada e os longos cabelos cobrindo sua face. Decidido a ignorar a presença do outro, o francês preparava-se para adentrar o local quando ouve uma fungada vinda de dentro do vestiário. Olhou em volta e notou que o grego era o único presente. Com grande dose de espanto, chegou a conclusão de que ele estava chorando.
Os sons de seus soluços preenchiam o local, e mesmo que inconscientemente, Camus decidiu que não gostava de o ver daquele jeito. Pensando seriamente em ignorar e voltar depois, quase bufou por notar que seus pés se moveram contra sua vontade e quando se deu conta, estava a poucos passos de distância de Milo, que estava o encarando.
E oh, por Deus. Ele seus olhos estavam tão tristes e opacos.
Algumas lágrimas atrevidas caindo por sua face bonita, morrendo por vezes em sua boca e outras ainda continuando seu caminho. E de repente, Camus só queria abraçá-lo e dizer que tudo ficaria bem. Era notável que Milo estava tentando engolir seu pranto, pois estava comprimindo seus lábios.
- Me d-desculpe. – falou com a voz embargada. – Pode usar aqui, eu já... v-vou indo.
Levantou-se e se dirigia para a porta.
Camus agarrou um de seus pulsos, olhando diretamente em sua íris azul.
- Não há problema em chorar de vez em quando. – murmurou.
E isto parece ter o derrubado de um jeito impressionante. Suas pernas pareceram ceder e quando Camus se deu conta, Milo estava no chão, seu pranto mais intenso do que já estivera. Suas mãos foram em direção ao próprio rosto e seus soluços estavam instáveis demais. Parecia um pecado que uma pessoa aparentemente feliz e extrovertida estivesse tão despedaçada quanto o grego aparentava estar.
Por um momento, o francês sentiu-se estúpido por pensar assim. Todos possuíam felicidade e tristeza dentro de si, e Milo provavelmente não era diferente.
Dizendo a si mesmo que não haveria problema em tentar se lembrar como era ajudar o próximo, também se abaixou, ficando na mesmo altura que o grego. Depositou uma de suas mãos em seu ombro, o sentindo ficar ainda mais tenso do que já estava. Encarou o semblante quase que... assustado de Milo e sorriu confortante.
E o que o surpreendeu não foi o sorriso. E sim, a verdade que havia nele.
Encarando isto como uma permissão, Camus se surpreendeu quando o sentiu circular sua cintura e afundar o rosto em seu abdômen.
Não tendo coragem de o afastar, hesitantemente, passou a fazer pequenas caricias nos cabelos macios de Milo, esperando pacientemente seu choro cessar. Não havia nada que pudesse fazer, de qualquer forma.
Uma das coisas que aprendeu quando ainda era um ser humano, era que palavra nenhuma seria mais acolhedora do que o próprio pranto. Nada melhor do que colocar todas as mágoas para fora de uma vez, para purificar a própria alma. Todos tinham direito de desabar, pelo menos uma vez.
- Desculpe por isso, Camus. – disse finalmente, consideravelmente mais calmo. As lágrimas já não saíam, apenas alguns soluços fracos.
O francês negou com a cabeça.
- Não foi nada. – falou suavemente.
- Por quê? – Milo perguntou, quase que melancólico. Camus fez um gesto para dar a entender que não havia entendido a questão. – Por que está aqui me ajudando? – completou, não encarando os olhos do menor.
Camus ponderou sobre o assunto por alguns segundos, e decidiu-se por dar a resposta mais sincera que pôde.
- Porque eu não gosto de te ver chorar. Não é obvio? – respondeu. Mesmo com certa ironia em sua frase, não havia nenhuma maldade nela.
Como se tivesse levado um choque, Milo desvencilhou-se de Camus e encarou-o com os olhos arregalados, como se ele tivesse dito algum absurdo.
- Eu posso ir embora, se você não quiser minha companhia. – comentou, já se preparando para levantar, dizendo a si mesmo que havia sido uma péssima idéia invadir a privacidade de alguém daquele jeito.
Milo o abraçou com mais força e balançou a cabeça insistentemente.
- Não é isso. Eu só fiquei surpreso. – explicou, quase que afobado demais. – Achei que você me odiasse. – comentou baixo, quase que temente que Camus ouvisse.
- Eu já te disse que eu não te odeio. – falou, pela primeira vez sem aquele tom cansado. Sua vez estava quase que... indulgente. – Você não é tão ruim assim...
O maior sorriu, mais para ele mesmo do que para o francês.
- Eu vou encarar isto como um elogio. – afirmou, com a voz estranha, devido ao nariz entupido.
Formou-se um silêncio agradável entre os dois. Milo fazia pequenos desenhos imaginários na camisa branca de Camus, que procurava manter a sua mente longe de qualquer tipo de pensamento, decidindo que não havia problema em, apenas por alguns instantes, relembrar como era ser humano.
- Você não vai me perguntar por que eu estava chorando? – perguntou o grego, algum tempo depois.
- Não tenho o direito de invadir a sua vida deste jeito. Nós mal nos conhecemos. – respondeu, brincando com os dedos do maior.
- Isto foi há tempos atrás... Eu... nasci em uma família que tinha uma espécie de facilidade para doenças. – começou, quase que hesitante. – Eu não sei ao certo o porquê disso, mas era como se nós atraíssemos doenças. Bem, meus pais morreram quando eu tinha dezessete anos. Meu pai de tuberculose e minha mãe de insuficiência renal. Como eu era o filho mais velho, fiquei responsável por meu irmão, que tinha quatro anos naquela época. E eu só queria que ele crescesse e fosse feliz. Parecia muito injusto uma criança tão pequena ter que sofrer por não possuir pais. – suspirou. – Mas, três meses após a morte dos meus pais... Ele contraiu câncer. Leucemia, assim como o garoto que nós operamos hoje. E eu queria tanto que, pelo menos uma vez, não acontecesse com ele o que sempre acontece em minha família... – murmurou melancólico. – Ele começou a fazer quimioterapia, e até que estava respondendo bem ao tratamento, os médicos falavam que talvez nem fosse necessário fazer um transplante. – fechou os olhos, algumas lágrimas voltando a cair. – Mas, seguindo a escrita, ele passou a piorar e já não respondia aos remédios e nem a quimioterapia. Só um transplante de medula óssea seria capaz de salva-lo. Quando fiz o teste, milagrosamente deu compatível. Eu poderia salva-lo e aquilo me deixou muito feliz. Mas, no dia seguinte ao meu teste, ele morreu. – finalizou.
Camus só saiu de seu transe quando sentiu sua face molhada, e com uma grande dose de espanto, percebeu que ele estava chorando. Levou uma das mãos ao seu próprio rosto e se deu conta de como aquilo doía.
- Eu... eu sinto muito. – sussurrou, não conseguindo pensar em nada mais adequado para dizer.
Milo sorriu tristemente.
- Obrigado. – murmurou. – Eu... acho que fiquei feliz pelo garoto ter conseguido o que meu irmão não conseguiu. – comentou. – E o que mais me deixa triste é saber que... eu poderia ter salvado-o. – fechou os olhos com força, e Camus apertou o abraço com mais força, querendo privá-lo de todas as dores que ele seria capaz de sentir.
- Não foi sua culpa, Milo. – disse suavemente. – Seu irmão deve estar orgulhoso de você.
O maior sorriu.
- Foi por isso que eu escolhi me tornar enfermeiro. – afirmou, olhando para um ponto qualquer, acomodando-se melhor no abraço, deitando sua cabeça no peito do menor.
- É um ato admirável de sua parte. – falou verdadeiramente, vendo o quão diferentes eles eram. E quase que podia sentir uma pontada de inveja do grego.
- Pelo menos, há um ponto positivo nessa história toda. – comentou, sorrindo docemente para Camus.
O francês nada disse, esperando-o continuar.
- Eu consegui quebrar essa barreira imaginária que você mesmo impunha. – falou, quase que... feliz.
E Camus nada pôde fazer a não ser sorrir.
- Você é um maldito. – afirmou, acariciando a face do maior.
Milo o acompanhou em seu semblante, ficando com o rosto da mesma altura do francês.
- Eu sei. – falou sorrindo – Mas de qualquer forma... obrigado.
E Camus não teve tempo de responder, pois sentiu os lábios macios do grego cobrindo os seus. Quase pôde suspirar de satisfação ao constatar o quão macios eram.
Embora não tenha passado de um roçar de lábios, não poderia ter sido mais adorável. Ligeiramente envergonhado, Milo escondeu sua face na curva do pescoço do menor, aspirando o cheiro embriagante que o local emanava.
Pode ser que mais tarde, Camus venha a se arrepender disso, mas nada disso importava no momento. Era... quase que acolhedor estar assim, sem envolver luxúria nem nada que tivesse a cama como destino certo. E não parecia certo estar assim com alguém que não fosse tão ou mais adorável quanto Milo. Ignorando as cambalhotas que seu estômago dava, depositou um beijo suave na ponta de seu nariz, acariciando suas costas gentilmente. Estava adentrando em um terreno desconhecido dentro de si, que nem ao menos sabia que existia. Mas... apesar de tantas incertezas que estavam o assombrando, sabia que aquele sentimento estava longe de ser ruim.
Continua...
AEAEAE, finalmente o terceiro capítulo! :D Demorei demais. .. Gomen nee. ;; Finalmente um contato mais próximo, hohoho. Espero que tenham gostado. Sou só eu ou o Camus só se faz de frio, sendo, na verdade, o mais sensível de todos os saints? xD
Nota inutil: Eu escrevi este capítulo ouvindo It's Hard to Say, Blue and Yellow e Smother Me, do The Used. :) Agente se vê no próximo capítulo. Prometo não demorar tanto.
Take care, minasan. o/
