"Nee Axel, eu estou desaparecendo, mas eu não quero ir. Esse contraste, quer dizer que eu estou te perdendo?"


Capítulo VII

Paredes brancas.



"Chamem uma ambulância! Rápido!"
"Eu não... eu queria, eu não pretendia...!"
"Xion, agüente, por favor!"

E tudo ia ficando cada vez mais escuro e frio, ela sentia todos os pêlos do corpo se arrepiarem, mas ela não tinha força para mover os braços e se proteger. Havia uma pressão em seu estômago que a puxava cada vez mais fundo.

"Axel..." Ela queria encontrar com ele mais uma vez, porque ela estava sentindo medo.

Um medo tão grande. Um medo muito maior do que ir parar num mundo alternativo. Um medo que como Nobody ela não podia 'sentir'. Era o medo de desaparecer.

Mesmo nas missões mais difíceis, mesmo quando era levada a exaustão e chegava em World That Never Was toda machucada, ela nunca havia pensado que poderia perder a vida naquele trabalho.

Porque ela nunca havia ficado tão próximo de sentir que sua existência estava acabando. Porque ela sabia que enquanto tivesse Axel e Roxas, ela não iria perder.

Todos eles lutavam para existirem, para terem corações. Ela, acima de todas essas coisas, lutava para poder existir junto daqueles dois.

Mas, uma vez num mundo onde eles não poderiam estar. Qual era o propósito de sua existência?

No entanto, se ela desaparecesse agora, ela iria perder tudo. Iria perder as memórias com Axel e Roxas e a chance de conhecer os outros membros da Organização.

Kairi, Sora, Myde, Lea, Isa e até mesmo Riku. Desaparecer assim tão de repente...

Ela queria dizer tantas coisas, queria estar com eles, compartilhar, queria aprender o que era ter um coração.

"Axel..." Ela murmurou com a voz sofrida.

Ela sentiu uma leve pressão sobre a mão, ela relutou em abrir os olhos, viu de forma embaçada o rosto preocupado de alguém.

"Roxas...?" Pergunto como se estivesse com dor. Mas na verdade não estava, mal conseguia mexer o corpo, estava se sentindo fraca.

"Sora". A voz disse docemente.

Ela pareceu surpresa por alguns instantes e então suspirou.

"Então, eu ainda estou nesse mundo..." Ela fechou os olhos e adormeceu quase que imediatamente.


Quando Xion acordou, ela observou com atenção o cômodo em que se encontrava, lembrava um pouco a sala de Vexen, numa versão menor e mais limpa. Havia aparelhos estranhos num canto, no entanto a cama em que se encontrava era confortável.

"Então você acordou?" Isa perguntou parecendo contente em vê-la acordada. "Como está se sentindo?" Ele puxou o banco para próximo da cama dela.

"Confusa". Ela se ajeitou na cama com cuidado. "Onde eu estou?"

"Num quarto de um hospital". Disse com divertimento. "Você não lembra do que aconteceu?"

"..." Ela baixou o rosto.

"Tudo bem se não lembrar, acho que não é o tipo de coisa que seria bom ter como lembrança". Ela continuou de cabeça baixa e em silêncio. "O Lea esteve aqui mais cedo, mas você estava dormindo, seus amigos também apareceram por aqui".

"Acho que eu lembro de ter visto o rosto do Sora". Ela sorriu levemente. "E a Relena?" Perguntou erguendo o rosto de forma relutante.

"...então você se lembra". Isa suspirou e balançou a cabeça negativamente. "Ela quis vir até aqui, mas nós não deixamos..."

"Hm". Xion apenas assentiu.

"Escuta". Isa inclinou o corpo para frente. "Uma pessoa normal teria gritado ou corrido no momento em que viu a faca, você não se deixou ser atingida, ne? Quer dizer, você não estava tentando morrer, certo?"

"Você tem alguma tendência suicida?"

"A minha existência nesse mundo... Tudo que eu conheço não se encaixa aqui".

"Talvez... Talvez eu estivesse tentando desaparecer desse mundo". Ela respondeu olhando para as próprias mãos que se fechavam com força no lençol.

"Por quê?"

"Luna, você acredita na existência de outros mundos?" Ela perguntou voltando a olhar para ele.

"Como assim?" Ele perguntou franzindo o cenho.

"Mundos paralelos, pessoas que existem nesse mundo vivendo num outro de forma completamente diferente. Pessoas parecidas".

Luna poderia facilmente dizer que os remédios estavam fazendo efeito na cabeça de Xion, também poderia ir embora e dizer para que ela descansasse mais. Se Xion não estivesse perguntando tudo aquilo o olhando nos olhos, ele provavelmente teria feito alguma dessas coisas.

Fora que a pergunta completamente estranha, colocava sentindo no aparente no nonsense daquela menina. A primeira vez que tinha a encontrado, ela basicamente pulara em cima de Lea e gritara "Axel" e ele não conseguia esquecer o olhar ferino que recebera e também de que ela havia o chamado de "Saïx".

Não era como se ela estivesse realmente os confundindo, era como se visse aquelas pessoas "Axel" e "Saïx" neles.

"Pessoas como eu e o Lea?"

Xion arregalou os olhos e então sorriu. Ela maneou a cabeça positivamente.

"Pessoas como você e o Lea". Ela repetiu fechando os olhos e lembrando de como era ver Saïx todas as manhãs a despachando para uma nova missão e de como era ter que encontrar com Axel e Roxas na torre de Twilight Town.

Como aqueles momentos que ela considerava rotineiros, se tornaram memórias tão preciosas.

"Talvez eu seja o mais estranho". Luna disse chamando atenção de Xion. "Por acreditar em você sem nem mesmo questionar".

"Eu agradeço, ultimamente eu tenho sido muito questionada a esse respeito e por causa disso, eu estou com muitas perguntas onde eu não consigo encontrar uma resposta. Por que eu estou aqui, como eu vim pra cá, por que somente eu existo nesse mundo. Eu quero saber, eu quero descobrir e eu quero poder voltar".

"Você está sozinha?"

"Eu me sinto incompleta. Eu tenho um coração, mas agora eu sinto um vazio tão grande, tão pesado". Ela apertou o tecido contra o peito. "Por que nós temos um coração?"

"Pra sabermos que estamos vivos". E antes que Xion pudesse questioná-lo ele se levanta. "Descanse mais um pouco, mais tarde seus amigos vão voltar e eles com certeza vão querer te ver acordada e com uma expressão mais contente".

"Luna, você se importa em não dizer nada disso para o Lea?". Ela pediu em voz baixa, com receio de alguém pudesse estar os ouvindo.

"Algum motivo em especial?" Ele perguntou se virando. Estava surpreso por ouvir aquilo.

"Ele me lembra alguém. Alguém que me era muito importante, mas..." Ela baixou os olhos. "Eles são diferentes, no entanto, as vezes é como se... Ele estivesse lá, ou sou apenas eu querendo que isso seja verdade..." Ela balançou a cabeça negativamente. "De qualquer forma, eu não quero que ele saiba, ao menos... não por enquanto".

"Tudo bem, vá dormir". Assim que Luna deixou o quarto Xion ficou abrindo e fechando as mãos, mas nada da keyblade aparecer.

"Eu tenho que parar de ficar procurando o Axel dentro dele... Assim como eu já reconheci que o Sora é outra pessoa..." Ela disse para ninguém em especial.


"Você quer que eu traga alguma coisa?" Kairi perguntou enquanto mexia dentro da bolsa.

"Não, tudo que está aqui está ótimo". Xion respondeu sorrindo, Kairi era mesmo muito gentil.

"Mas é tudo tão branco". Sora comentou como se aquilo fosse uma coisa ruim.

"Branco é pra trazer a sensação de paz e serenidade". Kairi repetiu a informação que havia visto num dos livros da biblioteca.

"Eu gosto". Xion os interrompeu. "Gosto que o quarto seja todo branco". Ela deu uma olhada em volta.

Kairi e Sora trocaram um olhar rápido e então se aproximaram um pouco da cama que ela ocupava.

"Nee Xion, você até agora não falou do incidente..." Kairi começou quase que num sussurro. "Tudo bem?"

"Quer dizer..." Sora sentou na beirada da cama. "Você já vem carregando tanto coisa e de repente você está aqui no hospital, nós não queremos que você fique com isso só pra você".

"Eu estou bem". Ela olhou para a expressão preocupada no rosto dos dois. "De verdade, eu nem lembro o que aconteceu". Mentiu de forma convincente.

Luna havia a feito pensar e a melhor coisa era fingir que não se lembrava. Ela não sentia raiva de Relena, ela não sabia como chamar o sentimento que tinha pela garota.

E a sensação de quase morte estava sendo uma coisa positiva. Era como se em World That Never Was ela fosse imortal e ali naquele mundo, tudo poderia acontecer.

Ela estava buscando o significado de estar ali, estava buscando os reflexos de seus ex-companheiros e agora estava podendo ter certeza que estava viva. Ela queria viver.

"Posso interromper?" Lea perguntou adentrando o quarto.

Xion imediatamente olhou para Sora como se esperasse por uma reação. Como se a junção Lea-Sora pudesse ser resultado de alguma coisa.

"Claro". Mas Sora apenas sorriu e se afastou da cama junto com Kairi. "Amanhã você já terá alta, não é?"

"Sim, acho que sim". Ela olhou para Lea que concordou com um aceno de cabeça.

"Então nós iremos de visitar, como de costume". Kairi sorriu antes se puxar Sora pela mão para fora do quarto, como se estivesse com pressa para deixá-los a sós.

"Se você veio falar do incidente já vou avisá-lo que eu não lembro do que aconteceu".

"Eu..." Ele começou se aproximando em passos lentos. "Eu vim me desculpar, pela Relena e também pelo Lumaria". Ele fez uma profunda reverência.

"Não é sua culpa". Xion se ajeitou na cama, pronta para descer, mas assim que Lea percebeu ele rapidamente se aproximou a obrigando a continuar ali. "Você esteve comigo não é?" Ela perguntou o olhando nos olhos.

"P-por algum tempo". Respondeu com o rosto corado. "Nem foi muito tempo, eu pedi pro Luna ficar te fazendo companhia enquanto me acertava com aqueles dois". Ele murmurou mostrando os dentes.

Luna havia dito que Lea estava possesso, e definitivamente ela conseguia ver isso. Numa rara missão em que as cosias andaram mal, ela conseguia se lembrar do que era ver Axel realmente irritado, se Lea ficasse somente metade do que Axel ficara, já seria um grande estrago.

"Ela estava com ciúme". Xion disse se lembrando da forma como Relena avançara.

"Ela tentou te matar!" Axel gritou em desespero. "Nada era motivo pro que ela quase fez".

Xion conseguia ver uma angustia tão grande no rosto dele que a machucava. Pelo que? Simplesmente porque Relena era namorada dele?

"Sabe". Incomodada com aqueles olhos amargurados ela segurou a mão dele. Numa tentativa de passar a segurança que estava sentindo. A serenidade que aquelas paredes brancas traziam. "Eu conhecia uma pessoa como a Relena, que as vezes tinham esses ataques de raiva, quando eu estava caindo eu vi o rosto dela, sabe? O rosto da Relena. Ela parecia realmente arrependida". Ela continuou antes que Axel a interrompesse. "A pessoa que eu conheci, teria gargalhado, então eu não consigo sentir raiva".

"Então você se lembra do que aconteceu". Axel disse fazendo com que os olhos de Xion se arregalassem.

"Me desculpe". Ela pediu com sinceridade. "Achei que se sentiria melhor se eu não lembrasse, já que imaginei que você não ia aceitar o fato de eu não estar realmente me importando com o que aconteceu".

"Idiota!". Ele a abraçou e Xion achou que tinha sentido o coração parar de bater por alguns instantes. "Eu estou preocupado com você será que não entende? Fiquei pensando como você iria encarar essa situação, se você estaria sofrendo, se teria mesmo esquecido".

"Axel..."

Ele se afastou dela lentamente, até que pudesse a olhar nos olhos.

"Lea". Ele repetiu em claro e bom som.

Ela imediatamente cobriu a boca com as mãos, o rosto tomou um tom rosado e ela e se encolheu levemente.

Ela não havia afastado a mente. Ela vira claramente que era Lea, ela sentiria que era ele. Então por que o chamara de Axel?

"Me desculpe". Ela pediu ainda com as mãos sobre a boca.

Lea coçou a cabeça sem mais saber o que dizer, e então se levantou. "Luna queria falar com você, eu vou chamá-lo, ok?"

Ela apenas assentiu. Lea deixou o quarto parecendo desconfortável.

Só podia ter algo errado com aquele coração.

Afinal, que tipo de sentimentos ela tinha ou poderia ter? Se os Nobodies tinham apenas lembranças de como era ter sentimentos, isso queria dizer que ainda existiam alguns que ela poderia nunca ter 'sentido' quando Nobody.

O que a levava a uma outra questão, que tipo de sentimento era aquele?

Continua.

N/A: Pra quem me acusou de ter feito a Xion sofrer tanto. Ficou melhor?

Tay: Hãn... Eu não sei de nada, enfim, acho que esse capítulo respondeu às suas perguntas, não? Ou parte delas, hohoho. Eu adoro a Relena e o Lumaria e eu fiquei muito feliz em tê-los colocado.