Já estávamos no fim do inverno. Os dias continuam frios, mas um sol persistente e a temperatura cada vez mais amena antecipavam os dias de primavera. Enquanto o tempo melhorava lá fora, a tempestade que se iniciou no dia em que meu irmão nasceu/morreu não dava sinais de se dissipar. Desde aquele dia, nunca mais vi minha mãe sorrir, ou melhor: nunca mais vi minha mãe. Passava tanto tempo ocupada com minhas aulas, fossem de fundamentos de magia ou pintura, etiqueta, dança, música ou bordado que quase não nos falávamos. Ela também andava ocupada. Papai subira ainda mais em sua posição no ministério e isso significava muitas festas, coquetéis e jantares para comparecer e oferecer. Acho que no fundo, foi um arranjo que beneficiou a todos: meu pai se tornava cada vez mais popular, minha mãe se distraia enquanto tentava se redimir de seu fracasso como esposa, além de evitar as provas vivas dele e nós, bem, éramos crianças sem supervisão dos pais com uma mansão inteira para brincar.

Naquele ano não houve natal, nem nos anos seguintes. Só presentes e um jantar melhor. Nada de árvore, decorações, biscoitos em forma de anjo ou orações. Aquela era uma casa abandonada por Deus. Como fora privada de sua tradicional ceia de natal, a estranha que eu chamava de mãe resolveu dar festas de aniversário dispendiosas para todas as suas filhas. Convencera o marido que era uma boa maneira de fazer com que as meninas fossem notadas pela sociedade desde pequenas e com isso, realizou seu intento. Não se fazia nada na família Black sem segundas intenções. O aniversário de Narcissa coincidiu com o fim do período de luto. Para a festa foi construído um pequeno palácio de gelo no quintal, enfeitiçado para ser agradável por dentro para que os convidados da "princesa Narcissa" não passasem frio enquanto saboreavam as iguarias que Druella Black preparara para seus convidados. O de Bellatrix fora um baile no chalé de caça da família, com direito a uma "caça ao trouxa" para os filhos das melhores famílias sangues-puros. Eu ainda esperava pelo meu, que seria em algumas semanas. Fazia planos e tentava imaginar o que me esperava. Por intermédio de meu tutor de gramática, eu comecei a ler muitos romances. Fascinei-me pela mitologia grega, de onde fora tirado meu nome. Andromêda. Uma princesa. Talvez convencesse mamãe a me dar uma festa em algum palacete grego ou então uma cerimônia campestre, como aquelas dos tempos do rei Arthur. Sinto saudades do tempo em que me preocupava com isso.

Ainda guardo algumas relíquias desse tempo. A maioria dos meus livros me seguiu pela vida inteira e nunca consegui deixá-los para trás. Virando as páginas do meu velho livro de latim, vejo desenhos sobre o texto. Pintura sempre foi minha lição favorita, talvez por minhas irmãs serem muito ruins nisso. Narcissa era pequena demais para segurar um pincel quando começou e não queria estragar suas mãos com tinta quando já podia segurá-lo. Bellatrix era muito impulsiva. Não nascera para fazer esboço atrás de esboço e depois passar horas na frente de um cavalete para criar algo imaginário. Eu já gostava das cores e de como tudo pode acontecer em um quadro e durante muito tempo tive uma teoria de que a arte é capaz de vencer a morte que esqueci por uma boa parte da minha vida, mas agora quero voltar a acreditar.

Fora pintura e as aulas de nosso tutor de gramática (um velho bruxo de uma família humilde de puro-sangue que ensinava gramática, francês, latim, matemática e caligrafia), eu geralmente era razoável nas outras aulas. Bellatrix era melhor em magia e piano, embora também fosse ótima com cálculos, mas era um horror nas aulas de etiqueta e não tinha paciência para as outras. O poder e o movimento a atraíram desde cedo. Já Narcissa se sobressaia no essencial à educação de uma dama: nunca a vi picar os dedos finos com a agulha nas aulas de bordado, nem tropeçar nas de dança (como eu frequentemente fazia) ou cometer uma gafe nas lições de etiqueta. Era a filha de nossa mãe.

Enquanto isso, eu aproveitava cada segundo que poderia passar do lado de fora. Era como se na paz do jardim minha mãe fosse carinhosa e meu pai se importasse conosco. Eu podia ser bonita como Narcissa ou corajosa como Bellatrix. Podia ser uma princesa e uma rainha pirata ou chutar a bandeja de chá da professora de etiqueta até Claude vir me levar para longe do sonho até que eu pudesse fugir outra vez.

Num desses dias frios, mas de tempo bom, mais ou menos duas semanas antes do meu aniversário, eu estava no jardim. Havia levado um tombo feio na aula de dança e meus joelhos estavam esfolados. Balançava-me lentamente no balanço que ficava perto das camélias quando ouvi a voz de Claude me chamando. Ignorei. Merecia algum tempo para mim naquele dia, mas ela veio correndo falar comigo, as saias nas mãos e uma expressão de pressa no rosto:

- Andie, a sra. Black está lhe procurando.- disse ela, levemente nervosa – acho que é sobre seu aniversário.

Meu aniversário. Isso significava presentes e uma festa maravilhosa. Talvez até...

Antes um pequeno detalhe chocante sobre os tempos nos quais eu fui criada: as crianças eram crianças. Não nos vestíamos como adultas, não respondíamos aos mais velhos e sonhávamos com poder ir a bailes e dormir depois das dez. Havia uma lista de regras que ninguém além das mães conhecia do que era apropriado a cada idade. Por exemplo, meninas com menos de sete anos devem usar corais e tons pastéis. A partir dos sete anos poderia deixar de usar os irritantes corais e, além disso, ganharia um vestido colorido, mas ainda assim modesto, azul turquesa, verde maçã ou laranja.

Cheguei ao escritório de mamãe. Ela estava sentada na escrivaninha, me esperando. Quando sentei silenciosamente na sua frente ela falou sobre os planos para minha festa de aniversário. Não era bem o que eu imaginava, mas ter a minha mãe falando comigo e a visão de um estojo de veludo preto, desses de jóias, me deixou tão absorta que nem notei quando ela parou de falar.

Encaramos-nos em silêncio por alguns minutos, quando mamãe disse:

- Não sei se você entende a seriedade disso, Andrômeda. Você está começando a crescer e acho que já é hora de parar com esses sonhos infantis.

Eu assenti. Ela abriu o estojo maior na minha frente. Dentro dele havia um conjunto de prata com safiras. Eu nunca havia visto nada tão bonito. Minha mãe e minhas tias tinham belas jóias, é claro, mas elas eram muito bonitas, fazendo com que os galeões gastos com pedras preciosas e metais brilhantes fossem despercebidos.

- Elas são suas, filha e são muito mais do que apenas badulaques: são a sua maturidade, o orgulho de seu pai e o meu legado. Honre tudo isso e sempre lembre-se de que é uma dama, não importa onde estiver. Você é a filha de Druella e Cygnus Black, uma puro-sangue e nada menos que isso.

Essas foram lições que eu levei muito tempo para esquecer.