Capítulo 2 – Make You Smile


I don't, don't wanna take you home

Please don't, don't make me sleep alone

If I could, I'd only want to make you smile

If you would stay with me a while


- Lily Evans? – a voz grossa do homem perguntou, ao telefone.

- Sim, sou eu. – ela respondeu, um pouco sem fôlego. Segurava o celular entre o ombro e o rosto inclinado; corria de um lado para o outro em seu apartamento bagunçado, tentando organizá-lo no tempo mínimo de que dispunha entre os dois empregos. – Quem é?

- Srta. Evans, o que está fazendo nesse exato instante?

Ela hesitou. Correu os olhos pela sala e deu-se conta de que nela havia tantos restos de comida que mais parecia sua cozinha. Nas mãos da ruiva se encontravam as mais diversas peças de roupa – catadas do chão, dos móveis, dos eletrodomésticos e de outros lugares não tão ortodoxos assim.

- Lutando para transformar minha casa num lugar minimamente habitável.

- O que acha de abandonar essa atividade tão tediosa e cansativa para desfrutar de um agradável passeio? – o rapaz convidou num tom de voz formal. Entretanto, nele havia um timbre de riso contido inconfundível.

- Quem está falando? – a garota novamente perguntou, começando a se preocupar. Pôs as roupas em cima de uma velha poltrona e passou a segurar o telefone com mais firmeza e segurança, do modo convencional – usando a mão para colocá-lo contra a orelha.

- Vá até a janela.

Com a sobrancelha erguida em confusão, Lily caminhou em passadas largas até seu quarto e afastou a cortina. Esperando-a na calçada suja de subúrbio, estava James Potter - com um amplo sorriso estampado no rosto - e seu poderoso LG Env, os dois claramente deslocados naquele ambiente.

- Hey, Lily. – a garota pôde ouvir sua voz distorcida ao telefone. Ele piscou um olho marotamente enquanto a observava encerrar a chamada, meneando a cabeça.

- Qual é o seu problema? – a ruiva berrou de sua sacada, genuinamente curiosa.

- Eu perguntaria qual é o seu, já que prefere uma conversa aos gritos e sem o mínimo de privacidade no meio da sua rua a uma tranqüila e usual por um telefone, mas deixa pra lá! – ele respondeu o mais alto que conseguiu, as mãos nos bolsos da jaqueta.

O rapaz arrancou de Lily uma gargalhada alta e um pouco descontrolada, que a fez apoiar-se no parapeito; quando recuperada, passou as mãos rapidamente pelos cabelos.

- Então, Srta. Evans. Por que não me acompanha numa volta por nossa Londres?

- E por que eu deveria, Sr. Potter? Meu apartamento realmente precisa dessa faxina, quem sabe quando eu terei tempo para isso novamente?

- Se você já conseguiu passar todo esse tempo na bagunça, o que é só mais um dia? – James tentou, balançando-se nos calcanhares.

Ela pôs um dedo no queixo, fingindo reflexão.

– Por favor. – ele pediu, sorrindo um pouco tímido. – Não sei quando conseguirei burlar meu professor novamente.

Lily rolou os olhos.

- Cinco minutos. – e desapareceu da janela.

Engraçado o que fazemos quando ninguém nos vê. Lily Evans surpreendeu a si mesma quando entrou em pânico por ter que decidir o que vestir num tempo tão curto e ainda assim, fazer uma escolha adequada. Correu pelo quarto feito uma barata em agonia de morte, de um lado para o outro, até por fim encontrar uma calça jeans perfeitamente limpa e suficientemente cheirosa, uma camiseta aceitável e um sobretudo clássico. James Potter, a alguns metros verticais de distância, comemorava a pequena conquista com uma ridícula dancinha da vitória, sendo visto com maus olhos pelos transeuntes da rua.

Entretanto, os dois estavam absolutamente normais e aparentemente tranqüilos quando se encontraram na calçada, depois de pouco tempo a mais que os cinco minutos planejados.

- Hey. – eles se cumprimentaram, ao mesmo tempo. Riram brevemente e James virou-se, começando a andar. Lily o acompanhava, caminhando ao seu lado.

- Matando aula, huh? Que coisa feia, Sr. Potter. – ela observou, em tom de desaprovação.

- Aaaaah – ele fez, dando de ombros. – Sparks é um idiota, de qualquer forma. Tudo para não ver a cara daquele... você sabe o quê.

- Nossa, que revolta. Relaxe, James. Todos nós temos um professor cretino em nossas vidas escolares. Então. Você faz faculdade de que?

- Direito. – ele sorriu. – Quando eu era criança, sempre quis ser um policial e prender os bandidos maus, ser um herói. O clássico sonho dos meninos. Agora que cresci, preferi ser promotor; acho o tribunal e toda aquela estrutura muito mais interessante e excitante do que simplesmente correr atrás de ladrões. Se bem que se me oferecessem um cargo de detetive, não acharia nada mal.

- Alguém andou lendo muito Sherlock Holmes.

- Ou assistindo muito Law&Order.

Lily riu, erguendo a cabeça para trás.

- Sabe, eu queria fazer uma faculdade. – ela comentou, pensativa. – Mas as coisas andam meio complicadas pra mim. Eu mal tenho tempo para limpar minha casa; imagine para estudar.

- Muito trabalho?

- Sim. Eu tenho dois empregos; um na Coyote, quatro dias da semana e o outro como atendente de um Paint Ball, de segunda a sexta. Numa quinta-feira como hoje, meu horário é totalmente atribulado por ter que lidar com os dois.

- Mas não tem como você organizar suas disciplinas, ou mesmo sair de um dos trabalhos?

- Eu sou sozinha em Londres, James. Sou por minha própria conta. Mal me sustento com dois, que dirá só com um.

- Seus pais...?

- Não. – Lily foi bem clara e decidida. – Eu não pedirei por ajuda, muito menos voltarei para casa. Batalhei demais para chegar até aqui para desistir agora.

James sorriu genuinamente.

- Faz bem ver alguém tão perseverante. É inspirador. – ele comentou.

- Estou aqui para realizar meus sonhos, ué. Pelo menos, os que posso realizar ainda na Inglaterra.

O rapaz a olhou curiosamente.

- O que você quer dizer?

- Como eu vou explicar? Por exemplo. Saltar de bungee jump, ou de pára-quedas, ou voar de asa-delta. É o tipo de coisa que eu posso fazer em qualquer lugar que eu esteja, desde que faça um curso preparatório e tenha uma graninha acumulada. Escalar o Everest ou surfar no Havaí, não.

- Esses são os seus sonhos? – James parou de caminhar, estupefato. Seus olhos estavam arregalados de surpresa.

- São. – Lily respondeu, virando-se para ele, sem entender. – Qual o problema?

- Bom... eles são... são meio...

- Fora do padrão para uma garota? – ela cruzou os braços, na defensiva. – Nem toda mulher quer casar e ter filhos, James. Eu só quero ter a paz na minha consciência para ser quem sou, sem medo ou justificativas. Para ser capaz de me arriscar, de me envolver, de me conhecer e de me desbravar. Para poder viver cada instante da minha vida, me prender ao meu presente, me livrar do meu passado e não imaginar o meu futuro. Quero ter o prazer e a segurança de um dia, sem hesitações, poder dizer que sou livre.

James cruzou os braços, as feições verdadeiramente surpresas. Seu sorriso era aberto, mas um pouco inseguro. Um riso admirado, um riso impressionado. Um riso perdido num turbilhão de informações e em algumas conclusões. Certas deveriam ficar trancadas em seu subconsciente confuso, como o fato de aquela garota, aquela mulher ser quase como um daqueles pássaros selvagens, arriscados de desaparecem para sempre e eternamente ansiosos pelo vôo no céu. Outras mereciam ser pronunciadas.

- O quão única você consegue ser, Lily Evans? – ele perguntou num sussurro.

Ela lhe piscou um olho e eles voltaram a caminhar.


- Você não tem medo de morrer?!

Lily escondeu o rosto numa cortina de fios vermelhos, curvando seu corpo, enquanto ria da preocupação e indignação contidas na voz do rapaz.

- Lily! – James gritou alarmado. Num súbito, seus longos braços a envolveram protetoramente pela cintura, segurando-a firmemente e impedindo-a de tombar na escuridão das águas à sua frente. – Você está ficando louca?

A garota virou-se para ele o máximo que pôde, dado o aperto em seu corpo. Pôs uma mecha do cabelo detrás da orelha e encarou o rapaz nos olhos; as luzes de Londres refletiam-se nas lentes de seus charmosos e simples óculos de aro redondo.

- Eu não vou cair. – Lily afirmou com segurança. Sem pensar no que estava fazendo, ergueu uma das mãos e passou-a serenamente pelo rosto de James, seguindo o contorno de seu rosto fino e aristocrático. – Não se preocupe comigo. Eu já sei me cuidar.

Ele mordeu o lábio inquietamente.

- Não é o que parece quando você tenta se jogar no Tâmisa. – o moreno retorquiu.

- Hey! – ela exclamou ofendida. - Eu tive uma infância muito bem aproveitada em Dublin, obrigada. Consigo brincar me arriscando um pouquinho sem me machucar.

James permaneceu em silêncio e as feições da garota tornaram-se pensativas enquanto fitava a Torre de Londres à sua frente. As pernas de Lily pendiam para o breu do Tâmisa à noite, embora ela parecesse não se importar; balançava-as calmamente, as mãos apoiadas nas bases da mureta de proteção da ponte, onde se sentara com habilidade.

- Você já foi ? – Lily perguntou sombriamente.

James pareceu ter sido desperto de um torpor momentâneo.

- Onde? Na Torre?

- Sim.

- Já. Remus – um dos meus melhores amigos, eu quero dizer – é curador do Museu de Victoria and Albert, em Knightsbridge. Ele é fascinado por guerras do passado, eventos que mudaram o rumo de civilizações, distorções dos fatos que nos contam na escola... enfim, a parte divertida da história. E ele sempre nos incentivava – a mim, Sirius e Peter, meus outros melhores amigos, só para informar – a tomar parte dessas coisas. A descobrir, a investigar. Eu particularmente só o acompanhava nesse tipo de expedição apenas quando ele cismava com o castelo da Torre de Londres.

- Só porque dizem que é mal assombrada?

- É claro! Com todo aquele plano de fundo das execuções reais e os boatos dos fantasmas dos príncipes decapitados, você acha que eu perderia uma oportunidade de assustar o pequeno Pete até ele pedir para voltar para a casa da mãe dele? Nunca!

Os dois riram alto e James segurou Lily com mais força, os dedos pressionados contra sua cintura, garantindo que ela permanecesse a salvo enquanto tentava a sua loucura do dia. O rapaz surpreendera-se com o fato de nenhum guarda ter aparecido e tirado-a dali, temendo que fosse alguma espécie de suicida. O moreno pensou que talvez devesse denunciá-la e, assim, finalmente a colocar em segurança.

- Alguém já falou que seus olhos brilham quando você fala desses seus amigos? – Lily perguntou com um sorriso. Pareceu tê-lo pego de surpresa.

James ergueu uma sobrancelha e sorriu um pouco incerto.

- Sério?

Lily concordou com a cabeça.

- Parece que está sempre tendo boas recordações. Você ri com sinceridade, os olhos ficam mais vivos, até seu rosto fica um pouco mais coradinho.

James escondeu a face nas costas da garota, desconcertado.

- Bom. Os Marotos são minha família agora. Eles são tudo o que me resta. – ele contou, a voz mais séria do que Lily jamais tinha ouvido.

- Sinto muito. – a ruiva disse num sussurro tímido, cabisbaixa.

- Ora, pelo que? – James sorriu, erguendo seu rosto pelo queixo com dois dedos. – Sim, meus pais morreram no ano passado. Sim, eu fiquei terrivelmente abalado, já que éramos só nós três e eu, de repente, me vi sozinho. Sim, isso me mudou totalmente.

Ele parou de falar, pois sentira a garganta embargar com a dificuldade. Em seu íntimo, James sabia que nem mesmo aos caras ele contara o que realmente se passou depois da morte de Charlus e Dorea Potter; talvez porque os três tivessem percebido e isso não tivesse sido feito necessário. Mas com Lily alguma coisa era diferente. Ela era uma completa desconhecida, e talvez por isso mesmo ele se sentisse tão disposto a confessar mágoas guardadas há tanto tempo.

- Eu era um completo idiota até os meus dezessete anos. – James inspirou fundo e recomeçou em tom baixo. – Meus pais já haviam perdido a esperança de ter filhos quando minha mãe finalmente engravidou. Foi tudo muito arriscado, dado à idade dela, e eu sempre fui visto como uma conquista árdua, um tesouro a ser preservado. Eu fui criado com todas as mordomias e vontades atendidas que uma família abastada pode prover e que não se costuma indicar para uma criança.

- Você quer dizer que ser criado sem dificuldades, proibições ou falta de condições é um problema? – Lily indignou-se. – Você não sabe o que é a Irlanda.

- Não, não é isso! Lily, você precisa entender que eu simplesmente não tinha limites. Eu fazia o que eu queria, quando eu queria, se eu queria. Eu era um paradoxo muito grande. Enquanto eu sabia da sorte grande que tinha pelo esforço de meus pais pelo meu caráter, o exemplo forte e concreto dado a mim por eles diariamente no conforto de nossa casa, eu era um absoluto tirano em Hogwarts.

- Hogwarts, o colégio interno?

- A melhor escola de todo o Reino Unido. – ele confirmou com a cabeça. – Eu era um bully tão estúpido, tão desprezível, que hoje me envergonho da minha falta de maturidade. Mas eu tinha quinze anos e ninguém nunca antes tinha se atrevido a dizer que havia alguma coisa nesse mundo que eu não tivesse o direito de fazer.

- E o que a morte de seus pais tem a ver com tudo isso?

- Foi a prova de que eu não era o único capaz de fazer crueldades.

James ficou em um silêncio de reflexão por longos cinco minutos. Sua boca estava contraída numa linha fina e seus olhos estavam fixos nas águas turvas e sombrias do Tamisa.

- Você não precisa ter piedade por eu agora ser órfão, ou sentir muito pela minha perda. – o rapaz disse a Lily, olhando-a diretamente. – Sem precisar dos consolos de meus amigos, eu cheguei a perceber com o tempo que não era assim tão ruim. A morte, eu quero dizer. Perder para sempre entes tão amados e tão queridos como seus pais, únicos e insubstituíveis pais, é uma lacuna aberta para sempre em seu coração. Mas, ser egoísta e desejar que eles não pudessem ter a paz e o descanso que merecem após sua estadia num mundo tão difícil, só torna tudo pior.

Ele suspirou profundamente; uma lágrima solitária rolou pelo canto do olho esquerdo. James esperava que Lily não tivesse visto isso.

- Eu sinto a falta deles como o inferno me torturando. Mas tudo o que posso fazer é acreditar, é esperar, é torcer para que estejam bem melhores do que antes, guardando um lugar para mim bem perto deles. A morte de meus pais me abriu os olhos e me fez perceber que eu não vou estar aqui para sempre. Por isso, quero viver minha vida como a única que tenho, e fazê-la valer a pena a todo segundo.

Lily sorriu docemente, tentando reavivá-lo. Segurou sua mão por alguns instantes, antes de pegar o fôlego e a coragem para também lhe contar sua história.

- Eu fugi da Irlanda quando completei dezesseis anos. Eu morava com meus pais e minha irmã Petunia numa casa simples nos arredores de Dublin. Fui criada sob rédeas curtas, como dizem por aí. Os Evans costumavam ser uma família tradicional no meio rural durante os séculos XIX e XX; quando se mudaram para as grandes cidades, perderam sua importância e influência, mas jamais seu orgulho e tradições.

A ruiva olhou significativamente para o castelo. Tentou distinguir os contornos das várias torres que o compunham; a Sangrenta, a Normanda Branca, a do Sino, a de Seta Ampla. Torre de Londres: a prisão de outrora. Atualmente? Apenas um elemento constitutivo, histórico e turístico.

- Horário para acordar, para comer, para estudar, para brincar, para sair, para socializar com os vizinhos, para honrar a família, para dormir. – a garota enumerava, com a voz entediada, recordando-se de seu passado.

- Honrar a família? – James repetiu, surpreso. – Isso não é meio medieval?

- Por honrar a família, meu pai queria dizer dedicar-se à nossa cultura e raízes. Petunia tornou-se uma ótima dançarina nas festas tradicionais de danças irlandesas. Eu me interessei em estudar nossos ancestrais celtas em profundidade, e era constantemente requerida para ajudar nas escolas nesse quesito. E eu só tinha quinze anos. Entretanto, eu comecei a deixar de ser o orgulho da casa para me tornar a vergonha.

James arregalou os olhos.

- Como assim?

- Meus pais tinham um certo preconceito sobre o Reino Unido, a Inglaterra principalmente. E, apesar de tudo que eles sempre me diziam sobre esse lugar – Lily olhou sonhadoramente em volta, sorrindo bobamente. -, eu sempre quis morar aqui. Londres inspirava uma liberdade que eu não conseguia nem sonhar enquanto em Dublin. Todos aqueles conflitos, aquelas revoltas, essa ansiedade e essa luta por não se unir à Irlanda do Norte... aquilo tudo me sufocava de uma maneira inexplicável. Na primeira manhã em que acordei com dezesseis anos, eu decidi fugir.

- Fugir? – James boquiabriu-se.

- Eu sei que fui imatura e precipitada, mas eu estava cansada de fingir ser o que eu não era! – Lily explicou, enfaticamente. – Eu não era a garota quietinha e recatada do campo; eu queria descobrir o mundo, viajar e conhecer por céu, terra e mar o Norte e o Sul, o Leste e o Oeste. Eu queria estar sozinha e afastada para descobrir quem eu realmente sou e do que eu sou capaz de fazer. Ser capaz de sonhar e realizar. A Irlanda não era mais lugar para mim.

- E como você veio parar aqui?

- Eu juntei todo o dinheiro que pude e paguei uma passagem de terceira classe num navio que vinha para a Inglaterra. Morei por um tempo com um cara que conheci na Internet 

e ele me ofereceu um emprego como garçonete. Passei por maus bocados terríveis e escabrosos, mas aprendi a me virar sozinha.

- E os seus pais?

- Me encontraram três meses depois que eu fugi. – Lily suspirou, abaixando a cabeça. – Não faço idéia de como. Tentaram me levar de volta para casa, mas eu resisti. Eles acabaram por aceitar. Não entender, mas aceitar. Eles vêm me visitar sempre que podem.

A ruiva sorriu timidamente, encarando-o por entre os fios de sua cortina de fogo na frente do rosto. James aproximou seu rosto do dela e delicadamente beijou sua bochecha.

- Nosso passado nos condena, não é? – ele sussurrou ao seu ouvido, arrancando-lhe uma risada.

Para incrementar o nível de surpresas diário de James Potter, Lily Evans naturalmente colocou seu braço nos ombros do rapaz e, com a mão ainda livre, tentou disciplinar ou mesmo suavizar os fios negros em sua cabeça.

- Não adianta, eles são assim desde sempre. – ele suspirou de olhos fechados, apreciando o carinho.

- O impossível é você quem diz, eu quero minha chance. – ela disse em tom de rebeldia, embora seus dedos ainda passassem com delicadeza pelos cabelos do rapaz e, de quando em vez, descessem até sua nuca causando nele um arrepio que ela não deixara de notar.

Sem pensar, Lily deixou sua mão escorregar até a base do pescoço do rapaz, os dedos desenhando o contorno da clavícula escondida debaixo do suéter. Devidamente apoiada no corpo de James, ela inclinou-se para ele e uniu seus lábios duramente, pressionando-os uns contra os outros.

Um grande apito soou entre as buzinas dos carros ingleses e as vozes de seus motoristas e passageiros londrinos. A Tower Bridge era uma das pontes-básculas mais conhecidas no mundo inteiro, tanto por ser um dos pontos turísticos mais procurados da grande Londres, como por sua eficiência desde o século XIX para veículos terrestres e marítimos. Além de, obviamente, ser uma magnífica visão nas duas torres de estilo vitoriano gótico – principalmente quando suas luzes se acendem após o crepúsculo.

- Nós precisamos ir agora, Lily. – James avisou, num murmúrio. – A ponte se levantará em poucos minutos.

A garota concordou com um aceno de cabeça, as bochechas um pouco rubras de vergonha. Girou calmamente para o lado interno da ponte e saltou, erguendo-se como um gato e alisando sua camiseta.

- Eu já deveria estar na Coyote a essa hora. – ela comentou, ao observar o ponteiro menor do Big Ben chegar ao nove, enquanto o maior já se encontrava apontando para o doze.

- Desculpe. – James sorriu constrangido, passando a mão pelos cabelos. – Você quer que eu a acompanhe até o pub, eu posso falar com...

- Não! – Lily exclamou rapidamente. O moreno entreabriu os lábios de surpresa e ela logo tentou consertar. - Não, assim eu vou te atrapalhar mais. Eu consigo me virar. Eu me entendo com Helen, pode deixar.

Ela sorriu timidamente e ele deu-se por vencido, dando de ombros.

- Fazer o que? Eu tentei. – James a fitou por alguns segundos, aparentemente tomando coragem para puxá-la para si. Ao sentir o corpo pequeno de Lily pressionado contra o seu, enlaçou-o quase possessivamente, espalmando as mãos e correndo-as contra suas costas. A garota suspirou durante o abraço, o rosto virado para o céu de Londres.

Ele ainda beijou o topo de sua cabeça antes de despedir-se. Lily o assistiu afastar-se por alguns segundos, até despertar de seu torpor com o novo apito e dar meia volta em direção à Coyote – centenas de perguntas, conclusões, afirmações, negações e incertezas ainda na cabeça.


Eles haviam combinado de almoçar juntos. James antes das aulas da faculdade de Direito, Lily antes de seu horário no Paint Ball. Demoraram quase meia hora para serem atendidos no restaurante e, devido aos seus horários, precisaram terminar de comer no caminho para Kensington.

- Charlotte sente a sua falta. – James contou, jogando o copo de refrigerante numa cesta de lixo próxima.

- Ooown. – fez Lily, sorrindo com a lembrança da Cocker.

- Verdade! Pensa que eu estou brincando? Nunca vi Charlie ganir tanto durante a noite como desde... aquela vez. Ela realmente gostou de você.

– Coitada dela. Você também deve ser muito mau com a pobrezinha.

- Hey! – ele exclamou, fingindo-se de ofendido. – Eu trato Charlotte tão bem quanto trato Sirius, ou Remus, ou Peter!

- Eu imagino o carinho e a atenção que você dedica aos seus amigos. Aquele dormitório do colégio interno deveria ser uma guerra de travesseiros toda noite.

- Como você adivinhou? – James riu. – Mas Charlie é praticamente um membro da família. Se um dia tiver uma filha, quero que pelo menos seu nome do meio seja Charlotte.

- Pobre criança. Sugiro que nunca conte à sua esposa ou à sua filha a origem dessa vontade toda; você seria banido do círculo familiar.

- Oh céus, oh vida! Que injustiça seria comigo! – o moreno exclamou dramaticamente, pondo uma mão na testa.

Lily gargalhou e eles logo voltaram a caminhar em silêncio. Chegaram ao ponto do ônibus no exato e preciso instante em que o clássico londrino - vermelho e de dois andares – parava à calçada.

- Você não quer fazer uma visita a Charlie? – James perguntou de supetão, quando já estavam sentados um ao lado do outro nos bancos do transporte público.

- Qualquer dia desses eu apareço por lá. – Lily assegurou com um sorriso.

- Não. Eu quero dizer agora. Você não quer fazer uma visita a Charlie agora?

A ruiva olhou-o com estranheza. Ele sorria abertamente, como se não estivesse propondo uma impossibilidade.

- James, eu preciso trabalhar.

- Você não pode faltar um dia só?

- Walters me mataria.

- Nem se você disser que está doente?

- Já fiz isso uma vez quando amanheci com uma tremenda ressaca. Ele acabou por descobrir pela minha voz que eu andei aprontando, me confrontou, eu sou uma péssima mentirosa... juntou tudo e ele descontou do meu salário.

James abaixou a cabeça, meneando-a derrotado.

- Desculpe, James. – Lily disse, com a mão no ombro do rapaz.

- Empresta seu celular, só um instante? – ele pediu depois de um tempo, misteriosamente.

- Para que? – a ruiva estranhou.

- Pode emprestar, por favor?

- Para que você quer?

- Você confia em mim?

- James!

- Você confia em mim?

Lily piscou os olhos seguidamente, sem entender. Seu coração estancara por dois segundos perante a pergunta. Sim ou não?

- Obrigado. – disse o rapaz, recebendo o celular da garota. Ele levantou o flip, e apertou o cursor repetidamente. Por fim, seus olhos brilharam e ele colocou o telefone contra a orelha, discando.

- Para quem você está ligando? – Lily perguntou, preocupada. James lhe fez um sinal com o indicador para ela ficar calada.

- Alô, Sr. Walters? – James engrossou a voz quando o homem atendeu.

- James! – Lily gritou sufocada, pulando para cima do outro tentando recuperar o celular.

O rapaz levantou-se dentro do ônibus e ergueu o braço, impedindo-a de reavê-lo.

- Sr. Walters, desculpe por isso. – ele continuou, ao vê-la mirá-lo indignada. – Eu sou o Dr... ahn, Dr. Miller, sou vizinho da sua funcionária, Srta. Lily Evans. – passou-se algum tempo sem que James falasse, dado o discurso de Walters. – Sim, ela está realmente atrasada, mas posso assegurá-lo de que é por um bom motivo. Sim, ela está aqui na minha frente, deitada em casa com uma terrível pneumonia. Estou telefonando para solicitar uma dispensa do trabalho. Evans está um pouco nervosa, achando que precisa cumprir seus horários, quando ela mal se põe de pé, veja só. Ok. Sim, sim, eu sei. Acredite-me, Sr. Walters, eu a liberaria se fosse possível, mas ela corre o risco de desmaiar dentro do elevador do prédio caso saia do repouso. Sim. Muito obrigado, Sr. Walters.

James fechou o flip com classe e entregou o aparelho à sua dona. Lily mirava-o boquiaberta.

- E então? O que acha de passarmos lá em casa e visitarmos Charlotte?


A campainha soou alta no interior da casa, todavia lá o barulho fosse elevadíssimo – música, TV, vozes, móveis se arrastando, objetos se quebrando.

- Droga, Wormtail, outro copo? Daqui a pouco vamos beber direto da lata. – Lily ouviu uma voz desconhecida masculina reclamar, o timbre aumentando enquanto ele se aproximava da porta para abri-la. – Pois não?

- Vai dar uma de mulherzinha cheia de frescura agora, Black? – um rapaz de baixa estatura, um pouco gordinho, cabelos cor de rato e nariz prolongado soltou em tom de provocação, não percebendo a ruiva parada à entrada – claramente um elemento estranho naquele meio.

- Hm... – Lily pigarreou, constrangida com os olhares que recebeu. – Eu não acho que tenha me enganado, mas... essa é a casa de James Potter?

- Sim. – o rapaz que a atendera respondeu. Ele se encaixava naquele tipo de homem que uma mulher olharia de cima a baixo e novamente de baixo a cima se o encontrasse na rua, no elevador ou em qualquer outro lugar. Alto, mas não tanto quanto James, nem tão desajeitado; cabelos negros e lisos, mais compridos que o usual, caídos sobre os olhos numa elegância displicente com a qual se pode apenas esperar que se nasça com. Os olhos profundos, azuis; Lily não quis encará-los por muito tempo. – E você é...?

- Lily Evans. Ele me ligou esta manhã e pediu para que eu viesse com urgência aqui, já que hoje era meu dia de folga da escravidão remunerada.

O atraente desconhecido ergueu uma sobrancelha, sem entender.

- Dia livre dos empregos; não vou trabalhar hoje! – ela explicou rolando os olhos impacientemente. – Então, ele está aí ou só não tinha nada para fazer e resolveu me passar um trote?

- Sirius! Deixa a moça entrar! – um rapazinho franzino, de cabelos cor de palha e aparência doentia exclamou alarmado lá do sofá.

Ele fez um sinal debochado de cavalheirismo e ergueu o braço, indicando-lhe o caminho. De fato, isso era necessário. Embora seguisse o padrão elevado de vida de Primrose Hill e fosse um belo sobrado branco de fachada azul, o interior da casa de James Potter encontrava-se em uma bagunça proporcional ao seu tamanho. A ampla sala de estar tinha todo o seu chão ocupado entre latas de cerveja e Pringles, caixas de CDs e jogos para PlayStation 2, almofadas de sofá e os travesseiros de pena de ganso do quarto do dono, além da cama simplória da pobre Charlotte – que deveria ter ido se esconder na cozinha, pois ela não era avistada em lugar algum.

Lily sentou-se no sofá branco principal, ao lado do rapaz que pedira para ela entrar. O mais gordinho estava jogado espaçosamente no menor, apertando compulsivamente os botões do controle do videogame, totalmente alheio ao resto do mundo. O bonitão que atendia pelo nome de Sirius seguiu a garota e acomodou-se no braço da poltrona, encarando-a fixamente.

- Então você é a famosa Lily Evans. – ele disse, misteriosamente, com um sorriso maroto de lado.

- Lily Evans eu sei que sou, mas famosa eu não posso garantir. – a ruiva sorriu, desafiadoramente.

- Pode acreditar que é. – o rapaz gordinho garantiu, sem desviar o olhar da televisão.

- Já que vocês dizem... – a garota deu de ombros, despreocupada. – E vocês, quem são?

- Sou Padfoot. – Sirius disse, apertando sua mão. Apontou para o que estava quase deitado no outro sofá e apresentou-o. – Aquele é o Wormtail. Ao seu lado está Moony – ele acenou, com um sorriso fraco. – e eu acredito que você conheça aquele ali, o Prongs.

Padfoot indicou com o queixo o rapaz que vinha do corredor que dava acesso aos quartos. Enxugando os cabelos com uma toalha azul, ainda sem blusa e parecendo perdido no tempo, James Potter andava descalço em calças de pijama.

- Hey, Lils. – James cumprimentou com um sorriso verdadeiro. Embora viesse por trás do sofá onde ela se encontrava, ele inclinou-se em sua direção e suavemente lhe beijou os lábios.

A garota levantou as sobrancelhas em surpresa.

- Oh. – o rapaz fez. – Desculpe. Rapazes, alguém viu minha camiseta? À propósito, Lily: Sirius Black, Remus Lupin e Peter Pettigrew, melhores amigos, fiéis escudeiros, companheiros de farras, arroz de toda festa, amores de minha vida, razões do meu existir.

Lily apenas distinguiu um pedaço de pano branco voando em direção ao rosto de James.

- Obrigado pela delicadeza, amo vocês. – ele resmungou enquanto se vestia.

- Sem ataques de bichisse, James. Eu preciso de você na minha banda! – Sirius avisou, pulando do sofá para as almofadas do chão, um controle em mãos.

- Negativo! – Peter exclamou, virando-se para o centro da sala. – Remus é praticamente um elemento neutro em Guitar Hero. Ou em qualquer outro jogo. Ele nem mesmo consegue localizar os botões sem passar dois minutos encarando o controle!

Lily não se controlou e riu alto, logo sufocando a risada com a mão na boca.

- Não é bem assim. – Remus murmurou, envergonhado.

- Por que você acha que eu chamei Lily para vir para cá hoje? – James piscou um olho, sentando-se ao lado da garota, pondo o braço em seu ombro.

- Para sair do atraso? – Sirius alfinetou, olhando os dois maliciosamente. Ao perceber o olhar indignado do amigo, gargalhou alto, o som saindo semelhante a um latido.

- Seu cachorro safado! – James gritou, arremessando uma almofada na nuca de Padfoot. - Eu preciso de um adversário à minha altura. E a ruiva aqui é um absoluto gênio.

A garota sorriu, arrogante. Sirius a encarou com descrença e Peter foi ainda mais longe.

- James, a gente entende que você é louco por ela, já que é seu único assunto por semanas, mas não precisa exagerar, ok?

- Remus, por acaso você tem um rifle dentro daquela mochila que você sempre carrega? – o moreno perguntou irritado e rubro ao único amigo que ainda não se pronunciara.

- Só alguns dardos. – ele sorriu em resposta.

- Servem!

- Mas, heey! – Lily exclamou de repente, levantando-se e pondo as mãos na cintura. – Por que vocês garotos duvidam tanto da minha capacidade?

Wormtail e Padfoot se entreolharam rapidamente.

- Digamos que é uma pequena intuição masculina. – Peter respondeu.

- E se eu provar que ela está errada? – Lily desafiou, o queixo erguido e os olhos acirrados.

- Você ganha nosso respeito, ruiva. – Sirius assegurou, encarando-a nos olhos.

- Feito. – ela aceitou, arrumando as almofadas ao seu redor e sentando-se no chão, ao lado de Sirius. Peter lhe passou o controle que antes utilizava. – E então? O que você sugere?

- Lynyrd Skynyrd.

Sirius tinha um sorriso maquiavélico nos lábios desenhados. Até mesmo Remus se espantou com o que ele propusera e se agitou; abandonou o livro que tentava ler, ali ao canto do sofá, e volvera-se para o centro dos acontecimentos na sala.

- Você está pegando pesado com ela, Pads. – o rapaz criticou, as sobrancelhas unidas.

- É o preço a ser pago, Moony. Em muitos aspectos uma personalidade é analisada durante a execução de uma música em Guitar Hero e há algumas coisas de que preciso ter certeza.

- Ainda acho que isso é ciuminho bobo de melhor amigo.

- Aah, cala a boca, Remus. – Sirius resmungou, acenando com a mão. Ele virou-se para a garota. - Então, ruiva. É pegar ou largar.

Lily voltou-se para James, um sorriso maroto nos lábios. Os olhos do rapaz brilhavam pela confiança em sua capacidade; ele ergueu o polegar em incentivo.

- Você prefere na guitarra ou no controle, Sirius? – ela perguntou, estralando os dedos.

O rapaz espreitou os olhos.

- Wormtail. Traz a guitarra do Prongs pra cá.

Peter conectou o já separado aparelho ao PlayStation rapidamente. Sentou-se apreensivamente em uma das poltronas, observando Lily se erguer com a guitarra posicionada em mãos e Sirius a encarar em desafio.

Free Bird – Carregando.

Após longos dez minutos e alguns segundos nos quais os dedos finos da garota percorreram veloz e habilidosamente as teclas coloridas da reprodução da Gibson SG para Guitar Hero, Lily colocou o instrumento numa das almofadas.

- 98 de aproveitamento. Faz melhor, Pads.

Remus, James e Peter gargalharam alto enquanto Lily bagunçava os cabelos de Sirius, entre o tom de desafio e o de pura brincadeira.

Cinco minutos depois, Lily aproveitou que Remus levantara-se e fora à cozinha buscar qualquer bebida não alcoólica e esticou-se no sofá, deitando-se por completo. Pôs os braços na nuca, numa espécie de travesseiro, e fechou os olhos.

- Cansada? – ela ouviu a voz de James sussurrar próxima ao seu ouvido, sentindo as almofadas do sofá afundando com o peso dele ao sentar-se na ponta.

- Uhum. – a ruiva murmurou, manhosa. – Coyote funcionou até quase sete horas hoje; os caras realmente se animaram com algumas tequilas. Estou exausta.

- Coitadinha. – James comentou, divertido. Inclinou-se na direção da garota, tocando com a ponta do nariz toda a extensão de seu rosto. Com uma das mãos, passava os dedos pelos fios rubros, desde a raiz até as pontas mais alaranjadas. Com a outra, dedilhava suavemente sua nuca.

Lily descruzou os braços e envolveu-os na cintura de James, as unhas de uma das mãos atrevidamente arranhando a pele fina de suas costas por dentro da blusa. Ela sorria sem se conter ao perceber os pêlos se arrepiando com um simples contato.

James acabou com o espaço que separava suas bocas. Uniu-as com força, pressionando e exigindo; as mãos de Lily subiam por suas costas, inconscientemente erguendo mais sua blusa. Num convite mudo, ela entreabriu os lábios, ao que ele entendeu e correspondeu prontamente.

- EW! – Sirius gritou, assustando-os e separando-os como se tivessem levado um choque. – Vão para um quarto!

Lily alcançou um travesseiro perdido do lado do sofá e arremessou-o no rosto do Maroto.


Lily estava apoiada contra a grade de um pequeno parque. O lugar era limpo, bem cuidado, com algumas fontes de estátuas jorrando água e crianças atirando moedas. Na calçada em frente, atravessando uma avenida, a garota conseguiu comprar um café realmente bom por quase metade do preço da Starbucks.

Ela já estava na metade do copo e já procurando o tíquete do metrô na bolsa, quando James apareceu.

- Desculpa, desculpa, des-desculpa... Estou muito atrasado, sou um péssimo inglês. Desculpa. – ele pediu insistentemente, resfolegando, as mãos apoiadas nos joelhos e os fios negros grudados à testa.

- Certo, certo. – Lily riu de sua confusão e passou a mão carinhosamente em seus cabelos, desde a nuca até o topo da cabeça. – Respire um pouco. Isso. Você quer entrar e sentar num daqueles banquinhos de pedra?

- Não, não, eu estou bem. – James lhe assegurou, acenando enfaticamente com a cabeça. – Desculpe pelo atraso, Lily. Eu já estava uma estação antes de Waterloo quando percebi que deixei Charlotte sem comida. Estava me programando para comprar a ração antes de vir te encontrar, mas acabei esquecendo e precisei voltar para casa. De novo, me desculpe.

- James! Tá tudo bem, não se preocupe. Foi pela Charlotte, eu entendo perfeitamente. Se você tivesse qualquer outra desculpa, eu não aceitaria, mas como é por ela...

O rapaz gargalhou, inclinando a cabeça para trás, como sempre fazia. A leve brisa levou alguns fios rebeldes de sua franja para os seus olhos. Com um gesto displicente, embora encantador, ele os afastou e passou a mão pela cintura de Lily.

- Então. Vamos? – James beijou-lhe a bochecha.

Ela apenas sorriu e tomou outro gole do café, enquanto caminhavam.

- Toda vez que meus pais vêm a Londres, eles sempre pegam o mesmo caminho. Sabe, de visitar a Eye e o Parlamento. E nós sempre íamos até a Starbucks para conseguir um café decente. – Lily contou.

- É, eu já experimentei alguns de umas lanchonetes perto dali. Terrível. Eu já não sou muito fã de café, tomando aqueles então... percebo porque prefiro cappuccino.

- Não é? Mas esse aqui – comprei em frente àquele parque onde eu estava esperando – é muito bom! No mesmo nível da Starbucks e muito mais barato. Depois vou voltar e anotar o nome da cafeteria; quem sabe tenha alguma perto do Soho.

- Ou de Primrose Hill. –James lhe piscou um olho. - Ah, veja, Lily! Chegamos.

A ruiva voltou seus olhos para a rua que se seguia e o monumento à frente. As luzes da cidade já estavam se acendendo em decorrência do pôr-do-sol, e a London Eye brilhava mais do que todas elas juntas. Marco da arte, inteligência e ousadia do novo milênio, a roda gigante se erguia imponente e encantadora em seus 125 metros de altura. Não era formada das gôndolas convencionais; havia grandes cabines fixadas à roda, envidraçadas em amplas janelas capazes de dar ao visitantes uma visão completa da magnífica Londres.

- Uau. – a garota suspirou.

- Sim. É incrível. E eu já tenho nossos ingressos. – ele sussurrou ao seu ouvido.

Lily sorriu, ainda abismada com a beleza da Roda do Milênio.

- Então o que estamos esperando? – ela puxou-o pela mão em direção a uma fila que se formava. Ao passo que as cabines do passeio anterior iam chegando e se esvaziando, pessoas dos mais diferentes estereótipos novamente as preenchiam. Turistas com câmeras nas mãos, mães com crianças pequenas próximas à cintura, adolescentes deslumbrados com as visões que tinham através das vidraças, casais apaixonados de mãos dadas.

James conduziu Lily delicadamente pelos ombros, até achar a posição perfeita dentro do compartimento. À medida que os trinta minutos de duração do translado se passavam, eles paravam de conversar suas frivolidades e se embeveciam da maravilhosa vista proporcionada.

- Nunca estive tão longe do Tamisa. – Lily sussurrou, quase como se temesse quebrar o ambiente de admiração.

- E eu nunca estive tão perto do Big Ben. – James retorquiu, baixinho, em seu ouvido. A ruiva prendeu o que seria uma gargalhada realmente escandalosa.

- Será que dá pra ver minha casa daqui? – ela andou até bem próximo do vidro, tocando-o delicadamente com as pontas dos dedos.

- Ela deve estar do tamanho de uma formiga, provavelmente.

- Ah, não seja tão exagerado. Olha! As luzes do Palácio!

- Estão se acendendo. É tão... estonteante.

- De tirar o fôlego. Acho que nunca vi nada tão lindo na vida.

A garota ainda sorria, fascinada, quando sentiu o rapaz abraçá-la suavemente, enlaçando sua cintura com as mãos grossas, respirando calmamente na curva de seu pescoço. Era uma sensação paradoxal, Lily chegou a concluir. Ao mesmo tempo em que seu coração acelerava num ritmo fora do saudável com aquele contato tão próximo e tão morno, ela sentia um conforto tão inabalável que a acalmava e a preenchia por dentro, eliminando as lacunas de suas angústias mundanas.

James tocou delicadamente o queixo da ruiva com o indicador, erguendo-o para si, olhando-a diretamente. Havia seriedade nos orbes castanhos, havia decisão, havia certeza. Ele passou a mão pela bochecha dela, chegando à sua nuca, e então colou seus lábios aos dela. Tímido e hesitante como um primeiro beijo. Desajeitado, sincero e carinhoso. Longo. Daqueles que você suspira no fim.

- Eu te amo, Lily Evans. – James murmurou para apenas ela ouvir, no custo de toda a sua determinação e coragem.

Ele a sentiu alarmar-se. Os pêlos de seu braço se eriçaram, seus lábios se entreabriram. Seus olhos estavam arregalados, suas mãos tremeram levemente.

Ela soltou-se de seu abraço.

Quando James conseguiu estabelecer contato visual, percebeu nos olhos de Lily Evans que ela estava em choque.

Mais do que isso. Ela estava com medo.

- Lily? – ele se aproximou, erguendo as mãos.

A cabine estancara na base. As portas estavam se abrindo e uma multidão já se amontoava na saída.

- Eu... eu preciso ir. – Lily disse, num tom de voz sufocado e dolorido.

James manteve na mente a visão dos cabelos ruivos e suéter azul se afastando entre os turistas e os nativos para fora do compartimento, a visão daquela que não poderia se definir em qual dos dois se encaixava. Seria a última lembrança que ele teria dela por um tempo.


Hora do Oscar: Thankyouverymuch to Fezinha Evans, Mayuu Chan, MahEvans, Flavinha Greeneye, Piu, Naa Potter, Zia Black, Thaty, Caroline Evans Potter, InfallibleGirl e Luhli. (corre, abraça todo mundo e juntas dançam a polca -q)

Nota da Dressa:Tipo que esse capítulo tem TODO o meu amor, ele é gato e eu queria que ele me ligasse. Porque né, É TIPO LONDRES E EU ME REALIZEI PRA CARAMBA. Cinco horas de pura digitação, empolgação, fotos, ligações na madrugada, pressão e álcool (BRIMKS!). Como sou linda e tenho idéias brilhantes, criei um polyvore e o link já tá lá no perfil (me adicionem, gatos). DAÍ QUE tudo que teve o ar da graça de vestir Tiger Lily Evans estará lá (além dos looks de Mary e Alice no primeiro capítulo) e eu SUPER me divirto fazendo essas coisas. Passem lá e digam se Lily é uma ruiva brega or not. Se tiverem a fim de passar em mais lugares, Capítulo Um também foi feita com todo o meu coração e é dedicada à mesma louca que inspirou Tiger Lily. Só que a coitada é totalmente abandonada, preconceito só porque ela é curtinha mimimi. Ou Love Like a Bomb, porque Noel Gallagher merece toda a idolatria de vocês e talz. Enfim. Eu desisti de Publicidade e Propaganda, então a hora dos comerciais acabou, voltamos à programação normal.

Capítulo? Tiger Lily, o super-ultra-mega capítulo final e suas cinco emocionantes páginas só chegam quando a carência e a crise afetiva da Dressa passarem com uns comprimidinhos aí (BRIMKS! Mattheus, seu idiota, peguei sua mania.) Mentirinha, galere, o desfecho vem quando alcançarmos a constante k da força elástica, ops, quantidade y de reviews. HAHA

RANDOM! Dia 28 de agosto é aniversário desta querida (?), louca e desesperada autora que vos fala. Estejam MAIS incentivados a mandarem reviews, nem que seja "Manda um pedaço de bolo aí, gatz."