Título: Indomitable Passion
Autora: Eri-Chan
Beta: Lady Anúbis
Fandom: The GazettE e Dir en Grey
Casal: Aoi x Kai
Classificação
: NC-17
Gênero
: AU, angust, romance
Disclamer: the GazettE, Miyavi e Dir en Grey não me pertencem e sim à PS Company, que detém seus respectivos direitos autorais.
Sinopse: Ele sabe que aquele homem pode ser a realização de seu sonho... Ou de seu pior pesadelo. Pois Kai guarda segredos que poderão mudar a vida de ambos. Antes de revelá-los, porém, ele precisa conquistar o coração daquele homem indomável.
Observação: Fic presente de aniversário para minha amada Sensei, Lady Bogard. É minha forma de agradecer sua atenção e carinho. Sensei, você merece cada palavra escrita aqui. Perdão por chegar TÃO atrasado *se mata*

Indomitable Passion
Eri-Chan

Parte III

Por conta do susto, Kai começou a espernear tentando com todas as forças se soltar dos braços que o prendiam. Por um momento pensou que era Miyavi que o seguira, mas a força empregada para contê-lo e o fato do ferimento que causara nele ter sido o bastante para fazê-lo perder a consciência lhe dizia o contrário. O desespero do moreno aumentava a cada segundo, até que uma voz rouca chegou aos seus ouvidos.

– Pare com isso, garoto. – A poderosa voz com sotaque britânico advertia, enquanto caminhava com um pouco de dificuldade, segurando Kai pelos braços e mantendo-o erguido.

Com um dos pés, o homem chutou uma das portas que ficava do outro lado do hall. Depois de entrar, ele colocou o moreno no chão, embora o mantivesse aprisionado pelos braços.

Kai olhava a sua volta tentando se localizar, mas a penumbra do cômodo o impedia de ver se já estivera naquele lugar antes. Estar ali não o confortava de forma nenhuma, ao contrário, sentia-se ameaçado e nem sabia ao certo o porquê até que ouviu uma outra voz rouca surgir da porta de ligação daquele cômodo com outro.

– O que significa isso Rick? – Aoi perguntou ao homem que acabara de entrar no quarto, segurando o jovem universitário.

– Eu o apanhei tentando escapar pela saída dos empregados. – Mais uma vez a voz carregada com sotaque britânico rugiu, agitando Yutaka que permanecia preso.

Shiroyama entrou no campo de visão de Kai, e aproximando-se o moreno inspecionou o jovem mais de perto. Sua face estava séria e ele parecia querer sondar a expressão assustada estampada no rosto de Kai.

Yutaka, apesar de todo o nervosismo, notou que o mais velho trajava um roupão comprido, num tom verde-claro, o que o fazia parecer mais alto, e isso o inibia um pouco, fazendo-o se encolher inconscientemente entre os braços de Richard.

– O que aconteceu? Está coberto de sangue! – Shiroyama exclamou surpreso ao ver o estado em que as roupas de Kai se encontravam.

– Miyavi... – Kai começou a falar, mas não conseguiu prosseguir, desviando os olhos para o chão.

Apesar de todo o desespero que sentia, Yutaka se sentia ainda mais confuso e assustado na presença daquele homem. Não sabia o que fazer, como agir ou o que falar e isso o angustiava. Queria sair dali o mais rápido possível, mas ao mesmo tempo, algo dentro dele simplesmente o impedia de se mover.

– Precisa me contar o que houve ou não poderei ajudá-lo. – Aoi disse com firmeza, atraindo a atenção para si.

– Eu... – O jovem respirou fundo, tentando controlar o ímpeto de cair no choro, tentando achar força para continuar falando. – Acho... Que o matei.

– Como? Por quê?

Kai entreabriu os lábios, mas por mais que articulasse nenhum som saia. Sua respiração saia entrecortada e seus olhos ardiam, marejando rapidamente. Fechando os orbes negros com força, o jovem abaixou a cabeça, cerrando os punhos, tentando achar equilíbrio para encarar o homem a sua frente.

Yuu tirou o roupão e jogou em cima da cama, revelando estar somente com uma boxer negra. Em silêncio, o moreno vestiu uma calça preta e uma camisa da mesma cor. Para finalizar, calçou coturnos negros com detalhes prateados. Caminhou calmamente pelo quarto, parando em frente ao espelho, prendendo os fios negros para trás e pegando uma fina corrente prateada com pingente de dragão prendendo-a em seu pescoço alvo.

Richard, que ainda segurava Kai, libertou-o, afastando-se ligeiramente ao ver Shiroyama se aproximar. Uke, porém, mal conseguia manter-se de pé, a adrenalina do momento havia passado e um cansaço avassalador tomava conta de cada parte de seu corpo.

– Onde ele está? – Aoi perguntou, segurando o jovem universitário pelos ombros, obrigando-o a encará-lo.

– Na... Na minha... Cama. – Yutaka sussurrou.

Yuu meneou a cabeça em reprovação, soltando o moreno, afastando-se claramente contrariado.

– Ishihara entrou no meu quarto no meio da noite e... O mandei embora, mas ele... – O tremor em sua voz o fez parar por um instante, até que, por fim, despejou de uma vez – Juro que não queria que isso acontecesse.

– É difícil acreditar que tenha acontecido algo que você não houvesse planejado antes... – Murmurou o mais velho.

– Eu já disse que não fico perdendo meu tempo planejando coisas absurdas! – Kai exclamou veemente, cruzando os braços.

Aoi ignorou as palavras do moreninho e ergueu seus olhos negros para o homem que permanecia em silêncio perto da porta do quarto.

– Viu mais alguém Rick?

– Não. Ele estava sozinho. – A voz de Richard ecoou pelo cômodo, provocando um arrepio nervoso em Yutaka.

– Nenhuma testemunha? – Aoi perguntou sério, vendo seu amigo negar com um gesto de cabeça.

– Esteve vigiando por toda a noite?

– Sim. Não sai um instante sequer da minha posição.

– Então como ele subiu as escadas sem que o visse? – Aoi não escondeu a raiva em sua voz.

Ao ouvir essas palavras Kai franziu o cenho, olhando de Aoi para Richard e voltando a encarar Aoi. Que história era aquela de estar sendo vigiado? Aquilo não o agradara em nada. Uma revolta genuína tomou conta de seu ser e sem perceber deu um passo a frente.

– Pare com isso! Você não está entendendo? Ele tentou... – Uke explodiu sem pensar, angustiado e nervoso, mas parou ao perceber que não conseguia falar o que poderia ter acontecido naquele quarto.

Kai viu Aoi virar-se para encará-lo, mas preferia que ele não tivesse feito isso. Não havia nem sequer um mínimo ponto naquele belo corpo que não estivesse tensionado. Em silêncio, Yuu aproximou-se e, estendendo as mãos, ergueu a parte da camiseta, que estava rasgada, e colocou-a de volta nos ombros marcados. O tecido de algodão branco estava tinto de sangue.

– Ele queria... – Kai olhou fundo nos orbes negros que o encarava de forma intensa. – Ele... Rasgou minha camiseta.

Os nervos retesados do maxilar de Yuu revelavam a fúria por trás dos traços definidos. Seus orbes negros irradiavam um brilho letal e seus punhos estavam cerrados, quase cravando as unhas nas palmas das mãos.

– Não ouse sair desse quarto. – O moreno esbravejou em tom autoritário.

– Mas... – Kai tentou argumentar. Não podia ficar ali esperando que descobrissem o que fizera.

– É uma ordem. – O mais velho não deixou Yutaka continuar.

Se afastando com passadas rápidas, Aoi se aproximou de Richard, pondo a mão sobre seu ombro.

– Limpe tudo aqui. Mas antes queime a roupa de dormir dele e arranje-lhe algo para vestir. Pode pegar alguma roupa minha no guarda-roupa. É até melhor.

Terminada todas as determinações, Yuu saiu, batendo a porta atrás de si, sem nem ao menos olhar para o jovem que estava parado, estático, encarando a porta com uma expressão vazia.

Kai estava meio tonto. Tudo parecia acontecer rápido demais. Num instante estava tentando escapar de Miyavi e agora se encontrava naquele quarto, sem saber como seria seu futuro. O moreno estava tão mergulhado em seus pensamentos que se assustou quando a voz de Richard chegou até ele.

– Você o ouviu. Dê-me sua roupa.

O tom autoritário irritou o moreno, que apenas virou-se e olhou o jovem de cabelos castanhos a sua frente. Encarou com firmeza aos olhos verdes de Richard e com um brilho de desafio nos orbes negros apenas meneou a cabeça numa negativa.

– É uma ordem do Shiroyama! – O homem exclamou sem se deixar abalar.

– Não sou obrigado a obedecer às ordens dele. – Yutaka rebateu arrogante, apertando ainda mais os braços contra seu corpo.

– Então terei que tirar sua roupa à força. – O jovem de olhos verdes disse de modo simplista.

– Você não ousaria... – Kai descruzou os braços e deu dois passos para trás, se pondo na defensiva.

– Não me force a provar. – A voz rouca disse em um tom de advertência.

Yutaka parou por alguns instantes, olhando bem fundo nos olhos verdes e sentiu que o jovem a sua frente era bem capaz de fazer o que falara. Sentindo-se cansado demais para resistir, o moreno resolveu ceder.

– Há algum lugar onde eu possa ter um pouco de privacidade? – O universitário perguntou, querendo ganhar um pouco mais de tempo.

Richard não disse nada, apenas gesticulou com a cabeça para a porta por onde Aoi havia surgido que levava ao banheiro da suíte.

– Não demore ou poderemos ser surpreendidos por alguém antes que eu tenha tempo de queimar a roupa.

Sem esperar que o outro falasse mais nada, Kai caminhou para o banheiro com passos lentos, como se carregasse o mundo nas costas. Não podia acreditar no que tinha acontecido em tão pouco tempo. Havia matado Miyavi e agora envolvera Shiroyama Yuu nas suas intermináveis confusões. A julgar pelas atitudes do moreno, Kai desconfiava que ele fosse tentar encobrir o crime, para impedir que fosse preso.

Mas o que aconteceria quando encontrassem o corpo de Ishihara? E o que viria a seguir, quando soubessem que ele estava em sua cama? Se todos pensavam que eram amantes, quem acreditaria na sua história? O mais provável era que imaginassem um crime passional.

Uke parou em frente a pia, abrindo a torneira num gesto automático, enchendo as mãos com o líquido gelado e molhou o rosto por diversas vezes. Depois olhou no espelho e assustou-se com a própria palidez. Havia assassinado um homem e não tinha como voltar atrás. Mas, o pior era pensar que perderia tudo aquilo pelo qual tanto lutara. De que adiantara ter passado meses estudando e se preparando para entrar em uma das Universidades mais conceituadas do Japão se agora teria que desistir de tudo por causa desse crime.

O jovem afundou o rosto na toalha, segurando a vontade de gritar que assolava seu ser. Porém, tudo era inútil. Por mais que tentasse vislumbrar uma luz, tudo lhe indicava que estava perdido e que teria que recomeçar do zero.

Lentamente, colocou a toalha no lugar, começando a retirar a camiseta, sentindo todos os seus músculos reclamarem de dor, obrigando-o a parar por uns instantes. Quando recomeçara a despir-se, sentiu mãos segurando as suas.

– Eu o avisei. Não posso mais esperar. – O forte sotaque britânico soou baixo.

Richard estava ao lado do moreno, com as linhas do rosto endurecidas e os lábios contraídos. Em segundos, livrou o jovem universitário da roupa e se afastou. Logo depois a porta foi aberta e fechada novamente. Restou apenas um silêncio pesaroso. Uke abaixou a cabeça e permaneceu assim por um longo tempo.

"E agora, o que é que vou fazer da minha vida?", o moreno pensou, enquanto deixava uma lágrima solitária banhar seu rosto.

ooOoo

Horas de angústia e silêncio para Kai se arrastaram no quarto de Aoi. Mais pareceram séculos. Andando de um canto para outro, vestido com um roupão azul marinho do mais velho, por mais que o jovem se movimentasse ainda sentia-se preso. Estava agoniado por não saber o que estava acontecendo fora daquele cômodo.

O relógio de cabeceira ao lado da cama de Shiroyama marcava quatro horas da manhã, mas o sono não vinha. Sua cabeça estava mais ocupada em pensar o que fazer quando descobrissem seu crime.

"Aonde será que Aoi foi? Será que ele sumiu com o corpo de Miyavi?", Kai se perguntava a todo instante. Aquela demora toda o estava matando aos poucos.

Apesar de o quarto ser aquecido, o corpo do moreno ainda tremia. Possivelmente, pela extrema tensão. Como explicariam o sumiço de Ishihara Takamasa? Ele não poderia simplesmente desaparecer! Ele tinha uma família que o esperava e amigos que o amavam e, que com certeza iriam procurá-lo. Por um instante, Uke sentiu-se envergonhado de nunca haver perguntado a ele sobre sua família. Desde que o conhecera, toda vez que se viam, Yutaka sempre tinha que dar um jeito de driblar o jovem exótico, mas agora percebeu como não tinha sido um bom amigo pra ele.

O som da maçaneta da porta girando atraiu a atenção do moreno que rapidamente se pôs de pé. O coração de Kai deu pulos ao ver Aoi entrando no quarto acompanhado do diretor da Tokyo Gakugei e mais três homens, além de Richard.

Porém, dentre todos eles, o que mais chamou a atenção do universitário foi um senhor alto e robusto, de olhar desconfiado, trajando um terno formal azul marinho. À primeira vista, aquele homem parecia um inspetor da policia. Mas seus pensamentos se dispersaram ao ver Yuu se aproximando.

– Desculpe, querido. Não pude preveni-lo antes. Estes homens querem falar com você. – A voz, assim como a expressão de Shiroyama eram suaves, o que deixou Kai confuso.

Aoi acabou com a distância entre eles e, com um dos braços longos e fortes, enlaçou a cintura de Yutaka, colando-lhe o corpo ao seu. Uke apenas ergueu o rosto para encará-lo, sem nada entender. Viu apenas o brilho intenso dos olhos negros, que apesar da gravidade da situação pareciam sorrir.

– Foi como eu lhes disse, senhores. Não era necessário perturbar meu namorado. – Shiroyama continuou em um tom calmo e confiante.

"Namorado? Ele disse que sou namorado dele?", Yutaka surpreendeu-se, sentindo o abraço se intensificar de tal modo que foi obrigado a passar seu braço pelas costas do outro, segurando-lhe pela cintura para não perder o equilíbrio.

– Sinto pelo constrangimento Shiroyama-sama. Mas tenho algumas perguntas a fazer. – o homem robusto pronunciou-se, claramente perturbado ao ver os dois homens abraçados, retirando do terno um distintivo policial, confirmando as suspeitas anteriores de Kai.

Uke ouvia a voz e imponente do oficial da polícia, que parecia vir de muito longe. O moreno sentia como se estivesse vivendo um pesadelo, do qual poderia acordar a qualquer momento. Aquilo era tão surreal, que se não estivesse sentindo o calor e o perfume gostoso do corpo colado ao seu, com certeza faria de tudo para despertar desse sonho indesejado.

– Contou... A eles...? – Kai sussurrou a pergunta, olhando diretamente para os orbes negros de Yuu.

Mas antes que pudesse terminar de falar, Aoi o interrompeu, passando sua mão pelo braço gelado do jovem.

– Sim. Mas eles estão relutantes em aceitar o óbvio. Querem ouvir de seus próprios lábios.

– O quê? – Uke perguntou de forma automática.

– Que esteve aqui durante toda a noite. – Aoi respondeu com um sorriso e ao mesmo tempo inclinando a cabeça e afagando as faces coradas com a ponta do nariz.

Um dos seguranças tossiu fazendo um ruído insinuante, trazendo Kai de volta à realidade. O moreno se deu conta de que estava nos braços de Shiroyama, no quarto dele, só com um roupão e sendo abordado por um policial sobre o assassinato de Miyavi

Kai entendeu por fim, o plano de Aoi. O mais velho era, sem dúvida alguma, um excelente ator. Estava se arriscando para protegê-lo! O que era uma grande tolice. Mas não podia negar que aquilo aquecia seu coração. Afinal, aquele homem tão arrogante, podia ter um bom coração.

"Só espero que ele saiba o que está fazendo e não se arrependa depois...", Kai pensou, suspirando baixinho.

– Ratinho? – A voz carinhosa de Aoi tirou Yutaka dos devaneios. – Eles estão aguardando sua confirmação.

– Bem, eu... – O jovem titubeou, sem saber o que dizer, confuso pelo apelido usado por Shiroyama.

– Isso é mesmo necessário? Eu estava aguardando para anunciar nosso relacionamento depois que os papéis da herança do meu irmão chegassem a Tokyo.

"Relacionamento? Papéis? Eu ouvi direito?", Yutaka interrogou-se em pensamento. Do que aquele homem estava falando afinal?

– Receio que não será possível, depois do terrível acidente no quarto do jovem. – Respondeu o inspetor com a cara emburrada.

Uke sentiu as pernas bambearem, mas como estava seguro nos braços de Aoi, não dava para ninguém perceber. Sua cabeça estava girando mais que nunca. Tudo o que queria é que aquela situação acabasse de vez.

– Como o diretor e eu estávamos comentando, deve ter sido um ladrão. – Aoi falou, olhando para o policial.

– Parece que Ishihara-san ouviu algum barulho e foi investigar. – Acrescentou o diretor.

– Ele está... – Arriscou Kai, sem coragem para terminar a frase.

– Inconsciente. Ainda não sabemos a gravidade do seu estado. – Foi o diretor que respondeu, sorrindo gentilmente para o moreno.

O universitário deu graças aos céus por Aoi ainda estar segurando-o. O alivio daquela notícia era tão grande que sentia que poderia desabar e cair no chão. Suas esperanças foram renovadas e aquilo lhe dava forças para aguentar tudo o que haveria de vir até terminarem o interrogatório e as investigações.

– É lastimável que tudo isso tenha acontecido em seus aposentos, meu jovem. – O diretor prosseguiu, falando tão alto que poderia acordar qualquer um que ainda estivesse dormindo. – Por outro estou surpreso com a novidade do relacionamento de vocês. Eu sabia que Shiroyama-sama estava à procura de alguém, mas não imaginei que fosse encontrar tão rápido. Como conseguiram disfarçar?

O inspetor tossiu intencionalmente e interveio na conversa, dando um passo a frente e encarou seriamente ao mais novo, sua expressão nada satisfeita.

– Jovem, confirma que esteve a noite inteira neste quarto com Shiroyama Yuu?

– Eu já lhe disse isso! – Exclamou Aoi, em tom de contrariedade.

Kai ergueu sua mão livre, tocando com delicadeza no queixo de Aoi, forçando-o a mover o rosto em sua direção. Depois piscou docemente, depositando um beijo na bochecha dele.

– Acalme-se, querido. – O mais novo falou numa voz melosa.

Não havia outra escolha, a não ser colaborar com a atuação de Shiroyama. Era uma questão de sobrevivência. Yutaka visava seu futuro e, sinceramente, esperava que estivesse fazendo a escolha certa.

– Confirma que estão se relacionando? – Insistiu o chefe de polícia.

Odiava ter que mentir, mas se vestindo de uma máscara neutra Uke olhou para Aoi, que continuava imóvel e tenso, antes de responder. Meneando a cabeça num gesto afirmativo, o jovem universitário apertou um pouco mais o abraço.

– Por que duvida da palavra do Aoi? Acha isso correto inspetor? – O mais novo questionou com uma entonação arrogante.

Olhando novamente para Aoi, o viu sorrindo discretamente ao observar o inspetor corar ante as palavras dele.

– Perdoe-me. É que existem alguns fatos que estão me atordoando. – O policial começou sem jeito.

– Quais fatos? – Yuu perguntou, um brilho divertido nos orbes negros evidenciava a satisfação de ver o policial encabulado.

– Os lençóis da cama estavam revoltos, evidenciando que alguém os tinha usado. Como o senhor confirma ter dormido aqui, isso me deixa intrigado. Além do mais, havia um roupão na cadeira, ao lado da cama, ainda úmido. A menos que tenha emprestado o quarto a outra pessoa, não sei como esclarecer o ocorrido.

Kai estreitou o olhar. O homem era obstinado. Se não tomasse cuidado, todo aquele teatro iria por água abaixo. Teria que improvisar algo... E rápido!

– Já que não poderemos mais guardar segredo sobre nosso relacionamento, é melhor dizermos logo a verdade, não é, querido? – Yutaka suspirou, sorrindo em seguida ao mirar os orbes negros de Aoi.

Yuu limitou-se a assentir, não tendo a mínima ideia de até aonde aquele jovem iria com aquilo. No fundo estava se divertindo com toda aquela situação, pois podia ver a face sem mascara do jovem ao seu lado, e aquilo o agradava de uma forma, até então, desconhecida. Seus dias tediosos haviam acabado desde que se encontrara pela primeira vez com aquele jovem impetuoso.

Kai afastou-se minimamente do corpo quente de Aoi e encarou o inspetor, procurando se acalmar e sorriu mostrando suas covinhas, enquanto passava a mão pelos fios castanhos.

– Remexi os lençóis para dar a impressão de que tinha dormido ali. E, pela mesma razão, deixei meu roupão sobre a cadeira. Preparei a cena toda para que quando, quando meu amigo Toshiya voltasse para o quarto, não suspeitasse de nada. Assim evitaria comentários maldosos. – O moreninho suspirou, desvencilhando-se do abraço e entrelaçando sua mão na de Shiroyama.

– Bem, acho que tudo foi esclarecido. – Concordou o chefe de polícia.

– Nunca imaginaria o que iria acontecer com Ishihara-san. Acredito que tive muita sorte por não estar lá, quando o ladrão entrou.

– Ainda bem que você não estava lá, senão não sei o que poderia ter acontecido. – O diretor se manifestou. – Seria ainda pior se algo acontecesse com um de nossos alunos.

– Bem, se tudo já foi esclarecido eu adoraria desfrutar da devida privacidade com meu namorado. – Aoi disse num tom indiferente.

– Está certo. Peço perdão novamente por incomodá-los. – Fazendo uma leve reverencia, o inspetor saiu do quarto acompanhado pelos seguranças e por Richard.

– Tenham uma boa noite. E mais uma vez perdão. – O diretor imitou o policial e também se retirou do quarto, deixando os dois morenos sozinhos.

Aoi se afastou de Kai no momento em que a porta foi fechada e, com passos rápidos, foi até a porta trancando-a e retirando a chave, guardando-a no bolso da calça. Em silêncio, voltou-se para o jovem e sorrindo esperou por uma reação.

Kai sentia o corpo trêmulo e temendo que as pernas não o sustentassem por muito tempo, caminhou até a cama, sentando-se nela, encarando ao homem mais velho. Em sua cabeça diversas perguntas surgiam, mas para nenhuma delas encontrava uma resposta satisfatória. Cansado, fechou os olhos.

– É melhor você ir dormir um pouco. Tivemos uma noite agitada. – Yuu disse, se aproximando um pouco.

– Precisamos conversar... – Yutaka começou, mas parou ao ver a expressão decidida do mais velho.

– Amanhã falaremos sobre tudo o que quiser, por agora descanse. – E sem dizer mais nada caminhou até o banheiro, fechando a porta atrás de si.

Kai encarou por alguns instantes a porta por onde o mais velho passara, mas o sono e as dores no corpo venceram sua resistência. Levantando-se, o jovem retirou o roupão, deixando-o sobre a cadeira ao lado da cama e deitou-se apenas de boxer, cobrindo-se com o edredom, sem nem ao menos parar para pensar onde Shiroyama iria passar a noite. E sem demora deixou-se levar para os braços de Morpheus, numa noite sem sonhos.

ooOoo

Kai esforçou-se para abrir as pálpebras pesadas pelo sono, ao sentir o calor do sol em seu rosto, no momento em que Toshiya abriu as cortinas da janela. O moreno remexeu-se um pouco, cobrindo a cabeça com o edredom, mas o calor acabou por incomodá-lo e isso fez com que despertasse mais rápido.

– Bem... Após uma noite de aventuras, você está com uma aparência realmente ótima, Kai! – Toshiya exclamou, sentando-se na cama ao lado do amigo e passando as mãos pelos fios negros fazendo as mechas rubras reluzirem com a luz do sol.

– Totchi! – Yutaka exclamou espantado, sentando-se na cama e olhando o ambiente, recordando-se vagamente do acontecido horas antes.

– Deixe-me tentar entender o que aconteceu... – Toshiya deitou-se na cama olhando o teto, cruzando os braços sob a cabeça. – Depois que sai com Ryouta e os outros rapazes, deixei você pronto para dormir e, quando volto fico sabendo que Miyavi foi encontrado na mesma cama, em meio a lençóis amarfanhados e manchados de sangue.

– Toshiya... – Uke tornou a chamar baixinho, enquanto procurava afastar o sono de vez, esfregando os olhos com as mãos.

O moreno olhou para Kai adorando ver o estado quase infantil em que ele se encontrava. Os cabelos em desalinhos, os movimentos langorosos... E não pôde deixar de sorrir. Era uma visão muito fofa! Dava até vontade de morder...

– Mas, o que mais me chocou foi saber que o meu amigo não estava no seu quarto. E, sim, na cama de um moreno lindo e milionário, com quem se declarou estar namorando. – O jovem estudante de Artes fez uma pausa, como se quisesse produzir um efeito dramático e logo em seguida gargalhou.

Kai corou violentamente, sem coragem de encarar o amigo que quase rolava pela cama de tanto rir. Não sabia o que dizer e sabia que por mais que tentasse dizer algo Toshiya iria zoar da mesma forma.

– Será que pode me trazer um pouco de água e um comprimido? Estou com uma terrível dor de cabeça. – Com o olhar baixo e a voz um pouco falha o moreninho pediu.

– Não é pra menos! Depois que o nosso Kai Aranha usou da sua teia para pegar aquele moreno gostoso, se não sentisse nada hoje seria estranho. Por isso me adiantei e já trouxe o remédio. – Toshiya sentou-se na cama, ainda rindo e apertou as bochechas de Kai, levantando-se em seguida.

– Não é o que você está pensando... – Kai ainda tentou se defender, mas foi ignorado pelo outro que mexia no carrinho com o café da manhã que um empregado do hotel deixara no quarto um pouco mais cedo.

– Juro que, quando me contaram, considerei impossível... Sei o que pensa sobre um novo relacionamento... Bem, pelo menos, até ontem eu achava que sabia o que se passava em sua cabeça.

Kai acompanhava os movimentos do amigo com uma expressão resignada. Ainda não conseguia raciocinar direito e estava difícil acompanhar com atenção às loucuras ditas pelo outro. Mas, sabia que tinha que resolver logo esse mal entendido. Pelo menos com o amigo.

– De qualquer forma, é fácil entender por que você se derreteu nos braços daquele homem fascinante! Kai-hentai! – Toshiya exclamou sorridente e ofereceu o copo com a água e o comprimido ao amigo.

Após tomar um gole de água, Yutaka tomou o comprido e terminou de beber toda a água fazendo uma careta ao entregar o copo vazio ao amigo. Enquanto via o amigo colocar o copo sobre a mesinha de cabeceira, o moreno meneou a cabeça em protesto.

– Já disse que não é nada disso que está pensando. – Inconscientemente Uke fez um bico emburrado arrancando mais uma risada do moreno ao seu lado.

– Ah, é mesmo? Então me explique por que está dormindo somente de boxer se você estava de pijama ontem à noite. – A ironia escorria pelas palavras de Toshiya.

– Meu pijama foi queimado. – Kai disse de forma simplista, dando de ombros.

– Queimado? – O moreno perguntou confuso?

– Sim. E, provavelmente, as cinzas levadas pelo vento.

– Que homem queimaria o pijama do próprio namorado? – Totchi perguntou espantado.

– Aquele que quisesse destruir as manchas de sangue no tecido.

Toshiya parou por um instante, encarando Kai com uma expressão pensativa. Vendo o amigo desviar o olhar sua expressão se transformou, ficando séria e um brilho furioso em seus olhos.

– Então... Foi isso o que aconteceu... Eu deveria ter dormido lá! Se eu estivesse lá, o descarado do Miyavi teria realmente se machucado. Era o que ele merecia! Não um simples corte na testa...

– Um simples corte na testa? – Kai interrompeu o amigo, surpreso.

– Pelo menos foi o que o médico do hotel disse ao diretor da Universidade. O sangramento foi abundante porque atingiu o supercílio.

Kai não acreditava no que estava ouvindo. Então estivera longe de matar Miyavi? Mais uma vez, em um curto espaço de tempo, o moreno sentiu sua cabeça girar. Suas mãos começaram a tremer e seu sangue parecia se esvair das veias.

Vendo que Yutaka empalidecera consideravelmente, Toshiya pôs a mão em sua testa para medir a temperatura. Sua expressão revelando toda a preocupação pelo amigo.

– Você está bem Kai-chan?

– Preciso falar com o Shiroyama imediatamente e parar com essa encenação toda. Totchi me ajuda a arrumar uma roupa. – Kai falou agitado, tentando se desvencilhar do edredom, acabando por cair no chão na tentativa de levantar.

– Eu já tinha pegado a calça azul e a camisa branca para você usar agora. Mas se quiser, posso escolher outra roupa, uma vez que o Shiroyama deu ordens para que buscassem todas as suas coisas no nosso apartamento. – Toshiya adiantou-se, ajudando Kai a se levantar do chão.

– Ele fez o quê? – Yutaka gritou, afastando-se do amigo, se aproximando do espelho e encarando o próprio reflexo, se deparando com uma expressão que era um misto de choque e contrariedade.

Totchi sentou-se na cama, observando a reação do amigo. Entendia perfeitamente toda a confusão que passava por sua cabeça. Respirando fundo terminou por soltar um riso debochado.

– Aquele homem não dá tempo para ninguém respirar. E exige que cumpram suas ordens no ato. E por mais que não pareça, ele está cercado de empregados, tantos que nem consegui contar. Nem sei como ele conseguiu convocar aquele tanto de gente em tão pouco tempo. Parece que ele está se preparando desde as quatro da madrugada.

– Preparando-se para quê? – Kai virou-se para encarar Toshiya que permanecia sentado na cama cutucando o edredom.

– Parece que Aoi quer visitar suas empresas antes de voltar para Londres com seu namorado. Pelo jeito ficarei sozinho aqui. – Toshiya falou entristecido.

– Ah, isso não pode estar acontecendo! Ele não pode fazer isso! – Kai olhava indignado para o amigo.

– Ele não só pode, como fez. – Toshiya deu de ombros.

Kai passou as mãos pelos cabelos castanhos, começando a andar de um lado para outro. Como em uma simples madrugada sua vida pôde ter ficado de pernas pro ar daquele jeito? Aproximando-se da cama, o moreno ajoelhou-se de frente para Toshiya, apoiando o queixo na perna do companheiro de apartamento.

– Como pode? Nem mesmo tivemos tempo de conversar direito! – Yutaka desabafou baixinho.

– Não falou sobre o irmão dele? – Toshiya perguntou surpreso.

– É o que estou dizendo, Totchi! Não tive oportunidade de fazer isso. – Kai fechou os olhos, começando a sentir pontadas nas têmporas.

– Passou a noite nos braços do Aoi e não teve tempo para conversar? Que incrível! – Toshiya sorriu malicioso. – Diga-me, ele é tão bom de cama como aparenta?

– Não passei a noite nos braços dele! Tudo isso é simplesmente ridículo! – Uke abriu os olhos, uma expressão furiosa contraindo os músculos do rosto. – Aquilo foi tudo uma encenação.

Toshiya parou de sorrir, mas pelo olhar ficou óbvio que não estava totalmente convencido com as explicações, mesmo assim tentou não deixar o amigo ainda mais embaraçado.

– Segundo o secretário do diretor, parece que Aoi não quer ficar no Japão nem um minuto a mais do que o necessário. Ele também me contou que Shiroyama Yuu veio a terra natal especialmente para arranjar alguém para se relacionar. E, agora que o encontrou, precisa voltar rápido para a Inglaterra.

– Que loucura! Tenho que falar com aquele doido agora mesmo! – Uke levantou-se, sendo acompanhado por Toshiya que lhe apontou onde estava a roupa que separara.

Apressando-se, o moreno começou a vestir-se, sem nem reparar em qual roupa que o amigo escolhera para si. Sentou-se na cama para calçar o tênis, atrapalhando-se um pouco com o cadarço.

Toshiya que observava o amigo com atenção, vendo o embaraço dele, se aproximou e, agachando-se, amarrou o tênis para ele, sorrindo divertido.

– Nem amarrar um tênis você sabe, Ratinho? – Totchi riu ainda mais ao ver que Kai se limitara a lhe mostrar a língua. – Não vai tomar café da manhã?

– Não Totchi. Preciso falar com Aoi. – O moreno levantou-se, caminhando até a porta e voltando-se para o amigo, reverenciou de leve. – Obrigado por tudo.

– Boa sorte! – Toshiya acenou com a mão, vendo o amigo sair apressado do quarto.

ooOoo

Kai andava apressado pelos corredores. Sua cabeça ainda doía terrivelmente, pois apenas um comprimido não fora capaz de surtir efeito. E as indagações que não paravam de surgir o afligiam ainda mais. Se Miyavi sofrera apenas um corte sem conseqüências graves, por que Aoi o havia feito acreditar no pior e concordar com a farsa do namoro?

"Kai você é um idiota! Por que foi entrar em pânico? Se tivesse acendido as luzes principais do quarto, nada disso estaria acontecendo. Agora é tarde para se lamentar.", o moreno pensava, enquanto aumentava a velocidade de seus passos. Precisava correr, antes que a noticia de seu namoro com Shiroyama se espalhasse.

Yutaka desceu as escadas na velocidade da luz, quase trombando com uma empregada do hotel. Ao passar pela sala de estar do hall de entrada do prédio, o jovem deparou-se com Ryouta sentado no sofá principal ao lado de um garoto ruivo de belos olhos verdes.

Kai até pensou em passar direto fingindo não tê-lo visto, mas nem teve como fugir quando o amigo levantou-se e veio sorrindo em sua direção. Mordendo o lábio inferior, Yutaka torcia para que Ryouta não enrolasse demais.

– Ryou-chan... Você sabe onde posso achar Shiroyama Yuu? – Kai perguntou sem nem mesmo cumprimentar o rapaz, ignorando os bons modos. Estava agitado demais e só conseguia pensar em acabar logo com aquela loucura.

– Ora, Kai-chan. Estou realmente surpreso em vê-lo com um novo namorado. Fico muito feliz. – O jovem loiro sorria, um brilho sincero nas íris cor de mel.

– Eu não estou... – Kai parou no meio da frase. Não era hora para explicações. – Bem, poderia me dizer onde posso encontrar o Shiroyama?

O rapaz ruivo, que permanecia sentado no sofá, sorria zombeteiro ao olhar para Kai. Parecia se divertir com todo o nervosismo do moreno.

– Seu namoradinho se encontra na biblioteca do hotel, despachando ordens como se estivesse num gabinete militar. – Ryouta disse em tom divertido, um sorriso malicioso aparecendo em seu rosto. – Você deve estar doido de saudade para estar tão apressado assim Kai-chan.

– Ele não é meu... Ora, não importa! – Novamente o moreno pegou-se a ponto de dar explicações desnecessárias. Obrigando-se a sorrir, Yutaka fez uma leve reverencia. – Obrigada!

– Não precisa agradecer Kai-chan. Eu me sinto como um cupido.

– Como assim cupido? – Kai que se virava para ir até a biblioteca, parou, encarando o amigo com uma expressão confusa.

– Oras, se não fosse aquela festa da Universidade que fomos antes das aulas começarem e da minha dança com Toshiya que fez com que você ficasse sozinho você nunca teria aprofundado sua relação com o Shiroyama-san. Então me sinto um pouco como cupido. – Ryouta sorriu em despedida, voltando a sentar-se ao lado do ruivo. – Vá logo ver seu namorado.

Yutaka ficou olhando abismado para o loiro por alguns instantes, sem saber o que dizer. Resolvendo deixar aquilo de lado, o moreno virou-se caminhando com rapidez em direção às escadas do outro lado do hall de entrada, do lado oposto ao dos quartos, onde ficava a magnífica biblioteca.

Kai pensou que tinha sorte por gostar de ler, assim não teria que perder tempo pedindo para que algum funcionário do hotel o levasse até onde o demônio que assombrava sua vida se encontrava.

ooOoo

Kai cerrou os punhos, parado em frente a porta da biblioteca. Estava ali há alguns minutos tentando criar coragem para enfrentar o arrogante Shiroyama. Respirando fundo, o moreno ergueu a mão para bater, mas no mesmo instante a porta foi aberta e o jovem deu de cara com Richard, que para sua surpresa sorriu, um brilho atípico nos olhos verdes.

– É bom encontrá-lo novamente Yutaka-san! – Richard curvou-se minimamente e voltou o rosto para dentro da biblioteca, falando em tom mais alto. – Aoi, Yutaka está aqui, já estou de saída. Depois nos vemos para acertar os últimos detalhes da viagem.

Kai estreitou os lábios ao ver o amigo de Shiroyama saindo da biblioteca, deixando a porta aberta para que ele entrasse. Algo lhe dizia que aquela atitude do outro não era normal, afinal na noite anterior ele quase não lhe dirigira a palavra.

Entrando com passos lentos, Kai fechou a porta atrás de si, procurando não fazer barulho. Caminhando até o centro da grande biblioteca, olhou fascinado a sua volta, vendo mais uma vez o grande acervo do local. Por mais que já tivesse visitado aquele lugar, não podia evitar a empolgação que sempre o invadia ao se ver cercado de livros.

– Yukkun, querido! Acomode-se. – A voz de Aoi chamou a atenção de Kai, que finalmente pôde ver onde o outro se encontrava.

Olhando para a parte superior da biblioteca, o jovem viu Yuu sentado em uma das poltronas de leitura e novamente sentiu seu sangue ferver nas veias. Respirando fundo para se acalmar, Yutaka subiu correndo as escadas e se aproximou com passos incertos, vendo Aoi apontar para uma poltrona próxima e em seguida voltar o olhar para o que estava fazendo.

Kai parou de frente para o mais velho, preferindo ficar de pé. Ficou em silêncio, esperando que o mais velho lhe desse a atenção adequada. Enquanto isso, deixou os olhos negros recaírem sobre a janela, vendo as cortinas de seda branca aberta, podendo vislumbrar o magnífico jardim do hotel naquele dia ensolarado. Viu alguns passarinhos sobrevoando o lugar e sorriu docemente, pensando que aquela era uma bela visão que lhe passava muita paz e o equilíbrio necessário para aquela conversa.

Desviando seus olhos, Kai pôs-se a observar o homem que permanecia de cabeça baixa, escrevendo em uma agenda e assinando alguns papéis. Viu que o moreno estava vestido com uma calça negra ligeiramente justa, que delineava as belas pernas de músculos definidos e uma camisa cinza. Seus cabelos negros e brilhantes estavam soltos e em seu pescoço a correntinha com pingente de dragão reluzia com a claridade do lugar.

Uke engoliu em seco. A imagem daquele homem irresistivelmente sexy e lindo era de tirar o fôlego de qualquer um. Balançando a cabeça para sair do transe, Kai piscou, encarando Aoi que permanecia de cabeça baixa.

– Está ordenando para que eu me sente ou é apenas uma gentileza? – Kai começou num tom sarcástico.

– Estou apenas sendo educado. – Yuu respondeu tranqüilo, sem tirar os olhos dos papéis. – Faça o que achar melhor.

– Está bem Shiroyama. Preciso falar com você. – Impaciente com a frieza do outro, Yutaka cruzou os braços.

– Estou ouvindo. – Aoi disse sem nem ao vemos lançar um olhar para o jovem.

Kai se sentia ultrajado com a atitude fria do mais velho. Aquilo não o ajudava em nada a falar o que queria. Fechando os olhos por alguns instantes, Uke respirou fundo, suspirando em seguida.

– Eu não vou com você para a Inglaterra. – Disse lentamente, em um tom de voz baixo.

– Isso não está em discussão. Já decidi por nós dois. – Aoi disse secamente.

Kai arregalou os olhos ao mesmo tempo em que sentia o queixo cair, ficando boquiaberto! Shiroyama Yuu o estava tratando como se fosse um de seus empregados!

– Você não está entendendo? – Kai protestou. – Eu não quero...

– Quem não está entendendo é você. – Aoi parou o que estava fazendo para encarar o universitário. – Tudo já foi decidido, não há o que rebater.

Aoi retornou a atenção aos papéis e, Kai limitou-se a observar-lhe assinar mais alguns documentos. Sabia que ele estava organizando as últimas coisas para a viagem.

– Está desperdiçando seu tempo e o meu Aoi-san. – Kai sentenciou, reassumindo o tom casual que pretendia usar desde o inicio. – É melhor pararmos com essa farsa agora, antes que vire um escândalo. Recuso-me terminantemente a viajar para a Inglaterra.

– Não tem escolha, Yutaka. Perante todos você é meu namorado e para mim suas palavras significaram ainda mais. É como se estivéssemos casados agora. E, como meu companheiro, você tem a obrigação de me acompanhar. – Aoi falou confiante.

– Eu não sou seu namorado, companheiro ou o que quer que você imagine que eu seja! – O mais novo exclamou revoltado.

– É sim. Um grupo de testemunhas o ouviu declarar que estamos nos relacionando. Seria mais fácil se seus sentimentos por mim fossem mais amistosos.

– Não pode me forçar a ir. Não pode! – Kai se controlava para não começar a gritar. – Eu tenho uma casa aqui, a universidade e amigos. Não posso simplesmente abandonar tudo e seguir um louco que acha que tem um relacionamento comigo.

– Não discuta com o óbvio. Agora você me pertence. E como tenho que voltar para minha casa em Londres, que agora é sua, deve me acompanhar.

– E a universidade? Você tem a mínima noção do quanto lutei para conseguir entrar na Tokyo Gakugei? – Uke perguntou desesperado.

– Não se preocupe. Em Londres há ótimas universidades. Melhores até do que as do Japão. E com a minha influencia e a sua inteligência, não será difícil você terminar seu curso lá. – Novamente a tranqüilidade de Aoi chocou Kai.

Yutaka ficou em silêncio. Não acreditava no que havia acabado de ouvir. Shiroyama estava mesmo pensando em levá-lo à Inglaterra? O jovem fechou os olhos com força. Descruzando os braços, cerrou os punhos contendo um novo suspiro.

– Espera um motivo melhor? Muito bem. Vou lhe dar.

Kai abriu os olhos, apreensivo e viu Aoi colocando as folhas de lado e ficando de pé, bem próximo a ele. Seus olhos negros continham um brilho enigmático e seu rosto estava sério e determinado.

– A morte de meu irmão mais velho pegou a todos de surpresa. Como novo sucessor da família Shiroyama tenho muitas obrigações. Fui obrigado a sair de Londres e voltar a esse país que eu jurei que nunca mais veria, apenas para poder cumprir a última vontade de meu irmão e assumir a herança que ele deixou para mim. – A voz de Aoi era baixa, mas podia-se sentir certa dose de ressentimento. – Mas, como nada é tão fácil, meu irmão deixou uma clausura absurda, obrigando-me a casar para poder assumir o que ele me deixou.

– Casamento por obrigação? – Kai perguntou automaticamente. Seus olhos estavam presos aos negros de Aoi.

– Sim. Kazuki achou que assim evitaria que eu ficasse sozinho para sempre. Achei a ideia absurda e já estava disposto a desistir de tudo. Mas aí, você... Yutaka... Apareceu e acabou se tornando minha salvação. Serei eternamente grato por isso.

– Está dizendo que planejou tudo isso para cumprir a clausura do testamento do seu irmão?

Kai abaixou o rosto. Estava seriamente cogitando passar com um especialista, pois sua cabeça viciara em ficar girando e isso não era normal. Apesar da história do mais velho fazer sentido, era loucura demais ele ser uma das personagens principais da trama.

Yuu se afastou do jovem, caminhando até a janela e se pôs a admirar a bela vista do jardim. Depois, girou o corpo e tornou a encarar Kai, com uma expressão indecifrável no rosto.

– Não fiz de tudo para protegê-lo? – O mais velho perguntou em um tom suave.

– Mas o ferimento de Miyavi foi apenas superficial! – Kai rebateu.

– É verdade! Aliás, Ishihara já voltou para a casa dele. Não o queria aqui, próximo a você.

– Não o queria perto de mim? – Kai perguntou sem entender.

– Além do mais, agora Ishihara irá se casar com uma jovem chamada Mellody, a quem estava prometido desde antes do nascimento. – Yuu falou em um tom monótono, ignorando as palavras do mais novo. – Você só servia como desculpa para que esse casamento não acontecesse. Ou talvez ele o amasse de verdade. Nunca saberei.

– Isso é loucura! – A voz de Yutaka saiu um pouco trêmula.

Aoi deu de ombros, escorando-se no batente da janela.

– Talvez. Mas, prefiro pensar que foi um arranjo mútuo.

– Mútuo? Não quero ser seu namorado. – Uke falou com desdém.

– Não quer ser meu namorado ou não quer ser namorado de ninguém? – Aoi perguntou sério, os orbes negros perscrutando o rosto contraído do jovem a sua frente.

Como Kai poderia responder se Aoi acabara de tocar em sua ferida e jamais imaginara que alguém chegaria a tanto? Uke preferiu silenciar. Então, para ganhar tempo, caminhou rapidamente até a estante mais próxima, pegando um livro de capa dourada folheando-o lentamente.

– Sem resposta? Muitas vezes o silêncio diz tudo. – Aoi retorquiu com ar vitorioso. – Além do mais, é muito tarde para voltar atrás.

– Você não conhece minhas razões. – Kai murmurou, ainda folheando o livro.

Yuu estufou o peito com um profundo suspiro, passando a mão sobre os fios negros, prendendo uma mecha atrás da orelha.

– Quer que eu as enumere? – O mais velho perguntou em um tom cansado.

Uke limitou-se a olhá-lo, um brilho de desafio nas íris negras. Aquele homem podia ser arrogante, mas não seria capaz de sondar o mais íntimo de seu ser, podia?

– Pois bem. É um homem muito bonito. E sabe disso. Por essa razão, brinca com os sentimentos das pessoas, pouco se importando com o sofrimento alheio. Você trata a todos como se fossem seus brinquedos, que pode jogar fora quando cansa de brincar. – Aoi começou em um tom calmo.

Kai encarou incrédulo ao moreno. Como ele podia dizer aquelas coisas? Ele nem mesmo o conhecia ou sabia sobre o seu passado... Sobre seu medo de amar. Com a cabeça baixa, Yutaka fingiu prestar atenção em algo escrito no livro

– Acho que é por essa razão que você se enterra nos estudos. Se refugia nos livros para não ter que enfrentar esse lado da sua vida. E por isso te retratam como um ratinho devorando livros nas caricaturas. Creio que tem consciência disso. – Yuu continuou falando, se aproximando lentamente do jovem.

Kai lutava para não deixar o mais velho ver que suas mãos tremiam. Cada palavra dita em tom calmo acertava em cheio seu coração ferido. Seu peito estava apertado e doía relembrar os momentos tristes que já passara em sua vida.

Aoi parou a poucos centímetros do moreninho e erguendo sua mão direita, pegou de leve no queixo do jovem, obrigando-o a levantar o rosto e encará-lo. O mais velho respirou fundo, mergulhando nos orbes negros de Yutaka, tentando sondar seus pensamentos.

– Você parece querer punir todos que se aproximam de você por algo que alguém te fez. Só não sei quem, dentre a legião de admiradores, foi quem te magoou tão profundamente.

Um silêncio se instalou entre os dois. Kai sentia seu coração batendo acelerado. Sentia-se desarmado diante daqueles olhos negros. Queria dizer alguma coisa. Falar que ele estava errado, mas as palavras simplesmente não saiam. E o mais novo se sentia fraco por isso. Lutando contra a avalanche de sensações que invadia seu corpo e mente, Kai deu um passo para trás, findando o contato com Aoi.

– Posso ter outras razões para tornar-me insuportável, Shiroyama.

– Tarde demais para tentar se afastar! – Yuu sussurrou sério, fitando o moreno com um olhar profundo.

Kai observou Aoi com os olhos semicerrados, como se não quisesse perder nenhum detalhe dos sinais da personalidade marcante daquele homem que agora se via no direito de lhe dar ordens.

Sem maiores satisfações, Aoi simplesmente virou-se e desceu as escadas com passos rápidos, deixando-o sozinho no piso superior da biblioteca.

"Mas que ser mais deplorável! Fala o que quer, mas recusa-se a ouvir o que não lhe convém.", Yutaka pensou enquanto via o mais velho atravessar o cômodo se dirigindo a porta, abrindo-a.

– Aoi! – Kai chamou, antes que o moreno saísse do cômodo.

O moreno precisava falar sobre Kazuki e Kenta. Era a única forma de desarmar aquele homem arrogante e aquele era o momento mais adequado, pois lhe serviria a dois propósitos: se livraria do compromisso forçado e cumpriria com o desejo de seu eterno amor.

– Tarde demais! – Aoi repetiu, continuando a sair da sala.

– Há uma coisa importante que preciso lhe contar. – Yutaka insistiu ao observar a porta que estava quase totalmente fechada.

– Haverá muito tempo durante a viagem de carro para visitar as empresas da minha família. E espero, sinceramente, não ter que arrastá-lo. – Sem mais palavras, a porta fechou deixando Kai sozinho, perdido em seus pensamentos.

ooOoo

Na manhã seguinte, Aoi esperava na frente do hotel em sentado no capô de seu belo carro negro, pronto para partir rumo às visitas de todas as suas empresas no Japão. O moreno não teve que usar de força para que Kai o acompanhasse. Nem mesmo precisaria ter enviado Richard para escoltá-lo. Ele parecia constrangido o bastante para se rebelar contra sua vontade.

"Será uma viagem bem interessante...", Yuu pensou, sorrindo discretamente ao ver o jovem universitário descer lentamente os poucos degraus da entrada principal do hotel acompanhado pelo ex-colega de apartamento.

Kai seguia com passos lentos em direção ao conversível negro de Aoi, sua expressão se assemelhava a de um cordeirozinho indo para o abate. Ao seu lado, Toshiya tentava animá-lo, dizendo que não era por causa da distância que deixariam de ser amigos e manterem contato. Mas mesmo com essas palavras seu humor não melhorava.

O jovem sentia seu orgulho ferido. E a tristeza de ter que deixar tudo pelo que lutou para trás era suficiente para lhe tirar as forças para resistir às vontades do arrogante ser a sua espera.

Ao finalmente chegar ao carro, Yutaka virou-se para Toshiya, ignorando propositalmente Aoi, que se limitou a sorrir, entrando no carro.

– Kai-chan, por favor, não deixe de me ligar. – Toshiya pediu com a voz um pouco embargada.

– Pode deixar Totchi. E você se cuide bem. – Yutaka sorriu.

– Eu já faço isso! Mas, pode deixar que me cuidarei bem mais. – Totchi não resistiu e acabou por abraçar o amigo. – Não esqueça que aquele apartamento continuará de portas abertas para quando quiser voltar.

– Obrigado. Você me verá bem antes que imagina. – Uke abraçou o amigo com força, bagunçando de leve os fios negros, fazendo as mechas vermelhas reluzirem ainda mais com a luz do sol.

Desvencilhando-se suavemente do abraço, Kai sorriu mostrando suas covinhas e acenou para todos os colegas da universidade que estavam ali para se despedir. Sorriu malicioso para Ryouta e depois voltou o olhar para seu melhor amigo.

– Ei Totchi, vê se não apronta muito com o Ryou-chan na minha ausência viu? – Desviando do tapa do amigo que estava corado de vergonha, Yutaka deu a volta no carro, entrando e sentando no banco do passageiro.

Lançando um último olhar para os colegas queridos, Kai suspirou baixinho vendo Aoi dar partida e se afastar rapidamente do hotel, indo para a estrada.

– Bem vindo a sua nova vida. – Aoi disse empolgado, enquanto olhava pelo retrovisor e via um carro, tendo Richard ao volante, seguindo-os.

– Você quis dizer bem vindo ao inferno, não? – Kai rebateu emburrado, sem conter seu sarcasmo.

– Não seja tão dramático. – O mais velho ironizou. – Isso tudo é só questão de adaptação.

– É fácil dizer isso. Não é você que está deixando uma vida para trás. – Yutaka cruzou os braços, olhando a paisagem que passava pela janela.

O dia prometia ser claro e firme. Não havia nuvens que denunciassem a ocorrências de chuvas. Mas mesmo com um clima tão bonito, Kai sentia como se nuvens negras encobrissem seu sol particular, e seu humor a cada segundo que passava ficava ainda mais melancólico, como se do lado de fora daquele carro estivesse caindo o maior temporal.

Yutaka reclinou a cabeça e fechou os olhos. As lembranças o atordoavam. Não tinha como escapar da situação em que se colocara, ou melhor, que Aoi o havia forçado a aceitar. Essa era a mais pura verdade: Aoi se aproveitara de seu desespero para benefício próprio e isso era o que mais o irritava. Cansado demais por não ter conseguido dormir pensando naquela viagem absurda, o moreno acabou por adormecer, sua expressão se suavizando um pouco.

Yuu dirigia habilidosamente pela estrada em direção à capital japonesa, onde seria a primeira parada daquela longa viagem pelo país antes de seu retorno à Inglaterra. Em sua cabeça, cenas dos últimos dias bailavam, fazendo-o refletir se suas escolhas foram apropriadas. Mas, ao olhar para o jovem ao seu lado, Aoi não pôde deixar de sorrir. Vê-lo assim, aparentemente frágil e desprotegido instigava seu lado mais protetor e todas as dúvidas se dissiparam.

Sem resistir à tentação, Aoi estendeu sua mão, acariciando de leves os cabelos macios de Kai, sentindo o peito encher de uma ternura ímpar. Deslizando suavemente as pontas dos dedos sobre a face do mais novo, enlevado por poder sentir mais uma vez o calor daquela pele contra a sua, Yuu lembrou-se do beijo e sorrindo docemente afastou-se de forma brusca ao ver o moreno se remexer suavemente.

– Eu definitivamente vou achar essa viagem interessantíssima... – Yuu sussurrou, voltando a prestar atenção na estrada.

Continua...


Finalmente estou atualizando essa fic... Depois de tanto tempo será que alguem ainda lembra dos rolos?

Enfim, Com as revoluções do Shipps que aconteceram em meio a todo esse tempo, o Kai nem é mais uke, virou um baita de um flex gostoso... mas, em nome dos velhos tempos... xD

Aoi está mais insano que o normal, como será que Kai reagira daqui para frente? Qual será o futuro do Mister Covinhas estando preso nas garras do Lobo Mal Aoi?

Espero que esteja agradando a todos...

Agradeço de coração à minha Mamãe, Amiga pra todas as horas Lady Anúbis. Obrigado por sua dedicação sem fim.

Agradeço também à Scheilla, Yume Vy e Samantha Tiger por serem minhas amigas fofas e cobaias preciosas.

Volto a lembrar que esse é um presente para Lady Bogard. Espero que esteja do seu gosto.

Agradeço a todos por lerem e esperarem com paciencia.

Até a Próxima (que eu espero que seja em breve)

Eri-Chan

17 de Maio de 2010 - 00h:47min