Capítulo 1 – Hands Down
Breathe in for luck, breathe in so deep
This air is blessed, you share with me
This night is wild, so calm and dull
These hearts they race from self-control
Your legs are smooth as they graze mine
We're doing fine, we're doing nothing at all
- RUIVA! Manda outra cerveja!
- Eu quero um Back in Black! Sem hortelã!
- Caribbean Kings! Caribbean Kings!
Lily Evans deixou seu olhar vagar pelo amplo salão do pub. Os sábados tinham as noites mais agitadas da semana para a Coyote - o que significava alguma banda alternativa arranhando acordes em cima do palco simples, ingleses de sotaque ainda mais enrolado pelo excesso de álcool e caixa cheio ao amanhecer do dia.
Bêbados de hálito forte tagarelavam sozinhos – ou não - esparramados aos montes sobre o balcão enquanto a bartender punha os longos cabelos sobre o ombro direito e abanava com a mão o pescoço descoberto para dissipar o calor. Tinha gente demais ali. Ela suspirou e, com a destreza de quem fazia aquilo quase toda noite, agitou uma coqueteleira repleta de vodka e suco de frutas por alguns segundos. Despejou o drink no longo copo, enfeitou-o com um pequeno guarda-chuva de plástico e empurrou-o, fazendo-o deslizar pela bancada.
- Mary, prepara um CK para aquele loirinho da ponta, ok? Saindo um Back in Black! – Lily gritou avisando, tentando ser ouvida em meio ao barulho da música alta e das vozes elevadas. Não se certificou se o homem recebera sua bebida; correra para o outro lado, onde ficava a sempre abastecida torneira da cerveja. Puxou uma grande caneca e encheu-a até o máximo, deixando a espuma transbordar em seus dedos.
Teria apenas deixado a cerveja com o cliente que a pedira e voltado ao seu lugar habitual no balcão junto das outras bartenders, se ele não a tivesse puxado pelo pulso. Atraente em seu queixo quadrado e seus fios brancos surgindo entre as mechas castanhas, o homem deveria ter a idade do seu pai.
- Qual seu nome, princesa? – ele sorriu, charmoso. Subia e descia a mão lentamente do pulso da garota até o cotovelo, deixando-se levar e libertar pelo álcool.
- Hmm... – Lily murmurou, prendendo o riso. Já usara Sophie mais cedo esta noite; droga, era seu favorito. – Claire.
- E a que horas você sai? – ele perguntou, maliciosamente.
- Muito tarde. Ou bem cedo, depende do seu ponto de vista.
- Não me importo; eu te espero e te levo em casa. O que acha?
"Garanta sua cadeira para permanecer sentado", Lily teve vontade de responder. Só para vê-lo arregalar os olhos de surpresa e afastar-se ofendido. Mas todo aquele ambiente de sedução inspirado pelas bartenders, suas apresentações e suas roupas mínimas era terminantemente proibido tanto de ser quebrado com uma rejeição, quanto de ser incentivado com interesses verdadeiros. Regras da dona, condições para manter o dinheiro no fim do mês.
Lily contentou-se em piscar o olho e não mais voltar para aquele lado. Ao retornar ao seu posto de costume, percebeu que a maioria dos que antes se amontoavam ali pelo balcão agora dançava desajeitadamente na pista ao som de alguma balada eletrônica, cada um com uma long neck de cerveja na mão erguida.
- Você não se incomoda?
Lily desviou o rosto e a atenção do balcão que passara a limpar para notar um rapaz sentado numa das cadeiras altas próximas à bancada. Vestia-se casualmente, quase passando despercebido na multidão se não fosse a etiqueta Armani no suéter azul-marinho. Ar de menino rico e bem criado, ele apoiava-se sobre os cotovelos, curvando os ombros largos, mexendo o conteúdo de seu coquetel com o canudo.
- Desculpe? – ela hesitou, o pano enrolado em uma das mãos.
- Você não se aborrece com esses bêbados enchendo o saco toda noite? - quando ele a fitou, concentrado e levemente irritado, Lily percebeu que seus olhos eram castanhos. Lily Evans nunca se importava com a cor dos olhos de ninguém, exceto se eles fossem azuis. Ela tinha um certo receio de encarar diretamente uma pessoa de olhos azuis; era como se eles fossem capaz de analisá-la, decodificá-la e descobri-la por inteiro, revelando ao mundo verdades que nem ela mesma saberia sobre si. Mas aquele rapaz tinha olhos castanhos. Era
um tom de marrom que ela podia dizer que ao sol assumia a cor do verde, mas naquele momento eram castanhos. Tão profundos, tão quentes. Inspiravam uma certa confiança.
Mesmo assim, ela temeu que os olhos castanhos do desconhecido a decifrassem por sua intensidade, ainda que os óculos os ocultassem em parte. Desviou o olhar, com um dar de ombros casual e displicente, e sorriu com o canto da boca, quase capaz de fitar o próprio rosto no tampo do balcão que tornara a polir.
- Pra ser sincera, eu acho bem divertido. – Lily respondeu, tendo que elevar a voz em razão da nova e agitada música que começara a tocar.
- Sério? Pensei que a maioria das mulheres se sentisse ultrajada com cantadas tão baratas, tão vazias. – o rapaz disse, verdadeiramente espantado com a resposta.
- Eu nunca me encaixei direito na maioria, para começo de história. – a garota gargalhou ao vê-lo erguer as sobrancelhas de súbito. Ele agora sorria, meneando a cabeça, mordendo a parte inferior da boca. Seus lábios eram na medida certa, Lily notou; relativamente grossos, suficientemente cheios e adoravelmente rosados. Padrão. – Além disso, quem vai levar qualquer um desses caras a sério? Eles só estão de porre. Os menos experientes daqui a pouco vão correr para o banheiro, vomitar tudo e ter uma baita dor de cabeça. Enquanto isso, eu me divirto com as bobagens que eles falam e anoto as dignas de recordação para um futuro livro.
O rapaz gargalhou com vontade, inclinando o pescoço para trás. O pomo-de-adão na garganta era relativamente destacado, másculo. Puxou o copo longo com a mão em gancho e ergueu-o, num brinde.
- Hey, Red. – um homem na faixa dos vinte e sete, vinte e oito anos apareceu no balcão, encaixando-se entre Lily e o estranho, bloqueando um de ver ao outro. A garota rolou os olhos e mais uma vez desejou ter nascido morena. - Quero um Hearts on Fire para combinar com o meu coração louco por você.
Após preparar o coquetel, Lily estendeu a mão para receber o cartão de consumo e registrar o pedido, mordendo o lábio inferior para não gargalhar na frente do cliente e conseguir mais um problema para sua lista. Ao devolver a ficha ao dono, teve sua mão puxada levemente e nela rapidamente escrita um número de celular.
Sorriu forçadamente para o homem enquanto ele se afastava. Assim que ele lhe deu as costas, Lily fez um careta de nojo e foi em direção a pia mais próxima, para lavar sua mão e livrá-la da tinta.
O desconhecido ria abertamente de sua má sorte.
- Isso, isso. Vai, ri mais. – a ruiva resmungou, ainda esfregando a mão um pouco azul. – Mas se prepare!
- Uou, Red, isso foi uma ameaça? – ele sorriu de canto de lado.
- Talvez. – Lily ergueu uma sobrancelha em desafio. - Brincadeira. O fato é que ninguém está imune a essas cantadas idiotas. Como capítulo de destaque em meu futuro best-seller, defenderei minha teoria de que, quanto mais vodka eles bebem, mais brega ficam. E quanto mais tequila, mais ousados.
- O caso é grave assim?
- Depois de um ano e meio no ramo indireto do álcool, você acaba percebendo essas coisas, ahn... Desconhecido. – Lily sorriu.
- Você tocou num ponto importante agora. – ele apontou, os olhos brilhando estranhamente.
- Qual? O fato que eu deveria deixar de fornecer membros aos Alcoólicos Anônimos e procurar um emprego de verdade?
O rapaz gargalhou, escondendo os olhos com a mão.
- Não. O fato que eu ainda não sei seu nome. – ele esclareceu, sorrindo de um jeito diferente. Um pouco maroto, um pouco ingênuo. Verdadeiro, interessado.
A ruiva ergueu uma sobrancelha em descrença e não respondeu.
- Vamos lá! – ele pediu, os ombros mais curvados. – Eu sei que não é Claire, ou Sophie, ou Elizabeth, ou Jane.
- Você anda gravando minhas conversas por aí, stalker? – Lily brincou, enquanto agitava suco de abacaxi e vodka na coqueteleira.
- Ah, por favor. – ele tentou novamente, dessa vez com uma feição desolada de inspirar dó. – Você não quer que eu te chame de Red a noite inteira, quer?
- O nome dela é Lily Evans, tem dezoito anos e nunca foi mais solteira! – informou uma bartender de curtos cabelos negros e rosto redondo que voltava do salão.
- Alice Fletcher! – a ruiva exclamou, indignada, pousando com força um copo no balcão.
- É, essa sou eu. – a outra sorriu, maliciosa, já do outro lado da bancada. – Dezenove anos, mas super comprometida, nem se iluda.
- Eu não acredito no que você acabou de fazer. – Lily ainda reclamava, preparando outro drink.
- Ah, qual é, Lils. Você só tinha que fingir que era mais um nome falso, não precisava desse estardalhaço todo. – Alice comentou, enfeitando alguns copos com rodelas de grapefruit. – Além disso, o cara excede nossas expectativas do âmbito da Coyote e vocês estão conversando na maior empolgação há séculos. Qual o grande problema nuns beijinhos no after-party? Às vezes eu não te reconheço.
O rapaz gargalhou, meneando a cabeça.
- Eu ainda estou ouvindo, sabem. – ele informou.
- Que bom. Quem sabe assim você tome uma atitude. – Alice piscou um olho e novamente afastou-se.
Os lábios de Lily tornaram-se uma linha fina e suas bochechas – apesar das luzes do pub – ostentavam um tom de vermelho bastante forte.
- À propósito... eu sou James Potter. – o rapaz disse com um sorriso.
A ruiva ergueu uma sobrancelha em descrença.
- O que, você quer que eu te mostre minha carteira de identidade para poder acreditar em mim?
A garota balançou a cabeça e riu, mordendo o lábio inferior.
- Não precisa. Eu confio.
Ou talvez não. Embora Lily antes estivesse estranhamente empolgada em sua conversa com o desconhecido, agora que ambos já eram capazes de procurar um ao outro na lista telefônica, o encanto parecia ter sido quebrado. Ele apenas pedira outro Jelly Shot e não mais puxara assunto; ela passara a cuidar sozinha do balcão quando Alice foi embora mais cedo.
Mais tarde, quando Lily Evans retornou de servir um cliente na outra extremidade, James Potter havia desaparecido.
Era quase uma nova manhã para a grande Londres quando os jovens ingleses e clientela da Coyote resolveram retornar ao conforto do lar em busca de curas para a dor de cabeça violenta que futuramente sentiriam. Lily Evans e Mary MacDonald, no entanto, ainda arrumavam a bagunça deixada; lavavam os intermináveis copos empilhados na pia, varriam para longe as garrafas quebradas no chão, reuniam objetos para o Achados e Perdidos, além de limparem as dependências mais propícias ao mau estar dos bêbados.
- Mary, você está pronta? Minha nossa, estou um caco. – Lily comentou, passando os dedos pelos cabelos, tentando recompô-los. Procurou nos bolsos da mochila por uma escova ou um espelho, mas não encontrou nenhum dos dois.
- Sim, já podemos ir. – a amiga respondeu, prendendo os cabelos castanhos num coque alto e saindo pela porta dos fundos dos "Somente Funcionários".
As duas caminhavam em silêncio até a estação do The Tube, o conhecido metrô de Londres e principal meio de transporte público – até mesmo para aqueles que dispunham de um particular. Lily tentava aquecer as mãos, assoprando-as.
- Então, Lily Evans... você não tem nada para me contar? – Mary perguntou falsamente desinteressada, o olhar perdido no horizonte.
- Aahn... não.
- Certeza? E aquele cara com quem você conversou por horas e horas no balcão?
- Aaah, sim!
- Alice comentou comigo e eu totalmente concordo com ela quando digo que ele era lindo! O que era aquela camisa Armani? Nossa.
- Você parece uma pré-adolescente assim, Mary. – Lily comentou um pouco assustada. – Mas sim, era o James.
- Hmm, o James é? E o que o James queria?
- Nada, Mary! – Lily respondeu, impaciente com o tom malicioso da amiga. – Nós só estávamos conversando sobre as cantadas furadas dos caras da Coyote, foi isso.
- Ele não tentou nada? – Mary se surpreendeu.
- Não!
- Que cara chato!
As duas atravessaram as catracas para entrar na estação do metrô e lá mesmo se separaram, já que Mary costumava tomar seu café da manhã já no Tube.
- E vocês aindadizem que os homens são todos iguais.
Lily ergueu os olhos para a voz masculina. James Potter lhe sorria, segurando-se na barra de metal do metrô em movimento.
- Bom, e não são? – ela perguntou, a cabeça inclinada fingindo dúvida.
- Vocês são bem piores. As mulheres conseguem ser tão mais maldosas e cruéis do que nós, homens... – ele comentou, em tom de auto-piedade, sentando-se ao seu lado.
- Coitadinho! – Lily exclamou sarcasticamente num tom de falsete, dando duas batidinhas de apoio no braço do rapaz.
- É a verdade e você acabou de comprovar minha teoria.
- Como assim?
- Eu estava te esperando na saída da Coyote para pedir desculpas por ter desaparecido a noite inteira.
Lily fez uma careta de estranheza.
- Você não me deve satisfações, James.
- Mesmo assim. Eu senti que precisava, e então fui. Mas você estava com uma amiga, e eu não quis interromper a conversa. Até perceber que era sobre mim.
- Mary tem a mente de uma garota de treze anos, não se impressione.
- Mas o importante é que eu tive a prova concreta! Vocês absolutamente expõem a intimidade masculina nas suas fofocas. Falam sobre as conversas íntimas, contam os segredos, revelam os apelidos carinhosos, reclamam do que fez ou deixou de fazer... ficar ou namorar uma garota, hoje em dia, é praticamente namorar ou ficar com todas as amigas por tabela!
- Sabe, James... isso soou meio cafajeste. – Lily comentou com uma sobrancelha erguida e um sorriso de canto de boca.
Ele gargalhou com gosto.
- Não foi isso que eu quis dizer! Você está distorcendo o que eu falo, Lily.
- Jamais! Agora você se expressa mal e a culpa é minha? – ela instigou, divertida.
- Hey!
- Ok, certo. E todas essas frases feitas e apelidos bregas? São repassados boca a boca entre vocês homens, provavelmente achando que funciona. – ela rolou os olhos e riu brevemente.
- Vocês também espalham, não exclua sua culpa.
- Mas em sentido negativo, como uma crítica! Por favor, chamar uma garota de boneca é ridículo!
- Mas de tanto perceber vocês comentando esses apelidos, os homens acabam por pensar que vocês gostam. E cria-se um ciclo vicioso eterno que não desencalha ninguém.
- O álcool realmente produz as melhores idéias. – Lily concluiu, com a voz séria.
Os dois gargalharam alto no metrô vazio e, estranhamente, caíram no silêncio novamente. A garota passou a sentir os olhos pesados e fechou-os somente por um instante...
- James. – ela chamou, levantando subitamente a cabeça do ombro do rapaz – Em que estação nós estamos?
- A tequila me impede de te dar um nome, mas é a mais próxima de Primrose Hill, certeza. – ele respondeu ainda de olhos fechados.
- MENTIRA! – a ruiva deu um pulo de susto, acordando de repente. – Merda!
- Aconteceu alguma coisa?
- Sim! Eu estou no lado total oposto ao que eu deveria estar em Londres!
Ela se levantou e passou a andar nervosamente pelo corredor do metrô, apoiando-se nas barras de metal erguidas.
- Como eu sou estúpida! – ela repetia para si mesma. – Que horas eu vou chegar ao Soho agora? Já na hora de aparecer para o Paint Ball! Merda.
- Hey, hey, hey! – James exclamou um pouco preocupado. – Vem, senta aqui, Lily. Isso. Olha, minha casa já está perto. Eu sei que você nem me conhece, mas eu posso fazer um café bem forte para você poder encarar o metrô de novo.
Ela mordeu o lábio, desconfiada.
- Tudo bem. – a garota por fim concordou, inspirando profundamente para se acalmar. – Mas precisa ser rápido.
James sorriu e indicou que eles já deveriam descer. Ambos com as mãos nos bolsos caminharam em silêncio pela estação vazia do Tube e pelas calçadas de tijolos brancos de Primrose Hill, admirando os jardins bem cuidados das casas abastadas e suas cercas de madeira. A uma dessas – dispondo até mesmo de um singelo balanço – o rapaz se dirigiu, atravessando uma pequena passarela de pedras. Ele teve uma rápida dificuldade em achar a chave certa dentro de um molho completo, mas quando a encontrou destrancou a porta com um clique seco.
O lugar era relativamente grande. A sala era decorada em tons claros, embora houvesse várias almofadas de cores chamativas espalhadas pelo chão. Paredes beges e sofás brancos, móveis de madeira adornados por eletrodomésticos e eletroeletrônicos de último ano.
- Querida, cheguei! – ele gritou com um sorriso no rosto ao ver a feição surpresa de Lily. – Venha, a cozinha é por aqui.
James foi à frente, tirando a jaqueta e jogando-a em cima de uma cadeira da mesa de jantar. Lily seguia-o de perto, com medo de perder-se.
- Meu amor! – ela o ouviu exclamar carinhosamente. – Como passou a noite, bebê? Muito sozinha?
Lily Evans sinceramente esperava que um homem com tanto assunto e tanta beleza não fosse ridículo a esse ponto; não podia ser uma namorada – quem sabe uma esposa? – a esperá-lo. Podia? O mundo andava tão esquisito.
- Lily, essa é a Charlotte. Charlie, essa é Lily. – James sorriu amplamente, enquanto acariciava a cabeça da Cocker Spaniel castanha sentada comportadamente no chão.
Lily boquiabriu-se e ajoelhou-se rapidamente, encantada.
- Oi, Charlotte. – a ruiva cumprimentou, passando a mão pelos pêlos lisos e vastos das costas da cadela. Ela pareceu gostar muito da garota, pois pulou em seu colo e lá mesmo ficou, apreciando os carinhos em seu pescoço.
James lavara suas mãos e preparara um rápido café na máquina à expresso. Serviu-o em duas grandes canecas – a de Lily dizia "Super Melhor Amigo" – e então se sentou ao seu lado, no chão.
- Obrigada por isso. – a garota disse, sorrindo timidamente.
- Disponha.
- Charlotte é um amor! – ela exclamou, animada com os carinhos do animal.
- Não sei o que seria de mim sem Charlie. – James confessou, passando a mão levemente no pêlo da Cocker. – Ela é de fato uma melhor amiga.
Lily sorriu placidamente e continuou a brincar com a cadela, agora que encontrara uma bolinha amarela a rolar pelo chão. James parecera ter uma idéia repentina e sumira num dos corredores escuros.
- Você se importa? – ele voltara com uma máquina Polaroid antiga em mãos e um sorriso bobo no rosto. – É realmente uma linda visão, você e Charlie juntas.
- James, eu estou absolutamente decadente, você sabe disso. – Lily argumentou.
- Eu não acho. Por favor? Essas fotos não vão parar na Internet, eu juro. Eu só queria... guardar de lembrança. – o rapaz sussurrou timidamente. O tom de vermelho que suas bochechas adquiriram era tão adorável que Lily não conseguiu negar.
- Está bem. O que eu faço? – ela perguntou, já se levantando.
- Não, não! – James exclamou enfaticamente. – Só... finja que eu não estou aqui, ok?
Em pouco menos de cinco minutos, uma fileira extensa de fotos instantâneas, cada qual mais parecida com a outra, se espalhava no chão da sala de jantar. Algumas já contavam com a marca das pegadas de Charlotte.
- Olha só, James, essa aqui ta autografada! – Lily disse, estendendo uma foto.
O rapaz riu gostosamente e puxou a cadela para si, abraçando-a fortemente. Ele levantou-se e passou a balançá-la em seus braços, ninando-a como se fosse um bebê.
- Espera, fica assim! – Lily gritou, correndo para pegar a máquina.
- Rápido, Charlie está precisando de uma dieta!
A ruiva encaixou seu olho no visor da câmera. Através dele, admirou sem censuras o riso verdadeiro e ingênuo de James, seus cabelos negros desgrenhados, seus olhos que embora tivessem a cor das folhas secas, brilhavam como ela jamais tinha visto antes.
- Pronto!
- Ah, ufa! Realmente, eu preciso ter uma conversa com o veter—
James não pudera concluir sua frase, pois fora interrompido pelo súbito colar da boca de Lily à sua. Instintivamente, ele abraçou-a pela cintura e pressionou-a contra si; sentiu os dedos da garota se segurarem fortemente aos seus cabelos enquanto entreabria os lábios. As línguas se tocaram sem hesitação ou constrangimento; quando conduziu Lily para a parede mais próxima, correndo suas mãos pelas costas da garota, só havia a avidez e o desespero de uma saudade que não existia, mas era o único sentimento a que se podia comparar.
- Não é como se eu não tivesse me apaixonado perdidamente pela Charlotte, mas... – Lily murmurou dificultosamente enquanto ele distribuía beijos delicados em seu pescoço.
James ergueu a cabeça e mirou a cadela deitada no chão, a encará-los.
- Esse olhar carente dela, não é? – ele suspirou.
- Exatamente.
O rapaz entrelaçou seus dedos com os da ruiva, conduzindo-a por um corredor de luzes apagadas. Mesmo quando James destrancou a porta branca no final que se revelou como seu quarto, os dois ainda ouviam os passos ritmados de Charlotte seguindo-os.
Lily empurrou o moreno contra a porta e puxou-o para baixo pelo colarinho da blusa, selando seus lábios duramente enquanto sentia-o pressioná-la contra o seu corpo. Os dedos da garota já haviam se infiltrado nos cabelos despenteados dele quando os dois ouviram um ganido contínuo de tristeza.
James afastou-se um pouco e encostou sua testa à de Lily.
- Dois minutos? – ele pediu com um sorriso, já abrindo a porta.
A Cocker Spaniel se encontrava postada sentada, ao pé do portal, a cabeça erguida e as orelhas castanhas balançantes, os olhos bem abertos no olhar mais digno de compaixão e carinho já concedido a qualquer ser mortal.
- Charlie – James começou em tom de censura. – O que eu já falei sobre interferir nos assuntos privados do Jimmy, huh?
A cadela grunhiu, mostrando um pouco os dentes. Lily, que observava tudo do interior do aposento, escondeu-se mais atrás da porta.
- Nós já treinamos não é? – o rapaz continuou sua bronca. – Quando tiver essa... meia... na maçaneta...
James virou-se vagarosamente para a garota, um sorriso começando a se formar em seu rosto. Adentrou e atravessou seu quarto à largas passadas, sentando-se em sua cama e abrindo a gaveta do criado-mudo. Dela retirou uma meia roxa, que logo vestiu na maçaneta externa da porta antes de fechá-la novamente.
Lily surpreendeu-se ao perceber que os ganidos da cadela cessaram em poucos segundos.
- Por isso eu amo minha Charlie! – James exclamou malicioso, puxando a ruiva novamente pela cintura e colando seus lábios aos dela.
Quando Lily acordou, não precisou olhar em relógio algum para saber que estava atrasada. Walters, seu patrão no emprego diurno, era um velho escocês mais rigoroso com horários do que qualquer inglês que ela já tenha conhecido. Espreguiçou-se longamente, como um gato faria, e levantou-se desajeitadamente.
Quando seu pé descalço foi de encontro a um tapete felpudo e não ao chão frio, ela percebeu que não dormira em casa. Aturdida, ela saltou do colchão macio e encarou o rapaz adormecido.
Ele estava deitado de lado, o braço forte perdido a procurar alguém no lado vazio da cama. Franziu a testa e virou o rosto levemente, como se espantando um mosquito ou sonho ruim. E então voltou a dormir tranquilamente, o peito nu subindo e descendo compassadamente, fios negros e rebeldes despenteados aleatória e charmosamente.
A imagem de James adormecido e as lembranças dele acordado roubaram de Lily um sorriso. Ela logo se preocupou em encontrar suas roupas naquela bagunça, além de achar toalhas limpas num lugar absolutamente desconhecido.
Ao sair do banho, Lily ainda enxugava as pontas úmidas dos cabelos lavados com o shampoo que ela presumira pertencer ao rapaz. Um cheiro forte de camomila agora desprendia dos fios ruivos. Ele ainda estava dormindo quando ela voltou ao quarto para buscar suas coisas. De bruços, enrolado no lençol até a cintura, o rosto tranqüilo virado no travesseiro.
Antes de sair, ela pensou em deixar um bilhete. Procurou um papel na escrivaninha desorganizada e encontrou um pedaço quadrado em branco. Escreveu "Cuide bem de Charlotte" numa caneta vermelha quase falhando que encontrara perdida por ali. Ia deixar a nota perto dos óculos do rapaz, onde ele com certeza a acharia, quando percebeu de fato o papel que usara.
Era o verso de uma das fotos polaroids que haviam tirado na noite anterior. Nesta, James segurava sua Cocker como a um bebê, sorrindo bobamente para a câmera. Lily lembrava-se de tirar esta; roubara um beijo do rapaz assim que ele pôs a cadela no chão.
Dando uma última olhada em James a dormir, Lily colocou a foto em sua bolsa e saiu do quarto.
Lily saltou do metrô com as pontas dos pés. Caminhou um pouco, apenas até as escadas que levavam à Londres matutina, e apoiou-se numa coluna de mármore da estação do Tube. Sentou-se nos degraus e esticou os dedos dentro das sapatilhas; detestava a idéia de passar a noite inteira em cima de saltos onze, mas como semana passada recebera uma bronca de Helen – dona da Coyote – sobre seus trajes "desanimadores e desleixados", aquele era um mal necessário.
Levantou-se com um impulso e ajeitou a alça da mochila na lateral de seu corpo. Passou os dedos rapidamente pelos cabelos, puxando-os para cima e amarrando-os num rabo-de-cavalo simples. Os primeiros e fracos raios do amanhecer do Sol surgiam por entre os prédios de pintura descascada e as latas de lixo nos becos. Com as mãos nos bolsos das calças velhas, Lily atravessava seu bairro de classe média-baixa – o máximo que uma imigrante irlandesa conseguira trabalhando em dois empregos, ajudando a família e guardando dinheiro para alguns sonhos.
Passou pela frente de pubs de quinta categoria, desviando das garrafas de cerveja quebradas nas calçadas; viu as fachadas dos comércios, lanchonetes e bancas, meio acinzentadas de sujeira e poeira. Como de costume, parou defronte ao outdoor da agência de turismo e seus pacotes de viagens para a Nova Zelândia. Praia e montanha unidas num único país incentivador de esportes radicais e adrenalina. É. Um dia Lily chegaria lá.
Ao dobrar a esquina onde ficava o seu edifício, a garota ergueu a sobrancelha de surpresa.
- James? O que está fazendo aqui?
Ele parecia não ter se dado conta de sua presença até aquele momento; estava sentado nos imundos degraus de entrada, os braços esticados sobre os joelhos erguidos, a cabeça baixa como se ele quase estivesse adormecendo. Ao ouvi-la, o rapaz virou-lhe o rosto muito rápido e logo levou a mão ao pescoço.
- Lily! Outch!
A garota cruzou os braços sobre o peito, tentando aquecer as mãos nas mangas da jaqueta. Riu alto da falta de jeito do outro.
- Sabe, você até que combinaria com aqueles suportes para pescoços deslocados. – Lily comentou, em tom de brincadeira, falsamente pensativa. – Ressaltaria seus olhos.
- Não quero parecer que tentei atravessar um megafone pela cabeça, obrigado. – James resmungou, ainda massageando o pescoço.
A garota rolou os olhos e sorriu, enquanto o observava erguer-se; e rapidamente lá estava ele, bem mais alto do que ela novamente.
- Então...? – Lily começou, balançando-se nos calcanhares.
- Então...
– O que faz na porta da minha casa, James? – Lily bufou impaciente.
- Eu precisava te ver. – ele disse, em tom de "Isso não é óbvio?".
- Achei que tivéssemos tirados fotos o suficiente – nós dois e Charlotte – para você nunca mais querer me ver na vida.
- Tecnicamente sim, mas eu me surpreendi quando acordei naquela manhã e você tinha ido embora.
- Bom, não é como se você pretendesse me adotar, então eu tinha que voltar para casa.
- E mesmo sem ter deixado nem um mísero bilhete...
- Sabe, eu realmente não encontrei nenhuma caneta na minha bolsa. O máximo foi um lápis de olho, mas... não.
-... qual não foi minha surpresa quando percebi que precisava te ver de novo. – James continuou como se não tivesse sido interrompido, o tom de voz bem sério, os olhos encarando fixos os orbes verdes da garota.
Lily virou o rosto, mirando a primeira padaria a se abrir pela manhã. Mordeu o lábio inferior, nervosa por ele ainda a encarar destemidamente.
- Como você veio parar aqui? – ela perguntou, ainda sem olhá-lo.
- Metrô. – James respondeu simplesmente, sorrindo maroto.
Lily não conseguiu agüentar e levou uma das mãos à boca, sufocando a risada alta.
- Eu quero dizer como você descobriu meu endereço!
- Mary, aquela sua outra amiga bartender, me deu.
- Aquela traidora, louca, desesperada! – Lily gritou, exasperada, logo se recompondo e olhando em volta. – Como ela diz onde eu moro para qualquer um que aparece na Coyote?! E se você fosse – ou for, sei lá, como vou saber? – alguma espécie de maníaco, estuprador, serial killer? Aaah, Mary MacDonald está muito morta!
- Hey, hey, hey! Calma! – James exclamou meio preocupado, pondo as mãos nos ombros da garota. – Ela só me passou porque eu insisti muito. Muito mesmo! Um James incomoda muita gente, sabe? Além do quê, ela me reconheceu daquele dia no pub. Ela nos viu conversando, lembra?
- Hm. – Lily fez, desconfiada. – Ok. Mas eu vou ter uma conversa muito séria com a Srta. MacDonald.
James meneou a cabeça e sorriu de lado.
- Então. A gente pode se ver de novo? – ele perguntou um pouco inseguro, passando as mãos nervosamente pelos cabelos espetados.
- Não é isso que estamos fazendo agora?
- Lily. Você me entendeu. Sair, andar pelo Soho à procura de pubs com bandas indie, ou até mesmo Kensington. Qualquer coisa. Eu só quero estar contigo de novo.
Lily mordeu o lábio inferior, involuntariamente irrequieta. Torceu a boca numa careta pensativa, movendo-a de um lado para o outro enquanto refletia.
- Er... tudo bem. Pode ser. Você me liga algum dia e eu vejo se posso. – ela finalmente disse, nem um pouco certa de si.
O rosto de James iluminou-se instantaneamente com o enorme sorriso que ele abriu.
- É claro! – ele exclamou, puxando-a delicadamente para um abraço. Seu riso brilhou de malícia quando ele inclinou o rosto em direção à boca de Lily; ela virou a cabeça num milésimo de instante e os lábios do rapaz apenas encontraram sua bochecha sardenta.
Ela muxoxou falsamente desaprovadora, murmurando um "tsc, tsc", saindo do enlace. James franziu a testa e arrepiou os cabelos, constrangido.
- Então... eu te ligo depois de amanhã, ok? – e se afastou, atravessando a rua rapidamente.
Lily meneou a cabeça, sorrindo, e subiu os degraus do prédio. Depois de alguns segundos – James já se encontrava na esquina -, ela lembrou.
- HEY! James! – ela gritou. O rapaz se virou, sem entender. – Você não tem meu número.
- Engano seu! – ele respondeu, sorrindo malicioso. – Mary é uma pessoa extremamente eficiente!
Hora do Oscar: Thankyouverymuch to Mayuu Chan, Thaty, Piu, Gábi, Luhli, InfallibeGirl, Tiger Maira, Cams, Muffim e Naa Potter. Tus são umas ghatas e moram no meu coração. (piscadinha)
Nota da Dressa: É uma coisa tão nova e reconfortante esse negócio de só postar fics quando elas já estão completas, sabe? Eu não preciso me desesperar pra escrever capítulos novos e talz. Acho que vou adotar esse método mais vezes. HAHA Então, gentes. Tiger Lily terá apenas três capítulos, mas são todos grandinhos assim (eu acho). Vocês já perceberam que eu não curto essa vibe de ser normal e todas as minhas fics são meio loucas; essa não será a exceção, como deu pra perceber. Até porque essa Lily Evans é absurdamente inspirada na Tiger Maira, e é graças à minha melhor amiga que essa fic existe e panz, já que eu sou pobre e sem fonte de renda e esse foi o presente de aniversário dela e taalz. HAHAHA Migzz, te amo e essa é pra você, sabe disso.
Próximo Capítulo? Make You Smile só vem quando Dressa se sentir amada pelos leitores através de um número xis de reviews. HAHA
