Capítulo 3: Vermelho e azul
Draco
estava com problemas. Não os corriqueiros, relacionados ao seu
noivado fingido ou à inércia corporativa de Blaise. Estava com
problemas de inspiração. Passara a última meia-hora encarando uma
foto da Firebolt Thunder tentando elaborar o slogan e a idéia para a
campanha publicitária, mas todas as idéias eram ruins. O lançamento
da vassoura estava próximo, o que só aumentava a pressão.
-Firebolt
Thunder, a força de um trovão, agora na sua mão. – disse, rindo
logo em seguida – Que coisa horrível! Esse foi o pior, com
certeza! – olhou para a pilha de bolinhas de papel com idéias
rejeitadas e admitiu pra si mesmo que precisava de ajuda.
-Acho
que vou perturbar a Pans. Ela sempre tem boas idéias... – olhou o
relógio, 9 horas – Ela já deve estar no ateliê. Vou dar uma
passada lá.
-Jane,
ele era maravilhoso. Olhos lindos, corpo lindo... Ele era todo lindo!
– Pansy recostou na cadeira e jogou a cabeça pra trás – Acordei
até mais feliz.
-Que
bom que a noite foi boa. Fico feliz por você.
-Ai,
felicidade... Tinha até esquecido a sensação.
-É,
pois eu acho que tem alguma coisa a mais aí. – cantarolou Jane.
-O
que?
-Ah,
aquela coisa cega que começa com 'A' e termina com 'OR'.
-Não
seja boba, como posso me apaixonar assim? Nem o conheço, talvez
nunca mais o veja.
-Isso
é a sua cabeça falando, não o seu coração. – ela se aproximou
da chefe e olhou o desenho que ela fazia. Era o rosto do tal Harry
que virara sua cabeça – Esse – Jane apontou o desenho – é o
seu coração falando.
Gina
chegou ao prédio onde funcionava a Diamond®, uma das mais novas e
elitistas grifes do país. Sabia que a dona era Pansy Parkinson, a
mesma que atormentara Hermione ainda em Hogwarts. Esperava que ela
tivesse esquecido as bobagens sobre pureza do sangue e se tornado uma
pessoa melhor. Ou não conseguiria trabalhar com ela.
Entrou
no prédio e dirigiu-se ao elevador. O ateliê funcionava no vigésimo
andar, a cobertura. Era comum, só as maiores empresas ocupavam as
coberturas dos edifícios comerciais e aquela não era uma exceção.
Mesmo que não fosse com a cara de Pansy, tinha que admitir que ela
soubera construir uma sólida reputação. Suas roupas eram lindas e
confortáveis, e faziam quem as vestia se sentir especial. Ela mesma
tinha um vestido Diamond®, e era um de seus favoritos.
As
portas do elevador já estavam quase fechadas quando viu um homem
louro fazendo sinal pra segurá-las. Foi o que tentou fazer, mas não
conseguiu.
-Iihh,
agora o cara vai achar que eu sou uma mal-educada. Mas eu não tive
culpa.
-Saco!
Porque ela não segurou a porta?! – resmungava Draco junto aos
elevadores. Por sorte, o outro chegara logo depois. Ligara pra Pansy,
já no carro, explicando o problema e perguntando se ela podia
ajudá-lo. Como boa amiga, a morena não recusou. Entrou no outro
elevador e voltou seu pensamento à mal-educada que o deixara pra
trás – Não custava nada ela segurar a porta, né? Se fosse com
ela, aposto que ia reclamar...
Saiu
no vigésimo andar e caminhou em direção à sala da Diamond®. Qual
não foi sua surpresa quando viu a tal entrando no escritório.
Reconheceu-a pela blusa, azul-acinzentada que ela usava. Era
estranhamente semelhante a seus olhos. "Pensei que não houvesse
jeito de reproduzir essa cor..." Balançou a cabeça pra tirar a
mulher de seus pensamentos, mas não conseguiu. Achava o cúmulo que
ela tivesse batido a porta do elevador na sua cara. "E ainda por
cima é ruiva!"
-Deve
ser algum mal relacionado à cor do cabelo. – resmungou, enquanto
entrava no ateliê. "A última ruiva que conheci também era louca,
estava sempre me azarando, aquela Weasley!"
-Bom
dia, senhor Malfoy. – cumprimentou a secretária de Pansy,
tirando-o daqueles pensamentos.
-Oi
Jane. Pansy tá ocupada?
-Está
conversando com a nova modelo.
-Uma
ruiva de blusa azul? – a funcionária confirmou com a cabeça –
Não contratem, acho que educação não é o forte dela!
-Mesmo?
– Jane suspeitou que ele estivesse exagerando – Ela me pareceu
muito educada. Estava até sem graça por não ter conseguido segurar
a porta do elevador pra alguém, lá embaixo. – viu o louro desviar
o olhar, resmungando – Pansy disse pra você esperá-la na outra
sala. – ela apontou para a porta.
-Ok.
O
louro entrou nasala e sentou numa poltrona. Não gostava de esperar,
não nascera pra isso.
-Ginevra
Weasley, eu sou Pansy Parkinson. – "Por Merlin, tenha esquecido
das bobagens do passado!!", pedia a morena, em pensamento.
-Ah,
eu conheço você. – respondeu Gina, vendo a outra arquear as
sobrancelhas – A estilista mais badalada da atualidade. "E a
bruxinha malvada de Hogwarts."
-E
a chata que atormentava sua amiga Hermione. Eu já me desculpei com
ela, por carta, mas acho que te devo desculpas também.
"Ela
parece sincera", ponderou Gina. Pansy tinha muitos contatos com
estilistas trouxas, não era possível que ainda continuasse com a
mentalidade preconceituosa de antes.
-Tudo
bem. Vamos esquecer tudo aquilo.
-Ótimo.
– ela fez um gesto, indicando que Gina devia sentar – Eu acho que
devo começar explicando a proposta da campanha. Eu quero que cada
mulher que veste uma das minhas roupas se sinta única, especial. Por
isso, eu quero você na passarela.
-Mas
eu não sou modelo de passarela...
-Sabe
desfilar?
-Sei.
-Então,
qual é o problema?
-Não
tenho altura.
-Essa
é a idéia! – concluiu Pansy, empolgada – Eu não quero
estereótipos vestindo as minhas peças. Sabe, mulheres altas,
magérrimas e louras. Quero altas, baixas, gordinhas, magrinhas,
ruivas, louras, morenas...
-Diversidade...
– resumiu Gina, sorrindo com a idéia – É uma grande idéia. Vai
ter um grande apelo ao público.
-É
nisso que estou pensando.
Jane
entrou na sala e cochichou algo no ouvido de Pansy. Gina supôs que
fosse algo relacionado a algum compromisso de trabalho.
-Jane,
por favor, mostre à senhorita Weasley o provador pra que ela escolha
as peças pra sessão de fotos.
-Está
bem. – respondeu a secretária, sempre eficiente, conduzindo Gina
até uma ampla sala repleta de cabides com as roupas mais lindas que
ela já vira – Sinta-se à vontade pra escolher as peças.
A
moça saiu, deixando a ruiva sozinha. Um vestido longo,
azul-petróleo, chamou sua atenção. Era magnífico, tomara que caia
com a cintura marcada e saia rodada, comprida. Um véu, coberto com
pequenos strass cobria a saia, fazendo-a parecer um céu estrelado.
Luvas compridas acompanhavam o modelo. Gina sentiu uma vontade
irresistível de colocar aquele vestido.
Pansy
entrou na "sala de visitas" e se deparou com um Draco raivoso e
resmungão.
-O
quê que aconteceu?
-Como
se não bastasse a minha crise criativa, aquela modelo que você
entrevistou bateu a porta do elevador na minha cara!
-Bateu
ou simplesmente não conseguiu segurar?
-Qual
a diferença? – contrapôs o louro, contrariado.
-Não
seja irracional. Está fazendo tempestade num copo d'água.
-Não
estou, não! – retrucou, como uma criança – Isso deve ser algum
mal de gente ruiva! Os Weasleys são todos ruivos e nenhum deles tem
educação!
-Chega,
não quero mais ofensas à minha nova modelo. E por favor, controle o
veneno, sr. Sonserino. Não fale dos Weasley.
-E
por que não? Por acaso tem um deles por aqui... – ele compreendeu
o que ela queria dizer – Aquela ruiva que foi embora é a Coelha
Weasley?
-É.
Quero dizer, não! O nome dela é Ginevra e é assim que ela deve ser
chamada. Esqueça os apelidos e as ofensas, entendeu? – ela pôs o
dedo em riste no rosto dele.
-Você
defendendo a Coelha, quem iria acreditar... – ele meneou a cabeça
– Não vai mesmo contratá-la, né?
-Claro
que vou. É uma excelente profissional e eu não sou mais aquela
garota cruel e preconceituosa. – ela se dirigiu à porta que dava
pro seu escritório – Talvez esteja na hora de você crescer
também.
Ela
saiu, deixando um louro contrariado pra trás. Draco não gostava de
ser repreendido. Gina fora seu pesadelo em Hogwarts e Pansy queria
que ele a tratasse bem!
-Ora,
faça-me o favor...
Ainda
lembrava da Azaração de Rebater Bicho-papão que ela adorava lançar
nele como se não fosse nada. Uma vez, resolvera reagir. Acabou
arranjando uma briga feia com o cabeção do Potter, pois ao rebater
a azaração, acabou lançando-a nele.
Snape
ficara furioso e lhe dera uma detenção. Mas até que valera a pena,
já que o Cabeça-Quebrada Potter ostentara no rosto um belo hematoma
que poção, feitiço ou pomada nenhuma conseguira tirar. A marca
tinha sido obra de Pansy, um feitiço que ela costumava usar contra
as fofoqueiras quando falavam mal dela.
-Mas
isso foi quando ela era uma garota má... – disse o louro,
distraído com as lembranças. Tão distraído que acabou derramando
todo o conteúdo da xícara de café na camisa. – Ai que droga! –
abriu a porta que viu pela frente, julgando ser a do banheiro. Mas
não era.
Draco
estacou à porta, surpreendido pela visão das costas nuas de uma
ruiva espetacular. As cascatas flamejantes lhe desceram pelas costas
quando ela jogou o cabelo pra trás. O louro estava hipnotizado pelo
brilho daquele cabelo, as mãos pareciam formigar de vontade de
mergulhar ali e descerem devagar até chegar a cintura e àquele
quadril, perfeitamente delineado pela calça jeans.
Gina
percebeu uma movimentação atrás de si pouco depois de tirar a
blusa. Virando a cabeça, viu um homem louro encarando-a, abobado.
Mais que apressadamente, agarrou o vestido e usando-o como "escudo",
ficou de frente para o homem.
-Quem
é você? O que tá fazendo aqui?
-Calma,
não é o que você tá pensando... – respondeu Draco, cobrindo
parcialmente os olhos.
-Sai
daqui!
-O
que está acontecendo aqui? – perguntou Pansy, entrando pela outra
porta. Arregalou os olhos ao ver o noivo ali – O que você tá
fazendo, Draco? Sai daqui! – ela o empurrou pra fora e fechou a
porta – Porque estava assediando minha modelo?
-Assédio?
Ficou louca?
-Porque
entrou no provador?
-Achei
que fosse o banheiro. Eu derramei café – mostrou a camisa manchada
– e quis lavar. Foi tudo um mal-entendido.
-Escute
o que você vai
fazer. Primeiro: limpar a camisa. Segundo: esperar a Ginevra terminar
de se vestir e ir pedir desculpas. Entendeu?
-Sim,
senhora! – respondeu, fazendo uma continência e arrancando um
sorriso dela.
-Debochado...
– ela virou pra sair, mas parou ao ouvi-lo chamar.
-Pans,
aquela era mesmo a Weasley? Quero dizer... – ele fez um gesto com
as mãos, representando as curvas de um corpo de mulher.
-Você
é ridículo! - responde a morena, saindo da sala.
-Ela
era magrinha em Hogwarts... Bom, melhorou muito. – disse pra si
mesmo, rindo (N/a: Cafajeste!) e saindo da sala.
-Gina,
eu posso te chamar assim? – perguntou Pansy.
-Claro.
-Desculpe
pelo que aconteceu.
-A
culpa não foi sua.
-Mas
aconteceu no meu escritório, me sinto responsável. Simplesmente,
não sei o que aconteceu com o Draco.
-Draco?
Era o Malfoy?? – a outra confirmou com a cabeça – Tinha que ser!
Cabelo louro, expressão arrogante... Não mudou nada!
-Eu
penso o contrário de você. Acho que mudou bastante. – disse o
louro, aproximando-se das duas – Como vai, Gina?
-Estava
bem até alguns minutos atrás.
-Quanto
a isso, me desculpe. Eu procurava o banheiro e errei de porta.
-Podia
ter saído quando percebeu seu engano, não?
-Sim,
só que aconteceu tudo muito rápido. Eu entrei, você começou a
gritar, Pansy entrou e começou a gritar... Eu não tive intenção
de espiar. – "Mas só um idiota teria deixado uma oportunidade
como aquela passar". Estendeu a mão – Estou perdoado?
-Pra
sua sorte, Malfoy, não sou rancorosa. – respondeu Gina, apertando
a mão dele.
-Então,
amigos?
-Não
abuse. – ela soltou a mão e lhe deu as costas. Reparou que Pansy
não estava mais ali, ela devia ter saído enquanto os dois
conversavam.
-Abusado
eu sempre fui...
-E
insuportável também. – ela o encarou. Nunca tivera medo dele, mas
sentiu um arrepio ao ver o azul daqueles olhos tão de perto. "Se
bem que não é exatamente azul, é meio cinza, dependendo do ângulo
que a luz bate... Gina, você tá louca? No que você tá
pensando??"
-Isso
não é verdade. Pansy sempre foi minha amiga. – ele deu um passo
na direção dela. A cor daqueles cabelos estava exercendo um
fascínio inexplicável sobre ele. A vontade de enterrar as mãos ali
voltou com força total.
-Fico
me perguntando como ela consegue.
-Olha,
não quero ser seu inimigo. – "Como se eu já não fosse..."
-É
meio tarde pra isso, não acha? – Gina sorriu, incapaz de se
conter. Sabia que isso o encorajaria a continuar dizendo bobagens e
ficar olhando pra ela daquele jeito. A verdade era que estava se
divertindo com aquela discussão.
-Talvez
não. Afinal, você vai trabalhar pra Pans, não seria muito estranho
se acabássemos nos tornando... amigos. – Draco estava com a cabeça
inclinada, seus olhos estavam no tom mais impossível de azul-
acinzentado ou cinza-azulado, ela não saberia dizer.
-O
que você quer?
-Nesse
momento? – ela confirmou com a cabeça – Algo que eu nunca pensei
que ia querer... – "Beijar você, Weasley."
Gina
ergueu o rosto, quase involuntariamente. Não acreditava que queria
beijar Draco Malfoy. Quase podia ver a mini-Gina de sua consciência
dizendo que Draco era um imbecil elitista e preconceituoso e que ela
estava cometendo um erro. Bom, mas erros existem para serem
cometidos...
Ele
uniu seus lábios aos dela com delicadeza. Gina nunca teria pensado
que Draco Malfoy podia ser tão gentil. Nem que beijava tão bem.
Sentiu os dedos dele enterrarem-se em seus cabelos e se entrelaçarem
nos fios. Abraçou-o pelo pescoço não querendo quebrar aquele
contato.
Esquecera-se
de onde estava, de seu "estado civil" e do que pensava da família
dela. Finalmente podia dar vazão à vontade que tinha de sentir a
textura daquela pele. Aprofundou o beijo, puxando-a pela cintura,
mas, de repente, ela o empurrou.
-Não!
Isso não pode acontecer.
-Porque
não?
-Você
é noivo! Se não respeita a Pansy, eu respeito. Não vou tomar parte
na sua traição.
-Olha,
meu noivado é meio complicado...
-Não
quero saber. Não quero ouvir nada. – ela se afastou dele, entrando
novamente na Sala de provas. Pansy surgiu logo depois, empurrando uma
arara de roupas.
-Onde
está a Gina?
-Provador.
-Você
está bem? Tá com uma cara estranha...
-Tô
ótimo. Posso passar na sua casa mais tarde, pra você me ajudar com
a Firebolt?
-Claro.
Ele
a beijou carinhosamente na testa e saiu. Gina, que o estava olhando
pela fresta da porta, estranhou este comportamento. "Que tipo de
noivo dá um beijo desses? E que tipo de noiva aceita?". Ele
dissera que o seu relacionamento com Pansy era complicado, mas pra
ela parecia tudo muito simples. Era só vê-los juntos pra perceber
que não eram apaixonados. A amizade deles já durava muitos anos,
mas apenas amizade não sustentava um casamento.
