Capítulo 3 - Tiger Lily
Why don't we hit restart,
and pause it at our favorite parts?
We'll skip the goodbyes
If I had it my way,
I'd turn the car around and runaway,
Just you and I
Ela esquecera-se de puxar as cortinas. De novo. O sol de Londres, antes tímido e esporádico, resolvera escolher o pior de todos os dias para esgueirar-se insistentemente por entre as frestas entreabertas e cumprimentar sadicamente a garota.
Lily remexeu-se incomodamente. Afundou o rosto inchado de sono no travesseiro, os fios rubros embaraçados e soltos por toda a fronha branca; os lençóis estavam suados por mais uma noite de sonhos agitados, entrançados firmemente em suas pernas leitosas.
Os pesadelos haviam voltado, ela percebeu com um muxoxo abafado. Sufocou um grito contra o travesseiro e socou o colchão, nervosa e irritada, ao mesmo tempo em que revivia as macabras visões. Vultos encapados, escuros, fantasmagóricos, batendo contra as janelas do ônibus, quebrando as vidraças. Os gritos de pânico, a sensação da agonia, a angústia das lágrimas incessantes. Os seres de trevas arrastando seus pais, o sangue que pingava negro dos cortes pelo vidro. As faces de terror de Alice e Mary enquanto berravam inaudivelmente, as bocas se contorcendo mudas, o pedido de socorro que nunca chegava.
E ele. James de braços abertos, pondo-se no meio do caminho num corredor de destroços. Tentando escondê-la, tentando protegê-la. Ele não falava, não se mexia, quase não respirava. Os olhos nem mesmo piscavam, mas pareciam brilhar como nunca antes. Eram da cor das folhas secas, folhas mortas. Folhas caídas, soltas ao vento.
Lily sempre acordava dessas noites com um ardor sufocante indo e vindo da garganta para o nariz, dias e semanas e meses de choro contido. Um tormento desperto novamente; um tormento sem explicação, sem razão, sem origens, sem causas. Eram apenas conseqüências.
Lily permitiu-se chorar desta vez. Ouviu o barulho da cidade chegar através do vento, ouviu as vozes dos vizinhos relatarem todos os seus problemas matinais. Com os lábios a tremer, aquela que no fundo não se sentia mais do que uma menininha correu para a janela de seu quarto e, com violência não característica, puxou as cortinas. Escondeu-se. Protegeu-se. Do quê ou de quem ela ainda não sabia.
Ao encolher as pernas para mais junto de seu corpo, contorcendo-se como um bebê assustado em sua cama, trazendo desesperadamente o lençol para cima da cabeça, ela acabou por adormecer novamente.
O som parecia distante. Escondido no fundo da sua cabeça. Parecia ser imaginação.
Por vezes era contínuo; em outras, era espaçado. Dingdongdingdongdingdongdingdong. Ding. Dong. Ding. Dong.
Mas era sempre fino. Estridente.
Irritante.
- Já vou, já vou! – Lily por fim gritou, convencida de que, quem quer fosse, era de uma persistência invulgar. Esperou para que pelo menos tivesse ouvido sua voz entre o tocar incessante da campainha. Ela bufou ao sair de debaixo de seus queridos lençóis, o mau humor tendenciosamente crescente. Ao atravessar a saleta de seu humilde apartamento, passou rapidamente a mão sobre os cabelos, penteando-os parcamente com a ponta dos dedos.
Ela tinha consciência de que sua expressão não era das melhores. Mesmo assim, girou a maçaneta.
- James? – Lily pensara que fosse alguma emergência da Sra. Figg, a vizinha do 399 – ela lembrava-se do dia em que tivera que chamar os bombeiros para resgatar um dos gatos da velha de uma construção abandonada das redondezas – mas inacreditavelmente fora pega de surpresa ao encontrar o rapaz apoiado na parede oposta do corredor. Ele vestia calças jeans simples, com cara de velhas. Os braços estavam cruzados firmemente sobre o peito, marcando a
camiseta. Ele estivera cabisbaixo enquanto a esperava; também não estivera dormindo muito bem, aparentemente.
- Lily! – ele exclamou ao vê-la finalmente abrir a porta. Na sua voz transparecia uma espécie de alívio; talvez pensasse que ela tivera uma parada cardíaca e morrera durante a noite, por isso não o atendera. Ou então – mais provavelmente, já que ela nem chegara aos vinte anos - que ela o estava evitando.
- O... o que...? – ela tentou, abrindo e fechando a boca sem conseguir formular uma frase coerente. Acabou por olhar para seus próprios trajes e perceber que se encontrava somente em seus pijamas, sem nem ao menos um robe para cobrir as ridículas estampas de ursinhos em sua calça. Ou mesmo o I Love You desbotado de sua camiseta pequena demais. – O que você está fazendo aqui? – finalmente perguntou, abraçando a si mesma.
James atravessou o corredor em duas passadas largas, os lábios entreabertos como se pretendesse dizer alguma coisa. Porém, ao aproximar-se da porta, Lily a fechou com um baque estrondoso.
- Lily! Lily!– ele gritou, batendo incessantemente na porta de pintura descascada do número 397 com os nós dos dedos.
- Não adianta, eu não vou abrir. Vá para casa. – ela respondeu, as costas apoiadas do outro lado da porta, os olhos a vagar pela sala bagunçada, a voz saindo abafada.
– Eu não vou permitir que isso acabe assim. O que eu fui pra você, só diversão? Merda, Lily Evans! Quantas vezes eu preciso repetir que eu te amo?
A garota engoliu em seco no âmbito de sua casa. Passou a mão nervosamente pelos cabelos – tique nervoso que adquirira do próprio James. Fechou os olhos com força e inspirou fundo. Tentando manter a calma e a frieza, disse o mais alto que pôde:
- Você não precisa. Apenas vá embora.
- Lily, casa comigo. – ele sussurrou depois de um tempo em silêncio. Sua voz saiu sofrida, clemente. Relutante para admitir uma verdade.
- Não, James. Vá embora. – a garota bufou, rolando os olhos. Ele não podia estar falando sério.
- Casa comigo. Eu te amo, droga. – o som de sua voz atravessava dolorosamente a porta enquanto ele falava mais alto, mais irritado.
- James, nós temos dezoito anos! – Lily por fim gritou, sua voz num filete do que realmente era, uma expressão de desespero sufocado. Tentava acreditar que estava apenas clamando pelo bom senso que esperava que ele tivesse e nada mais. O ribombar dolorido de seu coração nada mais significava do que um medo que James não recobrasse seu discernimento de mundo. É.
- Que bom, já mandamos nos nossos próprios narizes! Casa comigo.
Houve o som do destrancar da porta. Por uma brecha, somente o rosto de Lily era visível e ele estava exasperado. Surpreso com a insistência e a inconsciência. Mas James se mostrava convicto, firme. A boca se tornara uma linha fina, dura, séria; os olhos brilhavam em determinação.
- James, por Deus. Tenha um pouco de juízo na cabeça! Não podemos CASAR!– Lily tentou, a voz trêmula e frágil. Ela não parecia ter certeza do que estava falando; ela não parecia acreditar no que estava falando.
- E por que não?
- Não é óbvio? Nós somos muito novos! Nós nem sabemos o que é vida ainda, James. Nós nem começamos a aprender ainda. Como vamos saber o que é amor? Como vamos saber se isso é certo? Nós ainda somos muito crianças.
James a puxou delicadamente pela mão que se apoiava no portal. Encostou-a suavemente contra a parede do corredor e correu os dedos por sua nuca, acariciando-a e arrepiando todos os pêlos do local. Seus olhos vagavam intensamente por todo o rosto da garota, de sua testa até seu queixo, dos olhos até a boca. Arrastou suas mãos pelos braços de Lily até encontrar sua cintura, a qual enlaçou fortemente.
- Você pode dirigir aos dezesseis, ir para a guerra aos dezoito, você pode beber aos vinte e um e se aposentar aos sessenta e cinco... então qual idade você tem que ter antes que seu amor seja verdadeiro?¹ – James sussurrou lentamente, o tom de voz saindo rouco próximo ao ouvido de Lily, seu rosto encaixado na curva do pescoço da garota que nem ao menos o encarava.
Lily sentiu a respiração falhar por um momento. Talvez a retraída brusca de seu peito tenha assustado James; ele apenas a abraçou mais forte, os braços e as mãos percorrendo mornamente toda a extensão de suas costas.
Ela levantou o rosto para vê-lo melhor. Aquele olhar sério e decidido que James ostentava fazia seus olhos se tornarem verdes. Intensos e verdes. Causava arrepios à garota. Ele transbordava força, coragem. Nos três longos segundos que antecediam todo beijo, James sempre tivera aquele olhar. Lily nunca se atrevia a desviar. Lily nunca conseguia desviar.
James ergueu a mão e acariciou vagarosamente a bochecha da garota, traçando com o polegar o pontilhado de suas leves sardas. Ela beijou suavemente a palma de sua mão, fechando os olhos por completo. Arrancando-lhe um suspiro confessado, ele lentamente desenhou com os dedos o contorno delicado dos lábios da garota antes de selá-los com os seus.
James respirou fundo e alto enquanto pressionava seus lábios contra os de Lily, as mãos a puxando para si com avidez, na tentativa de expressar sem palavras o desespero que vinha lhe afligindo nos últimos tempos. Ela abraçou-o com força, cruzando os braços em sua nuca, pondo-se na ponta dos pés quando aprofundaram o beijo. Não houve poesia, não houve delicadeza, não houve hesitação. Era forte, intenso, voraz, saudoso. Desesperadamente saudoso.
Lily empurrou-o delicadamente ao ouvir o alerta de sua consciência ecoar em sua mente.
- Eu... eu planejei tanta coisa para mim. – ela suspirou, como se estivesse desistindo. Ou como se estivesse lutando em vão. - Eu ainda quero tentar, fazer, presenciar, viver tanta coisa!
James levou suavemente a cabeça da garota para o seu próprio ombro, carinhosamente brincando com seus fios ruivos. Abraçou-a docemente, protegendo-a em seu peito.
- Você não precisa estar sozinha.
Eles dirigiram de Londres até Oxford. James tinha um bom carro, um Volvo prateado e bem cuidado, embora ele mesmo fosse um péssimo motorista. Lily achou que fosse um comentário um pouco cruel a se fazer, mas nunca sentira tanta falta do metrô como durante aquelas horas. Entretanto, ela achou extremamente proveitosa, divertida e até mesmo educativa – James realmente entendia de comida italiana – toda aquela conversa interminável desde o seu prédio perto do SoHo até o parque especial de Hinton.
Ao atravessar dificultosamente o estacionamento, Lily encantou-se com os letreiros, muros pintados e outdoors espalhados. As fotos profissionais destacadas a fizeram boquiabrir-se de admiração. As mãos suavam com o momento certo se aproximando, a ansiedade incontrolável.
- Lily? Você está pronta?
- James. – a voz da garota saiu fina, baixa, sufocada. Sentia os lábios ligeiramente trêmulos, os dentes a ranger uns contra os outros.
- Sim? – ele sussurrou de volta, virando o rosto para encará-la. Os dois apoiavam-se pelas mãos nas paredes brancas, de pé um ao lado do outro, embora mirassem as janelas tão fixamente que conseguiam desprender-se desse detalhe. Eram seis pessoas dentro daquele pequeno monomotor a levantar vôo continuamente; James sentia a pressão nos ouvidos aumentar, um zumbido incômodo e permanente.
Era evidente para todos dentro do avião o quanto ele estava apreensivo; seu rosto normalmente corado encontrava-se branco, palidamente doentio. Uma gota de suor frio escorria vagarosa pela sua têmpora e o rapaz poderia jamais admitir, mas nunca se sentira tão nauseado na vida.
Mesmo assim, ele ainda sorrira ao olhá-la. Ele sempre sorria ao olhá-la.
- Você... – Lily pigarreou, nervosamente. Perdida no macacão laranja três números maior e estridentemente chamativo, seus passos foram curtos e apenas dois, suficientes para aproximá-la do outro – mais discreto em um modelo azul-escuro e no tamanho certo. Com os braços rígidos, ela inacreditavelmente conseguiu enlaçá-los em torno das costas de James, num abraço desajeitado. Ele era sempre tão morno, tão natural, tão humano. Retribuía seu carinho
com tanta necessidade e tanto carinho; era quase como se implorasse para que permanecessem ali para sempre, por mais clichê que isso pudesse parecer. – Você pode pedir aquilo de novo?
James afastou o peito delicadamente e encarou-a com estranheza através dos óculos de proteção, uma única sobrancelha erguida. Lily observou, então, um flash de entendimento perpassar como um brilho pelos orbes castanhos.
- Ooh. – ele fez, elevando o canto dos lábios num sorriso maroto. Ele ergueu uma das mãos e primeiro colocou carinhosamente uma mecha ruiva e rebelde de cabelo para trás da orelha de Lily; depois, pousou-a no queixo da garota, impedindo-a de desviar o olhar. – Lily Evans, você aceita se casar comigo?
James observou o sorriso malicioso nascer de um brilho esquisito nos olhos da garota e então percorrer seus lábios encarnados. Sentiu-a puxá-lo pela mão e guiá-lo entre os assentos apertados para a até então fechada porta metálica. Com a ajuda de alguns rapazes membros da tripulação, Lily destravou o trinco de segurança e deslizou a tampa de proteção.
- Eu aceito.
James Potter nunca sentira o céu tão próximo de si como quando ele e Lily Evans saltaram de mãos dadas do avião em direção a quarenta e cinco segundos de skydiving.
¹: Jim James, acho que no episódio 2x02 de One Tree Hill.
Hora do Oscar: Thankyouverymuch toInfallibleGirl, Caroline Evans Potter, Thelma, Zia Black, Gina A. Potter, Luhli, Pikena, Naa Potter, Miss Moony, Mayuu Chan e Doidinha Prongs. (bearhug)
Nota da Dressa: That's all, folks! Serião, me diverti demais escrevendo essa fic porque ela é inteiramente dedicada à Tiger Maira e ela super merece o meu esforço e as minhas horas de sono perdidas. Tiger Lily foi um marco muito grande para mim como escritora, tanto pelo número de páginas e o plot maluco, como meu próprio sentimento por escrever. Realmente gostaria de agradecer à Piu, pela betagem (Cérebro Jones éssi-dois Pink Fletcher) e a todos que leram, favoritaram, colocaram no alerta, mandaram review, desejaram feliz aniversário ou simplesmente perderam dez minutinhos aqui. Câmbio desligo e me aguardem, dois projetos me importunam seriamente. Dica amiga: meu polyvore está sempre sendo atualizado com os looks das fics e isso diz muito sobre o que se passa nelas.
