Parte 2 – Adeus à vida além de todos nós

Remus olhou o teto cinzento e ameaçador da Casa dos Gritos e percebeu que sua mente se esvaziava lentamente. As lembranças eram dolorosas demais para tomarem conta dele, mas ele descobriu que era fácil se livrar delas. Era só se fechar para qualquer pensamento, mergulhar em uma calmaria profunda e agradável, e deixar o medo carregar tudo embora.

- Ei, Moony! Não faça isso.

E então foi tomado pelo exato oposto da calmaria que almejava tanto, pela voz rouca e tempestuosa que parecia adentrar sua mente dando nova vida a seus pensamentos, trazendo-o de volta à realidade. Ou o que quer que aquilo fosse.

O teto da Casa estava adquirindo uma tonalidade clara e brilhante como a inicial, mas assim que Remus piscou e focou seus olhos no resto da sala, ele apareceu novamente cinza e obscuro.

- Fazer o quê?

- Me deixar. Se você escolher fugir…

- Eu não deveria te deixar? Pelo que eu me lembre, foi você que começou.

- Você sabe que estamos falando de coisas diferentes.

- Eu realmente agradeceria se você parasse de ler minha mente.

- Eu não posso. Preciso mantê-lo aqui.

- Ou o quê?

- Ou você ficará preso lá para sempre.

A mente de Remus trabalhava mais rápido do que ele desejava, buscava conclusões que ele sabia serem dolorosas. Mas ele sabia que adiar a dor era inútil. Mesmo se quisesse fugir…

- Eu nunca deixaria.

Sirius estava lá.

the loaded gun
a arma carregada

Remus não se lembrava do momento em que aquele lugar havia se tornado especial para ele. Mas não se conteve ou se reprimiu quando, na véspera da sua última viagem no Expresso de Hogwarts em direção a King's Cross, seu corpo não hesitou em levá-lo até a Casa dos Gritos. Remus não gostava de despedidas. Mas aquela era uma que ele sabia conseguir – e precisar – fazer.

Seria um bom treino para o que viria no dia seguinte.

- Achei que seu lugar preferido em Hogwarts fosse a biblioteca.

- Ela já recebeu a despedida apropriada algumas horas atrás.

Ele não estava surpreso em ver Sirius ali. O outro sempre tivera uma capacidade assustadora de adivinhar como sua mente trabalhava.

- Estava imaginando que a Madame Pince fosse precisar te expulsar de lá hoje.

- Ela bem que tentou.

Remus se sentou na cama que ele havia aprendido a odiar e adorar. Odiava quando acordava com o corpo dolorido e a pele machucada, estendido nos lugares mais variados do chão da casa – e avistava a cama distante, vazia e desprezada pelo lobisomem selvagem.

Adorava quando os lençóis gastos se impregnavam de cheiros, perfumes, manchas e formas estranhas, quando cada momento passado sobre o velho colchão mofado era um momento que Remus não desejava deixar. Como o que acontecia naquela hora.

- Acho que a nostalgia nunca esteve tão em alta aqui em Hogwarts – Sirius disse, sentando-se ao lado dele.

- Acho que nunca tivemos tantos motivos para ela – Remus completou, e permaneceu em silêncio. Sirius fez o mesmo.

Não era preciso dizer o que Remus havia aprendido ser verdade também para Sirius, ao longo dos três anos mais felizes de sua vida.

Sentiriam falta. Daquilo, daquele lugar, um do outro. De momentos como aquele.

Que nenhum dos dois sabia se aconteceriam novamente.

the drop dead dream
o sonho morto

- Tudo vai ficar mais fácil se você admitir para si mesmo.

Remus mirou a claridade além de si, perdendo-se no brilho que parecia, ao mesmo tempo, tão anormal e apropriado para a Casa dos Gritos naquele momento.

- Moony!

Ele sabia o que teria que falar, as lembranças que precisava resgatar, as feridas que precisava abrir. E sabia que pensar não seria o suficiente, por mais que Sirius fosse capaz de ler sua mente. Remus precisava, ele também, ouvir palavras definitivas.

- Eu morri, não foi?

Sirius ficou em silêncio por um momento, o mesmo em que o teto translúcido mudou a cor, de um cinza tempestuoso para um negro calmo e parado.

- Sim.

- Tonks também.

- Sim.

- E Teddy?

- Está bem. Estava na casa de Andrômeda quando aconteceu. Você vai poder vê-lo depois.

- Vou?

- Se continuar assim.

Uma calmaria tomou conta do lugar, na qual a claridade do chão e das paredes pareceu conviver perfeitamente com a escuridão insólita do teto, de um jeito que pareceria impossível em outra vida.

Vida. Remus pensou na palavra como uma memória distante. Ou uma esperança do futuro, algo que não mais lhe pertencia, e sim a outras pessoas. Como Teddy.

the chosen one
o escolhido

Ele andava pelas ruas com passos incertos, duvidosos, medrosos. Não sabia exatamente para onde estava indo, da mesma forma que sentia o lugar de onde estava vindo desaparecer em pedaços, migalhas e cacos do que um dia havia sido. Tudo destruído em uma única noite.

Bastou uma traição. Provavelmente apenas um par de palavras ditas à pessoa certa, que carregava dias, meses, anos de mentiras e podridão. Que havia resultado num assassinato, num milagre e na destruição de tudo o que Remus havia amado um dia.

Lily. James. Peter. Sirius.

Harry. O pequeno bebê estaria agora nas mãos dos parentes trouxas, pelo que ele ficara sabendo. Remus havia ido conversar com Dumbledore e só o que conseguira ouvir era o eco do que ensurdecia seu interior: Não consigo acreditar que isso tenha acontecido.

Remus passava boa parte dos últimos dias assim. Andando. Movimentando-se o suficiente para, talvez, não precisar parar para ver sua vida se desmoronar como a casa dos Potter, na noite em que Sirius Black havia vendido a vida de seus melhores amigos por magia negra.

Talvez ele nem tivesse tempo para perceber que estava, por fim, sozinho. Completamente.

a world unseen
um mundo desconhecido

- Ele vai ficar bem?

Remus não precisou dizer a quem se referia – sabia que Sirius não precisava ler sua mente para adivinhar. Era doloroso dizer o nome do filho, ele havia acabado de descobrir. Era como ter um flash da última vez que o vira, num berço no quarto da avó, e saber que jamais poderia segurá-lo em seus braços novamente.

- Teddy vai ficar bem. Tenho certeza que Harry vai ser um padrinho melhor do que eu.

- Eu espero.

Remus soube que Sirius havia esboçado um leve sorriso.

- E Tonks?

Ele evitou olhar o outro nos olhos, apenas mirou firmemente o brilho claro-escuro que parecia se estender ao infinito.

- Provavelmente está no mesmo lugar que nós.

- Como assim?

- Outro lugar, naturalmente, que ela considere importante. Com outra pessoa.

Importante, Remus poderia terminar a frase. Como Sirius era para ele. Não mais, não menos.

- Alguém que possa ajudá-la a não ficar presa em uma vida que não pertence mais a ela.

Alguém essencial.

a city wall
uma muralha de cidade

As letras garrafais que estampavam a capa do Profeta Diário naquele dia não lhe deixavam mentir. Sirius Black consegue fugir de Azkaban. E Remus deu adeus a qualquer paz interior que pudesse ter adquirido ao longo da década em que havia aprendido a viver sobre os destroços de uma vida passada.

Durante um ano Remus precisou lidar com todos os fantasmas de Hogwarts, dos amigos que fizera e perdera, das lembranças de vezes em que havia se perdido no perfume inebriante do homem que hoje era um fugitivo e dos momentos em que se encontrava na companhia dos amigos transformados em animais. Já era suficiente ter que conviver com as nuvens esparsas de lembranças dolorosas. Tinha que ser lembrado a cada edição do jornal mágico que havia sido traído pela pessoa em quem mais havia confiado.

Muito obrigado, Sirius. Uma presença infinita que insistia em atravessar qualquer barreira para penetrar a mente inquieta de Remus.

E você ainda precisa enfrentar umas dezenas de pirralhos irritantes, Sirius diria, se fosse mais do que o eco de uma presença distante. E Remus, certamente, riria de sua desgraça.

and a trampoline
e um trampolim

- E agora? Eu vou ser julgado e alguma espécie de ser superior decide se eu vou para o céu ou o inferno?

Sirius soltou uma risada gostosa e leve. Era quase aliviada, e Remus não precisava ler sua mente para saber que ele se tranqüilizava por Remus já ser capaz de brincar daquele jeito.

Havia aprendido com o fantasma irritante e irresistível de Sirius, que o acompanhara por boa parte de sua vida, que rir sempre era a melhor forma de enfrentar praticamente tudo.

- Não. Na verdade, eu não posso te falar nada ainda.

- E por que você está aqui mesmo?

- Ainda. Você vai poder ver por si próprio daqui a pouco.

- E o que você está esperando?

- Você.

Remus voltou a pensar em como tudo aquilo era confuso e estranho, e se sentiu frustrado por descobrir que a morte não era nem um pouco menos complicada do que a vida.

Sirius riu, provavelmente do pensamento de Remus.

- Você não mudou mesmo.

well, I don't mind if you don't mind
eu não me importo se você não se importar

- Eu sempre achei que Dumbledore sabia sobre nós.

- Eu sempre achei que Dumbledore também fosse gay.

- Não seja idiota, Sirius.

Havia se passado dois anos desde a fuga de Sirius, um ano desde que Remus descobrira que sua vida não havia sido uma mentira completa, e Sirius se escondia há várias semanas na casa do outro. Havia sido idéia do diretor de Hogwarts, que insistia que os tempos estavam se tornando cada vez mais perigosos e a hora de recomeçar a luta – ou seja, reunir a Ordem de Fênix – estava chegando. Rumores diziam que Dumbledore estava procurando um lugar para ser a sede. Todos deveriam ficar por perto.

Era a mesma cama em que, mais de dez anos atrás, Sirius havia, sem ao menos acordar Remus, saído para não voltar mais, deixando desconfianças em ambos os lados. Agora eles agora acordavam juntos todas as manhãs. E tardes, e noites.

- Talvez fosse hora de abrir a cortina. Pelo menos para saber que hora do dia é.

- Eu digo que enquanto houver comida em casa e nenhum comensal na varanda, não há razão para se preocupar com outra coisa.

- Pois a comida está quase acabando e quando aparecer um comensal na varanda você pode se preparar para morrer, porque essa casa está tão protegida quanto sua forma de cachorro é cheirosa.

- Acho que é hora de achar um elfo doméstico.

- E um xampu para pulgas.

- E uma focinheira.

A fome decidiu insistir mais tarde, e a briga se transformou em beijos brincalhões que levariam qualquer um a esquecer a falta de proteção nas janelas e portas. Quando acordaram, novamente, juntos, Sirius teve a idéia de ceder sua casa para servir de quartel-general da Ordem de Fênix.

- E tudo bem que aquele elfo doméstico é insuportável e um capacho da minha mãe, mas ele faz um sanduíche de rosbife que é uma delícia.

- Mais uma vez, eu me admiro com a ordem das suas prioridades.

- E vamos ter uma cama de casal.

- Ok. Não é uma má idéia.

cause I don't shine if you don't shine
porque eu não brilho se você não brilhar

- Eu vou poder mesmo ver o Teddy? Pelo menos… saber se ele está crescendo direito?

Sirius o olhou com um sorriso solidário. Parecia querer demonstrar que entendia aquela preocupação, e Remus sabia que a afeição que Sirius havia desenvolvido por Harry no curto período em que os dois haviam convivido era mais forte do que ele imaginava. Além do mais, não deveria ser nada fácil se preocupar com o menino que sobreviveu.

- Sim.

Remus suspirou, e um cansaço que ele não sabia existir fez com que seu corpo se mostrasse mais fraco do que ele imaginava. No teto, as cores difusas continuavam a se movimentar e mudavam de direção com a mesma intensidade de quando Remus havia acordado, mas numa velocidade de freqüência bem mais calma do que anteriormente.

- O que está acontecendo?

- O que deve acontecer. Assim que você permitir.

Remus não quis perguntar o que deveria fazer, ou o que viria a seguir. Aquele lugar, o que quer que fosse, possuía uma espécie de segurança que não se experimenta em outros lugares – ou vidas, talvez ele devesse dizer.

- Moony.

E aquela sensação de conforto podia se sustentar em uma palavra, dita com a voz macia e firme; delicada, mas com um velho eco conhecido que só um latido de um velho amigo podia trazer.

- Você precisa me deixar. Para poder ir em frente.

Remus suspirou, e o teto se movimentou calmamente até formar uma espécie de brilho prateado que inspirava resignação, assim como a lua prata representava todos os meses uma irremediável tarefa.

Mas Sirius sorriu, com um rosto que não definia exatamente qual Sirius era, mas apenas reunia a alegria irresponsável do adolescente, a preocupação com os amigos do jovem, a loucura do adulto preso, o cansaço e a frustração da criança envelhecida que não agüentava ficar presa na casa dos pais. E um brilho novo, uma aura que Remus ainda desconhecia, que não era felicidade nem tristeza, apenas – ele poderia estar enganado, mas conhecia Sirius o suficiente para saber – satisfação.

Quando Remus percebeu, ele também sorria, e o céu havia se transformado num azul sem fim.

- Não se preocupe – Sirius disse, enquanto tudo ao seu redor parecia se diluir naquele sorriso antigo e novo ao mesmo tempo, alegre e cansado. – Ainda não acabou.

before you go, tell me what you find, when you read my mind.
antes de você ir, me diga o que você acha, quando lê minha mente.