Estava tudo negro. Uma névoa clara pairava no ar.

- Sailor Moon! – chamou uma voz.

Usagi virou a cabeça. Ao longe, uma mulher de cabelos verdes olhava para ela.

- Olha… - a mulher apontou para o vazio, e subitamente a neblina tomou a forma de um homem que ela bem conhecia.

- Mamoru!

Mamoru aproximou-se da mulher. Esta envolveu os seus braços em torno do pescoço seu pescoço e aproximaram as suas faces.

- Não!! PÁREM, NÃO!

Os lábios de Célimoon e Mamoru tocaram-se, trocando um longo beijo.

- Vês? Eu avisei-te. – disse Rei ao seu lado.

- Rei? – exclamou Usagi confusa, enquanto as lágrimas escorriam. – Onde estou? O que fazes aqui?

- Não podes pressionar tanto o Mamoru, sabes…? - disse Makoto aparecendo ao lado de Rei. - Já sabíamos que isto ia acontecer mais cedo ou mais tarde.

- Makoto? Mas como…? – exclamou com a cabeça a latejar.

- Oh que pena! Parece que a vossa história de amor acaba aqui… O Mamoru fez a sua escolha. – observou Minako aparecendo por detrás.

- Um intelectual como o Mamoru não iria querer passar a sua vida ao lado de uma pessoa sem a mínima noção da realidade e sem ambições! – opinou Ami aparecendo ao lado de Minako.

- Parem! Parem! – berrou Usagi tapando os ouvidos. Correu para alcançar Mamoru, mas uma forte rajada de vento impedia-a de avançar.

- Desculpa, é a ela que eu amo. Estou salvo nela. – disse Mamoru calmamente, encostando a cabeça de Célimoon no seu peito.

- Não! É mentira! – gritou Usagi. - Foste apanhado na teia de mentiras dela como a Úrano e a Neptuno!

- Adeus cabeça de serradura…

- Mamoruooooooo….! – bramiu, enquanto era puxada pelas trevas.

Sentia-se a cair, a cair, a cair… Abriu os olhos.

- Um sonho… Não passou de um sonho… - pensou ainda com a cabeça a palpitar, desorientada. Não tardou a perceber que estava num quarto de hospital, com ligaduras e deitada na cama. Tinha visitas.

A sua mãe e Rei encontravam-se num sofá encostado à parede. As lágrimas escorriam pelas suas faces. Preparava-se para lhes dizer que já acordara, quando subitamente percebeu a razão do choro compulsivo das duas mulheres.

- Jáque!– gritou uma voz conhecida.

- Rouze!

Na televisão, duas pessoas beijaram-se e um barco partiu-se a meio, sendo engolido furiosamente pelas águas negras.

- Este… filme… é tão… lindo! – fungou Rei enquanto assoava o nariz.

- Pobre Jáque… - chorou Ikuko, a mãe de Usagi, levando um lenço de seda ao seu olho brilhante.

Percebeu não estavam atentas a ela, mas sim ao ecrã da televisão. De facto, ninguém parecia ter reparado que acordara. Sentiu-se alivada, não teria que responder a perguntas indiscretas, pelo menos por agora. Ficou calada a observar o desenrolar do filme. Rouze, a protagonista, tinha cabelo verde encaracolado apanhado num carrapito. Reconheceu Célia, a actriz que desempenhava o papel. Passados uns minutos, observou atentamente a cena na qual Rouze estava em cima da porta de um guarda-roupa a olhar para o corpo congelado do seu amado.

Ikuko soltou uma grande fungadela e Rei limpou as lágrimas com um lenço. Usagi lembrou-se de Mamoru, como o vira a desaparecer diante dos seus olhos. Contudo, para sua surpresa, constatou que não era difícil pensar nele. Apesar de tudo, apesar do seu paradeiro incerto, sabia que agora ele estava sob a protecção de Úrano e Neptuno. Elas certamente não deixariam que Célimoon o magoasse.

- A princesa Célia é realmente uma actriz fantástica. – disse Rei recompondo-se, enquanto a palavra "Fim" aparecia no ecrã. - Já lhe contei que tivemos o prazer de a conhecer pessoalmente? – perguntou vaidosa.

- Sim Rei… Fizeste questão de o referir pelo menos três vezes durante o filme… - respondeu a mãe de Usagi ligeiramente aborrecida.

Ouviram-se três pancadas na porta. Uma enfermeira gordinha e rosada entrou no quarto. Tinha ao peito uma placazinha de identificação onde mostrava o seu nome "Marie Peryl". Era a mesma que havia tratado dos ferimentos dos pais de Usagi quando a casa havia sido atacada por Esmeralda.1

- Olá kridaz! Ztá boa Dona Ferrnanda? Oh! Vejo que a noza paziente acorrdou! – exclamou, com seu acentuado sotaque francês.

Rei e Ikuko olharam instantaneamente para Usagi, que ainda não tinha dito nada desde que acordara.

- Querida! – gritou a sua mãe abraçando-a.

- Ai!

- Ah rica… non lhe toque muito! – advertiu a enfermeira dirigindo-se em direcção a Usagi, empurrando Rei pelo caminho. - Orra vejamos… - disse enquanto pegava na ficha clínica. - A menina tem uma hemorragia interrna na zona abdominal, trrréz costellas parrtidas e diverrsas queimadurras! Então que marrotices andou a fazerr parra ficarr assim hãã? – perguntou sorrindo exageradamente.

Todas a fitaram curiosas esperando uma resposta. Um turbilhão de ideias passava na cabeça de Usagi. Já esperava este momento, no entanto ainda não tinha encontrado uma explicação que não preocupasse a sua mãe e que ao mesmo tempo não revelasse a sua identidade à enfermeira.

- Eu… estava nos apartamentos Maison quando ouvi um barulho estranho, corri pelas escadas abaixo, entrei no elevador e… olhem acordei aqui! – explicou atabalhoadamente.

- Oh! – guinchou a enfermeira com a sua voz aguda. - Enton a menina é uma daz pazientes da derrrocada! Mon Dieu, teve muita sorrte! Aliaz, todos tiverron, parrece que o prrédio estava vazio quando caiu, as pezoas que estavam na rua no momento da derrocada forran atingidaz com algunz deztroços, mas ninguém se magoou gravemente.

- Ainda bem… – disse teatricamente, pois sabia que as Sailors do espaço exterior haviam-se certificado que ninguém estava no edifício antes deste ruir.

- A menina foi a pior até agorra. Esteve a dorrmir durrante 43 horras.

- É… A nossa Usagi tem um historial de longas sestas. – brincou Rei enquanto piscava o olho a Usagi.

- Clarro que se non fosse porr cauza daquelas garrotas, nada dizto tinha acontecido. – disse a enfermeira zangada enquanto ajustava os níveis de soro fisiológico.

- Desculpe? – perguntou Usagi intrigada.

- Parece que algumas pessoas viram as Sailors no prédio antes de ele ruir. Os telejornais inventaram a teoria de que foram elas a destruir o prédio. – disse Rei visivelmente aborrecida pelas palavras que a enfermeira acabara de pronunciar.

- Inventarom? Bah! Semprre que aquelas raparigaz de mini-saia aparecem, algum desastre acontece! Non sei o que lhes deu parra voltarrem ao fim de tantos anos!

- Não diga isso, as Sailors sempre nos aju… - começou Usagi.

- Non, cherie, você está confusa. A TV dizz que forram elas e todos concordam, já parra non falarr do meu sexto sentido que nunca me enganou. Quem somoz nós parra ignorrar as provaz?

- Mas elas sempre…

- Non querro que esforrce a sua linda cabecinha! Dezcance! Oh, tome lá um bombom! – exclamou, tirando um doce do bolso e enfiando-o na boca de Usagi.

- Se precizarrem de mim é só carregar nesse boton porr cima da cama! – prontificou-se saindo do quarto.

- Pronto, agora conta-me a verdade. – disse subitamente Ikuko com os olhos arregalados.

- Não tenho muito mais a dizer mamã… - mentiu.

- Então um prédio caiu em cima de ti sem mais nem menos? – perguntou irritada.

- Mamã, eu fui ao apartamento do Mamoru fazer limpeza porque já não era usado há muito tempo, quando de repente ouvi um barulho horrível, corri para o elevador e tudo ficou escuro! Eu não sei o que te dizer mais…

- Mas a enfermeira acabou de dizer que as Sailors foram lá vistas! – replicou Ikuko. - E essa história de ninguém estar dentro do prédio quando ele caiu também não me convence!

Rei viu Usagi a ficar baralhada e decidiu intervir em sua defesa.

- Quando a Usagi viu o que estava em apuros conseguiu chamar-nos a tempo pelo intercomunicador. Chegamos lá a tempo de evitar o pior. – colaborou Rei mantendo a história de Usagi.

- Estivemos aqui tanto tempo as duas e não me disseste nada Rei? – perguntou Ikuko com cara de zangada, mas parecendo ceder à história.

- A senhora já tinha preocupações suficientes, para quê mais uma?

Ikuko olhou para as duas com uma expressão de nervosismo.

- Então estão mesmo a falar a sério quando dizem que não tiveram nada haver com o desabamento? Ninguém te estava a atacar filha? – perguntou preocupada.

- Não mãe, a sério. – sorriu Usagi fazendo figas por debaixo dos lençóis.

- Ai… mas então porque é que o prédio caiu?

- Pois não sei mãe… A polícia deve averiguar o caso talvez… Sabes o que me apetecia agora? Um belo chocolate quente!

- Só mesmo tu! – suspirou enquanto saia do quarto para satisfazer o seu pedido.

Quando a porta bateu, Rei aproximou-se de Usagi.

- É verdade que estiveste aqui o tempo todo? – perguntou Usagi esboçando um sorriso, dando a mão a Rei.

- Estivemos todas aqui. A Makoto e a Minako tiveram que ir trabalhar, mas pediram para lhes ligar quando acordasses. Agora… - começou, assumindo um tom mais sério. - Conta-me a verdade.

- Hum… A minha história não te convenceu pois não? – sorriu, contando de seguida toda a história a Rei.

- A Úrano e a Neptuno… Então afinal aquela navegante sempre tinha o Ginzuishou…

- E o Cristal de Ouro!

- Bolas, eu não acredito que entraste naquele apartamento sem nos avisar… - desabafou Rei desapontada. - Se não fossem aquelas três sabe-se lá o que podia ter acontecido!

- Foi uma coisa espontânea, nunca pensei...

- Tu nunca pensas nas consequências dos teus actos! – ralhou. - Por muito empenhadas que estejamos para te proteger, sem uma colaboração da tua parte simplesmente não dá. Já te demos provas suficientes da nossa lealdade, sabes que estamos dispostas a dar a nossa vida pela nossa missão, só te pedimos que não deixes que isso seja em vão! – disse com os olhos húmidos.

Usagi baixou a cabeça sentindo-se a pior pessoa do mundo.

- Desculpa. Não volta a acontecer. – prometeu, com um nó na garganta. Não podia deixar de concordar com o que Rei dissera. A amiga ajoelhou-se ao lado da cama e pegou nas suas mãos.

- Tu sabes que só digo isto para teu bem. Apesar das nossas zangas, és como uma irmã para mim… Não quero perder-te, nunca. – confessou com um sorriso terno.

- Oh Rei… Eu também te adoro, sabes disso. – respondeu Usagi abraçando-a a custo.

- Bem, disse Rei recompondo-se, tenho também uma novidade para te contar.

- Ai sim? – perguntou Usagi curiosa.

- No parque do templo, depois do nosso treino, eu descobr…

- Aqui tens querida! – disse Ikuko abrindo a porta subitamente. - Tive que descer três pisos! Também trouxe um copinho de chocolate quente para ti Rei.

- Hã… Obrigada Sra. Tsukino. – agradeceu desconcertada pegando no copo.

- Pardon, disse a enfermeira espreitando pela porta, o horrário das vizitas já acabou. Os familiarrres podem ficarr, mas os restantes terron que se ir embora.

- Depois acabamos a conversa pelo telemóvel, pode ser?

- Non, non! – barafustou a enfermeira. - A menina está num estado delicado, non querro aparrelhos electrónicos perrto de si!

Rei saiu do hospital aborrecida por não ter conseguido transmitir a sua descoberta a Usagi. Apanhou o metro em direcção ao templo.

Pelo caminho encontrou um pedinte, um dos muitos da cidade, e ofereceu-lhe uma moeda.

- Sinceramente… Que horror, esta gente devia ser toda expulsa da cidade! – comentou uma mulher de óculos escuros enquanto passeava o seu cão petit.

- Existe cada pessoa mais egocêntrica…! – comentou Rei suficientemente alto para a mulher ouvir.

Entrou no metro, sob o anoitecer. Após uma rápida e calma viagem, saiu na estação de metro mais próxima do seu templo.

Uma senhora idosa tropeçou na saída, deixando cair as sacas das compras. Apesar de muitas pessoas estarem a passar por ela, ninguém a auxiliou. Rei voltou para trás e auxiliou a anciã.

- A população desta cidade está sempre a aumentar, mas cada vez menos as pessoas se ajudam umas às outras.

- É verdade minha filha… Ninguém se interessa por ninguém nestas novas gerações.

Rei sorriu em concordância e foi para o templo.

Passou os grandes portões e dirigiu-se para o parque. No exacto sítio onde tinha desmaiado dias antes, encontrava-se a ponta de um telhado branco. Rei sentia uma aura estranha associada à estrutura. Parecia ser bastante antiga, quer pelo facto da parte do telhado a descoberto apresentar um aspecto velho, quer pelo facto de aquilo ser apenas a ponta da estrutura, o que queria dizer que estava enterrado profundamente devido aos anos passados.

Rei não teria descoberto a estrutura, se a sua batalha com Júpiter não tivesse sido suficientemente intensa ao ponto de criar aquela cratera. Aproximou-se e colocou a mão.

- Eu… sinto… - murmurou fechando os olhos. Via à sua frente luz, brilho. Via o Milénio de Prata. Via a Rainha Serenity colocando o Ginzuishou no ceptro lunar.

- Rei? – ouviu uma voz vinda de um vulto, que colocara a mão no seu ombro.

Com reflexos rápidos, pegou no braço e fez com que o homem descrevesse um arco por cima de si e fosse cair à sua frente. Foi então que viu o rapaz de cabelo desgrenhado.

- Desculpa se te assustei… - disse, estendido no chão.

- Yuuichirou! Esqueci-me que voltavas hoje! Claro que me assustaste aparecendo assim do nada! Isso são maneiras de cumprimentar a tua… patroa? - disse esboçando um sorriso maroto, beijando-o de seguida.

- O que aconteceu aqui? – perguntou olhando para o caos que reinava no parque.

- Uff… Longa história, mais tarde falamos disso. Estava a morrer de saudades tuas, nunca mais voltavas…

- Duas semaninhas, foi o que combinamos. Já não via os meus pais há imenso tempo! Mas diz-me… Sentiste a minha falta? – perguntou sorrindo.

Rei enrolou os braços à volta do pescoço de Yuuichirou e beijou-o demoradamente.

- Isto responde à tua pergunta?

- Anda daí, tenho uma surpresa para ti. – disse Yuuichirou, puxando Rei até dentro do templo.

Na sala de jantar encontrava-se uma mesa com os mais variados petiscos. Toda a divisão estava repleta de velas brancas e pétalas de rosa vermelhas.

Rei ficou espantada ao contemplar tal acto de romantismo.

-Fizeste isso tudo para mim? – perguntou corada.

-Claro! Mereces isto… e muito mais! – replicou embaraçado.

Jantaram à luz das velas, beberam champanhe e conversaram durante horas.

- Agora a sobremesa! – disse muito excitado, enquanto se levantava para ir à cozinha.

- O Yuuichirou tem um lado romântico que eu não conhecia…! – pensou Rei feliz.

- Mas o que é que se passa aqui? – perguntou o avô, abrindo a porta da sala.

- Avô! Vá dormir! – alarmou-se zangada com a falta de sentido de oportunidade. Agora estou ocupa…

- Aqui está a sobremesa! – exclamou Yuuichirou dando um encontrão no avô. - Mestre! O que está aqui a fazer? Pensava que estava a dormir!

- Hum… Leite-creme! – salivou, sentando-se à mesa.

- Desculpe mestre, mas só fiz para duas pessoas…

- Não faz mal! – respondeu, repartindo pequenas porções por três taças. - Bom proveito.

- Estás bem? – perguntou Rei a Yuuichirou, ao vê-lo suar.

- Não é nada… - respondeu-lhe, olhando para a taça do avô.

- Ai! O que é isto dentro do leite-creme? – interrogou-se, pegando num objecto impregnado com creme. - Isto é…

Yuuichirou bateu com a palma da sua mão na testa.

- Um anel de rubi…?! – exclamou Rei olhando para a pedra vermelho-fogo que o avô segurava.

- Queria fazer-te uma surpresa... – suspirou Yuuichirou, tirando o anel das mãos do avô e ajoelhando-se.

O coração de Rei começou a bater mais rapidamente.

- Ritinha, amor da minha vida, aceitas casar comigo? – perguntou olhando fixamente para os negros olhos de Rei, que se encheram de lágrimas de alegria.

- Sim! – respondeu-lhe feliz, enquanto anel era colocado no seu dedo.

De repente o seu intercomunicador começou a tocar. Era Makoto.

- O que é isso? – perguntou Yuuichirou ainda fora de si de felicidade.

- Nada, esquece! – exclamou, ignorando a chamada.

- Meu rapaz… - interrompeu o avô. Tinham-se esquecido de que ele ainda estava presente na sala. - Espero que trates da minha neta como ela merece. – disse colocando a mão no ombro de Yuuichirou.

- Sim mestre, claro mestre! – respondeu embaraçado, fazendo vénias.

- Têm então a minha bênção. – disse o avô baixando a cabeça em sinal de respeito. Saiu da sala deixando-os a sós, mas não antes de Rei vislumbrar um sorriso rasgado na face do seu velho avô.

- A surpresa não acaba aqui… - disse Yuuichirou pegando Rei no colo.

Seguiu até ao quarto. Também este se encontrava com a cama coberta de pétalas vermelhas e velas brancas que rodeavam o quarto.

- Yuuichirou… - suspirou Rei entregando-se a uma noite repleta de paixão e amor.

Rei acordou sobressaltada. Uma aura estranha invadia-lhe a mente. Yuuichirou estava deitado ao seu lado e dormia profundamente.

Levantou-se da cama e vestiu-se rapidamente. Ouviu um ligeiro barulho vindo do alto. Olhou para o candeeiro que pendia do tecto, que balançava suavemente. Saiu do quarto e percorreu os corredores do templo. O que começou como uma ligeira vibração transformara-se em algo mais forte. Todo o templo rangia e tremia. Ouviu o seu avô e Yuuichirou a levantarem-se também. Sentia cada vez mais intensamente um mau presságio, um terrível agoiro. Algo de maligno estava a acontecer, algo mais do que um simples terramoto. Correu para fora do templo.

Um grito de espanto saiu involuntariamente da sua boca ao ver uma espessa barreira negra que envolvia todo o recinto do templo e do parque, impedindo a entrada ou a saída a quem quer que fosse.

Olhou para o alto. No topo do telhado do templo estava uma mulher com aspecto de feiticeira, com um olhar sinistro e congelante, a causadora da barreira.

- Kaorinite!

- Guerreira de Marte, encontramo-nos de novo. – disse pairando no ar. A mulher tinha cabelos ruivos apanhados num rabo-de-cavalo que lhe pendia para o peito. A sua pele era clara, demasiado clara, dando-lhe um ar pálido e fantasmagórico.

- Como sabes que eu sou… - engasgou-se Rei assustada.

- Ah ah! Sei bem quem são. Todas vocês. – disse com um olhar superior, segurando uma pedra negra.

- O Ginzuishou…! - surpreendeu-se, reconhecendo a pedra.

- Ah sim, como podes ver já temos algum controlo sobre o mítico Ginzuishou. – disse acariciando-o. - Gostas deste campo de forças criado por ele? Ninguém pode entrar… ou sair! Estás só! – riu-se, elevando-se no ar.

- O que se passa?! – perguntou o seu avô saindo de dentro do templo com Yuuichirou.

- AVÔ CUIDADO! – gritou, atirando-se para a frente dele enquanto Kaorinite lançava um ataque de energia negra. Por sua vez, Yuuichirou protegeu-os aos dois, levando com o ataque. - FERNANDO! – berrou ao vê-lo coberto de raios negros, uivando de dor, por cima de si.

- Socorro! – gritou o avô ao ser enrolado por cordas e elevado para ao lado de Karorinite.

- AVÔ! – gritou Rei dividida. Yuuichirou jazia a seus pés, sem forças e em sofrimento. Por outro lado, o seu velho avô estava à mercê de Kaorinite.

- Mostras quem és realmente e admites que passaste uma vida a ocultar a tua verdadeira identidade aos teus familiares, ou preferes combater-me… assim? Perdes de qualquer das maneiras! – riu-se Kaorinite.

Só havia uma coisa a fazer. Não importava as consequências, apenas tinha que salvar os seus entes queridos.

- Cristal de Marte… - nas suas mãos um cristal vermelho apareceu. - MARS CRYSTAL POWER… - gritou, sentindo os olhos de Yuuichirou e do seu avô postos em si. Kaorinite sorriu como que esperando aquele momento. MAKE… UP!

Por entre chamas vermelhas, instantes depois surgia como Super Sailor Marte.

- Rei… - exclamou Yuuichirou incrédulo.

Dois corvos negros surgiram por detrás do templo.

- Interrompeste um momento de sonho, magoaste os meus entes queridos, cometeste um crime grave. Vou castigar-te em nome de Marte, acção!

- Que medo… - zombou a inimiga.

- Phobos, Deimos! - gritou para os corvos, ordenando-os que tentassem libertar o seu avô das cordas. - FIRE SOUL! – invocou, formando um mar de chamas dirigido a Kaorinite. Esta ergueu o Ginzuishou que absorveu as chamas. - Não!!

- Miúda atrevida… - disse Kaorinite com um ar diabólico, enxotando os corvos – Já trato de ti!

O Ginzuishou devolveu as chamas com uma incrível intensidade.

- FIRE SOUL, BIRD! – gritou com todas as suas forças. Um pássaro de fogo saído das suas mãos colidiu com as chamas. A força do impacto elevou Marte e atirou-a para o interior do parque.

Antes de ser envolvida pelo mato, conseguiu vislumbrar ao longe três vultos que se dirigiam em direcção à barreira negra.

Caiu pesadamente no sítio indo o telhado branco estava soterrado. A sua cabeça deu um desconfortável estalido. Sangue começou a escorrer-lhe da testa. Os seus olhos estavam pesados, o seu avô e Yuuichirou precisavam de ajuda, mas estavam longe, longe, longe….

*

- Marte?

- Sim, Rainha?

Encontrava-se numa sala branca com um imenso vitral, via no meio do espaço o planeta Terra, como uma pérola azul sobre uma tela negra.

- Preciso de falar contigo. – disse a Rainha sorrindo. - Sei que és muito amiga da Princesa Serenity, e preciso de te fazer uma pergunta que espero que me respondas com franqueza.

- Sim majestade.

- É verdade que a Princesa se tem encontrado com o Príncipe Endymion na Terra? – perguntou calmamente.

- Rainha, a princesa… hã…- atrapalhou-se.

- É uma pergunta simples, que requer uma resposta simples... – sorriu.

- Sim, é verdade…- respondeu Marte sentindo que estava a trair a sua amiga.

Inesperadamente, a Rainha olhou vagamente para o tecto e sorriu.

- A história repete-se. - disse a Rainha triste.

Marte quase que poderia jurar que viu uma pequena lágrima no interior dos seus olhos.

- Rainha, mas de certo que não era por causa desse assunto que queria ver-me com tanta urgência?– perguntou, receosa do seu comportamento franco. Não seria apenas para isso que a tinha acordado da cama tão cedo àquela hora da manha.

- Não, de todo. – compôs-se a Rainha. - Receio que sejam assuntos muito mais sérios e graves. Os tumultos na terra estão cada vez mais frequentes, receio que em breve o Milénio de Prata seja atacado.

Marte esboçou um sorriso confiante.

- Estamos preparadas, além disso temos o Cristal Prate…

- A energia maligna está muito forte. – interrompeu a Rainha. - Teria que usar o poder do total do Ginzuishou. Caso isso aconteça, receio que seja o fim do nosso reino.

- O poder total do Cristal simboliza a destruição?

- O Ginzuishou é um óptimo escudo, mas também uma arma terrível. Ele busca a sua força às entranhas da alma, a nossa semente de estrela, dos seus utilizadores. Utilizar o seu poder total equivale a fragmentar a nossa alma, o que resulta na morte. Porém, utilizado com moderação, o seu poder provém da força das Sailors de toda a galáxia.

- Sailors… de toda a galáxia?– perguntou Marte espantada.

- Sim, por toda a galáxia existem Sailor Senshi. O Ginzuishou é o resultado de pequenos fragmentos das suas almas, das suas sementes de estrela. É o objecto mais poderoso do Universo. A única forma de ultrapassar o seu poder é fazendo uma coisa horrível, recolhendo as sementes de estrela de todas as guerreiras da galáxia, o que resulta na morte das guerreiras. Por essa razão, tornámo-nos o alvo de inveja de todo o universo.

- Não deveríamos ter uma maior protecção?– perguntou nervosa, consciencializando-se pela primeira vez do poder que a rainha dominava com o poderoso cristal.

- E temos. Temos as Sailor Senshi do Espaço Exterior, que protegem o Milénio de Prata dos ataques dos invasores de fora do nosso sistema solar.

Marte olhou para o céu escuro, imaginando que nos confins do sistema solar existiam guerreiras do Milénio de Prata, tal como ela, que zelavam pela paz.

- Então… Não somos as únicas Sailors do Sistema Solar? – perguntou com tristeza ao imaginar a vida solitária das outras guerreiras, que viviam nos confins daquele céu escuro e tenebroso.

- Existe uma navegante por planeta. Cada planeta encerra em si uma semente de estrela, que encarna num ser humano, que se transforma em Navegante.

- Então… Sailors de Saturno, Úrano, Neptuno e Plutão…

- Tu, minha querida… - disse a rainha pondo a mão no peito de Marte. - Nasceste sob o poder de Marte, o planeta da guerra, da luta e do arqueiro, que encerra o poder do fogo e das chamas. Tens um grande poder encerrado em ti, foi por isso que te chamei.

- Rainha, sou apenas uma rapariga normal, não tenho grandes poderes. – contestou a jovem guerreira envergonhada.

- Oh, isso é o que pensas! – exclamou a Rainha Serenity sorrindo. - Tens um poder psíquico muito grande e uma lealdade e coragem ainda maior. Quando despertares verdadeiramente, serás uma das guerreiras mais poderosas. Nomeio-te a Guardiã das memórias do Milénio de Prata. – disse, colocando a mão na testa de Marte. Um grande clarão de luz apareceu.

- Guardiã?

- Se o Milénio de Prata for destruído – e pode vir a ser destruído- usarei todo o poder do sagrado Ginzuishou para salvaguardar todas as vossas sementes de estrela, para que num futuro distante possam viver de novo. E, para que nunca se esqueçam de que um dia existiu um reino chamado Milénio de Prata onde foram felizes, tu Marte, quando todas as guerreiras deste sistema despertarem verdadeiramente o poder dentro delas, irás devolver todas as memórias da vossa vida na Lua. – disse a Rainha destroçada, vertendo uma lágrima.

- Rainha… - exclamou Marte com o coração partido ao pensar na possível destruição do reino que tanto amava.

- Para que nunca te aconteça nada de mal, concedo-te a protecção de Phobos e Deimos. – anunciou, descendo sobre ela dois corvos. Sob o teu comando, Phobos e Deimos ajudar-te-ão a cumprir a tua missão.

- E, no futuro, como recuperaremos o Ginzuishou?

- O poder do Ginzuishou é grandioso demais para ser usado pela princesa Serenity, jovem e inexperiente. Procurem pelos oito fragmentos e terão o verdadeiro Ginzuishou.

Phobos e Deimos grasnaram alto.

- Oito fragmentos? – ouviu-se a perguntar cada vez mais longe.O granar dos corvos estava cada vez mais audível. Oito, oito, oito…

Despertou. Phobos e Deimos estavam ao seu lado. Estava muito tonta. Levou a mão à cabeça. Viu uma enorme mancha de sangue. Tinha um grande golpe na cabeça, derivado da violenta queda.

- Avô! – gritou ignorando os seus ferimentos e as dores lancinantes, levantando-se para salvar o seu avô.

Correu e atravessou o parque até chegar ao átrio. Deparou-se com um cenário dantesco. O seu avô ainda estava elevado no ar, envolvido em cordas, com um ar de sofrimento. Yuuichirou estava ensanguentado e sem forças, após óbvias tentativas falhadas de salvar o seu mestre.

Kaorinite estava a tentar manter a barreira por ela criada, enquanto que Úrano, Célimoon e Neptuno a tentavam destruir pelo lado de fora. Aproveitou a oportunidade, vendo que Kaorinite estava distraída.

- MARS FLAME SNIPER! – gritou lançando a sua flecha de fogo.

- RAIOS!! – exclamou Kaorinite voltando-se para Marte. Nesse momento a barreira enfraqueceu. A flecha foi absorvida pelo Ginzuishou.

- WORLD… - berrou Úrano no lado de fora. - SHAKING! – o seu ataque quebrou a barreira, deixando-as entrar. A cara de Kaorinite ganhou um tom vermelho-raiva.

- STAR… - invocou Célimoon elevando as suas mãos para o céu estrelado. - RAIN! – uma chuva de estrelas afiadas de energia caiu do firmamento, em direcção a Kaorinite.

Esta elevou o Ginzuishou, que começou a absorver o ataque. Mas, para surpresa de Kaorinite, este começou a vibrar descontroladamente. A cor negra do Cristal começou a aclarar e a soltar raios de luz.

- Mantém o ataque! – gritou Neptuno a Célimoon, entusiasmada ao ver o fenómeno. A guerreira tentava manter o fluxo da chuva de estrelas a muito custo.

- PODER NEGRO! – gritou Kaorinite atacando o seu Ginzuishou. Este escureceu e absorveu todo o ataque de Célimoon. - Basta! – berrou furiosa enquanto o Cristal devolvia o ataque em direcção às Sailors. Estas fugiram, mas o impacto do ataque fez com que Neptuno se estatelasse na pedra do átrio, deixando-a inconsciente.

- Neptuno! – gritaram Úrano e Célimoon correndo em direcção a ela. Foram impedidas de a alcançar devido ao círculo de fogo que se formara ao seu redor. Marte e Yuuichirou também tinham um anel de fogo à sua volta, que impossibilitava saída.

- Agora, este é o momento! O começo do fim da aliança luo-estelar! Mato quatro guerreiras de uma só vez! – sorriu Kaorinite orgulhosa de si mesma, fazendo com que as chamas se elevassem e o círculo ficasse cada vez mais apertado. – Equanto vocês ficam tostadinhas, vou acabar o que vim aqui fazer. – disse, voltando-se para o avô amarrado, lançando-lhe uma descarga de energia. O avô gritava de dor e agonia.

- AVÔ!! – berrava Marte quase sem voz, chorando desesperadamente. As chamas estavam cada vez mais próximas, o ar cada vez mais quente e irrespirável.

- Marte, és a guerreira do fogo, consegues controlar as chamas. – gritou Célimoon no outro extremo, com a mão na garganta.

- Não! – berrou Marte envolta em lágrimas. - N-não consigo controlar o fogo sem ser o dos meus ataques! Ajuda-o, POR FAVOR! – gritou vendo o sofrimento do seu avô.

Célimoon olhou para Úrano, que acenou afirmativamente.

- Abre o teu coração… e confia em nós. – disse Célimoon fazendo com o que o majestoso ceptro lunar se materializasse nas suas mãos.

- Salva o meu avô! – gritou Marte desesperada.

- Invoca a tua semente de estrela, rápido! – bramiu Úrano vendo Neptuno quase a ser engolida pelas chamas.

- PODER DO CRISTAL DE MARTE!– berrou Marte sofucada.

No centro da meia lua do ceptro lunar, encontrava-se o Ginzuishou, idêntico ao de Kaorinite, mas de um prateado puro e resplandecente.

- Pelo poder da aliança luo-estelar, guerreira protegida pelo planeta Marte…

Kaorinite vendo o que se estava a passar em baixo parou de atacar o avô e preparou-se para atacar Célimoon mortalmente.

- PHOBOS, DEIMOS!

Os seus corvos voaram rapidamente até Kaorinite e roubaram-lhe o Ginzuishou enegrecido. Entretanto, Neptuno ganhara novamente consciência.

- … desperta o teu eterno poder, transforma-te… - continuou Célimoon quase desfalecendo com o calor e o fumo. - ETERNA! – o Ginzuishou do ceptro brilhou intensamente banhando Marte na sua luz.

Entretanto, Kaorinite conseguira recuperar o Ginzuishou das patas de Phobos.

De repente, no firmamento, um astro, o planeta Marte, brilhou intensamente banhando a Terra na sua luz vermelha.

As palavras fluíram da boca de Marte.

- Marte, meu planeta guardião, planeta do arqueiro, do fulgor vermelho, concede-me o teu poder! Eterna, ETERNA! – a semente de estrela saiu do corpo de Marte, sendo envolvida pala luz do Ginzuishou, entrando de seguida novamente no corpo de Marte. - MARS ETERNAL, MAKE UP! – berrou, transformando-se na Eterna Sailor Marte.

- Não pode ser! – gritou Kaorinite furiosa, retomando o ataque ao idoso. - PODER TOTAL!

A voz de agonia do avô calou-se. Tudo aconteceu um meros segundos. Phobos atacou Kaorinite e Deimos rompeu as cordas que seguravam o avô. Yuuichirou correu entre as chamas para amparar o seu mestre, que caía do alto.

- INFERNO DE MARTE – gritou Marte, e todos os círculos de fogo que os envolviam foram sugados para as suas mãos - EXPLODE!

Uma maciça bola de fogo surgiu das suas mãos em direcção a Kaorinite, que a tentou absorver inutilmente. A bola aumentou exponencialmente de tamanho e explodiu com tremenda força, fazendo com que Kaorinite desaparecesse.

A explosão cobriu o céu, arrancando as folhas das árvores e pintando os edifícios em tons de laranja.

O impulso da explosão atirou Marte contra a parede do templo.

Tudo ficou em silêncio. Segundos depois, ouviu-se um barulho de algo pequeno a embater no chão.

- Apanha o Ginzuishou! – exclamou Neptuno para Úrano, que de seguida correu para apanhar o Cristal enegrecido que jazia no chão. Assim que Úrano lhe tocou, este soltou uma faísca e desapareceu.

- Raios! – gritou Úrano enfurecida.

- Avô! – exclamou Marte correndo para o avô e Yuuichirou. - Avô… - chorou dando a mão ao seu avô, que tinha dificuldade em respirar.

Este abriu os olhos a muito custo e sorriu para Marte e Yuuichirou, que também lhe segurou a mão.

- Sempre foste o meu orgulho. – disse a Marte, cuja cara estava lavada em lágrimas. - No futuro… espero que sejam muito felizes… - suspirou fechando os olhos de seguida.

A transformação eterna de Marte quebrou-se, dando lugar à sua forma anterior. Esta atirou-se nos braços de Yuuichirou chorando.

A noite caiu, e nada quebrou o silêncio eterno sobre o templo Hikawa.

1 Referência ao Capítulo 3