O silencio... Simplesmente silencio, era a única coisa que retumbava por aquela grande igreja, enquanto aos portões da cidade o caos se formava e a chuva começava a cair, como uma chuva de sangue, manchando as ruas, dilacerando os corpos de criança, mulheres e homens. Porque não haveria piedade, para ninguém...

"Abandonados!"

"Fomos abandonados pelos céus!"

"A bruxa trouxe a decadência a esse lugar!"

E todas as vozes se ergueram, ao mesmo tempo, fazendo com que a entropia apenas aumentasse. E a mais poderosa da vilas naquele dia cairia e se tornaria apenas uma sombra... Até mesmo nos livros do historia aquele dia seria contado como mais sangrento.

****

Todos apareceram a frente daquelas construções e a surpresa e a adversidade eram constante, em todas as faces havia a exclamação de injustiça, de irrealidade. Não falavam, não se moviam e como estatuas continuaram imóveis por vários minutos, com suas mentes em torpor, sem poder acreditar no que seus olhos viam.

Acima as escadarias estavam em pedaços, varias pedras quebradas, o mármore antes brilhante, não mais refletia a luz, o musgo, grama e liquens cobriam as paredes e parte do chão, algumas flores pequenas ainda deixavam-se crescer, mas tão feias que dava um ar ainda mais petrifico. E então o Grande Mestre deu o primeiro passo, ainda carregando a mulher em seus braços, que naquele instante dormia e tinha um momento de paz.

O peso metálico de um exercito formado de apenas 12 homens começou a ecoar preenchendo o vazio e mesmo quando avançavam se recusavam a acreditar em seus olhos. O lugar que nunca havia sido destruído, que jamais havia sido abandonado agora estavam em ruínas.

Então um homem caiu, em prantos, pela primeira vez chorava, em todos os anos de treinamento, em tudo o que havia passado, aquela visão era por demais dolorosa, para todos que agora viam seu habitat destruído. A Grande Primeira casa destruída, aos pedaços. Colunas caídas no chão, o símbolo de Áries em pedaços, irreconhecível. Ali onde os sonhos se despedaçavam e se quebravam, assim como aquele mármore.

Os cabelos lilases escondiam a face daquele homem, escondendo sua lagrimas, mas seus soluços ecoavam e ninguém ali poderia consola-lo ou dizer palavras de conforto. Porque todos eles sabiam que tudo estava aos pedaços, que suas casas estavam no mesmo estado, talvez pior. E não havia vida, nenhum animal estava por perto, apenas a brisa gélida e as flores mortas terminavam com aquela horrenda visão.

- E nesta época, onde não há esperança, derrotaremos os demônios que andam sobre a Terra e restauraremos nosso lar.

Sim, tinha que ser aquilo, aquelas palavras ditas pela a boca do homem mais próximo dos deuses ecoou e então eles se lembraram das falas de sua senhora, de sua Deusa. E em perfeita harmonia os cosmos dourados domaram conta daquela casa, e o homem que antes chorava, agora limpava sua lagrimas e elevava seu cosmo ao infinito. Porque aquilo era uma mensagem para aqueles que haviam manchado o sagrado solo do Santuário de Athena.

***

Os gritos de horror faziam aqueles seres se deleitarem, o sangue de suas vitimas eram seu alimentos, seus ossos serviam para afiar os dentes pontiagudos, suas carnes eram devoradas e seu sangue bebido e derramado. E o urro daqueles seres ecooava por toda a Terra, em todos os lugares, em qualquer lugar, seja no céu ou no mar, nem mesmo os animais estavam a salvos daqueles seres de peles vermelhas e olhos negros como a mais pura trevas.

E todos eles se divertiam, caçando, destroçando lares, tirando a virgindade de garotas inocentes, sentindo todo o prazer de causar a dor, com suas garras onde quer que chegassem não sobrava nada, as casas pegavam fogo e todos morriam ou se tornavam escravos.

Não havia Deus, não havia misericórdia, não havia esperança. E por toda a Terra o grito dos inocentes atingia os céus e até os poderosos Deuses tremiam, pois eles não poderiam fazer nada e apenas naquele limiar da loucura, os homens mais perversos se transformavam naquelas criaturas, se juntavam ao exercito de demônios e vendiam sua alma para continuarem a vagar e a disseminar o terror.

Os céus eram vermelhos, não havia mais o azul perfeito, não havia o sol delicado, apenas aquele sol torrencial, aquele céu tingido de preto e vermelho. A Lua havia se escondido para não ver aquela mutilação e Eris, Ares, Hades, Anúbis e todos os deuses da escuridão se escondiam, porque aqueles seres não eram controlados por eles e os Deuses os temiam, por sua brutalidade, por seu poder de destruição.

Mas então todos aqueles seres pararam e olharam para cima, fitando o imenso céu e o circulo celeste das Sagradas Armaduras Douradas se fez presente, dissipando o sangue de suas constelações, limpando o céu da escuridão e fazendo novamente o Sol voltar a brilhar, intenso belo, e Apollo riu e brilhou ainda mais, mostrando que tudo não estava perdido. A cor rubra sumiu lentamente enquanto o dourado intenso banhava a tudo, tão intenso, tão magnífico, trazendo a esperança nos corações dos humanos e os pássaros voltaram a cantar e os animais saíram de suas tocas e o brilho de vida se fez mais uma presente. E aqueles seres queimaram, pois a beleza de um belo amanhecer era o suficiente para fazer suas peles pegarem fogo.

E agora o urro que suas bocas soltavam era de dor, a mesma dor que haviam causados e os humanos gritaram de prazer e os Deuses sorriram e se alegraram. Mas aquela alegria durou apenas poucos segundos, pois tão forte quanto uma tempestade as constelações foram varridas por uma intensa cor rubra, com um poder descomunal. Porque aqueles que ousassem se levantar contra aqueles seres seria aniquilado. A dor, o ódio, fúria, doença, morte sempre perdurariam.

***

E então o sangue começou a escorrer por baixo das armaduras, tingindo o chão de um vermelho intenso e a dor era inumana, capaz de levar qualquer ser a loucura, a carne era rasgada e a pela queimada. Aqueles homens sentiram o poder daqueles que agora controlavam a tudo e o grito que soltaram fez tremer o chão, mas eles resistiam aquilo, resistiam, pois era por isso que estavam ali, para mostrar a todos que ainda havia esperança.

Mas eles já não podiam mais suportar aquilo e então o Grande Mestre caiu, ajoelhado, quase deixando o corpo feminino cair e todos abaixaram seus cosmos, suas respirações ofegantes, seus corações batiam agora mais rápido, mais forte. Aquela demonstração de poder de seu inimigo apenas os deixavam mais fortes e com a vontade de seguir em frente.

****

"Eu te amo... Nos casaremos! Não importa os outros apenas nós!"

Meu riso ecoava cristalino sobre as águas daquele lago, ele havia se levantado da canoa e gritado aquilo, os pássaros haviam se assustado e levantado voou. Ela estava feliz como nunca tinha ficado antes.

"Eu também te amo"

Minha voz retumbou enquanto ele me tomava em seus braços e depositava um beijo doce em meus lábios, meu coração parecia querer sair de meu peito, eu jamais sonharia em encontrar alguém como ele. Meus folhos se fecharam e encostei minha cabeça em seu peito, escutando as batidas de seu coração. Sentia-me livre, amada, feliz. Estava nos braços de meu amado.

O mundo fora daquele lugar não me importava, nada importava a não ser aquele momento e nada poderia mudar o que eu sentia.

"Eu te amo! Te amo acima de todas as coisas! Até mesmo de Deus."

Ele sussurrou em meu ouvido e eu gritei, o lago se tingiu de vermelho e a floresta foi cortada e eu já não abraçava um homem e sim um cadáver. Cai em prantos."

***

E então os olhos doces se abriram e primeira coisa que viu foi a face dele e sua boca se abriu e ela gritou, caiu no chão pois estava em pânico e ele não agüentava segura-la e ela viu o sangue e as armaduras manchadas. Seu vestido novamente manchado, suas mãos novamente traziam a desgraça.

E eles que estavam cansadas, feridos, mas ainda assim de pé não entenderam, podiam ver a alma dolorida daquela mulher, mas não sentiam nada e aquela que convivera mais tempo com a morte de qualquer um deles deu um passo a frente e sentiu o cheiro do Mekai nela, não em sua vestes, ou em sua pele, era um odor característica, preso dentro de sua alma, de sua essência.

- Um dia tocada pelo Anjo Negro, jamais poderia esconder quem és.

Ele falou aquilo e ergueu a mão para toca-la, mas a mulher se afastou, sem compreender suas palavras. Mas sabia que não era um elogio. Então Mascara da Morte se voltou para o Grande Mestre.

- Ela traz consigo toda a dor e culpa que este mundo agora carrega, sua mera presença em um solo tão Sagrado não é permitida, até mesmo para mim, que ando entre os mortos, temo ficar na presença desta mulher.

E o Grande Mestre voltou a fitar a garota, tão assustada, mas tão delicada.

- Mas até mesmo no Inferno uma arvore floresceu. Com seus frutos intactos, perante o rio de Sangue, sem temer o lugar em que se encontrava, mesmo assim sua essência tão negra que foi preciso o sacrifico de um dos nossos para que seus frutos se tornassem dourados.

Ele caminhou até a garota, de alguma forma sabia que não deveriam mata-la, ela estava ligada a tudo aquilo e talvez ela fosse a chave para abrir a porta da razão e contemplar os olhos de todos eles com a verdade.

- Se for preciso eu estou disposto a fazer esse sacrifício nessa era.

Completou, todos os outros soltaram exclamações, o Grande Mestre havia enlouquecido novamente? O homem de longos cabelos loiros abriu seus olhos dourados e fitou o Grande Mestre e não viu a sua face maligna e soube que ele não havia enlouquecido novamente. Provavelmente ele sabia o que estava fazendo e falando, então voltou a fechar os olhos.

- Todos temos uma obrigação perante esta era, mas antes de iniciarmos a batalha contra a escuridão, devemos limpar nossas casas, reergue-las e mostrar a nossos inimigos que Athena jamais será esquecida e que seu cavaleiros estão aqui para faze-la brilhar novamente.

E o urro que se escutou foi de aprovação, enquanto cada cavaleiros passava correndo pelo Grande Mestre e a garota em direção a suas casas, pois o tempo que o Santuário ficara esquecido havia acabado e eles fariam aquele lugar brilhar novamente e o cosmo de sua deusa voltaria a reinar sobre o lugar.

A garota ficou parada em meio a poça de sangue deixada pelos cavaleiros, com aquele homem que tanto se parecia com seu amado e sorriu cansada, triste, com seus olhos límpidos, que agora refletiam a imensidão do Universo e Saga soube naquele instante que aquela garota deveria ser protegida.