Capítulo 4: Uma lição de casa diferente

Mas Sakura não chegou a dizer nem meia palavra. Porque Kiba Inuzuka levantou-se subitamente e gritou:

- Não pode me obrigar!

E desmaiou.

No mesmo instante vários alunos correram para o colega desmaiado, e desta vez eu também fui. A estranheza da situação era muito grande. O que Kiba quis dizer com "Não pode me obrigar?" E ainda tinha o assalto à joalheria dos pais dele e os sussurros de Sakura pedindo para Kiba não beber alguma coisa. Ela de fato sabia de algo que ninguém mais dos presentes sabia. A vi passar rapidamente por mim e se agachar ao lado de Kiba, junto com Tsunade.

Sakura testou o pulso dele e parecia mais preocupada do que qualquer um que estivesse ali. Não havia muito o que fazer por Kiba. O ideal era levá-lo a enfermaria, e foi o que Tsunade pediu para Naruto, Gaara, Shikamaru e Lee fazerem. A diretora parecia muito abalada, e sua situação não melhorou quando Sakura lhe informou do assalto à joalheria Inuzuka. Enquanto ela levava a diretora até nossa mesa para ler a matéria no note book de Sakura, lembrei-me de que devido ao susto eu mesmo ainda não havia lido.

Vi que Neji estava ali perto, com seu note book aberto, e ao me aproximar percebi que lia a matéria sobre o assalto. A reportagem era curta, pois o assalto fora bem armado e o ladrão não deixara nenhuma pista, exceto por um pedaço de couro de uma luva, fruto de um possível choque que o bandido tomara. O sistema de segurança da loja fora desarmado facilmente, o que dava a entender que o assaltante conhecia bem o lugar que estava roubando. O ladrão não levara muitas jóias.

- Muito estranho, não acha? – Neji perguntou quando acabamos de ler, provavelmente esquecendo que não estava falando comigo. Eu achei melhor não questionar este fato.

- É sim – concordei – O que acha que Kiba quis dizer com "Não pode me obrigar?" – sondei

- Não faço idéia – disse o Hyuuga balançando a cabeça – Isso é realmente estranho... A joalheria dos Inuzuka é assaltada em plena madrugada de quarta-feira e justo Kiba Inuzuka desmaia na aula do mesmo dia do assalto! Será que ele já sabia do assalto e ficou assustado?

- Não sei, Neji – respondi, e vi que Sakura e Tsunade conversavam. Então uma idéia me ocorreu – Am... Neji, acho melhor voltar para meu lugar. Quero perguntar algo à Tsunade – e sem esperar resposta concreta do meu amigo, voltei para minha carteira a tempo de ouvir Sakura pedir para visitar Kiba.

Tsunade concordara com ela, e a diretora estava prestes a passar por mim como se não me visse quando eu a abordei.

- Diretora – chamei, e ela me encarou. Seus olhos caramelo estavam muito perturbados

- Sim, senhor Uchiha?

- Posso... Eu gostaria de visitar Kiba também – pedi enquanto cruzava os dedos dentro do bolso da calça. Sakura me olhou, desconfiada, mas eu a ignorei. Então, Tsunade falou:

- Claro... Claro que pode, senhor Uchiha. Só não comente com os outros alunos... – e foi até a frente da sala. Sakura continuava me olhando desconfiado, mas eu não tirava a razão dela. Talvez, visitando Kiba também, eu pudesse descobrir tudo ou alguma parte do que Sakura sabia. Além disso, eu me preocupava com ela. Seja lá em que confusão estivesse metida, eu descobriria o suficiente para... Bem, para protegê-la...

Tsunade cancelou o restante das aulas daquele dia. Sakura juntou seu material e saiu da sala apressada, e eu a segui. Não sei por que, mas eu queria visitar Kiba primeiro. A vi subindo as escadarias, provavelmente para seu quarto, e tomei o rumo da enfermaria. Encontrei Naruto, Shikamaru, Gaara e Lee na recepção, pedindo informações sobre Kiba. Eu me juntei a eles no momento em que uma enfermeira baixinha e mal encarada explicava, de má vontade, que Kiba já havia sido sedado, apenas para descansar, e seria submetido a uma série de exames dentro de alguns instantes.

Meus amigos e Lee acharam melhor voltar para seus quartos, mas eu tinha uma visita a fazer. Lancei a Naruto um olhar de "precisamos conversar", pois ainda não havia contado a ele que eu finalmente descobrira que Sakura era a Sweet Girl. Acho que ele entendeu, pois acenou com a cabeça antes de sair da recepção da enfermaria.

- O que você quer? – uma voz anasalada me perguntou, e vi que era da enfermeira baixinha atrás do balcão.

- Eu gostaria de visitar Kiba Inuzuka – respondi – Ele acabou de dar entrada aqui e...

- Sei quem é ele, garoto – a enfermeira me interrompeu – Acha que esse alvoroço todo passou despercebido?

- Desculpe – falei, pacientemente – Mas então, posso visitá-lo? A diretora Tsunade me deu permissão. Pode perguntar a ela, se quiser.

- Certo, pode ir – ela falou. Foi até fácil, depois de mencionar o nome de Tsunade é claro – É o quarto 18. E pode ter certeza que vou perguntar à sua diretora...

- Obrigado – respondi, e acabei sendo meio irônico. Mas dane-se. Ela poderia até perguntar à Tsunade, e o máximo que a diretora poderia fazer era confirmar a permissão que me dera. Além disso, essa enfermeira deveria ser nova aqui no colégio, já que não tomara o cuidado de pedir meu nome.

Achei o quarto 18 e bati na porta, caso algum médico estivesse lá dentro. Como não obtive resposta, entrei no aposento e vi Kiba deitado na cama hospitalar de colchão duro. Odeio hospitais, talvez porque passei muitos momentos da minha infância nele por causa de minha mãe. Kiba usava o famoso camisão verde, igual aos de todos os hospitais, exceto pelo fato deste ter o símbolo do Konoha bordado do lado esquerdo. Ele estava dormindo, obviamente, devido ao sedativo.

Fiquei de pé mesmo, observando-o. Parecia normal. Kiba poderia ter tido simplesmente um ataque nervoso ou uma queda de pressão por causa do assalto à loja dos pais se não tivesse gritado "Não pode me obrigar". Obrigá-lo a fazer o quê? Era isso que não se encaixava, e eu tinha certeza que Sakura poderia saber a resposta. Então, algo chamou minha atenção. Algo que jamais poderia passar despercebido por mim, que buscava uma explicação para aquilo tudo.

Havia um corte numa das mãos de Kiba. A idéia me deixou perplexo. Aproximei-me mais. Era a mesma mão da luva rasgada do ladrão. Analisando melhor, como se não pudesse acreditar na idéia que se formara em minha cabeça, vi que não era um corte. Era uma queimadura. Uma queimadura causada por um choque. Não havia como constatar essa última informação, mas era coincidência demais. E já aprendi que quando coincidências demais acontecem, elas não são apenas coincidências no fim das contas.

Mas Kiba não poderia ter feito isso. Roubar os próprios pais? Não tinha sentido... Mas o ladrão conhecia bem o sistema de segurança e não teve problemas para desarmá-lo. Mas Kiba não faria isso. A não ser... Que tivesse sido obrigado. Então, tudo começou a fazer sentido. As lembranças começaram a vir repentinamente, as peças foram se encaixando como num passe de mágica.

"Kiba, não bebe isso". "JOALHERIA INUZUKA ASSALTADA ESSA NOITE". "Não pode me obrigar". Era isso! Sakura vira Kiba beber algo suspeito que fez ele assaltar a joalheria dos pais obrigado por alguém! Mas quem? Droga, qual fora a outra coisa que Sakura murmurara? Foi... "Karin, sua vaca." Ok, agora não fazia mais o menor sentido. Karin não podia ser a mentora disso tudo; ela não é inteligente o suficiente. Porque o mandante de tudo tinha que ser inteligente para forçar um aluno a roubar os próprios pais e sair ileso. Bom, quase ileso...

Olhei para Kiba novamente. Era difícil de acreditar nas maluquices que eu acabara de pensar, mas era a única coisa que fazia sentido. Kiba assaltara a loja dos pais, obrigado a fazer isso por alguém que não sei quem. Sakura saberia? Mas a questão era que alguma coisa havia dado errado, pois Kiba estava internado agora.

Respirei fundo. Era informação demais, pensamentos demais para um dia só. Era... Problemático, como Shikamaru diria. Muito problemático. Achei que era hora de sair. A idéia de que um aluno do Konoha roubara os próprios pais ainda era surreal para mim. Fazia sentido, e ao mesmo tempo não fazia. E eu ainda não via onde Karin poderia se encaixar nisso tudo.

Abri a porta do quarto 18 para ir embora, tentando não pensar muito das hipóteses que eu elaborara, mas sem muito sucesso. E como se o destino estivesse querendo brincar comigo, me forçar a entrar de cabeça nessa loucura toda, Sakura Haruno estava parada na minha frente, me encarando. Legal.

Ela ia passar por mim como se não me conhecesse, mas eu a impedi. Segurei-a pelo braço, de forma que não a machucasse. Acho que era o primeiro contato físico que tínhamos. Quando encontrei seus olhos incrivelmente verdes, outra série de pensamentos tomou conta de mim. Tive vontade de dizer a Sakura que sabia quem era ela, e que eu era o cara que ela procurava. Mas não pude. Não consegui. Quis perguntar o que ela sabia dessa história do Kiba, mas não tive coragem. Quis perguntar onde Karin entrava nessa história, mas não encontrei as palavras.

E o mais importante: tive vontade de dizer a ela que estaria sempre ali, para protegê-la. E que tomasse cuidado, não se arriscasse muito nessa situação toda. Porque havia uma situação muito estranha acontecendo, isso era inegável. Mas, como o ser comunicativo que sou, eu disse absolutamente nada. Sakura me olhou com confusão. Ótimo. Agora além de antipático, ela deve pensar que sou demente. Ou tarado. Muito bem, Sasuke.

Acabei soltando-a, já que eu não ia falar. Mas esperava que ela tivesse entendido meu olhar preocupado. Depois que Sakura fechou a porta do quarto de Kiba, segui o caminho para fora da enfermaria. Agora provavelmente ela concluiria as mesmas coisas que acabei de concluir.

Comecei a andar sem rumo pelo colégio, repetindo mil vezes em pensamento tudo que deduzi na enfermaria. Eu tinha que conversar com Naruto, mas não agora. Havia algo me impedindo de subir, de deixar o primeiro andar. Ou melhor: havia alguém. Por que eu estava tão preocupado com Sakura, afinal? Óbvio, senhor confuso: porque ela é a Sweet Girl. E porque... Bom, porque gosto dela.

- Senhor Uchiha? – alguém me chamou de repente, e quando virei-me, vi que era a diretora. Ela não aguardou uma resposta minha; foi direto ao assunto – Pode me fazer um favor?

- Claro – respondi

- Sabe onde Sakura Haruno está? – ela perguntou

- Sei.

- Pode dizer que a mãe dela ligou e está aguardando na linha, na minha sala?

- Claro – falei de novo

- Certo, obrigada – disse Tsunade – Normalmente eu mesma faria isso, mas tenho muitos assuntos para resolver devido ao... Incidente com o senhor Inuzuka. Kakashi não pára de me infernizar com isso, e, bom... Vá dar o meu recado a Sakura, senhor Uchiha.

E ela saiu sem dizer mais nada. Como ela pode chamar o que aconteceu com Kiba de "incidente"? Tsunade não era burra, e com certeza havia captado algo errado. E pelo visto Kakashi também. A diferença era a determinação de cada um deles. Suspirei e dei meia volta, tomando o caminho até a enfermaria de novo.

Já havia elaborado uma desculpa para dar a enfermeira baixinha, mas ela não estava na recepção. Será que ela saíra agora ou já não estava ali quando fui embora? Bom, isso não importava. Tomei o corredor dos quartos e fui até o número 18. Mas estaquei. E não é qualquer coisa que me faz estacar.

Mas Sakura estava ouvindo atrás da porta do quarto de Kiba. Ela parecia chocada; estava lívida e seus olhos verdes pareciam fora de foco. O que ela teria escutado? Isso estava me deixando cada vez mais intrigado... Tentei falar casualmente, como se não tivesse visto que ela estava escutando.

- Haruno – chamei-a, tendo o cuidado de tratá-la pelo sobrenome, afinal, não tínhamos intimidade nenhuma. Mas acho que não consegui esconder minha preocupação

- Que é? – ela perguntou, tentando disfarçar seu espanto

- Diretora... Ela está te chamando... Ligação pra você... – falei, tentando parecer indiferente

- E por que ela mandou você? – Sakura indagou. Parecia incomodada com minha presença. Não é pra menos; dez minutos atrás eu segurara o braço dela como um retardado e agora estava dando recadinhos da diretora...

- Ia passando por acaso... Você devia agradecer por eu ter feito esse favor... – falei, de forma idiota. Mas ela não agradeceu, como eu já esperava. Deu as costas e saiu pisando duro, me parecendo decidida a fazer alguma coisa.

Vendo que não havia mais o que fazer ali, dei meia volta pela segunda vez e me dirigi para fora da enfermaria. Na recepção, vi que a enfermeira voltara. E ela conversava com um cara de cabelos loiros e espetados.

- Qual é, tia? – disse Naruto – Tem certeza que não viu ele? Ele é da minha altura, tem cabelos pretos, cara de mandão... Não viu mesmo?

- Já disse que não, garoto! – a enfermeira respondeu, grosseira. Então Naruto me viu.

- Sasuke! – gritou ele – Seu idiota! Enfim te achei! Onde você estava?

- Dá pra você falar baixo, menino? – a enfermeira pediu e Naruto lançou a ela um olhar de desculpas. Nós dois saímos da enfermaria e fomos para o saguão de entrada do colégio. Naruto parecia ansioso para me contar algo.

- Fiquei esse tempo todo te procurando! – ele reclamou

- Quer dizer que eu tenho cara de mandão? – perguntei, erguendo uma sobrancelha, ignorando o comentário anterior de Naruto. Ele sorriu, sem graça.

- Eu tava brincando, cara... – disse ele – Mas de qualquer modo, por que você não foi pro quarto?

- Fui visitar Kiba – respondi rapidamente – E depois a diretora me pediu para dar um recado à Sakura.

- Ah! – Naruto exclamou – É mesmo! Sakura! E então, você descobriu?

- Sim... Ela é a garota do bate-papo – respondi, encarando o chão. Acabei sorrindo, e Naruto riu da minha cara.

- Isso é ótimo, Sasuke! – disse ele – Rá! Não falei que meu plano ia dar certo?!

- Sim, mas tem um problema – confessei

- Qual?

- Não consigo parar... Não consigo deixar de ser idiota – e olhei para Naruto – Não sei como me aproximar dela sem magoá-la.

- Por causa daquela história do seu pai? – ele perguntou, entendendo rapidamente meu problema

- Isso – concordei

- Cara – Naruto falou – Você devia contar a verdade a ela, mas esperar um pouco antes disso. Sei lá... Faça ela se acostumar com sua presença. Vai sendo legal aos poucos...

- É o que estou tentando fazer, mas não sei se vai dar certo. Eu quero que Sakura descubra que sou o cara do bate-papo, mas acho que ela pode se decepcionar.

- Você precisa confiar nela – Naruto sentenciou – Sakura é uma garota muito legal, cara. Já te disse que ela vai entender. Mas antes de dar as pistas certas pra ela descobrir que você é o cara do MSN, faça ela gostar de você. Assim, quando ela sacar, não vai se decepcionar...

- Valeu, cara... – agradeci. Naruto era surpreendente – Naruto, como você pode saber dessas coisas? – acabei perguntando. Ele sorriu, modesto.

- Sei lá... Eu tenho meus momentos – ele respondeu, sorrindo de novo. Mas ficou repentinamente sério – Mas agora temos assuntos mais importantes a tratar.

- Era por isso que você estava me procurando? – perguntei

- Era. Precisamos subir – Naruto respondeu com uma certa urgência

- Pra onde? Pra quê?

- Sem perguntas – disse ele – Lá eu te explico.

- Onde é "lá", Naruto? – perguntei, impaciente. Que diabos era isso agora?

- Anda logo, Sasuke! – ele insistiu e acabei acompanhando-o escada acima.

Naruto ia rapidamente, comigo em seu encalço. Fiz menção de virar à direita quando chegamos no andar dos dormitórios, mas Naruto continuou subindo, me deixando mais confuso e cheio de perguntas. Para onde estávamos indo? Bom, essa pergunta não demorou a ser respondida, pois quando alcançamos o sexto e último andar do Konoha, percebi que havíamos chegado "lá".

O sexto andar era onde os professores do Konoha "moravam". Na verdade, era como um andar-hotel. Havia quartos para cada professor, caso alguém precisasse ficar na escola. Vi placas com nomes nas muitas portas que se estendiam pelo grande corredor. Nos meus 4 anos de Konoha nunca havia subido até ali.

Naruto avançou decidido até uma porta no fim do corredor e eu o segui. Na placa estava escrito um nome. Kakashi Hatake. Legal, agora a coisa estava ficando fora de controle. O que estávamos fazendo no quarto de Kakashi? A estranheza da situação não se dissipou quando Naruto bateu à porta e uma janelinha se abriu um pouco abaixo da placa com o nome do professor de filosofia.

Um par de olhos negros e gentis nos encarou. Uma voz calma ordenou: "Identifique-se". Naruto respondeu:

- Naruto Uzumaki trazendo Sasuke Uchiha – que bobeira era aquela?

- Naruto – chamei, enquanto ouvia movimento do outro lado da porta – O que tem aí dentro?

- Respostas – ele respondeu rapidamente no momento em que a porta se abriu e Kakashi aparecia.

- Entrem rápido – disse o professor, e Naruto e eu obedecemos. Fiquei surpreso. Todos os meus amigos estavam ali, no quarto de Kakashi! Gaara estava sentado atrás de um note book, Neji e Shikamaru me encaravam, meio surpresos. Parecia que estavam conversando antes da minha chegada. Kakashi fechou a porta atrás de nós. Eu estava maluco para entender aquilo tudo...

- Legal – falei, e todos olharam pra mim – Dá pra explicar o que eu estou fazendo aqui?

- Avisei que ele ia reagir assim – disse Naruto, rindo. Kakashi também riu, e depois me olhou. Acho que agora ia ter minha explicação.

- Vou direto ao assunto, Sasuke – disse ele – Você, assim como seus amigos e eu, percebeu o quão estranho foi o desmaio de Kiba – concordei com a cabeça e Kakashi continuou – Pois bem. Acontece que está se tornando uma hipótese cada vez mais clara. Todos vocês perceberam que Kiba tem uma queimadura misteriosa na mão, a mesma mão do ladrão que assaltou a joalheria Inuzuka.

- Sei disso – falei. Então eles concordavam comigo...

- Sabemos que sabe – continuou Kakashi – Acontece que há um detalhe que você, pelo menos, ainda não tem conhecimento. Bem, ontem eu estava indo para meu quarto quando encontrei com Kiba. Estranhei o fato de um aluno estar no andar reservado aos professores, mas lembrei que o novo psicólogo atende em seu próprio quarto. Cumprimentei Kiba, mas ele não me respondeu. Porém isso não foi o mais estranho. O olhar dele estava... Vidrado. Ele parecia muito confuso, não piscava e dizia que tinha a "missão" de falar com o senhor Yakushi, o psicólogo. E vocês sabem como sou desconfiado. Então... Acabei ouvindo atrás da porta.

- Quem diria... – riu Naruto. Aquela história toda estava me deixando muito intrigado. Onde Kakashi queria chegar e como eu poderia ajudar? O professor continuou:

- Não consegui ouvir muito bem a conversa, mas parecia que Yakushi já esperava receber alguém em sua sala. Só pude entender alguns comandos como "sente-se", "qual seu nome", coisas assim, que não faziam o menor sentido. Então ouvi uma porta interna se abrindo e fechando, e tudo silenciou. Quando soube do desmaio de Kiba e do assalto à joalheria dos pais, não pude deixar me preocupar. Estava indo visitá-lo quando encontrei Naruto, Shikamaru e Gaara, junto com aquele garoto, o Rock Lee, e lhes pedi notícias de Kiba.

- Então nós dissemos que Kiba estava dormindo, parecia bem e tinha um pequeno arranhão na mão – disse Shikamaru

- Então Kakashi começou a falar sozinho e achamos que ele tinha endoidado – Naruto disse, rindo – Depois ele nos contou da reportagem do assalto. Nós ainda não havíamos lido, e depois de ler, achamos tudo muito estranho mesmo. Principalmente porque Kiba gritou "não pode me obrigar" antes de desmaiar. E ainda tinha o arranhão.

- Assim que Rock Lee se afastou, Kakashi nos contou o que tinha ouvido por trás da porta do psicólogo. Fomos buscar Neji e você, mas lembramos que você tinha ficado na enfermaria. Então, viemos até aqui, Kakashi nos contou algumas coisas e depois pediu para Naruto encontrar você – Gaara falou

- E porque você confiou essa informação a nós, meros alunos, ao invés de falar com Tsunade ou os outros professores? – perguntei

- Infelizmente, já falei com Tsunade, mas não cheguei a falar tudo – disse Kakashi, com um sorriso triste – Ela ignora estes fatos e teme que a reputação da escola seja prejudicada. E os professores vão ficar do lado dela. Imaginem o escândalo se os jornais anunciassem que há uma suspeita de conspiração no melhor colégio interno do país.

- Mas foi só um assalto – falei – Quero dizer, foi com Kiba. Ela deveria se preocupar, e os jornais não precisam saber.

- Tsunade se preocupa, Sasuke – Kakashi explicou – Mas teme que a escola seja prejudicada. Não seria muito mais fácil abafar o caso do que investigá-lo? E tem mais uma coisa. Não foi apenas um assalto.

- Não? – perguntei, surpreso

- Não – Kakashi continuou – Na mesma noite houve mais dois assaltos, fora o da loja dos pais de Kiba.

- E por que isso não saiu na internet? – tornei a perguntar

- Porque a diretora bloqueou os sites de notícias dos seus note books – Kakashi respondeu

- Ela pode fazer isso? – Naruto perguntou, boquiaberto

- Pode – disse Kakashi – A escola monitora os note books, mas sem invadir a privacidade dos alunos. E é como disse: Tsunade acha muito mais fácil abafar o caso do que investigá-lo. Eu soube dos assaltos pelo meu próprio note book.

- E esses assaltos – falei – eles tem o mesmo padrão que o de Kiba?

- Digamos que sim – disse Kakashi, seu tom de voz indicando que já repetira essa fala para meus amigos – os assaltantes também conheciam os sistemas de segurança das lojas roubadas e saíram sem deixar pistas. A única diferença é que o deles deu totalmente certo. Mais uma coisa: as lojas assaltadas são de parentes de alunos do Konoha.

- Deixe-me ver se entendi – eu disse, raciocinando rápido. Meus amigos e Kakashi olharam pra mim – vocês acham que alguém, provavelmente o novo psicólogo, está obrigando os alunos do Konoha a assaltarem suas próprias famílias?

- É o que parece – disse Shikamaru – E se você pensar mais um pouquinho, as peças praticamente se encaixam, por causa de Kiba. O assalto dele deu errado, porque ele se lembrava de algo que viu antes de desmaiar. E se machucou também, no mesmo local que o ladrão. É cada vez mais certo, como Kakashi disse, que Kiba realmente roubou os pais, inconsciente disso. Mas o que não se encaixa é: quem está forçando os alunos? Ou melhor, o quê está forçando os alunos a fazer isso. Porque tem que ter alguma coisa.

- Acho que sei o que pode ser – falei, e todos me encararam de novo – Eu ouvi Sakura Haruno murmurar isso, hoje, antes de Kiba desmaiar. Na hora, achei que ela estava sonhando, mas depois do desmaio, da reportagem sobre o assalto e de tudo que vocês me disseram, acho que o que ouvi Sakura dizer tem total sentido.

- E o que ela disse? – Naruto perguntou

- "Kiba, não bebe isso" – falei – E "Karin, sua vaca". A segunda frase não tem muito sentido, mas a primeira...

- Então uma bebida pode ter feito Kiba entrar em transe e assaltar a loja dos pais? – Naruto tornou a perguntar

- Ou algo na bebida – disse Shikamaru – Algo como uma droga.

- Drogas no Konoha? – perguntou Neji, horrorizado

- Mas teria que ser uma droga muito bem elaborada, para causar um efeito hipnótico. Não é uma droga comum – observou Gaara

- Sasuke – Kakashi falou, olhando para mim – Você tem certeza que ouviu isso mesmo?

- Sim – respondi, lutando para não revirar os olhos – Ouvi perfeitamente, professor. Sakura senta do meu lado, lembra? Você a colocou lá. E se isso ajuda, ontem eu a vi de relance conversando com Kiba, depois do almoço. Ela realmente falou com ele, e sabe de coisas que não sabemos.

- Certo... – disse Kakashi, sua expressão muito pensativa – Isso muda um pouco as coisas. Sakura pode ajudar... Mas acho melhor discutirmos isso numa outra oportunidade. Agora tenho algo sério a lhes dizer – e meus amigos e eu olhamos para ele – Agradeço muito a ajuda que vocês me deram e por terem aceitado participar dessa reunião. Os jovens são seres que possuem a mente aberta para qualquer informação e estão sempre procurando um meio de quebrar regras. E isso que está acontecendo é uma ótima oportunidade. Obrigado por terem acreditado em mim, por não terem hesitado. Vocês foram de muita ajuda, são inteligentes e corajosos, mas meu sexto sentido me informa que um grande perigo ainda está por vir, e não quero arriscar mais alunos do Konoha. Então, se quiserem desistir...

- Pode parar – Naruto interrompeu Kakashi e olhamos para ele – Sei o que vai dizer. Mas se você acha que vamos ficar de braços cruzados sabendo, ou pelo menos desconfiando do que está acontecendo, que há um oferecedor de drogas solto por aí a mando de um psicólogo, está muito enganado.

- Naruto tem razão – disse Gaara

- Tem mesmo – apoiou Neji – Você nos trouxe até aqui Kakashi, e abriu o jogo com a gente. Não acha que merecemos continuar participando dele?

- Acho, claro que acho – Kakashi respondeu – mas a situação pode ficar perigosa. Algo me diz que Yakushi ou seja quem for que está organizando isso, não vai parar por aí.

- Sabemos disso – Naruto falou – Mas não vamos deixar você sozinho nessa, professor. Estamos dispostos a nos arriscar.

- Vamos ajudar você – falei, sentindo uma animação nova crescer dentro de mim. Uma sensação de que podia vencer o perigo que estava por vir. E o que eu mais queria era proteger Sakura, já que ela também sabia do que estava acontecendo, talvez menos ou mais que nós, mas sabia...

- Certo, obrigado garotos – disse Kakashi, ainda sério – Mas quando julgar a situação perigosa demais, vou afastar vocês, independente dos protestos.

- Que seja – disse Naruto – Mas agora nos diga o que fazer, porque você com certeza tem uma tarefa para nós, não?

- Tenho sim – Kakashi respondeu, agora sorrindo – É uma lição de casa diferente, mas acho que vocês vão gostar. Mas precisam ser muito cuidadosos. Pois bem, vamos começar. Gaara e Naruto, preciso que vocês instalem uma micro câmera portátil no quarto de Kiba. Ela é de fácil instalação, eu a comprei há algum tempo mais não a uso muito. Agora ela vai ser de muita ajuda. Quem sabe não flagramos o culpado dessa situação? Aí teremos provas.

- Certo – disse Naruto – Vamos fazer, mas quando?

- Amanhã. Marquem um horário para visitar Kiba e instalem a câmera. Agora vejamos – Kakashi continuou – Neji e Shikamaru, vocês vão pesquisar tudo o que puderem sobre Yakushi. Podem usar meu note book pessoal, e Gaara e eu vamos ajudá-los. E Sasuke, preciso que você converse com Sakura.

- Pra quê? – Acabei perguntando. Não que eu não tivesse gostado da idéia, mas duvidava que Sakura fosse ter uma conversa civilizada comigo

- Para descobrir o que ela sabe que não sabemos – Kakashi explicou – Se você não conseguir, pode trazê-la aqui e contaremos a ela o que sabemos. Quanto mais aliados, melhor. Exceto pelo fato desses aliados serem alunos.

- Podemos dar conta – respondi. Pelo menos eu poderia observar Sakura com mais freqüência e protegê-la do perigo, mesmo que ele ainda não tenha se revelado totalmente.

- Ótimo. Vamos nos reunir todos os dias, mas procurar não demorar muito. Não subam todos juntos e venham sempre no final da tarde. Caso aja alguma mudança, aviso vocês. Nos fins de semana poderemos nos reunir mais cedo. Amanhã, então, teremos outra reunião para pesquisarmos as informações. Naruto e Gaara, sugiro o horário do almoço para visitarem Kiba. É menos movimentado – Kakashi finalizou

- Deixa com a gente professor! – Naruto respondeu animadamente

Kakashi pediu que não saíssemos todos juntos, por questões de segurança, então fui primeiro com Naruto. Depois de um último pedido de cuidado e um "até amanhã", o professor pediu que fôssemos. Naruto falou o tempo todo até o quarto andar; ele estava realmente empolgado com essa situação toda. É verdade que eu também me animara, mas não podia deixar de pensar no perigo. Disse a Naruto que ia dar uma volta pelos jardins, para pensar. Ele me alertou do toque de recolher e foi para nosso dormitório.

Eu queria mesmo andar e pensar um pouco. Era informação demais, hipóteses demais. Eu precisava de algo concreto nisso tudo. Na verdade, todos precisávamos. Achei muito legal o voto de confiança de Kakashi. A atitude dele foi corajosa, e o que mais me motivou a participar disso tudo foi que o professor também não consegue ficar calado diante das injustiças. Ele recorrera à diretora, mas ela não o deu ouvidos. Então Kakashi procurou quem realmente pudesse acreditar nele. E achou: um bando de garotos de 17 anos, mas disposto a agir e ajudar.

Essa fora só a primeira reunião, mas eu já ansiava por mais. Queria achar informações certas, verdadeiras, que pudessem me convencer que tudo isso não era um sonho. Queria que amanhã chegasse logo. Ah, e ainda tinha a tarefa que Kakashi me dera. Falar com Sakura, talvez porque eu mesmo deixei a entender que poderia fazer isso, já que ela senta do meu lado. Mas acho que Kakashi não sabe que não nos damos muito bem, pelo menos pessoalmente. Então, quando e como eu poderia falar com Sakura? Na hora da aula, puxando o assunto do nada? Não seria muito arriscado? E será que Shadow poderia fazer isso?

Todas as minhas possibilidades recém elaboradas, de repente, sumiram. Porque vi minha grande oportunidade bem naquele momento, virando o corredor do saguão deserto por onde eu entrava. Sem dúvidas era Sakura, mas... Ela estava chorando? Parecia muito perturbada, e sua expressão não melhorou quando me viu. Fiquei um pouco confuso, então lembrei que ela me odiava. Mas quando olhei em volta, Sakura não estava mais ali. Havia disparado porta afora e atravessava o gramado da escola correndo. Será que a conversa com a mãe não fora boa?

Acabei seguindo-a, por preocupação e porque tinha que cumprir minha tarefa. Já havia elaborado algo em minha mente e talvez pudesse dar certo. A vi sentada num dos banquinhos próximos ao chafariz no jardim de entrada. Seu peito descia e subia violentamente, e o rosto dela estava muito vermelho. Decididamente Sakura estava chorando. Sentei-me cautelosamente a seu lado, deixando-a sobressaltada.

Ela me encarou meio surpresa e um tanto raivosa, seus olhos verdes muito manchados de vermelho. Senti algo estranho em meu próprio peito. Não gostei de ver Sakura naquele estado. Queria abraçá-la, reconfortá-la e mais uma vez tentar dizer a verdade. Mas é claro que não fiz nada disso. Fui idiota, como sempre, e talvez tenha exagerado.

- E então, senhorita "sou mais eu"? - falei. É, exagerei mesmo – Por que está chorando? Alguém falou mal do seu jogo de novo?

- Cala a boca, seu peste... – Sakura respondeu com muita raiva.

- Ei, ei, ei! Calma! Não vim aqui pra brigar – apressei-me em dizer. Isso era verdade; eu não tinha mesmo a intenção de brigar.

- Veio pra quê então? Minha mãe tá me perturbando com outro telefonema? – ela perguntou enquanto mais lágrimas se formavam em seus olhos. Meu cérebro me disse para fazer alguma coisa, mas meus membros não me obedeceram

- Pelo visto a conversa não foi agradável... – observei. Óbvio, Sasuke, que a conversa não foi agradável.

- Se foi ou não, não é da sua conta! O que você quer? – ela parecia louca para ficar sozinha

- Ok... Eu vi você escutando à porta do quarto do Kiba hoje... – falei, abrindo o jogo - Por quê? Você sabe o que aconteceu com ele? – e a encarei mais intensamente do que devia. Acho que ali estava agindo como Shadow agiria, como o cara que conhece Sakura. Ela me olhou como se estivesse especulando, pensando se deveria ou não confiar em mim. E pela resposta dela, vi que não.

- Não é da sua conta... – ela respondeu, mas não gritara. Era como se tivesse ficado em dúvida, o que me deixou um pouco mais animado.

- Ok... – decidi não insistir, colocando meu plano em prática – mas se você tiver alguma coisa pra falar com alguém, fale com o Shikamaru, ele adora problemas de análise. É a pessoa mais confiável dessa escola – dei uma última olhada em Sakura e me afastei.

Agora seria problema só de Shikamaru. Sakura contaria a ele tudo o que sabia e poderíamos melhorar nossas hipóteses, ter mais certezas. Eu fizera a minha parte. Tentei fazer Sakura me contar, mas ela não quis. Era certo que eu poderia ter insistido mais, mas ficaria muito suspeito e eu teria que levar Sakura até o quarto de Kakashi. Mas não queria envolvê-la nisso de jeito nenhum. Talvez com Shikamaru, um cara inteligente e que não age feito idiota com as garotas, Sakura fosse sincera.

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Já era sábado e Sakura ainda não havia procurado Shikamaru. E o que era pior, Shadow também não pôde fazer nada, porque Sweet Girl acessara pouquíssimas vezes o bate-papo. E nessas pouquíssimas vezes de conversa online, o assunto era sempre o mesmo: a minha identidade. Ou melhor, a identidade de Shadow. Procurei desconversar o máximo possível, e quando não tinha outro modo de escapar, eu me despedia e ficava offline, reduzindo a zero as chances de arrancar alguma informação como Shadow.

Mas havíamos progredido em nossas reuniões diárias. Primeiro, Gaara e Naruto instalaram no quarto de Kiba a tal micro câmera de Kakashi, e através dela acabamos descobrindo que duas pessoas visitam Kiba constantemente: Sakura e a enfermeira baixinha mal encarada. As visitas de Sakura eram inofensivas. Ela ficava apenas olhando Kiba, esperando ele acordar. Isso deixou claro que Sakura sabia de algo que ignorávamos, e essa certeza deixou a todos mais animados.

Mas algo realmente nos preocupou. A tal enfermeira ia visitar Kiba alternadamente durante o dia para mantê-lo sedado. Sim, sedá-lo. A vimos colocar algo no soro dele, e Kakashi começou a espioná-la, descobrindo, por fim, o sedativo. O professor disse ainda que Sakura corria riscos, e me colocou na cola dela, já que eu havia cumprido, de certa forma, minha primeira tarefa. Eu alertara Shikamaru de que Sakura poderia procurá-lo e contar-lhe tudo, e ele, assim como todos nós, ainda estava esperando.

Neji, Shikamaru e Gaara descobriram também informações muito suspeitas sobre Yakushi. Ele tinha alguns antecedentes criminais, e vive mudando de cidade, estado e agora país. E o que mais assusta, ou é "sinistro", segundo Naruto: o cara jamais trabalhou como psicólogo. Ele já trabalhou como laboratorista em alguns colégios e na maioria das vezes como químico, mas nunca atuou no ramo da psicologia. E esses fatos nos fizeram ter mais uma certeza: Yakushi tinha que ser culpado.

Como químico, poderia muito bem ter elaborado a tal droga, e soube, de alguma forma, que Tsunade estava procurando um psicólogo novo. Ele deve ter falsificado um currículo e se infiltrado no Konoha sob o nome de Kabuto Yakushi. Sim, até o nome do cara era falso. Ele agora estava testando sua droga em alunos sadios cujos pais possuem algum comércio e ganhando dinheiro sem uma única gota de suor de esforço. Era realmente sinistro.

O que tínhamos de menos concreto era o verdadeiro motivo para os roubos. Não podia ser só dinheiro. Era arriscado demais drogar alunos assim. Tinha que haver mais alguma coisa. Outra coisa também que não havíamos pensado muito era sobre quem estava oferecendo a droga aos alunos, porque os assaltos continuaram. Yakushi não poderia ser, porque seria praticamente suicídio. Shikamaru deduzira – e concordamos com ele – que devia ser algum aluno. Mas quem? Essa era a principal pergunta, e sabíamos, de alguma forma, que Sakura tinha a resposta.

Eu estava, então, no bate-papo, esperando Sweet Girl entrar. Já havia me decidido; arrancaria alguma coisa de Sakura hoje. E assim que ela entrou, não tardei em puxar assunto. Dei "oi", ela respondeu, e iniciamos uma longa conversa sobre os assuntos mais banais, sempre fugindo do que eu realmente queria. Até que Sakura iniciou seu ritual de especular sobre minha identidade. Ela queria saber onde eu ia passar o fim de semana: em casa ou na escola. Rapidamente desconversei e ela não insistiu, para minha surpresa. Ficamos vários minutos sem digitar nada, até que acabei perguntando:

Shadow diz: tem algo te incomodando? – deveria ter, já que ela nem insistira

Sweet Girl diz: eu...

Shadow diz: seja sincera! – pedi. Vi que ela estava digitando algo grande, e me remexi na cadeira. Olhei em volta: Naruto já dormia, Neji, Gaara e Shikamaru estavam conversando pela milésima vez sobre o passado de Yakushi. Quando voltei a olhar para a tela, um texto aguardava minha leitura. Não hesitei em fazê-la:

Sweet Girl diz: ok... sim, tem algo muito sério me incomodando, e sinto que posso falar com vc... Acontece que na terça-feira vi Karin, aquela bruaca da nossa sala, vc deve saber quem é, ela eh mt chata... vi ela conversando com Kiba, o garoto que desmaiou, vc com certeza sabe disso... bom, mas a questão eh q, eu juro! Vi ela colocar algo no suco do Kiba. Foi bem rápido... ela deixou o celular cair, Kiba se abaixou para pegar e ela colocou alguma coisa no suco dele. Isso foi bem estranho, e tenho certeza que ñ imaginei isso! Eu vi, juro q vi! E o que eh mais estranho, no dia seguinte Kiba desmaia e a loja de seus pais eh assaltada... o ladrão ficou com um arranhão na mão, e qnd fui visitar Kiba ele tinha o mesmo arranhão que o ladrão, mas todos ignoram esse fato, soh eu sei disso, minhas amigas e a diretora não acreditam em mim, estou com medo do q Karin pode fazer, pq sei que ela fez alguma coisa com Kiba. Eu queria perguntar isso pra ele, mas ele ñ acorda, Shadow! Ñ sei o q fazer... Eu precisava desabafar com alguém... Por favor, me responda: acha q sou louca? Acredita no q eu disse?

Shadow diz: eh muita informação... – sim, era mesmo. Então era Karin o oferecedor? Por quê? Pra quê fazer uma coisa tão sádica com os próprios colegas?

- Sasuke – alguém me chamou e acho que foi Shikamaru – Você está bem?

- Eu tô legal... – respondi mecanicamente. Não, eu não estava nada legal porque descobri a peça que faltava no nosso quebra-cabeça. Mas não podia contar aos meus amigos, senão teria que falar de Shadow e Sweet Girl, e jamais eu faria isso. Não... A própria Sakura tinha que tomar juízo e contar a Shikamaru o que acabara de me dizer. Sem saber que sou, é claro...

- Ele está é abobado por viver na frente desse note book – Neji provocou, mas o ignorei completamente. Se ele soubesse do que eu sei...

Sweet Girl diz: por favor, responda minha pergunta. Estou alagando o quarto com minhas lágrimas e preciso saber o q vc pensa...

Shadow diz: eh claro q acredito em vc... Tb vi q essa história do desmaio estava mt mal explicada, mas vc ñ deve ficar assim. Ñ chore... uma garota bonita ñ deve chorar. Ñ fique assim... Acredite: há pessoas q acreditam em vc.

Sweet Girl diz: obrigada Shadow... vc sempre sabe o q dizer... estou me sentindo melhor agora. Mas me responde uma coisa: como vc sabe q sou bonita?

Shadow diz: am... – merda! Que vacilo que eu dei! – eu... deduzi isso... vc deve ser, ñ eh? Mas agora eu preciso ir, q bom q vc estah melhor... fico realmente feliz. Boa noite!

Shadow sai da conversa.

Incrível como consigo estragar tudo por não conseguir me controlar. Mas a questão agora não era essa. Era Karin. Meu Buda, eu não conseguia engolir o que este demônio em forma de garota estava fazendo! Os garotos e Kakashi precisavam saber disso, mas eu não podia contar! Por que diabos Sakura não havia procurado Shikamaru? Se ela tivesse noção da gravidade da situação...

- Ei, abobado, acabou cedo hoje, não? – Neji tornou a me provocar. Fechei o note book e me joguei na cama.

- Cala a boca – consegui falar. Minha voz saiu rouca, fruto do choque que eu acabara de levar por causa das informações recém descobertas.

- Você está legal mesmo? – perguntou Shikamaru – Está meio pálido... E esverdeado... Neji, você jogou anilina verde no xampu do Sasuke pra se vingar?

- Claro que não – Neji respondeu, mas agora também parecia preocupado – Parece que você vai vomitar, Sasuke...

- Vou, se vocês não me deixarem em paz – resmunguei, enfiando o travesseiro em meu rosto.

- Tá certo – disse Shikamaru – avise se precisar de alguma coisa. Boa noite.

- Hum – resmunguei em resposta, e eles me deixaram em paz, como eu havia pedido.

Tudo girava no escuro. Era difícil engolir aquelas revelações. Karin... Minha nossa... E eu disse que ela não era inteligente... Subestimo mesmo as pessoas... Apesar da facilidade com que os fatos de encaixavam agora, eu estava muito confuso. Shikamaru dissera "boa noite". Mas eu tinha certeza que não seria.

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Domingo. É, a noite não foi boa mesmo. Foi terrível, mas não foram pesadelos que me incomodaram. Foi o que Sakura me dissera. Era difícil de engolir, de acreditar, aceitar, de sequer imaginar. Karin... Mas que coisa. Era muito estranho... Agora que já tínhamos muitas informações e estávamos praticamente desvendando o esquema, nos faltavam os motivos para isso. E o que eu mais queria saber era a razão de Karin estar participando disso tudo. Do outro lado. Do lado errado.

É verdade que Karin sempre fora meio doida, fraca das idéias e obcecada por mim. Não posso negar que ela é uma garota bonita, mas está longe de fazer meu tipo, afinal, já encontrei quem procurava. Noventa por cento do que Karin fala não pode ser aproveitado, e os outros dez por cento têm meu nome envolvido. Uma garota assim não pode participar de um esquema que envolve drogas e assaltos... Ou pode? Sakura precisava falar logo com Shikamaru, pois isso ajudaria muito, mas até agora ela ainda não havia feito isso. Droga.

Eu estava, então, indo para mais uma reunião dos Aliados. Naruto foi quem sugeriu o nome. Como Kakashi dissera, nos fins de semana poderíamos nos reunir mais cedo – ainda não dera a hora do almoço e a escola devia estar praticamente vazia. Meus amigos já haviam saído, um por um, e ido até o sexto andar. Fiquei por último para tentar me recuperar da noite de sono não dormida. Achei melhor comer alguma coisa e por isso desci ao primeiro andar, pensando na melhor forma de ficar calado quando chegássemos ao assunto "oferecedor".

E como se eu já não tivesse preocupações suficientes, como se eu já não tivesse a certeza de que o dia não seria nada bom, o governador Uchiha resolveu me fazer uma visitinha. Sim, papai veio me ver... Que feliz. Com certeza ele estava ali para me criticar, já que ele só aparecia no colégio para isso. E fazia questão de não avisar, para me pegar de guarda baixa. Como se eu fosse tentar alguma reação; papai só andava na companhia de sua penca de seguranças engravatados, de óculos escuros e cara de buldogue.

Por sorte, meus amigos sempre acabam sabendo das visitas dele; como se fosse impossível não ver tantos seguranças de preto. E, como são meus amigos, me avisam, e procuro sumir, inventar uma dor de barriga ou ficar dando voltas pelo Konoha, dificultando os encontros com meu pai ou até evitando-os.

- Ora, ora – ele começou a dizer, quando me viu – Não tive problemas para te achar – é, que pena que não teve

- Hum – resmunguei, indiferente – O que está fazendo aqui, enfim?

- Soube que você andou aprontando – o governador disse

- Se está se referindo ao desfile com a bandeira da oposição, foi idéia do Naruto – falei, com voz inocente. Nunca houve um "desfile com a bandeira da oposição". Faço isso apenas para irritar meu pai, como ele me irrita.

- Não banque o palhaço – disse ele, trincando os dentes – Sabe muito bem do que estou falando.

- Não, não faço idéia – retruquei

- Certo, Sasuke... Então permita-me deixá-lo ciente do que aconteceu. Terça-feira a diretora Tsunade me ligou e começou a me pedir desculpas pelo o que havia ocorrido naquele dia, que certamente o professor Orochimaru não quis me ofender, e que você, Sasuke, deveria ter me contado sua versão do ocorrido e que devia estar chateado. Afinal, Orochimaru não devia ter implicado com você só porque chegou atrasado à aula. Então ela se desculpou mais uma vez e desligou. Sabe agora do que estou falando?

- Sei – respondi, indiferente. Merda... Por que Tsunade tinha que ligar?

- E não se deu ao trabalho de me avisar? – perguntou meu pai, sua voz se elevando, os seguranças nos cercando

- Não.

- Muito bem... – e aí ele respirou fundo, a bronca entalada na garganta saindo num jorro de palavras – Você se vê no direito de não me avisar, porque não havia motivos, não é mesmo? Um professor me ofender não é motivo! Você chegar atrasado à aula não é motivo! Por que você chegou atrasado à aula, Sasuke?!

- Estava ajudando uma colega – respondi, fazendo uso da mentira de Sakura

- E mesmo assim você deixa o professor me ofender? Seu moleque! Como você chega atrasado à aula?!

- Eu já disse! Estava ajudando uma colega! – falei revirando os olhos, sem conseguir manter a calma

- Pra quê? – perguntou meu pai – é alguma namorada?

- Não! Claro que não! – apressei-me em dizer

- Antes fosse! Eu mandei você pra cá pra largar o skate e o computador e melhorar a MINHA reputação, e você chega atrasado à aula, permite que um professor me ofenda e não tem namorada! – declarou meu pai como se eu tivesse cometido os maiores pecados do mundo. Agora ele estava extrapolando.

Manter a imagem dele. Era isso que meu pai queria que eu fizesse. Ele queria um filho robô com uma namorada sem cérebro que mantivesse a imagem dele. Sinceramente, não sei dizer o que me fez falar o que falei em seguida. Não sei se foi a irritante presença de meu pai ou o mistério que crescia dentro do Konoha, com pouquíssimas pessoas tendo conhecimento da verdade. Mas acabei falando algo que estava entalado na minha garganta talvez há muitos anos:

- Você mereceu cada coisa que o Orochimaru disse! Você só se preocupa com a sua reputação! Com o seu cargo político!!! Foi por isso que mamãe morreu de desgosto!!! Por sua causa!!!

E eu ainda tinha muito mais a dizer, mas minhas palavras fizeram efeito antes do esperado. Num segundo eu estava gritando; no outro meu pai estava me esbofeteando. Ardeu, doeu, foi injusto. Mas eu não estava nem aí. Meu pai tinha que aprender a ser humano, e eu jamais ia ser como ele. Depois de uma última troca de olhares mortais, ele me deu as costas e saiu, seguido por seus seguranças.

A raiva agora crescia, incontrolável. Precisava gritar, mas a voz não saiu. Então fiz uma coisa estúpida, é claro. Soquei a parede com força. Mas a dor não foi maior que a do tapa. Meu próprio pai... Que coisa. Senti algo quente em minha mão, e acho que era sangue. Mas não importava agora.

Como um imbecil, escorreguei pela parede até atingir o chão. Pus-me a encarar o nada. Sim, o nada. Gaara faz isso às vezes. Até que é divertido. Porque você pensa nas coisas, pensa tanto que nem percebe seu olhar vazio. Não percebe nem que uma pessoa se sentou do seu lado e está falando com você.

- Pelo visto não sou só eu que tenho problema com meus pais... – uma voz feminina disse, e para minha total surpresa, era Sakura Haruno quem estava ali. Que dia, meu Buda. O que mais pode acontecer? Uma aranha radioativa me picar?

- Ah, é você – falei, tentando organizar os pensamentos e parecer indiferente - Então, já falou com o Shikamaru? – perguntei, falando a primeira coisa que me veio à cabeça, e até que fez algum sentido.

- Pretendia fazer isso hoje, depois de visitar Kiba... – Sakura respondeu – Até que presenciei o que acabou de acontecer... – Epa. Ela disse que presenciou o que acabou de acontecer? Ela viu tudo?

- Você viu tudo? – perguntei, assustado e envergonhado com a idéia

- Sim... – ela disse carinhosamente – e trouxe isso pra cuidar da sua mão – vi que Sakura segurava gaze e esparadrapo, e antes que eu protestasse, ela tomou minha mão machucada nas dela e começou a enfaixá-la.

O toque dela era suave, e por várias vezes estremeci. Era o segundo contato que tínhamos, e desta vez até que estava sendo decente, apesar das circunstâncias anteriores.

- Quer falar sobre o que aconteceu? – Sakura perguntou, depois de longos instantes de silêncio, quando ela finalmente finalizou o trabalho em minha mão

- Não... – sinceramente, não. Para o bem dela e para o meu. Sakura ficou pensativa, então disse:

- Sabe por que vim pra cá? – ela perguntou inesperadamente

- Não faço idéia... – respondi, confuso

- Tive que escolher entre me casar com alguém que não amo e vir pra cá... E adivinha: aqui estou! – Sakura disse, e ainda não entendi o motivo pela confissão repentina. Mas, nossa, ela teve que escolher entre se casar e vir pra cá... Que barra. Pelo visto a vida dela também não era fácil. Mais silêncio seguido de outra pergunta – E você, porque veio pra cá?

- Você não ouviu o que o governador disse? – respondi com uma risada amarga

- Sim... Mas a maioria dos políticos mente... Quero ouvir você dizer... – ela insistiu, típico da Sweet Girl. Olhei para ela com curiosidade... Será que ela finalmente entendera que eu era o Shadow e por isso estava sendo legal comigo?

- Bom – respondi, vencido – vim pra cá pra largar o computador e o skate, e porque meu pai achou que assim poderia me fazer esquecer o que ele fez com minha mãe...

- E o que aconteceu, exatamente? – Sakura perguntou, preocupada e interessada

- Ela morreu de câncer de mama... – abri o jogo depois de um longo suspiro. Sim, fora isso mesmo. Câncer - Meu pai tratava ela em casa... Não queria que o governador tivesse uma mulher doente...

- Isso é desumano! – ela disse, visivelmente indignada. Como se eu não soubesse disso... E como não respondi, Sakura continuou – Olha... Quer visitar Kiba comigo? – ela perguntou, a brusca mudança de assunto como tentativa de me distrair. Sem necessidade. Eu não precisava de distração. Precisava que Sakura contasse a verdade aos outros Aliados. Não havia jeito... Ela teria que se tornar uma de nós...

- Não... – respondi, com firmeza, minha decisão já tomada.

- Por quê? – ela perguntou – estou tentando ser legal com você e é assim que você retribui?

- Não é isso... – tratei de explicar; eu estava realmente grato pelo curativo – Não vai adiantar...

- Como assim?

- Você não acha estranho ele estar sempre dormindo quando você vai lá? – perguntei

- É mesmo... Ei! Como sabe que vou lá com freqüência? Tá me seguindo Uchiha? – Sakura me olhou com indignação

- Você já vai descobrir... Vem comigo! – falei e levantei-me rapidamente, puxando Sakura com a mão boa. Hora de fazer a visitinha ao sexto andar. E levar uma convidada.

- Não vou a lugar algum sem saber como você sabe que vou visitar Kiba! – ela era teimosa e eu não podia contar a verdade ali. Olhei em volta e virei-me para ela, sussurrando algumas informações que seriam suficientes para aquietar Sakura:

- Já disse que você já vai saber... Mas a única coisa que posso dizer, é que estão dando sedativos para manter Kiba dormindo.

- Quê? – ela perguntou, totalmente chocada.

Mas as explicações não podiam ser dadas ali, então saí arrastando Sakura escadaria acima, assim como Naruto fizera comigo dias antes, para o quarto de Kakashi. Logo ela estaria na mesma situação que eu estive, mas também logo ela entenderia as mesmas coisas que entendi e falaria a todos o segredo conhecido somente por nós dois. Mesmo que ela não saiba que eu sei.

Oiiiiii!!!

Aqui estou eu, com um cap beeem grandinho viu? Adivinhem o q vou fazer? Me desculpar pela demora, eh claro! HEHEHE... Sério, desculpem mesmo, mas tenho certeza q vcs vão entender, certo?

Gente, vcs num tem noção de como essa primeira semana de aula foi tensa! Estudei soh nessa semana o equivalente a um mês! Sério mesmo! Terceiro ano eh fogo! Mas consegui, com a graça do Senhor e as reviews de vcs, escrever esse cap.

Muito obrigada pelos comentários do cap anterior e espero que gostem desse. Está cheio de cenas extras hein! Então caprichem de verdade nas reviews! Ah, e quarta-feira passada foi meu aniversário, então mandem reviews pra me desejar parabéns tb... HEHEHE, To brincando, mas desejos de felicidade são sempre bem vindos!

No mais, eh isso... Obrigada pelo carinho e pela paciência! (como sempre)

Dêem GO e, por favor, ñ deixem de acompanhar essa fic! O próximo cap vai demorar a sair por causa dos meus estudos, mas peço q sempre q puderem vejam se a fic está atualizada.

PROMETO TENTAR POSTAR O CAP 5 EM DUAS SEMANAS! (é o mínimo que posso conseguir...)

Beijos e mt obrigada!

Debby Uchiha

n.n