Capítulo 02 – Guerra declarada

Era um pesadelo. Eu tinha certeza. Minha casa estava parecendo um galinheiro. Se bem que essa não seria a melhor definição para tentar explicar o que raios acontecia ali. Tá mais pra algo do tipo 'Fui abduzida e ETs muito estranhos reconstruíram a minha casa a partir das minhas lembranças'.

Tinham pelo menos umas vinte pessoas saindo e entrando o tempo todo! Trazendo algumas coisas, iam para o quarto de hospedes, faziam a maior barulheira montando e desmontando coisas lá, e depois saiam!

Foi assim o dia quase inteiro. E eu não me atrevi a passar perto da porta daquele quarto para ver o que estavam fazendo. Com certeza o astrozinho havia feito um monte de exigências dizendo que queria que os lençóis da cama fossem de linho puro trazidos direto do... Ah, sei lá, de algum desses lugares que os artistas acham chique!

Bom, se ele queria ver como era a tal vida simples, todas aquelas coisas não iriam ajudar nem um pouco!

Desistindo de prestar atenção no entra e sai, larguei-me no sofá e fiquei procurando alguma coisa para assistir na TV a cabo. Mas parecia que quando a gente estava sem nada para fazer, e queria algo legal para assistir só passavam coisas chatas e sem graça.

– Não está na hora da reprise de 'Onde os meninos não choram'? – minha mãe perguntou animada.

– A senhora já sabe todos os episódios de cor e salteado – reclamei sem parar de passar os canais.

– Nem todos! – ela tentou se defender.

– Que horas ele vai chegar? – perguntei sem emoção alguma. Sabia que minha mãe andara conversando a tarde toda com os carregadores e o segurança que fazia a supervisão da montagem das coisas no quarto.

– Também está ansiosa? – os olhos da minha mãe brilhavam quando ela se virou para mim.

– Nem um pouco – bufei irritada.

– Você tem que recebê-lo bem, Saori! – girei os olhos com a exclamação de repreensão dela.

– Recebê-lo bem não significa beijar o chão que ele pisa! – falei entre os dentes. – Ele é só um ator.

– Pode até ser – minha mãe disse e percebi que ela estava falando realmente sério naquele momento (coisa que acontecia muito raramente!) – Mas ele será nosso hóspede e quero que seja bem tratado enquanto estiver aqui! Entendeu?

– Sim, senhora – sussurrei obediente.

Afinal, por que será que as pessoas não conseguiam entender que ele era uma pessoa normal? Um garoto completamente igual a qualquer outro, claro que talvez nenhum garoto ficasse tão bem com aquela roupa de Peter Pan, mas ele ainda assim continuava sendo um cara comum.

– Os carregadores disseram que já terminaram de organizar tudo para a chegada dele, acredito que não demorará muito.- disse ela falando mais para si mesmo do que qualquer outra coisa. A ansiedade de minha mãe era realmente algo irritante.

Sim, ele estava atrasado, e muito por sinal! Eu iria chegar depois do horário na escola por causa disso, e ai da Encalhada se colocar a culpa em mim!

Ele finalmente havia chegado. Mamãe acabou me obrigando a sair do meu estado de inércia no meu confortável sofá para ir recebê-lo, tenho que admitir que acabei ficando um tanto quanto...curiosa, para conhecê-lo, oras, não é todo dia que um ator tão famoso como Ogawara bate em sua porta.

– Bem vindo – disse eu sem qualquer emoção, tomando em seguida uma cotovelada vinda de minha mãe, forcei-me a sorrir para tentar melhorar a situação.

– Seja muito bem-vindo, Sr. Ogawara, sinta-se muito a vontade – falou mamãe com um sorriso enorme. Eu sabia o que ela devia estar pensando: Ele é lindo, bonito e tem dinheiro! Perfeito pra ser namorado da Saori!

Credo! Eu acho que ela não entendeu que para mim não basta fama, dinheiro e uma carinha bonita (sem falar no resto do corpo também, mas isso não vem ao caso agora).

– Precisa de alguma coisa? – o sorriso da minha mãe não murchava de jeito nenhum.

– O resto das malas está no carro, estou cansado, preciso de um banho quente, quero alguma coisa para comer em meus aposentos assim que terminar o banho, sim? Espero que tenham lhe entregue tudo aquilo que eu gosto ou não na comida, odiaria que começássemos tudo isso com o pé esquerdo. – Disse, disse não, cuspiu todas aquelas palavras o tal de Seiya. Como pode caber tanto ego em uma única pessoa? Ele simplesmente nos ignorou! Quem ele pensa que é? Foi exatamente isso que perguntei.

– Sou Ogawara Seiya, acredito que já tenha me visto na Tv ou no cinema muitas vezes, não darei autógrafos agora, mas quem sabe uma outra hora, afinal, preciso ser gentil com minhas fãs não é mesmo? – respondeu ele com um sorriso (falso!) e quase fiquei cega com o brilho daquele sorriso cintilante que devia custar um trilhão de dólares.

E espera aí! Fã?! Eu ouvi direito? A única fã que existia ali era minha mãe, que não parava de sorrir. Eu acho que vou procurar um prego para estourar esse sorriso de balão dela.

– Acho que alguém está muito enganado por aqui. Antes de mais nada, preste atenção em algumas coisas: Primeira- ergui o dedo para iniciar uma contagem – Eu não sou, nunca fui, e nunca serei fã de alguém com um ego tão grande; Segunda: Eu e minha mãe – apontei para aquela estátua parada a porta – Não somos suas empregadas, portanto, não nos trate de tal maneira; e Terceiro e ultimo: Eu, eu, eu NÃO SOU SUA FÃ!

– Tanto faz – ele balançou os ombros de maneira displicente – Onde fica o banheiro?

Ele fez novamente! Me ignorou na maior cara dura! Não fazia nem dez minutos que aquilo havia chegado e eu já o odiava, e muito!

– Subindo a escada, a segunda porta a esquerda Sr. Ogawara – respondeu prontamente minha mãe, como ela podia deixar ele agir daquela maneira com ela? Com a gente? COMIGO, a filha dela?!

Ogawara simplesmente virou as costas e seguiu pela escada, sem 'obrigado' ou qualquer demonstração de gratidão! Não sei qual sentimento ficou mais a flor da pele naquele instante, se era a minha irritação ou o fascínio de minha mãe por aquele, aquele atorzinho de meia tigela!

– Saori minha filha, enrugar tanto o rosto não faz bem sabia? Essas rugas podem virar permanentes. Uma garota com tantas assim nunca conseguiria achar um namorado decente, por que você acha que a sua diretora ainda esta solteira, hein? – Falou ela com um semblante um pouco sério, chegava a ser cômico a maneira como ela fez desaparecer tão rápido o sorriso do rosto bastando Seiya sumir no corredor, conhecem aquela frase 'seria cômico, se não fosse tragico'? Então, seria cômico, se não fosse extremamente irritante!

– Mãe, por favor, não me faça odiá-la também, sim?- disse a fitando com um profundo 'amor', sem nenhuma paciência pra criar algum argumento melhor para respondê-la.

– Estou esquecendo algo... - Adivinhem o que ela esqueceu? É, isso mesmo. Ela havia deixado algo no fogo, o cheiro de queimado já havia impregnado a casa toda - Ai meu Deus! – e saiu correndo.

– Tem algo queimando ou é impressão minha? – falou o Sherlock na ponta da escada de roupão, Seiya mal havia chegado e já andava por ai como se estivesse em sua casa. Atrevido, isso sim!

– Descobriu isso sozinho, Sr. Seiya? – perguntei irônica.

– Sim, eu sempre tive um olfato muito bom, e uma visão e todo o resto, fazer o que né? – ele estava brincando comigo não é? Diz que sim! – Bom, seja o que for eu estou indo para o banho, não quero que ninguém me incomode. – Eu não disse que ele era atrevido?

– Vá logo e não reclame, e não vá ficar mais de quinze minutos no banho, ouviu? Eu irei cronometrar! – gritei a última parte, pois o super educado Seiya já havia me dado as costas, olhei o relógio, espera um pouco, 7:44 ? Não pode ser... – Mamãe, o relógio da sala esta adiantado? – perguntei com certo receio por já saber a resposta adentrando a cozinha.

– Não filha, ele esta é alguns minutinhos atrasado até – respondeu ela, mais preocupada em tentar recuperar algo da comida queimada.

Dei um grito e sai correndo. Nós nunca chegaríamos a tempo! A Encalhada vai ficar uma fera por causa disso, mas eu não tenho culpa por aquele idiota não ser pontual. Preciso pegar minha mochila, meu lanche, meus sapatos e, o Mala! É claro! – dei meia volta e corri escada acima - Quem sabe exista a possibilidade, remota que seja, do Seiya conseguir acalmar a Diretora com sua presença, evitando assim uma suspensão, o que não seria nada agradável para minha mesada (que já é curta).

– Ogawara, nós estamos muito atrasados para a escola! Nem pense em entrar nessa banheira. Vista o uniforme e ande logo! – gritei esmurrando a porta do banheiro, sem resposta, ele estava me ignorando? – Ogawara! Eu sei muito bem que você pode me ouvir!

– Que parte do 'eu não quero ser perturbado' você não entendeu? - reclamou ele de dentro do banheiro.

– E que parte do 'estamos muito atrasados' VOCÊ não entendeu? - rebati no mesmo tom, sem parar é claro, de esmurrar a coitada da porta.

Por pouco não acertei um soco no nariz dele! Sorte a dele de ter conseguido segurar meu pulso no meio do trajeto.

Você já deve ter passado por aqueles segundos que parecem séculos de tão embaraçosos que são não é mesmo? Seiya havia saído do banheiro com apenas uma toalha enrolada na cintura, as fãs dele matariam a mim e até mesmo o Papa para estar em meu lugar. Minha reação acabou sendo bem previsível.

– Aiii! - gritou ele levando uma das mãos ao rosto – Por que você fez isso? Sua louca! - É, em um impulso dei-lhe um baita tapa em seu rosto. Oras, o que eu poderia ter feito? Gritar e tentar agarrá-lo por ele ter um corpo de tirar o fôlego? É claro que não! O corpo dele nem é tão bonito assim.

– Eu... Eu... Vá se arrumar logo! Antes que eu acerte a outra bochecha para deixar por igual - respondi descendo as escadas o mais rápido possível, não preciso dizer que meu rosto estava rubro não é mesmo?

Ele gritou um outro "louca" e mais alguma coisa sobre ligar para o agente dele, e blá blá blá.

Alguém poderia me dizer se já inventaram o tele transporte? Acho que nem com ele conseguiríamos chegar na escola a tempo. Não demorou muito para ele aparecer no corredor, tenho que admitir que o uniforme da escola não ficava tão maravilhosamente bem nos garotos do colégio como ficava nele. Principalmente porque os garotos da escola eram comportados e não deixavam os primeiros botões da blusa aberta daquele jeito! Ou então, porque a calça não ficava tão justinha... Nem o cabelo era tão perfeitamente desalinhado.

AH! Estou enlouquecendo!!! Ele é apenas o irritante Seiya Ogawara.

– Você não esta se esquecendo de algo não? - perguntei vendo Seiya se dirigindo para a fora da casa.

– E do que seria 'Mamãe'? - disse ele ironicamente, fazendo uma cara não muito agradável.

– Você vai precisar de algum tipo de disfarce, se não nem entrar na escola nós vamos conseguir

– E o que a Senhorita Sabe–Tudo sugere? Barba e bigode, ou uma máscara negra estilo Zorro? - caçoou ele com um sorriso amarelo.

Corri para meu quarto, revirei meu armário até achar algo que servisse.

– Pronto. Isso não vai enganar ninguém, mas ninguém poderá dizer que eu não tentei – disse terminando de colocar o boné e os óculos que meu pai usava quando era mais novo. Seiya ainda era... o Seiya, só que com um óculos e um boné, ou seja, nada havia mudado, não conseguiríamos enganar ninguém com aquilo.

Onde eu fui me meter?

– Esses óculos são mais antigos do que não sei o quê! Não vou usar isso de jeito nenhum! E esse boné? É feminino! – reclamou ele tirando tudo e franzindo a sobrancelha.

Fresco! Ele tinha que se ajoelhar e beijar os meus pés por eu estar fazendo todo aquele sacrifício por ele.

– Isso foi o melhor que eu puder arranjar na última hora. Pare de ser teimoso e use isso, pelo menos por hoje, quando chegarmos da escola você liga pra sua equipe ou sei lá para quem e pede óculos e bonés novos, ok? – falei por fim em um suspiro.

– Ok. – deu-me as costas. Como eu odeio quando ele faz isso!

– Anda logo, suba nessa bicicleta e pedale o mais rápido que puder, eu vou na garupa – disse eu lhe entregando minha bicicleta.

– Eu não vou andar nisso, sou um ator e não um ciclista! – reclamou ele cruzando os braços. "Nisso"? Minha bicicleta era um pouco antiga, mas ainda andava muito bem! Já havia me salvado muitas vezes de chegar atrasada.

– Vai andar nisso sim, aliás, vai andar nessa bicicleta sim! Ou vai me dizer que o senhor todo poderoso Seiya Ogawara não sabe andar de bicicleta? – Quem sabe com alguns deboches ele não aceite, homens odeiam quando atingimos o ego.

– Não é nada disso. Eu só não quero correr o risco de sofrer um acidente andando com esse negocio que você diz ser uma bicicleta, mas que pra mim tá mais pra uma lata velha, isso sim, e, além disso, eu não conseguiria pedalar com uma gorda como você na garupa! Vamos logo chamar a limusine. – resmungou novamente ele. Olhei para o relógio e vi que já eram 7:56, precisávamos ir, e rápido.

– Suba na garupa, ande logo!- disse subindo na bicicleta – E eu não sou gorda! – falei por fim saindo de casa com o famoso ator Seiya Ogawara sentado na garupa da minha bicicleta.

E quem diria... Ele era medroso! Isso ou ele não confiava em mim dirigindo uma 'lata velha' como ele mesmo disse. O caminho até a escola nunca foi tão longo. Ele não parava de reclamar e de dizer que ele era bom demais pra andar em uma simples bicicleta, e o quão melhor era andar de limusine.

– Claro... Ninguém irá notar uma limusine na porta da escola. - falei ironicamente - Você, mais do que ninguém, deveria saber que precisamos manter sigilo sobre tudo isso. Se a escola toda ficar sabendo, você acha mesmo que vai conseguir terminar esse laboratório? Se você quer saber como é ter uma vida simples terá que começar a fazer o que estou pedindo sem reclamar tanto. – falei por fim, concluindo meu sermão.

Acho que ele entendeu o recado, pois passou o restante do caminho quieto. Chegando na escola encontramos os portões fechado, obviamente, já passavam das 8:25. Teríamos sorte se conseguíssemos ao menos entrar.

– Espero que tenha uma boa desculpa para justificar seu atraso Senhorita Kido. – disse a Diretora se aproximando. E sabe a pior parte? A cara dela não estava nada boa, na verdade ela nunca esta com uma cara boa, porém naquele dia tudo parecia pior.

Nos dirigimos até a sala da Encalhada. Ela pediu para esperarmos um pouco do lado de fora, parecia que havia alguma outra vítima ali dentro. A voz da Encalhada era ouvida perfeitamente, e coisa boa não era. Tenho pena daquela pobre alma.

– Ela é sempre assim ou ela não acordou bem hoje? –perguntou Seiya encostando-se na parede.

– O gênio dela sempre foi assim, mas parece que hoje ela acordou com o pé errado mesmo – respondi depois de um suspiro – Acho que não fomos apresentados direito. Sou Saori Kido, muito prazer – forcei-me a sorrir e estendi minha mão para cumprimentá-lo. Não custava nada tentar ser legal. Mas ele apenas ficou olhando para mim sem fazer qualquer movimento de que iria retribuir o meu gesto.

A Diretora abriu a porta e nos chamou. Seiya passou por mim e entrou. Sem educação? Não, imagina só, era só impressão minha.

– Antes de mais nada, Sr. Ogawara, é o senhor mesmo? – E pela primeira vez em minha vida, eu vi a Encalhada dando o que parecia um sorriso! Eu sabia que ele conseguiria acalmar a fera.

– Sim, senhorita, eu mesmo e a senhorita é? – falou ele com um ar de galã de novela. Pode alguma coisa dessas?

– Sou a diretora do colégio, Shina Shindonani, muito prazer!- Não liguem para mim, eu só estou fazendo volume na sala mesmo.

– Pode ir, Sr. Ogawara, se tiver qualquer problema poderá vir tratar comigo diretamente, tenha um ótimo bom dia! – falou ela com aquele sorriso estranho, sinceramente prefiro quando ela esta séria, aquele sorriso me dá medo.

Eu estava saindo da sala junto com Seiya quando a mão da diretora me impediu de continuar o percurso.

– Onde a senhorita pensa que vai? – Shina exclamou voltando para o seu humor normal, depois do momento 'babação' pra cima do Seiya. Sério. Ela tinha que arrumar um babador gigante!

Seiya sorriu de uma forma vitoriosa pouco antes de sair e disse – 'Isso é pelo é mais, Kido.' – gabou-se ele. Não dava pra acreditar, a Encalhada realmente vai jogar a culpa em mim? Estreitei os olhos e fiz a melhor cara de poucos amigos. Se era guerra que ele queria, era guerra que ele iria ter!