Título:Indomitable Passion
Autora:
Eri-Chan
Beta:
Lady Anúbis
Fandom: The GazettE e Dir en Grey
Casal:
Aoi x Kai
Classificação
: NC-17
Gênero
: AU, angust, romance
Disclamer:
the GazettE, Miyavi e Dir en Grey não me pertencem e sim à PS Company, que detém seus respectivos direitos autorais.
Sinopse:
Ele sabe que aquele homem pode ser a realização de seu sonho... Ou de seu pior pesadelo. Pois Kai guarda segredos que poderão mudar a vida de ambos. Antes de revelá-los, porém, ele precisa conquistar o coração daquele homem indomável.
Observação:
Fic presente de aniversário para minha amada Sensei, Lady Bogard. É minha forma de agradecer sua atenção e carinho. Sensei, você merece cada palavra escrita aqui. Perdão por chegar TÃO atrasado *se mata*

Indomitable Passion
Eri-Chan

Parte II

Após o discurso do diretor da Universidade e de um dos patrocinadores foi oficializado o início da 'Ceia', comemorando um novo ano letivo que estava para começar. Garçons finamente vestidos entraram no grande salão servindo todos os presentes com extrema elegância e classe.

Kai olhou a sua volta vendo os inúmeros convidados desfrutando de conversas animadas e se sentiu perdido e solitário. Procurou Toshiya e Ryouta entre as pessoas, os encontrando sentados na extremidade oposta da mesa, debatendo avidamente com dois mentores da universidade. Conformado, o rapaz deixou seu olhar recair sobre o moreno ao seu lado. Suspirou baixinho, não podia negar que havia algo em Aoi que ele não compreendia muito bem, mas só o fato de estar ao lado dele causava um bem-estar agradável, fazendo-o se sentir feliz e extasiado. Tudo ao redor parecia ganhar cores novas. Era como se de repente tudo fosse perfeito e no mundo não existissem problemas.

Aoi percebendo que era observado abriu um discreto sorriso de lado enquanto admirava a agitação do lugar. Apreciou a escolha dos organizadores da festa pela suave música clássica que deixava o ambiente agradável e que juntamente com o ruído das conversas preenchiam o silêncio entre o jovem ao seu lado e ele. Tomando um gole do vinho que lhe fora servido acompanhou com os olhos negros algumas pessoas que chegavam agora no salão do jantar, entre elas seu amigo Richard.

Kai percebeu que o lugar à sua esquerda, reservado a Miyavi, ainda estava vazio. Sentiu-se culpado por aquele incidente. Mais uma vez percorreu o salão com os olhos, preocupado com o rapaz de cabelos azuis. O silêncio estava cada vez mais pesado e seria bom ter a companhia do amigo, mesmo que fosse pra ficar driblando das investidas descaradas. Tudo era melhor do que do jeito que estava.

O moreno mais novo foi servido de uma porção de assado acompanhado por uma salada inglesa temperada com ervas finas, mas não se sentiu tentado a comer mais do que algumas garfadas. Não que estivesse ruim, ao contrário, o cozinheiro se esmerara tanto na aparência quanto no sabor das iguarias. E todas foram servidas na temperatura adequada. Ele, porém, não tinha apetite suficiente para dar conta de tamanha fartura. O mesmo não acontecia com Aoi, que devorava literalmente tudo que lhe era servido. Era nítida a satisfação e a descontração do mais velho.

– Você come menos que uma criança. – Afirmou Aoi, sem se importar com o tom rude.

Kai olhou de maneira atravessada e engoliu em seco antes de responder com a voz firme:

– A maioria das pessoas não faria uma observação dessas de modo tão grosseiro... Sem nem ao menos ter intimidade, senhor.

– As pessoas que notei ao seu redor também não são tão educadas assim. – O tom petulante em sua voz era intimidador.

– Como disse? – Kai encarou o outro com o cenho fechado.

– Acho que me entendeu muito bem – Aoi rebateu com desdém, tomando mais um gole de vinho.

Kai deu de ombros e, como o movimento brusco, uma mecha mais comprida do cabelo cobriu parcialmente seu rosto. Notou que os olhos negros perscrutadores acompanharam o movimento encontrando os seus, mirando de forma intensa os negros como a noite. Desviando o olhar, contrariado, para seu prato, Kai comentou em tom seco:

– O senhor é muito pretensioso!

– Sou? – O moreno perguntou, com as sobrancelhas erguidas.

– E começo a crer que também é muito arrogante – Kai continuou como se não houvesse tido nenhuma interrupção.

– Então por que fez questão da minha companhia? – O sarcasmo se estampava na fisionomia de Shiroyama.

– Fiz isso? – O choque e a incredulidade fizeram com que a voz do mais novo saísse mais alta do que queria, chamando a atenção de algumas pessoas mais próximas.

– Nosso anfitrião me revelou que você lhe pediu que reservasse um lugar para mim a seu lado. Já que não aprecia meus modos, imagino que o motivo para tal solicitação seja provocar ciúme em seu amante.

Kai arregalou os olhos com espanto, corando furiosamente, sua respiração se alterando nitidamente e, antes que pudesse argumentar, Aoi inclinou-se lentamente e sussurrou-lhe ao ouvido com sua voz grave:

– Não precisava disso. Ele já está enciumado o suficiente. – Afastou-se sorrindo descaradamente.

Kai respirou fundo, fazendo o máximo para não perder a calma e jogar todo o vinho sobre o homem ao seu lado, pois não queria acabar se colocando numa situação constrangedora na frente de todos os presentes e assim acabar com suas chances de entrar na universidade. Ele alcançou a taça de vinho tinto à sua frente e sorveu dois goles da bebida, a fim de refrescar a garganta ressecada pelo nervosismo que aquele homem lhe provocava. Até se esqueceu do bem-estar de momentos antes.

Aoi encarou Kai, vendo em seu rosto a revolução de seus pensamentos. Não sabia bem o porquê, mas gostava de provocar o mais novo, sentia um misto de prazer e diversão ao vê-lo rebater suas indiretas à altura. Era visível a personalidade forte e indomável do jovem e isso o fez se questionar sobre os motivos que o levavam a querer estudar numa universidade tão rígida, em que a disciplina era conseguida a todo o custo.

Minutos se passaram em que os dois ficaram em silêncio. Não mais se encaravam, mergulhados que estavam em seus próprios pensamentos. O volume das conversas ao redor parecia ter triplicado e isso fez Kai recordar da época em que saia com os amigos por conta própria e não sendo ameaçado. Lembrou-se das brincadeiras de Kenta, dos finais de semana em que acampavam. Perdido que estava nessas lembranças o rapaz se assustou ao ouvir a voz de Yuu.

– Por que escolheu essa Universidade? – Aoi perguntou, interrompendo o pesado silêncio que se instalou entre eles.

– Como assim por quê? – Kai rebateu a pergunta, curioso.

– Vejo você tão empenhado em estudar, em comparecer às festas, em que é nítido seu desconforto, só para ser visto pelos mais influentes da instituição. Todo esse esforço para entrar aqui. Tudo isso atiçou minha curiosidade. De tantas ótimas faculdades japonesas, por que justamente essa?

Kai observou Aoi em silêncio por alguns instantes, cogitando sobre o que falar. É claro que ele tinha seus motivos para se esforçar tanto para entrar justamente em Tokyo Gakugei, mas, isso ele não dividia com ninguém. Pensou em Kenta e sobre tudo o que ele lhe contara sobre aquele lugar. Respirou fundo e escolhendo as palavras respondeu:

– Não há um motivo específico, apenas acho que é uma ótima instituição para se apresentar em um currículo.

Aoi desviou o olhar, fitando o arranjo de rosas amarelas que estava disposto no centro da mesa, sua expressão pensativa. Não estava convencido com a resposta dada pelo jovem ao seu lado, mas percebeu que não receberia mais do que aquilo.

Kai estranhou a reação, aliás, a situação em si era estranha. Queria muito saber quem era o infeliz que mentira para o mais velho dizendo que ele o queria sentado ao seu lado. A única coisa que o mantinha sob controle era pensar nas várias formas com que poderia se vingar do mentiroso que o colocou nessa enrascada. Perdido nesses pensamentos, o jovem se assustou ao ouvir a voz de Aoi:

– E se eu lhe conseguisse uma vaga em outra universidade prestigiada, o que você faria? – Yuu deu um sorriso tão bonito, seus olhos brilharam tão sinceros que Kai forçou-se a desviar o olhar, estranhando o frio que lhe percorreu a espinha de ponta a ponta.

– Bem... – Kai não sabia o que responder. Havia sido pego de surpresa.

– Então? O que acha da proposta? – Aoi encarou o moreno em expectativa. – Até pago o primeiro semestre do curso que você quiser para compensar essa mudança de planos.

Kai limitou-se a olhar nos orbes negros, não tendo a mínima idéia de onde ele queria chegar falando aquilo.

– Não vai me responder? – Aoi impacientou-se com o silêncio do outro, sendo grosseiro e atraindo mais alguns olhares para os dois.

– Ainda não consegui entender aonde quer chegar com essa proposta – Kai respondeu simplesmente, enquanto pegava a taça que o garçom acabara de encher.

Yuu encolheu os ombros e abriu os braços. O movimento fez com que o casaco negro que usava se abrisse, exibindo a camisa também negra e bem justa que lhe delineava o corpo. Kai ficou perplexo com a visão daquele torso tão perfeito e tão próximo, que quando percebeu estava com a boca entreaberta, respirando com dificuldade.

– Pelo que vejo você atua demais – A voz de Aoi saiu raivosa, mas um brilho de decepção faiscou rapidamente em seu olhar.

– Por que diz isso? – Kai tentou ao máximo controlar a altura de sua voz, seu tom indignado atraindo ainda mais olhares para os dois.

– Porque você diz que não escolheu estudar na Tokyo Gakugei por um motivo especifico, mas, mesmo eu oferecendo pagar o primeiro semestre em outra universidade você se faz de desentendido como forma de negação. – Apesar da fisionomia neutra, Aoi apertava a taça de vinho.

– Eu ainda não consigo ver um motivo bom o suficiente para abrir mão de tudo o que investi para conseguir uma vaga aqui – Kai disparou em tom baixo.

– Como eu não lhe dei um bom motivo? – Aoi ergueu as sobrancelhas em espanto. O que quer mais? Que eu aumente minha proposta? Então está certo, pago metade do seu curso.

– Acha que simplesmente me subornar irá funcionar? Não sou interesseiro como você deve estar pensando. – Kai respondeu ácido.

– E como sabe o que eu penso ou deixo de pensar? Por acaso você fica pensando em mim, preocupado com minha opinião? – O moreno mais velho perguntou malicioso.

– Quanta bobagem dita por uma pessoa só – A voz de Kai estava trêmula, o nervosismo aumentando rapidamente – Tenho coisas melhores pra fazer do que ficar pensando em você.

– Coisas melhores do que eu? Impossível! – O tom arrogante fez Kai desejar socar aquele rosto perfeito para assim poder apagar aquele sorrisinho vitorioso que tanto o irritava.

– Se o chamei de presunçoso, senhor, permita-me reforçar a observação. – O moreninho bufou, cruzando os braços.

– Não precisa ficar zangado! Estou só testando a mercadoria antes de comprar. E pode ter certeza que gosto do que vejo – Aoi sentenciou abrindo um sorriso irresistível.

– Está equivocado, senhor. – Kai fechou ainda mais o cenho.

– Então pra que o jogo? – Aoi perguntou em tom curioso.

– Jogo? Como assim? – Kai descruzou os braços, confuso.

– Ora... O do namoro. Pensei que estivesse participando dele.

– Jogo do namoro? Quer dizer um arranjo amoroso? – Yutaka perguntou, indignado, esforçando-se para manter a voz em um tom baixo. – Não é nada disso! Eu apenas... – interrompeu-se para permitir ao garçom que recolhesse o prato, para a sobremesa.

Kai estava tão irritado ao perceber-se indefeso e acuado diante daquele homem, que teve vontade de despejar de uma só vez o segredo que pretendia lhe contar e sair dali o mais rápido possível. Contudo, preferiu respirar fundo e controlar-se. Quem sabe se contasse até dez ajudaria? E foi o que começou a fazer, em pensamento, com os olhos fechados.

– O que está fazendo? – Quis saber o mais velho, sem ocultar a curiosidade.

– Contando até dez. – Kai respondeu ainda de olhos fechados.

– Não precisa. Está indo muito bem – Aoi disse em tom amável.

– Em quê? – O jovem abriu os olhos, sua expressão mostrava toda a confusão de sua mente.

– No jogo do namoro. É intrigante e imprevisível. Está atraindo meu interesse. Continue assim...

Yutaka tentou reunir o pouco de paciência que ainda lhe restava e rebateu no tom mais controlado que pôde:

– Desculpe, mas essa nunca foi minha intenção, senhor. – Dessa vez foi Shiroyama que se surpreendeu e arregalou os olhos expressivos.

Kai apertou os lábios, procurando novamente Toshiya com o olhar, disfarçando o impacto que o rosto bonito lhe provocava. Se aquele homem não fosse irmão daquele que havia arruinado a vida de Kenta... Talvez entrasse de fato naquele jogo de sedução, nem que fosse para superá-lo. O som da cadeira ao lado desviou sua atenção. Com o canto dos olhos, percebeu Miyavi acomodar-se.

– Kai? – O tom baixo e nitidamente triste de Miyavi cortou o coração do moreno.

– Sim, Myv? – O jovem disse, girando a cabeça na direção dele. Percebeu então que Miyavi ainda tinha a mão dolorida, porque a escondia embaixo da toalha da mesa.

– Pode parar de me evitar. Declaro-me arrependido. – Kai se controlou para não sorrir ao ver o bico emburrado do rapaz de cabelos azuis.

– Não estava te evitando, Myv – O moreno disse com a voz suave, sorrindo ternamente. – Você é que estava ausente.

– Você sabe o que eu quis dizer – Insinuou ele, estendendo a mão sadia para alcançar a taça de vinho.

O riso abafado de Shiroyama fez Kai retornar a atenção para o moreno:

– Ouviu algo engraçado, senhor?

– Esses romances sociais às vezes podem ser divertidos. Embora eu não esteja acostumado, posso entender porque acontecem.

Naquele momento, os garçons começaram a servir as sobremesas, causando suspiros de satisfação em todos os presentes. Kai entendeu a razão de todos aqueles murmúrios, quando foi servido com um pedaço de torta de maçã. A massa estava disposta em camadas finas, intercalada com geléia e tinha como cobertura creme de leite e fatias de maçã, que imitavam pétalas de rosas.

– É uma pena que eu não posso ficar muito tempo. Preciso retornar à Inglaterra para cuidar de meus negócios por lá. – Prosseguiu Aoi.

– Mas ainda não conseguiu o que queria! – Exclamou Miyavi em voz alta e, lançando um olhar venenoso na direção de Kai, insinuou – Ou conseguiu?

Mais uma vez, Kai sentiu seu estômago se revirar e uma profunda sensação de desconforto, ao perceber os olhares dos presentes serem atraídos pela entonação escandalosa de Miyavi.

Shiroyama Yuu ignorou o comentário provocativo e continuou falando de seus planos:

– Na verdade, estou ansioso para voltar. Sinto falta da minha empresa, das reuniões com os funcionários depois do expediente. Sinto falta do conforto da minha casa.

– Se lá é tão confortável, agradável, não sei o que ainda está fazendo aqui. Podia resolver tudo por intermédios de advogados... – O rapaz de cabelos azuis comentou ácido.

– Myv, quer parar com isso? Não é lugar e nem hora... Além do mais, não é da nossa conta. – Kai disse baixinho, olhando em volta suspirando aliviado por ninguém estar observando a cena dessa vez.

– Mas é verdade Kai-Chan... Se ele iria reclamar tanto... Que ficasse na Inglaterra! Não iria fazer falta alguma. – Myv se defendeu, falando de forma emburrada como criança.

– Minha casa é bem grande e logo atrás tem um lago de águas cristalinas. Do meu escritório é possível ver as aves nadando lá. O cenário perfeito pra as reuniões sociais... – Aoi continuou suas divagações sem prestar atenção na pequena discussão ao seu lado – Chá para as damas e Whisky e charutos para os cavalheiros, uma conversa agradável com pessoas educadas e cordiais...

– Cavalheiros?! – Ishihara falou mais alto, atraindo a atenção de Yuu e recebendo um olhar atravessado de Yutaka – O que o Kai precisa é de um homem de verdade e não de engomadinhos que irão deixá-lo só na vontade.

– Nem de um grosseiro, inconveniente e sem educação que o faz passar vergonha em público nas ocasiões sociais. – Perdendo a paciência Yuu respondeu à provocação.

– Querem parar vocês dois? – Kai falou exasperado. Calou-se repentinamente com a chegada do garçom que retirou o prato da sobremesa. – As pessoas estão reparando...

Interrompeu-se novamente, pois outro garçom veio servir os licores. Usou aqueles segundos para se recompor, enquanto via a troca de olhares mortais dos dois homens ao seu lado. Fechando os olhos voltou a falar:

– Será que nunca consigo sair ileso sem passar vexame? – Arrematou, sorvendo um gole da bebida doce para se acalmar.

– A culpa não é minha Kaizinho. É esse 'almofadinha' que chegou querendo roubar meu lugar. – Miyavi falou com um leve bico, enquanto colocava a mão sobre o braço de Kai.

– Que lugar?! – Kai levantou-se junto com as pessoas que deixavam a mesa, desvencilhando-se da mão de Miyavi, deixando a taça de licor pela metade. – Vocês dois se merecem.

Aoi afastou-se da mesa com o sorriso cínico na face, como se nada tivesse acontecido, cumprimentando uma jovem senhora conhecida que também se dirigia ao salão. Miyavi continuou parado no mesmo lugar, fuzilando o moreno que se distanciava.

ooOoo

Andando de um lado a outro no coreto de madeira, um pouco afastado da residência, Kai friccionava em vão os braços tentando aquecê-los. Mas, a névoa fria e úmida da noite parecia lhe congelar até os sentidos.

Os ruídos estranhos vindo do bosque ao lado da mansão preocupavam o estudante. Ao mesmo tempo, condenava-se pela loucura de estar ali, sozinho, aguardando Shiroyama Yuu. Apesar de tudo, ali era o lugar perfeito para lhe contar tudo o que sabia sobre a morte de seu irmão e de Kenta.

Mordeu o lábio inferior de nervosismo. Já aguardava havia mais de dez minutos e nada de Aoi. Odiava esperar. Será que ele teria a ousadia de deixá-lo esperando, como forma de vingança? Na nota que lhe enviara, tinha sido bastante específico:

"Encontre-me à meia noite no coreto principal do jardim. É importante. Venha sozinho.

UY"

O som de passos o alertou e a silhueta de um homem aproximando-se, nas sombras dos arbustos, tranqüilizou-o.

– Shiroyama? – Perguntou em voz alta, antecipando-se.

Porém, quando ele chegou mais perto, Kai comprovou que não era Aoi, e sim Miyavi.

– Esperando Shiroyama Yuu?

– Bem... – Yutaka respondeu, embaraçado com a situação. – Tenho algo importante pra revelar a ele.

– E que revelação é essa que precisa ser dita no meio da noite e longe de todos – Kai nunca viu Miyavi tão gélido.

– Não é da sua conta. – O moreno falou, cruzando os braços e pretendendo pôr um fim na curiosidade do amigo.

– A sua segurança me preocupa. – Myv avançou mais alguns passos ficando de frente para Kai, encarando-o com os olhos brilhantes.

– Pois não deveria. Se eu quisesse sua companhia, teria pedido. – Kai respondeu exasperado. Já tinha perdido a paciência com a marcação de Miyavi.

– Espera que eu simplesmente ignore o seu interesse pelo 'almofadinha'? – O rapaz de cabelos azuis perguntou em um tom taciturno.

– Não é o que você está pensado – Protestou Yutaka, por entre os dentes. – Além do mais... Não lhe devo explicações.

– Quantas vezes já declarei meu amor, Kai? – Takamasa prosseguiu com a voz melodiosa, em um tom mais baixo do que o habitual. – Será que não tem sentimentos?

– Tantas quantas já lhe disse que não tenho intenção de me comprometer com homem nenhum. Ne-nhum! – Exclamou o universitário, enfatizando cada sílaba.

Num apelo dramático, Miyavi fincou um dos joelhos no chão e, apanhando umas das mãos de Kai, pediu:

– Case comigo, Kai-Chan.

– Não, Takamasa.

– Eu... Imploro! Não consigo viver sem você! – Miyavi olhou intensamente nos olhos negros de Yutaka, pequenas lágrimas ameaçavam transbordar ao ver o amado puxando a mão de entre as suas, em um nítido ato de rejeição.

– Você daria um belo ator. Por que não tenta o teatro? – Dando alguns passos pra trás, a voz ríspida de Kai cortou a noite.

– Está brincando com meus sentimentos, Yutaka? – a voz enrouquecida mostrava traços de irritação.

– Ora, Ishihara. Pare com isso! Já ouvi essas tolices antes. Aposto que muitos outros, não só homens como mulheres já ouviram também. – Kai falou aborrecido, enquanto começava a andar de um lado para o outro. – Agora levante-se.

– Pensa que me conhece, não é, Kai? – Miyavi nem se mexeu, apenas estreitando o olhar que acompanhava a movimentação de Kai.

– Não tanto quanto imagino. – O moreno deu de ombros.

– Então é bom que saiba que não deixarei o caminho livre para aquele japonês travestido de europeu arrogante... – O rapaz de cabelos azuis praticamente bufou.

– Está enganado. Já lhe disse antes e não vou repetir. – E, com o dedo indicador em riste, acrescentou: – Se continuar agindo dessa forma vai acabar com nossa amizade.

– Como posso desistir se o amo? – Com olhos suplicantes, Myv ergueu uma mão tentando alcançar Kai que se esquivou do toque.

– Já o ouvi dizendo o mesmo para outras pessoas.

– Mas com você é diferente... Juro! Estou sendo sincero. Mais do que já fui a minha vida inteira. – O tom desesperado de Ishihara era tocante, mas Kai estava irredutível.

– Erga-se Miyavi, e vamos acabar logo com essa encenação. Tudo isso é por causa de carência? Não está conseguindo fisgar ninguém?

– Sabe que não é isso! – Myv se pôs de pé e simulou uma expressão indignada.

– Pode deixar que encontro o caminho de volta sozinho. Boa noite! – Yutaka abandonou o local acabando de vez com aquela conversa e rumou apressado, na direção da mansão, onde a festa continuava animada.

Miv não fez menção de impedi-lo nem o seguiu. Pela primeira vez, ele tivera uma atitude bem inusitada.

"Isso é de se estranhar. E muito", pensou enquanto aceitava do garçom uma taça de champagne, enquanto procurava Toshiya pelo salão. A única coisa que queria agora era voltar para casa.

ooOoo

Alguns dias se passaram e finalmente Kai pôde se chamar de graduando. O moreno ainda lembrava-se da sensação de ver seu nome na lista de aprovados para estudar na Tokyo Gakugei. Tanto Kai como Toshiya haviam gabaritado suas provas e com entusiasmo foram os oradores da cerimônia de abertura do ano letivo.

A primeira semana de aula se passou na velocidade da luz. Yutaka e Toshiya fizeram muitos amigos e rapidamente se enturmaram, não só com os colegas de classe, mas com os outros jovens que estavam até mesmo em outros cursos.

Totchi já era aclamado em seu curso de Artes. Os professores percebiam a sutileza de seu talento e sempre o requisitavam para demonstrações nas aulas, fazendo com que seu trabalho fosse triplicado. Yutaka não ficava atrás, sempre animado e comunicativo, ganhou seu espaço nas aulas e não era estranho ouvir pelos corredores que ele seria o destaque da turma de Comunicação.

Se antes, quando os dois amigos apenas estudavam para passar no exame de admissão, já era complicado arrumarem um tempo para se verem, agora era quase impossível. A rotina era de intensa correria. Yuuta e Ryouta também estavam nesse frenesi todo, pois também haviam conseguido passar na prova. Os quatro sempre se esbarravam nos corredores da universidade, mas a agitação era tão grande que às vezes nem conseguiam trocar um cumprimento. E dessa forma, os dias passaram com rapidez, sem muitas novidades. Apenas as muitas lições e trabalhos, além das poucas horas de descanso.

Três semanas após o inicio das aulas a Universidade convocou todos os alunos do curso de Artes, Comunicação, Dança e Música para um workshop. Uma semana em um sitio no interior do Japão, totalmente isolados, para que as disciplinas pudessem ser aplicadas na prática e se familiarizassem com o ritmo de estudo, assim como para que todos pudessem ter um pouco de lazer também.

Kai recebeu a convocação para o workshop com alegria. Imaginou que seria uma excelente oportunidade para relaxar e deixar de pensar no segredo que tanto o incomodava. Porém, sua alegria durou pouco assim que soube que Miyavi também iria, acompanhando um amigo.

Ao chegar o dia da viagem, Kai foi o primeiro a chegar à estação rodoviária de onde iriam partir. O moreno estava todo alerta, olhando para todos os lados a cada passo que dava, fazendo de tudo para não se encontrar com o jovem de cabelos azuis. Toshiya e Ryouta riam com toda a afobação de Kai e as piadas irritavam por demais o jovem graduando em Comunicação. Foi com alivio que Kai recebeu a noticia de que os acompanhantes que não estudavam na Universidade iriam num ônibus separado, a fim de evitar que alguém fosse esquecido pra trás. E antes que pudesse encontrar Miyavi sem querer, Kai embarcou em um dos ônibus, sentando-se ao fundo, imaginando o quão seria longa aquela semana.

Durante as horas de viagem no ônibus, Kai foi torturado por Toshiya e Ryouta, que se sentaram ao seu lado. Os dois ficaram fazendo piadinhas envolvendo Miyavi e o "caso" entre os dois. Mas o moreno não deixou barato, cutucando os amigos quanto à nítida tensão sexual entre os dois.

Entre essas brincadeiras o clima estava extremamente agradável, fazendo com que o longo tempo de estrada fosse agradável e menos cansativo pra todos.

Depois de uma pequena parada para um descanso, Kai e os dois amigos tiveram também a companhia de Yuuta e mais alguns colegas de turma. No meio das novas brincadeiras que surgiram um dos rapazes confidenciou ao grupo que no banheiro da parada ouviu o diretor conversando com um dos professores, afirmando que Aoi também estaria presente no workshop como o mais novo acionista majoritário da Tokyo Gakugei.

Yutaka se desesperou ao saber que Shiroyama estaria lá, lembrando-se da noite do jantar antes do ano letivo começar. O que lhe pareceu que novas complicações envolvendo a imagem dele e a do jovem milionário, estariam a caminho.

Esse assunto tirou todo o ânimo do moreno para as brincadeiras, mas para evitar perguntas que não queria responder, Kai participava de todas, mesmo que em seu intimo estivesse totalmente entediado.

Assim que os amigos silenciaram por alguns instantes, Kai aproveitou para admirar a paisagem belíssima que se descortinava diante da janela do ônibus. De repente o moreno se imaginou correndo pelo campo verde até onde ele parecia tocar o céu.

O Sítio do Sol Poente era conhecido por ser um ótimo espaço para excelentes entretenimentos. A propriedade se localizava em uma ampla clareira bem no coração de uma floresta cerrada, o que favorecia as constantes reuniões de jovens estudantes.

O sol já se punha no horizonte quando os ônibus chegaram ao estacionamento do sítio. Todos saiam agitados e animados, observando o lugar com admiração. O som das conversas enchia o ambiente, onde a atmosfera alegre era contagiante. Todos se encaminhavam para o hall de entrada onde monitores com pranchetas informavam aos alunos em que quartos ficariam.

Kai não estava nada animado com isso e caminhando, quase se arrastando atrás dos amigos, se aproximou de um dos monitores. Como a lista era feita pelos professores da universidade, o moreno sabia que aprontariam com ele, pois os hóspedes eram cuidadosamente escolhidos, levando-se em conta os rumores de ligações afetivas entre eles. Apesar de ser uma universidade com uma rigidez extrema na educação era muito liberal quanto aos relacionamentos entre alunos, dando liberdade aos próprios, argumentando que assim eles se sentiam mais à vontade e produziam mais.

Com certeza, o quarto de Kai seria contíguo ao de Miyavi. Assim como os de outros casais. Em ocasiões passadas, não foi difícil manobrar Ishihara. Agora, depois da declaração que ele lhe fizera, o moreno já não estava mais tão seguro disso. Contudo, uma coisa era certa: seria difícil imaginar uma semana tranqüila e relaxante naquele lugar.

Depois de pegar as chaves do seu quarto por aquela semana, Yutaka se dirigiu ao salão principal, para o jantar de boas-vindas aos universitários. Sentou-se entre Toshiya e Yuuta e tentando relaxar conversava entusiasticamente. Não queria ter que pensar nas possíveis coisas que lhe aconteceriam naquele pouco tempo.

Assim que o jantar se iniciou um dos professores mais influentes da universidade, e também um dos mais odiados, sentou-se na cadeira diante de Yutaka, e sorrindo empolgado se intrometeu na conversa dos jovens:

– Ora, se não é o Uke-san... – Dando um sorriso o homem de meia-idade fez um sinal a um dos garçons que passava próximo. – Estou feliz que não tenha recusado essa semana de workshop.

Kai arqueou a sobrancelha ao ouvir o jeito com que seu professor o chamara e ficou em silêncio.

– Vejo que está muito bem acompanhado. – O professor continuou, ignorando o silêncio pesado que se instalou entre os jovens.

Yuuta, que também era da turma de comunicação, resolveu quebrar um pouco da tensão e sorrindo forçadamente se dirigiu ao mestre:

– Obrigado pelo convite professor. Kai e eu nos sentimos honrados de sermos escolhidos entre tantos alunos para estar aqui.

– Está sendo gentil, Yuuzito – Falou o professor com aparente satisfação, enquanto bebia do cálice que o garçom acabara de lhe servir.

– Imagina, professor... – Yuuta respondeu, vendo que Yutaka não estava nem um pouco disposto a participar desse diálogo.

– Mas, diga-me Kaizinho, como conseguiu escapar de Miyavi? Ele nunca sai do seu lado! – Com uma piscadela, o homem cruzou as pernas, a curiosidade estampada no olhar.

Kai deu um sorriso amarelado e esclareceu de maneira gélida:

– Miyavi não veio para me acompanhar. Apesar dos rumores, estou certo de que não deseja ter seu nome constantemente ligado ao meu.

– Então, não tiveram um romance? – Quis saber o professor.

– Algo do tipo. – Yuuta se antecipou, rindo marotamente.

– Estão enganados. – Protestou Kai, dando um cutucão discreto no cotovelo do amigo. – Apenas tenho uma grande estima por Ishihara. E sou fã de suas composições com o violão.

O professor sorriu, debochado.

– Detesto aquele tipo de música que ele canta. Contudo, sei que Miyavi adora um 'affair'. Espero que dessa vez ele aproveite bastante a variedade do lugar.

– Não olhe para mim! – Exclamou Kai, divertido, ao perceber as intenções por trás daquelas palavras. – Não tenho nada com ele, muito menos tenho ciúmes de possíveis casos que ele tenha.

Yuuta suspirou e o professor prosseguiu com a brincadeira.

– Se é assim, acho que errei ao acomodá-lo ao lado do seu quarto. Não irá me criticar por isso, não é?

Toshiya e Ryouta se entreolharam, vendo que se não fizessem algo Kai voaria no pescoço do velho em poucos instantes.

– Não se deixe enganar pelo Kai, professor. O próximo que ele irá enredar em sua teia é o jovem Shiroyama. – Yuuta mais uma vez dava sentido à famosa frase: "Eu perco o amigo, mas não perco a piada".

– Pare com isso, Yuuta! Se o nome Shiroyama for mais uma vez ligado ao meu, o pobre sofrerá um colapso – Afirmou Kai, sorrindo, no que foi seguido por todos os outros.

Toshiya olhou mais uma vez pra Ryouta. Sabia que o amigo estava brincando só para não encher o professor de porrada no meio do jantar.

Kai respirou fundo, desviando o olhar do professor nojento por alguns instantes para observar o salão como um todo. Viu de relance Miyavi conversando com outro professor, ele tinha uma expressão abatida, diferente da sempre alegre e isso deu um aperto no peito do moreno, que se sentiu mal, sabendo que aquilo era por causa da última conversa dos dois. Voltando a olhar para o homem desprezível a sua frente o moreno resolveu falar qualquer coisa para tentar amenizar a agonia que tomou conta de seu ser ao ver o estado de Myv:

– Contudo, não posso deixar de admitir que tenho uma queda por homens bonitos. Principalmente, quando são satirizados em caricaturas ao meu lado. Ajuda a massagear o ego. – A ironia e o sarcasmo escorriam por todas as palavras e sem dar tempo para alguma resposta continuou – A propósito, onde acomodou o Shiroyama? Se é que ele veio sozinho...

– Bem, pelo que sei, ele está desacompanhado. – E, lançando um olhar maroto o professor acrescentou em um tom mais rouco – Vou providenciar para que reservem um lugar especial ao seu lado no jantar de amanhã.

Levantando-se com um pouco de dificuldades, o professor acenou para um dos monitores que estava parado à frente da entrada principal, o observando se aproximar rapidamente. Assim que o jovem loiro se aproximou, o mestre se voltou para Kai:

– Será muito divertido... – Dando mais uma piscadela, começou a se afastar enquanto falava – Esse é Minamoto, o monitor chefe daqui. Ele os guiará até os quartos quando terminarem de jantar. Vejo-os logo pela manhã.

Nem bem o professor se afastou e Kai levantou-se.

– Bem, estou exausto e só penso em me jogar em uma cama. Os vejo pela manhã. Boa noite. – E sem esperar por uma resposta dos outros rapazes, Kai começou a se afastar, sendo acompanhado por Minamoto.

ooOoo

Na manhã após o jantar de boas vindas, depois do café da manhã, todos os alunos se reuniram na parte de trás do sítio, onde havia um extenso campo aberto, cercado de árvores, para jogar Rugby. Todos estavam animados, afinal a recomendação de Yuu para o jogo inglês foi muito bem recebida.

Miyavi chegara antes de todos, já vestido com seu uniforme vermelho. Aquecia-se compenetrado tomando aquele jogo como um desafio. Apesar de saber que iria jogar no mesmo time de Aoi, por não serem alunos da universidade, faria de tudo para ser o melhor e humilhar o moreno diante de todos os presentes e principalmente de Kai. Sentia-se como se fosse um cavalheiro da Era Antiga tentando proteger a honra e ganhar o amor de sua bela dama.

"Se o Kai descobre que pensei nele como uma dama ele me mata", rindo de seu próprio pensamento Myv começou a correr em volta do campo testando sua resistência.

Não demorou muito e os outros jogadores do time, formado pelos professores e patrocinadores, chegaram também indo se aquecer. Alguns acompanharam Miyavi na corrida, outros preferiam apenas aquecer o corpo esticando os músculos sem correr, poupando energia para a hora do jogo.

Aoi foi o último a chegar. Sorridente e carismático brincava com cada colega de time enquanto exibia o bom condicionamento físico fazendo uma série de aquecimento bem mais complexa do que os demais. Todos o olhavam admirando a força e a firmeza do corpo esculpido. O moreno detinha uma expressão satisfeita. Depois da bela exibição de movimentos, Yuu se pôs a correr ignorando deliberadamente o rapaz de cabelos azuis que o metralhava com o olhar.

Do outro lado do campo os alunos se reuniam, montando estratégias de jogo e se aquecendo. O barulho de conversas animadas e sorrisos preenchiam o lugar. Alguns alunos também admiravam o vigor físico de Aoi e comentavam que seria um jogo difícil. Outros observavam Miyavi, que tinha a fama de ser o melhor jogador de Rugby que a Tokyo Gakugei já tivera e ficavam felizes por poder ter a honra de jogar ao lado dele.

Kai observava a tudo com interesse, mas recusara-se terminantemente a jogar com os demais, tinha dormido bem, mas ainda se sentia cansado. Ryouta e Toshiya riam dele enquanto se ajudavam a alongar o corpo. Mais uma vez os amigos zombavam das estratégias de fuga que Kai tinha em relação à Miyavi.

– Ei, Kai-Chan... – Totchi exclamou no meio do exercício ao ver Miyavi passar correndo ao seu lado e ter Kai encolhido atrás de si, se escondendo. – Você só falta subir pelas paredes para não se encontrar com o Myv.

– Ah... Não é bem assim Totchi. – Kai levantou-se emburrado, cruzando os braços diante do corpo.

– Ah, é sim. Daqui a pouco fará como o Homem-Aranha e lançará teias para fugir saltando de prédio em prédio. – Ryouta ria, entreolhando-se com Toshiya.

– Isso é exagero de vocês. – Kai franzia o cenho, não acreditando no que ouvia.

– Não é exagero não. – Ryouta gargalhava. – Você é nosso Kai Aranha.

– O QUÊ?! – Revoltado, Kai ergueu a voz chamando a atenção de alguns alunos que se aqueciam próximos aos três.

– Kai Aranha, Kai Aranha, menos japa, mais aranha... – Totchi começou a cantar, enquanto Ryouta gesticulava como o personagem dos quadrinhos.

Yutaka não acreditava no que estava ouvindo. Abriu a boca para responder à infantilidade dos outros dois, mas nenhuma palavra chegou a deixar seus lábios, pois nesse momento Aoi passou correndo ao lado de onde estavam cumprimentando aos alunos que iriam jogar.

Kai se surpreendeu por não tê-lo visto antes e se perguntou como pôde se entreter tanto com aquela conversa a ponto de não perceber uma presença tão marcante quanto a de Shiroyama. E, diga-se de passagem... Que presença! Yutaka ficou admirado com o belo físico que estava mais evidente no uniforme justo.

De tão fascinado com a beleza de Aoi, Kai se desligou de todo o resto. Já não ouvia ou via mais nada além do moreno em campo. Yutaka só saiu do transe quando Ryouta passou a mão na frente de seus olhos.

– Kai-Chan, planeta Terra chamando! – Totchi chamou o amigo, estranhando o alheamento súbito.

– Nani? – O moreno encarou os amigos com uma expressão confusa.

– Você não escutou nada do que dissemos nesses últimos minutos, não é? – Ryouta acusou, fazendo bico, falsamente chateado.

– Desculpe. Não foi por mal. – Kai falou apressado, fazendo uma pequena reverência.

– Não faz diferença mesmo. – Pondo a mão sobre o ombro do moreno, Toshiya tranqüilizou o amigo. – Só saiu besteira aqui.

– Nós só te chamamos pra avisar que o jogo já vai começar e que já vamos nos reunir aos outros alunos.

– Ah... Então, boa sorte! – Kai respondeu ainda meio perdido.

– Torce por nós, ok? – Toshiya falou, começando a se afastar com Ryouta. – Apesar dos seus amores estarem no outro time.

Kai nem teve tempo de responder à provocação, pois os dois correram em meio à gargalhadas. O moreno viu seus amigos irem até o centro do campo onde os jogadores dos dois times se reuniam para começar a partida.

Sem que percebesse, os belos olhos negros procuraram por Aoi entre todos os que estavam em campo, seguindo com atenção cada movimento, cada gesto do mais velho. Foi então que um som mais alto de apito o fez notar que o jogo já estava pela metade. Contrariado com sua própria atitude, Yutaka deu tapinhas no rosto começando a prestar atenção na partida.

Shiroyama liderava a todos no jogo, seguido de perto por Miyavi. Embora Kai estivesse a uma grande distância, podia facilmente vislumbrar cada sentimento que passava pelo semblante de Yuu durante o jogo. O jovem também não pôde deixar de notar em como Aoi se destacava dos demais, não só pela tática superior, mas o próprio uniforme parecia ser outro, encaixando-se esplendorosamente no belo corpo.

Kai sabia que também estava bem vestido. Os olhares que recebeu durante toda a manhã deram prova disso. A calça jeans preta e a camisa branca se ajustavam perfeitamente em si, dando-lhe um ar sensualmente sério. Contudo, Aoi parecia ignorá-lo. Nem sequer olhou para ele uma só vez. Miyavi também não estava lhe dando atenção, embora o tenha flagrado observando-o por mais de uma vez.

Yutaka suspirou e pensou no quanto teria que penar para se ver livre dele. Sabia que Ishihara não desistiria fácil. A situação era absurda! Nenhum de seus conhecidos precisava sofrer tanto para livrar-se dos pretendentes.

Como permitira que as coisas chegassem a esse ponto? Uma voz interior o lembrava de que sempre usava a companhia de seus admiradores para servirem apenas de fachada, já que não queria se envolver com ninguém. Só pensava unicamente em Kenta e como não poderia tê-lo não queria mais ninguém. À medida que o tempo foi passando, a disponibilidade desses acompanhantes foi escasseando. Agora só restava Miyavi, e ele se perguntava o que iria fazer depois que o dispensasse. Apesar de tudo o rapaz de cabelos azuis alegrava aos eventos em que comparecia e tornava tudo mais suportável.

Cansado, Kai fechou os olhos, pensando em como seu amor resignado havia feito com que fosse uma pessoa solitária. Cansado do alvoroço ao seu redor o jovem começou a caminhar, afastando-se do campo.

Enquanto tais pensamentos o assolavam continuou a caminhar, entrando por entre as árvores sem que se dar conta, até que todos ficaram fora de vista

– Ah, tudo bem! – Exclamou em voz alta, permitindo-se relaxar, aproveitando o silêncio proporcionado pela distância do jogo.

Afinal, não estava mesmo interessado em ver ao jogo nem em assistir a vitória de Yuu. Não tinha dúvidas de que ele venceria. Os Shiroyama sempre se sobressaíam como excelentes em tudo aquilo que se propusessem a fazer.

Calmamente, o moreno se aproximou de uma árvore, observando as flores que desabrochavam, novamente se deixando perder em pensamentos. Estava arrependido de ter aceitado assistir ao jogo, quando nem mesmo era fã de multidões e algazarra.

Por que não dissera logo ao Aoi tudo sobre a morte de seu irmão de uma vez? Assim evitaria estar ali sozinho e muito mais importante, não estaria encantado por aquele homem sedutoramente arrogante.

Talvez tivesse sido a melhor saída mesmo. Depois se fecharia à sua vida na Universidade, concluiria seu curso com louvor, arrumaria um emprego na área e tentaria seguir sua vida em frente.

Um grito arrancou Kai de seus pensamentos. Um vulto se aproximava correndo em disparada. Perdido, o moreno mal teve tempo de virar-se e reconhecer quem era.

Na corrida desenfreada, Aoi conseguiu desviar-se das árvores enquanto seguia a bola com os olhos, porém, quando deu por si encontrou o jovem universitário estagnado em sua frente. E o inevitável aconteceu.

Ambos caíram... Ainda bem que o capim de onde estavam era alto e cerrado, assim amorteceu a queda, o único embaraço foi a posição em que ficaram. O corpo de Kai estava totalmente encoberto pelo de Aoi, as mãos do mais novo estavam agarradas ao uniforme vermelho.

– Ficou louco? – Perguntou Shiroyama, alarmado.

– Não diga nada, por favor – Kai pediu, com os olhos fechados e o corpo trêmulo. Estava desnorteado por ter sido desperto de seus pensamentos dolorosos de forma tão brusca.

O espesso capim que os circundava promovia um esconderijo conveniente. Ainda bem, porque, quando Yutaka abriu os olhos, as lágrimas de vergonha e emoção inundaram-lhe as faces. No entanto, ninguém, além de Yuu, poderia ver o tão controlado "Ratinho de Biblioteca", conhecido por sua notável seriedade e frieza, desmanchar-se em prantos.

– Mimado, bonito e... Irresponsável. – Aoi sussurrou em tom jocoso, enquanto erguia o queixo do moreno de forma delicada ao roçar seu nariz no dele.

Uke suspirou, abrindo os lábios involuntariamente. Ao ver aquilo o mais velho segurou o ar e num impulso irresistível e impensado, Yuu cobriu aquela boca perfeita num beijo devastador.

Apesar dos modos rudes de Shiroyama, o beijo era suave. O mais novo se deixou levar pela carícia reconfortante e em instantes os medos e as dúvidas desapareceram.

Por puro instinto, os dedos de Kai soltaram o tecido vermelho e deslizaram pelos ombros fortes até lhe alcançarem a nuca, onde inconscientemente fez afagos, massageando-lhe os cabelos negros.

Aoi reagiu com um gemido e retesou a musculatura do corpo inteiro. Enquanto o mais novo sentiu-lhe a masculinidade intumescida, apesar da barreira formada pelas roupas. Seu corpo se moldava ao dele, preenchendo as lacunas e contornando as protuberâncias. O encaixe era perfeito.

Yuu colocou as mãos por baixo do corpo ligeiramente menor e acariciou-lhe as costas, para em seguida deslizar as mãos até os quadris, pressionando-os com força contra os seus.

Yutaka tentou impedir-lhe os movimentos. Porém, com apenas uma das mãos Aoi aprisionou as dele. Ao mesmo tempo, ergueu a cabeça, interrompendo o beijo, para fitá-lo com ar de censura.

Aqueles olhos negros mantinham o jovem universitário cativo e extasiado. Kai nunca vira expressão mais bonita em um rosto masculino. Nem mesmo em Kenta. De repente, notou que a parte de cima da camisa do uniforme rasgara um pouco, deixando a mostra a pele alva.

Encantado com a visão, Kai explorou com o olhar cada parte, cada reentrância, querendo descobrir se ele também escondia algum mistério. De repente, Uke tomou consciência do que estava fazendo.

"O que está acontecendo com o reservado "Ratinho de Biblioteca"?", pensou o mais novo, intrigado.

– Estou surpreso! É bem mais sensual do que parece! – Aoi exclamou deslumbrado.

Kai abriu a boca para protestar, mas desistiu. As palavras não vieram em seu auxílio.

– Nenhum Comentário? Que estranho... – Provocou Shiroyama, com um incrível sorriso.

Kai pensou em dizer algo desdenhoso. Porém, outra vez, permaneceu calado.

– Um homem de poucas palavras é um tesouro a ser conquistado. Assim dizia meu pai. – Prosseguiu Aoi, divertido.

Yutaka duvidou muito que Ikeda Shiroyama, pai de Aoi, realmente tivesse dito aquilo, afinal, fora por causa daquele homem que o amor de sua vida acabou morrendo. Provavelmente o ser à sua frente tinha adaptado a frase àquela situação.

Kai estreitou os olhos numa tentativa de intimidar Aoi, mas de nada adiantou. O perfume que o mais velho usava, o calor do corpo e a visão do rosto bonito compunham uma obra deslumbrante demais para não ser admirada.

– Não tem nada ruim pra me dizer? – Aoi continuou as provocações.

– Eu... – Uke tentou falar, mas a voz soou estranha até mesmo para seus ouvidos.

Aliás, tudo lhe parecia estranho. E era, no mínimo, inusitado.

A maneira como estava entrelaçado com Shiroyama... Os corpos colados e suas pernas presas entre as dele, além das mãos aprisionadas. Para piorar, o tremor provocado pelo susto não lhe dava trégua.

– Será que pode me soltar agora? – Kai conseguiu dizer, assim que recuperou parte do próprio controle.

– Você já conseguiu arruinar meu Rugby. Qual é o próximo plano? – Yuu perguntou em tom baixo.

Yutaka o observou atônito, pois não conseguia entender o que Aoi queria dizer com aquilo.

– Você me arrancou dos pensamentos e trombou em mim nos fazendo cair. Acha que planejei isso? – O mais novo deixou a voz sair mais alta, indignado.

– Acredito que tudo o que acontece entre nós faz parte da sua criteriosa estratégia. Veja como tudo se encaixa; Assim que o jogo terminar, todos vão notar a nossa ausência, mesmo porque estranharão por eu não ter sido o artilheiro do jogo. É claro que o senhor Ishihara não vai se importar, porque terá a chance de se destacar em meu lugar. Sem contar que justamente ele está caído de amores por você.

– Está enganado, não faço tantas artimanhas assim. – Kai disse num sussurro, uma vez que ele estava tão próximo que podia sentir-lhe a respiração no rosto.

– Ouvi a confissão de Miyavi no coreto naquela noite. Só não entendi porque me mandou encontrá-lo ali. Queria que eu testemunhasse a declaração dele?

– Não é o que está pensando. Mas isso não importa agora. Eu lhe mandei o bilhete porque... Preciso lhe contar algo muito importante.

– Oh, estou certo de que tem muitos segredos... Apenas espere o efeito desse último terminar.

Kai o fitou, surpreso.

– Não sei porque está me olhando dessa maneira. Tenho certeza de que me convidou propositalmente para provocar ciúme em Ishihara e forçá-lo a declarar-se.

– Não é um jogo! – Kai gritou não acreditando no que ouvia.

– Eu já sabia que diria isso. – Aoi respondeu simplista.

Kai forçou-se a relaxar. Depois pediu:

– Por favor... Me deixa ir embora.

– Primeiro explique-se. – Aoi apertou um pouco mais as mãos do mais novo.

– Explicar o quê?

– O jogo do namoro. Por que estou incluído nessa brincadeira?

Desanimado, Kai tentou convencê-lo com outros argumentos:

– O fato de Miyavi me procurar não significa que eu esteja fazendo algum tipo de brincadeira.

– Por que o atraiu para o coreto e depois o abandonou lá? – Aoi perguntou olhando fundo nos olhos negros de Kai.

– Não foi o que aconteceu. – O mais novo se defendeu.

– Eu já lhe disse, ouvi tudo. Confio mais nos meus ouvidos do que nas mentiras de interesseiros. Só não entendi quais eram suas razões.

– Não tenho que lhe dar explicações. – Kai se mexeu, tentando se soltar, revoltando-se com o rumo da conversa.

– Deseja que eu o liberte? Então me diga a verdade. Está pretendendo enlouquecer o Ishihara?

– Como disse?

Aoi encarou-o, deixando o olhar passear pelo peito alvo que a camisa entreaberta deixava a mostra, depois pela boca, para por fim esboçar um sorriso. Por maiores que fossem seus esforços para lutar contra a sensação inebriante que lhe dominava o corpo, Kai sabia que aquele homem fascinante já o havia seduzido.

– Sabe muito bem o que eu quis dizer. – Shiroyama inclinou o corpo um pouco mais, aproximando os lábios de ambos.

– É verdade! E, se falar mais alguma coisa, vou agredi-lo. – Kai estava inquieto. Aquela proximidade toda estava afetando seu raciocínio lógico. Precisava se afastar para poder restaurar seu autocontrole.

– Esqueceu que suas mãos estão presas? – Yuu perguntou com sarcasmo fingido e tensionou a mão que mantinha as do jovem aprisionadas, para provar sua força.

– Com meu joelho – Respondeu o moreno e ao mesmo tempo tentou erguer um deles.

Porém, por mais força que fizesse, era inútil. Não conseguia romper a barreira de pernas. A posição em que estavam dava muito mais vantagens a Shiroyama. Estava perdido!

– Quer tentar novamente? – Aoi indagou, provocando o mais novo com uma piscadela.

Naquele instante, algumas vozes foram ouvidas. Yuu ergueu a cabeça na tentativa de ver quem estava chegando e o gesto fez com que aproximasse o tronco ainda mais do rosto de Kai, justamente no ponto onde o uniforme rasgara.

A pele alva se sobressaía sob o tecido vermelho. O perfume másculo deixou Yutaka entorpecido, uma onda inebriante de prazer, iniciando em seu baixo-ventre, tomando conta da razão. Sob os efeitos do êxtase de estar tão próximo àquele corpo, a curva do pescoço quase colado à sua boca, ele por pouco não passou a língua na pele suada para deliciar-se com a seiva única que dali emanava.

– Se continuar me observando desse jeito, vamos ser descobertos em situação mais comprometedora do que a em que já nos encontramos – Aoi comentou, notando o jovem umedecer a boca com a ponta da língua e adivinhando-lhe as intenções.

A fim de impedir que as fantasias o dominassem, Kai fechou os olhos, privando-se daquela visão única. Precisou contar até dez para voltar a encará-lo com uma calma aparente.

– Você está enganado. – Kai fez a maior expressão de pouco caso que conseguiu. – Ouso até a dizer que sua companhia não é das melhores que conheço.

– Isso significa que não está esperando uma proposta de um relacionamento entre nós depois de toda essa armação?

"Relacionamento? Armação?", as palavras de Shiroyama fizeram com que o sangue de Kai entrasse em ebulição, indo se concentrar inteiramente nas bochechas, deixando-as ainda mais vermelhas e as covinhas ainda mais em destaque.

– Eu não quero me envolver e acabar por gostar de alguém... – Afirmou Kai, titubeante, ao se lembrar de quão infeliz foi e é seu amor por Kenta, acrescentou: – ...De novo.

– Por quê? – Yuu não escondeu a curiosidade na voz.

– Porque, o quê? – Repetiu Kai de forma automática.

– Todo mundo sonha em se apaixonar. Construir uma vida a dois. Isso não é uma necessidade humana?

– Está errado mais uma vez. Se existe algo de que eu tenho certeza é que não me envolverei com ninguém.

Aoi lançou um olhar curioso ao jovem sob si e aos poucos relaxou os músculos, libertando-o.

– Se está falando a verdade, preciso pensar em outras hipóteses para o jogo – Shiroyama falou alto, enquanto se erguia. – Importa-se se eu acompanhá-lo no jantar?

– Para ser franco, os acontecimentos de hoje me deixaram exausto. Prefiro que minha refeição seja servida no quarto. – Respondeu o mais jovem, pondo-se de pé e alisando a camisa com as mãos.

– Vai jantar sozinho? – Perguntou Aoi, olhando-o se limpar.

– Não. Toshiya, o amigo com quem divido o apartamento me fará companhia.

– Então ninguém achará estranho se eu estiver presente. Peça três jantares.

– Em meu quarto? – Indagou Kai, chocado.

Algumas vozes foram ouvidas.

– Eles já estão chegando. – Sussurrou Yuu. – Faça uma expressão como se tivesse assustado com a queda e não comigo.

Kai desviou o olhar. Será que estava tão perceptível o desejo que Aoi lhe provocava? Quando voltou a encarar o mais velho, percebeu o sorriso arrogante invadir-lhe o semblante e contendo um suspiro virou observando alguns alunos se aproximarem.

Depois que os dois contaram como foram parar ali e o motivo para perderem o final do jogo, todos começaram a caminhar de volta para a parte central do sítio para almoçarem e irem para as atividades da tarde.

Caminhando lado a lado Aoi observava atentamente cada gesto feito pelo mais novo. Admirando a graciosidade dos movimentos. Mordendo o lábio inferior, se aproximou um pouco mais do jovem e sussurrou:

– Ainda bem que não fizeram especulações sobre nós dois estarmos sozinhos no meio do nada.

– E daí? Não vejo o porquê desse seu comentário agora. Já fomos alvos de comentários, mesmo sem motivos. – Kai respondeu em tom baixo, meio irritado por novamente ser arrancado de seus pensamentos.

– Aliás... – Aoi inclinou a cabeça, intensificando o olhar e sussurrando ao pé do ouvido de Kai. – Essa era a razão do bilhete e tudo o mais. Esperava uma proposta de 'casamento' minha, e não de Ishihara, não é?

Parando de andar, Kai encarou Aoi com um brilho mortal no olhar e deixou a voz sair rispidamente:

– Não. Definitivamente, não!

Yuu também parou e ficou olhando o jovem por alguns instantes. Depois deu as costas e sem dizer mais nenhuma palavra voltou a caminhar em um ritmo mais acelerado.

ooOoo

Após o jantar servido no quarto, Kai resolveu deitar-se, embora ainda fosse cedo para dormir. Toshiya lhe confidenciara que Shiroyama Yuu tinha apresentado desculpas por ele, alegando cansaço pelas agitações do dia.

– Maldito! – Kai exclamou mais alto do que desejava e socou a coberta com raiva. Após Aoi se afastar dele depois do beijo, Kai sabia que não teria mais o jantar no quarto que havia proposto.

Toshiya já havia saído do quarto para dar uma volta noturna com Ryouta. Apesar de que Totchi insistira para dormir novamente com o amigo. Kai que o obrigara a ir se divertir com os outros rapazes e dormir no próprio quarto para descansar melhor.

Tornando a pensar em Aoi, Yutaka decidiu que dali para frente recusaria tudo o que se referisse ao herdeiro dos Shiroyama. Não queria mais nada daquele homem, apenas contar-lhe a verdade sobre a morte do irmão. Só não sabia como apagar a lembrança do calor do corpo ardoroso sobre o seu e a intensidade do desejo que o dominou ao ser beijado com sofreguidão.

Arrumando-se melhor na cama, Kai desligou o abajur, a única fonte de luz no quarto depois que Toshiya havia saído. A maciez do colchão de penas e a penumbra do ambiente ajudaram o jovem a relaxar, não tardando a cair num sono profundo.

ooOoo

– Kai?

O sussurro rouco e o cheiro de álcool despertaram o moreno e, sobressaltado, sentou-se na cama.

– Ainda está acordado, meu amor?

– Vá para seu quarto, Miyavi! – Ordenou o jovem, reconhecendo-lhe o vulto.

– Não desta vez, Kai-Chan. Não desta vez.

A cama rangeu quando o rapaz de cabelos azuis se deixou cair pesadamente sobre o colchão.

Embora sonolento, Kai teve agilidade suficiente para pular fora da cama e tentar correr na direção da porta.

– Kai?! Espera! – Myv gritou, erguendo-se e conseguindo deter o outro, antes que alcançasse a saída.

Miyavi segurou o moreno pelos ombros e, com os lábios ávidos, procurou-lhe a boca para beijá-lo.

– Não, Myv! – Berrou Yutaka, tentando desvencilhar-se.

O universitário ouviu então o barulho da camiseta que usava rasgando-se sob a pressão dos dedos de Ishihara, enquanto ele o puxava para a cama.

– Não tem idéia de como sonhei com este momento. – Miyavi sussurrou de forma apaixonada.

Uke apenas via o vulto de Takamasa e sentia o peso do corpo dele sobre o seu. A boca aberta de Myv procurava os lábios do moreno. Apavorado e cheio de asco, Kai conseguiu empurrá-lo.

– Para com isso ou posso machucá-lo. Só quero fazer amor com você. –

Kai odiou o outro rapaz naquele momento. Miyavi já se achava no direito de tratá-lo de forma tão vulgar? E depois dizia amá-lo...

– Vai gostar, prometo. Depois iremos morar juntos e aproveitaremos uma vida feliz e cheia de amor e prazer.

Kai percebeu que o outro já começava a baixar sua calça de moletom. Procurou, desesperadamente, algo com o qual pudesse defender-se e afastá-lo de si. Tudo o que conseguiu alcançar foi o abajur de metal na mesinha ao lado da cama.

– Eu sempre quis que você me amasse. Esperei com paciência todos esses anos. Mas agora, já que não há outro jeito, vou forçá-lo...

Kai, por instinto de proteção, atingiu Miyavi na cabeça com o abajur. O rapaz tombou pesadamente sobre seu corpo. Yutaka sentiu um líquido quente espalhar-se sobre seu peito. Apavorado, e sem tempo para raciocinar, remexeu-se com todas as forças que o corpo sonolento lhe permitia e conseguiu desvencilhar-se, escorregando por baixo do corpo inerte do mais velho, terminando por cair no chão.

Recuperando o equilíbrio, Yutaka ergueu-se e permaneceu por alguns segundos olhando para o homem estendido em sua cama. Apesar da pouca iluminação que provinha apenas dos raios da lua cheia que atravessavam as frestas da janela, percebeu que Miyavi estava imóvel.

– Oh, por Kami! Eu o matei! – O moreno exclamou ao mesmo tempo em que um tremor incontrolável sacudia seu corpo inteiro.

– O que eu vou fazer agora? – perguntava-se, apavorado, passando as mãos nervosamente pelos cabelos.

O primeiro pensamento que lhe veio à mente foi o de fugir dali o mais rápido possível. Poderia pedir um taxi e ir até a rodoviária para voltar para casa...

"Não! Não seria uma boa idéia!", Kai refletiu com um pouco mais de calma. Seria melhor chamar Toshiya para ajudá-lo. E foi o que fez.

Saindo do quarto rapidamente, fechou a porta silenciosamente e começou a caminhar depressa pelos corredores.

"Oh, Kami! Ajude-me!", Kai pediu baixinho, ao procurar a entrada que permitia o acesso à escadaria que conduzia ao terraço. Nunca havia estado lá, mas imaginava que era onde o amigo estaria com os outros rapazes.

Dando um longo suspiro para tomar coragem, o moreno encaminhou-se para a porta que ficava do outro lado do hall, no andar térreo. Porém, antes que abrisse a porta, foi agarrado por trás e suspenso no ar por dois braços longos e fortes.

Continua...


Depois de meses finalmente esse novo capítulo vai ao ar...

Depois de muita luta para escrevê-lo, betá-lo e revisá-lo, eis aqui a continuaçõa dessa narrativa.

Relembrando que essa fic é dedicada a uma pessoa que me ajudou muito no meu inicio dessa 'vida pecaminosa', me estendendo a mão e me apresentando a pessoas maravilhosas, bandas magnificas e a tudo o que conheço hoje. Lady Bogard, Kaline, essa fic é toda sua.

Mesmo essa fic sendo presente para Kaline, quero dedicar esse capítulo à minha marida linda, Koi FOREVAH e EVAH, que tem sido minha cobaia e companheira constante de surto. Aria, feliz aniversário!!!

Agradeço de coração à minha Mommis, Amiga e Beta Lady Anúbis, por toda a força que me deu para que eu não desistisse do texto e por betá-lo magnificamente bem. TE AMO!!!

E agradeço também a todos os amigos que estão sempre ao meu lado e as pessoas que leram.

Bem... Até a próxima!!

Beijos,

Eri-Chan

20 de Novembro de 2009 - 20h:42min