Resumo dos capítulos anteriores: Usagi encontra Mamoru, mas este sob influência do poder negro ataca-a. Com a ajuda das Outer Senshi este fica livre do poder negro. De seguida, é absorvido para o Cristal de Ouro de Célimoon. Rei é atacada por Kaorinite, que consegue usar algum do poder do Ginzuishou de Usagi, que fora roubado semanas atrás por Esmeralda. No meio da luta, Rei tem uma visão da sua vida no Milénio de Prata e descobre a base de funcionamento do Ginzuishou. Entretanto, Kaorinite ataca o seu avô e Marte com a ajuda do Ginzuishou de Célimoon, evolui para a sua forma eterna. Após combater Kaorinite, a sua transformação eterna regride e o seu avô morre nos seus braços.
- Dois funerais num só dia, é inacreditável. – disse Makoto a Minako enquanto bebia o seu chá, num café.
- Nunca vi a Rei tão deprimida… - suspirou Minako melancólica. Perder o avô no dia em que fica noiva… Coitadinho do avô… Ainda o consigo ver a meter-se comigo…
- Nem me digas nada. Se eu não visse não tinha acreditado… - respondeu Makoto com os olhos húmidos.
- E o Mário…? Como está ele a reagir?
Makoto olhou fixamente para a sua chávena cheia de chá, cujo vapor bruxuleava ao sabor da brisa.
- Está inconsolável, como era de esperar… - respondeu-lhe triste. Ele tinha acabado com a Reika há pouco tempo, mas mesmo assim o sentimento que os uniu durante tantos anos não desaparece assim de um momento para o outro.
- Claro, entendo… O avô da Rei e a Reika… Duas pessoas que conhecíamos tão bem… - suspirou Minako tentando conter a pergunta que queria fazer.
- Sim Minako, pergunta… - disse Makoto revirando os olhos vendo a cara de impaciente da sua amiga.
- O Motoki acabou com ela porquê? – perguntou rápido, tentando disfarçar a sua inconveniência.
Makoto atrapalhou-se receando a pergunta inevitável.
- Muitos motivos, por exemplo, ela estava em África há muitos anos, uma relação não pode ser construída sempre à distância. E além disso… - calou-se Makoto corada.
- Diz, DIZ! – perguntou Minako alto não conseguindo conter a curiosidade, já com os cotovelos no meio da mesa. Todos os clientes do café voltaram-se para ela. Ahahahah…! – riu-se falsamente, corada. Eu… estava só a perguntar o número premiado da lotaria aqui à minha amiga, ahahah… - desculpou-se envergonhada.
- Como estava a dizer… - continuou Makoto ainda relutante- o Motoki entretanto encontrou outra pessoa.
- Não me digas! Quem?! – perguntou em pulgas.
Makoto abriu a bolsa e retirou de lá um anel de noivado.
- Eu… - disse corada exibindo o anel.
- Não acredito!! É uma esmeralda a sério? – perguntou Minako. Makoto acenou afirmativamente. Parabéns amiga! UAUUU! – gritou levantado-se. Toda a gente olhou para elas novamente. Hã… Quem diria, ganhei o terceiro prémio…! – disse sentando-se.
- Ò Minako! – sorriu Makoto com a face encarnada.
- Isso dura há quanto tempo?
- Já andamos juntos desde que o restaurante abriu. Mas já estávamos atraídos um pelo outro desde o primeiro momento que nos vimos. – respondeu Makoto com a cabeça nas nuvens. Pediu-me em noivado ontem.
- Ontem? – surpreendeu-se Minako.
- Sim, ele confessou-me que combinou com o Yuuichirou. Compraram os anéis ao mesmo tempo imagina!
- Tu já andas com ele desde que o restaurante abriu e não me disseste nada? – repreendeu-a Minako, ofendida.
- Minako… Não tínhamos certezas de nada e além disso – deu a mão a Minako- não te queria magoar. Sei que houve um tempo em que também gostavas dele.
Minako sorriu-lhe fraternalmente.
- Eu namorisquei um pouco com ele há anos. – esclareceu. Foi uma brincadeira de adolescentes, imagina que na mesma altura apaixonei-me pela Haruka porque pensava que ela era um rapaz. Makoto riu-se e guardou o anel. Oh! Então não o vais usar?
Makoto olhou para ela como se tivesse sido insultada.
- É uma questão de respeito! A ex-namorada do meu noivo vai ser sepultada hoje, apesar do Motoki ter acabado com ela não posso fingir que nunca se passou nada entre eles. Eu sei que ele a amou muito e compreendo que precise de fazer o seu luto. Usar isto neste dia é o mesmo que lhe dizer "esquece a outra porque o que importa é esta". – explicou.
- Sim, compreendo. – disse Minako bebendo o seu chocolate quente. Mas sempre suspeitas da morte dela?
Makoto fez uma pausa e tomou um golo de chá.
- Quando o Motoki soube a notícia e me contou não associei. – disse assumindo um tom mais soturno. Mas aconteceram algumas coisas que me fizeram ter certeza de que a morte dela não foi acidental.
- Como assim…? – perguntou Minako arrepiada.
- Ouviste falar da morte daquela pintora famosa que à anos atrás pintou um retrato da Usagi e do Mamoru?
- Sim, apareceu em todos os noticiários… Foi encontrada morta sem causa aparente na moradia dela não é verdade?
- Eu estava a passar perto da igreja de Jubaan e ouvi duas senhoras a comentarem que um padre de outra paróquia tinha morrido há uns dias. Isto não te faz lembrar nada?
Minako engasgou-se. Olhou Makoto nos olhos e recuou no tempo. Reika, o padre, a pintora, o avô de Rei, todas as peças de encaixavam.
- Os portadores dos sete cristais arco-íris. – concluiu chocada.
- Exactamente. – disse triunfante. Todos foram encontrados mortos sem causa aparente, num ambiente onde havia indícios de luta. Quando soube da morte da Reika fez-se luz. Como o avô da Rei era um portador, a próxima vítima poderia ser ele. Tentei chamar a Rei pelo intercomunicador mas infelizmente ela não respondeu.
- Foi quando me chamaste a mim?
- Sim…. Eu estava longe, numa cabana no interior com o Mário. Foi onde ele me pediu em casamento… - disse com remorsos.
- E eu já não fui a tempo… - suspirou Minako baixando a cabeça. Mas estavam lá a Úrano, a Neptuno e aquela guerreira.
- Oh! – exclamou Makoto. Já não ouvia delas há anos! Como estão?
- Estão eternas. – disse Minako aborrecida fazendo barulho com a sua palhinha, enquanto bebia o resto do chocolate quente. Quando cheguei desapareceram logo, típico.
- Hum… Será que estás com inveja Joaninha? – perguntou num tom de gozo.
- Euuuu? – exclamou corada. Imagina! Claro que não!
- Pois… Quando o tempo certo chegar, nós também o seremos.
Minako esboçou um sorriso triste.
- O tempo certo… - disse alienada. Tu tens o Mário, a Rei o Yuuichirou, a Usagi o Mamoru, a Ami a sua carreira com um futuro brilhante. E eu tenho o quê? O Artemis? – perguntou sarcasticamente. Nem isso, ele já é comprometido com a Luna. Bah!
- Minako…
- Minako nada! – disse irritada com a vida. Eu não tenho nada Makoto, nada! Ser guerreira é a única coisa que sei fazer, e nem a isso tenho sorte nem sou suficientemente boa.
- Minako, pára. –ordenou Makoto segurando-lhe a mão. Tu és uma rapariga encantadora com sonhos lindos. Sinto-me honrada em dizer que sou a tua melhor amiga, sempre que estive em baixo estiveste lá por mim, és uma das pessoas nesta Terra que é capaz de se sacrificar pelos outros, e raios me partam se vou deixar que fiques assim!
Minako olhou para Makoto sem conseguir exprimir as palavras de agradecimento que lhe iam na alma. Se sempre soube que Makoto era umas das pessoas que mais se preocupava com ela, agora tinha a certeza.
- Obrigada. – disse agradecida. Olha lá… - observou Minako olhando para o relógio- a que horas é o funeral?
- O da Reika é o primeiro, começa ás duas.
- São 14:04! – gritou Minako levantando-se.
Conduziram apressadamente durante dez minutos em direcção ao cemitério.
Estacionaram o carro e correram até ao cortejo fúnebre. Pelo caminho Minako tirou o sobretudo que vestia, revelando um vestido preto com um grande decote.
- JOANA! – exclamou Makoto corada.
- Que foi?! Nunca se sabe aonde podemos encontrar o amor da nossa vida!
Avistaram o cortejo fúnebre mais à frente. Minako ficou atrás, enquanto que Makoto correr para alcançar Mário, um dos primeiros na fila.
- Desculpa – disse ofegante. Fiquei… hã… Presa no trânsito.
- Não tem mal… - respondeu Motoki com o olhar vago.
- Estás bem? – perguntou Makoto preocupada, segurando-lhe o braço.
- Hei de ficar, com a tua ajuda. – respondeu Motoki enquanto uma lágrima insistia em sair dos seus olhos.
Makoto sentiu um misto de ciúme e pena.
Chegaram ao local onde Reika seria sepultada. O cemitério estava repleto de cerejeiras em flor. Uma brisa soprou acariciando os cabelos de Makoto, todos ficaram em silêncio.
De repente, um chiar alto interrompeu o momento silencioso. Uma rapariga cheia de ligaduras sentada numa cadeira de rodas surgiu por detrás das árvores.
- Desculpem o atraso…! – disse Usagi talvez falando mais alto do que pretendia, enquanto o seu irmão Shingo empurrava a cadeira.
Makoto bateu com a mão na testa, a amiga estava a fazer um espalhafato.
Após o serviço fúnebre, as três amigas e Shingo juntaram-se.
- Olá Shingo! – cumprimentou Minako piscando o olho ao irmão de Usagi.
Shingo não conseguiu deixar de olhar para o decote de Minako.
- Hã… mamã.. Quer dizer, olá! – atrapalhou-se, corando muito. Vou deixar-vos a sós. – disse correndo disparado.
- O teu irmão é um fofo! – brincou Minako. Deram-te alta do hospital?
- Só para vir ao funeral, tenho de voltar para o hospital logo a seguir. Como está o Mário? – perguntou apreensiva.
- Está triste, como é normal. – disse Makoto.
- Claro… Compreende-se, coitadinho. Ele nunca vai encontrar uma pessoa como a Reika. – disse Usagi abanando a cabeça. Minako trocou um olhar cúmplice com Makoto. Usagi ainda não sabia do noivado. E a Rei? Eu queria ter estado com ela antes do funeral mas não me deixaram sair antes.
- Está dentro da capela com o Yuuichirou. – respondeu Makoto olhando para uma capela no fim do florido cemitério.
- Pediu para ficar sozinha. – acrescentou Minako.
- Pois, coitadinha… Deve estar muito em baixo… Eu própria não queria acreditar… - suspirou triste e nostálgica, lembrando-se dos momentos divertidos que todas passaram com o divertido e bem-disposto avô no passado. E a Ami? A este ritmo não chega a tempo.
Minako e Makoto entreolharam-se novamente, como tentando encontrar uma maneira de suavizar o que tinham de dizer.
- Usagi… A Ami não vem. – anunciou Makoto.
A cara de nostalgia de Usagi transformou-se em choque.
- Como não vem?! – perguntou indignada.
- Tentamos ligar-lhe montes de vezes… mas ela nunca atendeu. Num dos telefonemas atendeu-me a colega de quarto que disse sempre que ela estava indisponível. – explicou Makoto.
- Eu mandei-lhe uma mensagem e um e-mail, mas também não tive resposta…
- Será que… lhe aconteceu alguma coisa? – interrogou-se inquieta.
- Não! – sorriu Makoto falsamente. Também ela estava preocupada com Ami. Deve estar ocupadíssima a estudar, de certo nem viu as mensagens.
- Pois é, sabes como é a Ami quando começa a estudar! – colaborou Minako.
- Boa tarde. – ouviu-se uma voz vinda de baixo. Makoto baixou a cabeça e viu dois gatos.
- Artemis, Luna! Estão atrasados. – observou Minako.
Artemis ficou com o pêlo levantado e adoptou uma postura agressiva.
- Isto vindo de uma pessoa muito responsável que NUNCA chega atrasada. – respondeu violentamente.
- Ouve lá, não estamos aqui para discutir os MEUS atrasos minha bola de pêlo, mas sim os te… - respondeu-lhe de uma forma igualmente agressiva.
- Minako, Artemis! – afrontou-se Makoto. Acham que é o momento?
- Vou dar uma volta, o ar aqui está muito pesado. – respondeu Artemis virando-lhes as costas, deixando Luna. Fez-se um silêncio pesado.
- Eu não sei o que se passa com ele. – disse Minako olhando para o céu nublado. Ultimamente tem estado tão agressivo, ele não era assim…
- Até a Luna já não gosta tanto de estar com ele, não é Luninha? – sorriu Usagi enquanto Luna saltava para o seu colo.
- Ela ainda não consegue falar?1 – perguntou Makoto enquanto empurrava a cadeira de Usagi.
- Não, ainda não… - suspirou. - Se ao menos eu tivesse o Ginzuishou…
Caminharam até à capela e sentaram-se nos bancos de jardim em frente, esperando que Rei abrisse as portas. Minutos depois um homem saiu da capela.
O homem, na casa dos quarenta, era alto e magro, com barba perfeitamente aparada. Tinha o cabelo grisalho e envergava um fato preto com uma gravata cinzenta. Dirigiu-se a elas.
- Takashi Hino, prazer. – cumprimentou-as com um ar austero.
- Boa tarde, sou a Makoto Kino, ela é a Minako Lima, e esta a Usagi Tsukino. – respondeu apresentando as amigas. Muito prazer.
- São amigas da Rei? – perguntou o homem.
- Sim. – responderam em coro.
- Sou o pai dela. – disse, com indiferença. – As meninas podem entrar se quiserem, ela precisa de um ombro amigo.
- Os nossos sentimentos pela sua perda Sr. Takashi. – disse Makoto fazendo uma vénia.
- O avô da Rei era o pai da minha falecida mulher, Risa Hino. – explicou, com um ar apático. – Não eramos muito próximos, só o via uma vez por mês quando ia visitar a Rei. A idade dele era um pouco avançada, por isso um ataque cardíaco não é nada de anormal. Bem, com lincença, tenho uma reunião daqui a pouco, muito prazer em vos conhecer. – disse, despedindo-se com uma vénia e caminhando para a saída.
- Não sabia que o pai da Rei era tão fino e chique. – observou Minako.
- Ataque cardíaco? – perguntou Usagi ignorando a falta de tacto de Minako.
- Pelos vistos é a "versão oficial" da causa de morte. – respondeu Makoto empurrando a cadeira de Usagi em direcção ao interior da capela.
- O pai dela… É tão frio… Nem vai ficar para o funeral. – observou, com pena da amiga.
- Não admira que a Rei o deteste. – observou Minako entrando na capela.
Era bastante pequena. No centro estava uma urna fechada, cheia de velas brancas e flores.
Rei e Yuuichirou estavam sentados num canto. Rei usava uns óculos pretos exageradamente grandes, que contrastavam com as ligaduras brancas que usava na testa.
Rei olhou para as amigas. Os seus olhares cruzaram-se. Usagi por mais que tentasse não conseguia exprimir o seu pesar em palavras. Rei entendeu o dilema das suas amigas, apenas exibiu um sorriso ténue de compreensão e dirigiu-se a elas.
- Rei eu… - disse Usagi em surdina.
- Eu sei. – respondeu Rei derramando uma lágrima enquanto abraçava Usagi. Ao abraçar a amiga sentiu paz, a paz que necessitava para seguir em frente. Por muitas voltas que a vida desse, por muito más que as coisas estivessem, esta rapariga sempre estaria ali para a apoiar e dar um abraço amigo, dizendo sempre que existe algo de bom em todas as situações.
Makoto e Minako repetiram o gesto, dando palavras de apoio à amiga. Minutos depois, a capela encheu-se de gente. Pessoas querendo prestar uma última homenagem ao sacerdote do templo Hikawa, ao homem que fez renascer o templo e que lhe dedicou mais de 40 anos da sua vida.
Yuuichirou ajudava Rei a cumprimentar a multidão. Pouco tempo depois os pais de Rei, Elizabete e Kenshi, juntaram-se a ela. Minako observava o comportamento de Rei ao lado dos seus pais. De facto, era uma visão estranha. Rei, sempre tão forte e autoritária estava agora frágil e debilitada. Não obstante, mantinha-se firme e composta mesmo após a morte de talvez a pessoa que mais gostava neste mundo, o seu avô, a pessoa que a criara desde criança. Sentiu uma enorme compaixão pela amiga. De agora em diante não iria olhar para Rei como aquela rapariga um pouco arrogante, mas sim como uma mulher forte e corajosa.
Cedo a capela deixou de ter capacidade para albergar tamanha multidão. O cortejo fúnebre começou e a urna do avô foi levada até ao sítio final. Para surpresa de Rei, uma imensa multidão, maior ainda do que daqueles que estavam na capela, encontravam-se à espera. Rei sentiu um enorme orgulho no seu avô.
- É a princesa Célia… -observou Usagi, que estava mais atrás juntamente com Makoto e Minako.
Realmente, um pouco à parte da multidão, encontrava-se uma jovem com um vestido preto discreto, óculos escuros e um chapéu pequeno demais para conter o farto cabelo verde encaracolado, que pendia graciosamente.
- Como… como soubeste que era ela? –perguntou Minako espantada. De facto a jovem estava bastante discreta no meio de tanta gente, sendo apenas denunciada pelo cabelo.
- Não sei… -respondeu Usagi sinceramente. Tive um pressentimento.
Dirigiram-se a ela. Usagi sentia o seu coração a bater mais rápido. O seu pressentimento não fora o de identificar a jovem, mas sim o que ela trazia ao pescoço. Lá estava ele, o colar com fio de diamantes. Aquela lua com uma estrela na ponta, adornados de pedras preciosas. Não, não era o brilho e a riqueza do colar que a chamavam a atenção. Era outra coisa, algo mais. Aquele colar tinha algo de estranho, algo de bom, algo de familiar. Pretendia tirar-lho enquanto a cumprimentava. Sim, estava ciente do grave crime que iria cometer. Iria ser apanhada, de cadeira de rodas e ferida como estava não iria longe. Mas não importava, tudo valeria a pena, aquele toque valeria tudo… Estava cada vez mais perto.
- Olá meninas. – uma mão tocou no ombro de Makoto, que deteu a marcha.
- Haruka, Michiru! –exclamou surpreendida.
Usagi voltou-se para trás e deu de caras com duas mulheres esbeltas. Michiru envergava um vestido preto com uma racha e um decote ligeiro. O seu cabelo estava impecavelmente apanhado e os lábios pintados de um rosa suave. O seu corpo estava magnificamente proporcionado, estava maior, mais adulta, respirava sensualidade e irradiava beleza. Na sua mão direita exibia um anel de comprometida.
Haruka, que tinha tocado no ombro de Makoto, estava também mais adulta em vários aspectos. O seu cabelo tinha uma cor mais brilhante, os olhos apresentavam mais vida. Também ela se vestia de preto, também ela tinha uma saia e um decote. Usagi não a reconheceu por instantes. Seria esta a Haruka que conhecia? Usava uns pequenos brincos brancos, tinha rímel e os lábios pintados da mesma cor que os da Michiru, estava feminina, estava no seu auge. Também ela exibia um anel de comprometida.
Minako corou, nunca tinha imaginado Haruka daquela forma, e certamente nunca teria imaginado o quão bem a feminilidade lhe assentava.
Todas ficaram em silêncio contemplando-as, todas excepto Usagi.
- Olá? –replicou chocada. É tudo o que tens para me dizer, 'Olá'?
Haruka riu-se como que já esperando aquela reacção. Usagi sentiu-se insultada. Pela primeira vez estava verdadeiramente zangada com uma amiga sua. Não odiava Haruka nem Michiru, mas esta já não era a primeira vez que elas a magoavam. Geralmente era sempre por um bem maior, mas desta vez não conseguia imaginar como elas deixaram que Mamoru fosse raptado sem nada fazer.
- Tem calma cara de lua. –sorriu Haruka. Tens todo o direito de estar zangada, mas a raiva não fica bem na tua carinha tão bela.
Haruka iria começar outra vez com os seus esquemas para impedir que Usagi se zangasse. Basicamente consistia em tratá-la como uma criança, com muitos elogios à mistura. Mas desta vez não iria funcionar. Não, Usagi estava a aprender a não mais deixar-se convencer.
- 'Desculpa mas sabemos o que fazemos' 2– imitou Usagi olhando fixamente para Michiru e Haruka. Foi o que me disseram quando vos pedi ajuda, não foi?
As duas trocaram um olhar cúmplice. Estavam um pouco atrapalhadas e desconfortáveis.
- Usagi, eu sei que não entendes, mas acredita que fazemos o que fazemos pelo bem de todos. – disse Michiru esperançosa, procurando um pouco de apoio em Minako e Makoto. Apoio esse que não encontrou.
- Há maneiras e maneiras de se fazerem as coisas. – disse Makoto com um olhar reprovador. A vossa maneira deixa muito a desejar.
- Ouve lá Makoto, não estavas lá por isso… -ralhou Haruka zangada antes de Usagi interromper a frase.
- Nunca fiz isto, esperei nunca ter de o fazer, mas estas circunstâncias são especiais. – disse fechando os olhos, com um ar autoritário. Pois bem, como vossa princesa e futura rainha exijo que me digam aonde se encontra aquela guerreira que tem o Mamoru cativo.
Makoto e Minako ficaram surpreendidas, de facto Usagi nunca tinha usado a sua autoridade de princesa para nada. Mas agora que Mamoru estava com paradeiro incerto e que provavelmente aquelas duas raparigas à sua frente continham informações valiosas quanto ao seu paradeiro, entenderam a necessidade de usar o seu poder como governante.
Michiru e Haruka ficaram constrangidas. A boa disposição de Michiru transformou-se em tristeza e o brilho dos olhos de Haruka desaparecera.
- Não o faremos. –disse Haruka após uma pausa para assimilar as palavras de Usagi.
- Já não seguimos o teu comando princesa. – disse Michiru gentilmente, tentando largar a notícia o mais suavemente possível.
Minako e Makoto soltaram um "hã?" de indignação e surpresa. Usagi sentiu como se estivesse a ser engolida por um buraco sem fim. Já não seguiam o seu comando? Como poderia ser? Estariam a seguir ordens daquela guerreira que possuía um Ginzuishou e o Cristal de Ouro? A mesma guerreira que raptara Mamoru? Não, não podia ser. Elas não lhe fariam isso, não desta maneira. Já uma vez pensara que elas a traíram e passaram para o lado de Galáxia, mas tudo não passara de um astuto plano para a vencer. Mas não desta vez, de alguma forma sabia que elas falavam verdade.
- Somos inimigas portanto. –afirmou indiferente com um tremendo nó na garganta, tentando controlar-se ao máximo para não chorar.
- Não, claro que não, lutamos para o mesmo fim. –disse Haruka tentando fazer valer o seu ponto de vista.
- Como podes dizer isso? Essa maneira que vocês têm de lutar magoa as pessoas que mais se preocupam com vocês! –falou Minako talvez um pouco mais alto do que queria, com as lágrimas a aparecerem.
- Acima de tudo somos leais. –disse Michiru olhando fixamente para o quarto crescente que Luna tinha na testa. Luna esteve o tempo todo no colo de Usagi sem proferir um som, apenas olhava preocupada para os olhos húmidos da sua dona.
- Por favor não digam mais nada. –pediu Usagi emocionada olhando para a erva do chão. Pensem bem, decidam a vossa lealdade, daqui a uns dias voltamos a conversar. Este não é o dia nem o local para esta conversa. Reflictam, pensem bem e cheguem a alguma conclusão. Pensem se é justo uma outra pessoa ficar com o Mamoru, roubar-mo, apoderar-se do meu cristal e do dele. Pensem por favor. –disse Usagi com as lágrimas presas.
Não sabia o que sentir. Detestava Michiru e Haruka pela atitude que tiveram. Não as conseguia odiar, afinal de contas já lhe tinham salvado a vida em mais do que uma ocasião, e podia chamá-las de "amigas" já há muitos anos.
- Usagi por favor… -pediu Haruka.
Usagi pediu a Makoto que voltasse a cadeira de rodas e retomasse a sua marcha, afastando-se delas.
- Não nos odeies… -chorou Michiru num tom baixo que só Haruka ouviu. Misturaram-se com a multidão.
- Desapareceu! –exclamou Minako olhando para o tronco de árvore onde minutos atrás se encontrava Célia.
- Ela estava mesmo aqui antes delas aparecerem… -afirmou Makoto.
- Agora já não há nada a fazer certo? Talvez a encontremos por aí. – disfarçou Usagi. Estava bastante decepcionada, quer pelo que se tinha passado há instantes quer pelo facto de o seu plano de tocar no colar ter ido por água abaixo.
- A vossa atenção por favor. – ouviram. O murmúrio da multidão cessou de imediato.
- É a Rei. –disse Makoto voltando a cadeira de rodas de Usagi.
Rei encontrava-se ao lado da urna do avô com Yuuichirou e os seus pais mais atrás. Preparava-se para fazer o elogio fúnebre.
Minako, Usagi e Makoto aproximaram-se. Usagi vislumbrou Michiru e Haruka no outro lado da multidão olhando para elas. Virou a cara e olhou para Rei.
- Queria dizer algumas palavras em relação ao meu avô. – disse unindo as mãos. Todos os olhares centraram-se nela. A primeira vez que me recordo de ver os meus avós maternos era uma pequena criança de dois anos. Nessa altura vivia com os meus pais num bairro rico, o meu pai trabalhava para o Partido Liberal em Kioto. Logo nessa altura fiquei fascinada por eles, lembro-me nitidamente de me terem oferecido um pequeno fato cerimonial de sacerdotisa, fato esse que ainda hoje guardo com muito carinho. Uns meses depois, as embaixadas foram transferidas para Tóquio, onde os meus avós tinham um pequeno templo. Mudamo-nos para os subúrbios, para a província de Hikawa. A partir daí comecei a visitá-los diariamente. Enquanto o meu pai ia trabalhar, e a minha mãe que entretanto arranjou um emprego parcial, ia dar aulas de arco e flecha num colégio privado, eu ficava no templo com os meus avós. Vivemos assim, distantes, durante mais de oito anos, até que a minha mãe ficou doente, e definhou. – Rei fez uma pausa em que olhou para trás, fitando carinhosamente para o rosto da sua mãe na lápide, enquanto as lágrimas lhe escorriam pela sua face. Eu, então com cerca de 10 anos, fiquei a viver no templo, visto que o meu pai não tinha disponibilidade para cuidar de mim. Tinha-me afeiçoado muito aos meus avós, adorava a vida do templo. Dois anos depois a minha avó morreu, e eu fiquei sozinha com o meu avô. Lembro-me de ele me animar constantemente, não obstante a sua perda, fazia-se de forte sempre para me alegrar e ajudar a ultrapassar tudo. Quando chegava do colégio tinha sempre um prato de comida quentinho à minha espera, que ele entre as celebrações preparava para mim. Então aos 14 anos conheci o meu futuro noivo, que se tornou seu aprendiz. –fez outra pausa, sorrindo desta vez para Yuuichirou. Os anos foram passando, e ele testemunhou o crescendo do nosso amor sempre apoiando, até ao último momento, quando o meu namorado me pediu em casamento. As suas últimas palavras para mim foram "és o meu orgulho". Por isso avô, onde quer que estejas, foste o avô que amou, o avô que me criou, o avô que esteve sempre lá para me alegrar, para me confortar e para eu chorar, quero dizer-te que tu foste e serás sempre o meu orgulho. – acabou Rei chorando, passando a mão sobre a urna e deixando lá um brinco vermelho em forma de estrela.
Após um breve instante, a multidão emocionada bateu palmas, homenageando tanto o avô como o próprio discurso sentido de Rei. Esta sorriu ao mesmo tempo que as lágrimas lhe limpavam o rosto e a alma. A urna desceu, ladeada de flores, ao mesmo tempo que uma melodia triste ecoava de um violino. Michiru tocava uma melodia que evocava a saudade e a memória, enquanto que uma estranha rajada de vento derrubava as flores das árvores de cerejeira, cobrindo o local com pequenas flores que bailavam no vento ao som da música.
Usagi estava emocionada, triste e alegre, tudo aquilo parecia irreal, de uma beleza tão triste e arrebatadora. Todos ficaram numa espécie de transe apreciando aquele belo e raro momento, até que a música parou e o vento cessou.
Pouco a pouco as pessoas foram-se dispersando, embora Rei estivesse inacessível, visto que muitas pessoas a estavam a cumprimentar. Sentaram-se então num banco esperando uma oportunidade de falarem com a amiga.
- As palavras da Rei… -sensibilizou-se Minako com o olhar fixo no chão.
- … foram lindas. –completou Makoto. Quem diria… Conheço a Rei há tantos anos e só hoje a conheci verdadeiramente.
Usagi acenou afirmativamente. Rei sempre fora muito reservada em relação à sua vida, mas hoje abrira a sua alma e deixara transparecer a sua verdadeira essência.
Minutos depois já poucas pessoas restavam. Dirigiram-se então a ela. Rei abraçava com emoção uma rapariga.
- Princesa Célia! – exclamou Usagi vendo Rei a chorar de alegria nos ombros de Célia.
As duas voltaram-se para ela. Célia sorriu para a Usagi.
- Oh meninas! –chorou Rei abraçando a Makoto, Minako e Usagi. Vocês nem sabem o que é que a Princesa Célia acabou de me dizer.
- Oh? – inquiriu Usagi céptica. Célia sorriu ainda mais observando a felicidade de Rei.
- Ela contratou a Michiru para tocar aqui!- disse Rei limpando o olho.
- Conheci a menina Kaioh num dos meus concertos e achei esta melodia simplesmente divina. Qual não foi a minha surpresa quando soube que ela já vos conhecia e iria tocar aqui de qualquer das formas. O mundo é tão pequeno, verdade? –explicou Célia enquanto os seus cabelos verdes desprendiam-se aos cachos do chapéu, ondulando ao vento.
- Mas isso não é nada! Ela vai pagar o concerto do templo e ajudar a erguer lá um memorial ao meu avô! –disse Rei com alegria voltando-se para Célia. Oh obrigada! – exclamou mais uma vez abraçando-a. Muito obrigada!
- De nada querida, o que importa é que fiques bem. – disse Célia sorrindo, afagando-lhe os cabelos.
- Isso é muito simpático da tua parte! –assentiu Minako com um brilho nos olhos.
- Considerando que nos conheces há meia duzia de dias… - sorriu Usagi sarcasticamente.
Célia olhou fixamente para ela com algum desconforto. O seu sorriso desvanecera-se.
- Dias esses que me parecem anos! – riu-se de novo, disfarçando. Simpatizei muito com vocês. São pessoas especiais, eu julgo bem o carácter das pessoas. – piscou o olho a Minako, que de imediato corou imenso.
Usagi devolveu o sorriso.
- E como soubeste do funeral? Como soubeste que este senhor era o avô da Rei? – indagou Usagi desconfiada. Simpatizava com Célia, mas algo em si lhe dizia para fazer tudo ao seu alcance para entender a súbita relação-relâmpago com elas. Algo não batia certo.
Célia ficou estática, sem reacção, olhando nervosamente. Fez-se silêncio.
- Realmente a minha amiga tem razão, é muito simpático da tua parte o que fizeste pela Rei. Mereces um grande abraço! – interrompeu Minako não entendendo a importância que aquela pergunta tinha para Usagi.
- Oh, não seja por isso! – brincou Célia abraçando-a.
- Também quero um abraço! – mentiu Usagi fingindo ter esquecido a questão que lhe colocou.
Enquanto a abraçava, Usagi pôs a mão no pescoço de Célia procurando o colar. Qual não foi o seu choque ao notar que ele não se encontrava lá.
- Procuras… alguma coisa? –perguntou Célia recompondo-se, olhando Usagi suspeitosa.
- Eu… -atrapalhou-se Usagi sorrindo disfarçadamente- não pude deixar de notar como tens a pele macia e sedosa. Tens de me dizer o teu segredo, ah ah ah!
Antes que Célia pudesse dizer algo, Minako surgiu no meio das duas olhando para ela com os olhos em forma de estrela. Célia quase caíra para trás.
- Ninguém tem uma pele tão maravilhosa como a tua! És um máximo! –pronunciou atirando-se a Célia e abraçando-a novamente. Já disse que adoro o teu novo álbum?
Célia deu uma gargalhada atrapalhada e tentava libertar-se das garras de Minako enquanto ela não parava de elaborar uma lista detalhada de cada música do albúm com a sua respectiva crítica.
- E por fim devo dizer que a música "Eadlines, Friendship Never Ends" é simplesmente fantástica, divina…
- Que foi exactamente o que disseste de todas as outras 15. – observou Makoto rindo-se do entusiasmo da sua amiga.
- Ah Makoto! – exclamou Célia falando para Makoto pela primeira vez. Amanhã talvez queiras contratar uma ajudinha extra para o teu restaurante.
Makoto fez uma cara surpresa.
- Ajuda extra?
- Tenho o pressentimento que o teu restaurante "Makoto's Flavour Shrine" vai finalmente ser reconhecido…
1 Referência ao Capítulo 1
2 Referência ao Capítulo 7
