Michiru andava às voltas silenciosamente pelo salão. Haruka encontrava-se sentada no sofá fitando Michiru. Encontravam-se numa grande sala escura, graças a um enorme salgueiro do outro lado da porta de vidro, que bloqueava os raios de sol.

- Se continuas assim ainda fazes um buraco no chão. – gracejou Haruka.

Michiru não lhe devolveu a piada, limitando-se simplesmente a abrandar a marcha.

- Michiru, já não é a primeira vez que agimos sem que elas saibam os nossos propósitos. – lembrou Haruka lendo-lhe o pensamento.

Michiru parou, fitou Haruka e olhou de seguida para o enorme jardim por detrás da porta de vidro.

- Eu sei. – disse finalmente. Mas desta vez é diferente.

- Diferente? – inquiriu Haruka. Diz-me qual é a diferença entre agora e quando andávamos atrás dos Corações Puros? Ou quando fingimos estar contra elas para derrotar a Galáxia?

Michiru voltou-se e olhou novamente para Haruka com os olhos tristes. Sentou-se ao seu lado.

- Não sei. – disse dispersa. Desta vez elas ficaram mesmo sentidas connosco, talvez questionem mesmo a nossa lealdade.

- Não há dúvidas disso. Não pudeste ter deixado mais claro que a nossa lealdade não era para com elas.

Michiru voltou-se de repente para Haruka com um ar chocado.

- O que não é inteiramente verdade! – disse um pouco irritada com a indiferença de Haruka. Acho que podíamos ter feito as coisas de maneira diferente. Temos ajudado a Selene sem dar quaisquer satisfações às outras. No lugar delas, não sei o que pensaria de nós as três.

Haruka não respondeu, limitando-se a cruzar as pernas e a mirar um enorme quadro que enfeitava a parede da sala, com uma atitude indiferente.

- Oh, não te faças de forte! – zangou-se Michiru. Eu sei que tu também estás como eu. A amizade delas é tão importante para mim como para ti.

Haruka voltou-se para Michiru e sorriu levemente.

- Não tão importante como tu és para mim. – disse puxando delicadamente a face de Michiru de encontro à sua, beijando-a carinhosamente.

Ouviram-se passos, e uma figura altiva surgiu na sala, pigarreando.

- Espero não estar a interromper nada? – riu-se Célia colocando um tabuleiro com comida por cima da mesa, sentando-se de seguida no cadeirão em frente.

- Claro que interrompeste. – falou Haruka tirando uma fatia de bolo do tabuleiro. Mas já estamos habituadas a que nos interrompas.

Célia riu-se novamente e pegou numa chávena de chá.

- Alguma novidade Michiru? – perguntou olhando para um estranho espelho que jazia em cima da mesa.

- Nada. – declarou Michiru. Parece que eles estão a ter tanta dificuldade em localizar o último portador do cristal arco-íris como nós.

O espelho brilhou mostrando a imagem de um rapaz de cabelos castanhos. Célia bebeu um gole de chá, pousando delicadamente a xícara no prato.

- Se eles o matarem as coisas complicam-se para o nosso lado.

- Nós sabemos. Mas não há nada que possamos fazer, não é? – disse Haruka resignada.

- Infelizmente não, o Espelho de Neptuno é a nossa única maneira de localizar quem queremos, e por algum motivo não o consigo encontrar. – declarou Michiru servindo-se de uma torrada.

- Antes de se converter em humano, esse demónio tinha o poder de prever o futuro. – disse Célia enquanto olhava distraidamente para o todo da escadaria, que conduzia para o piso de cima. Muito provavelmente ainda o consegue fazer, e com tais poderes não deve ser difícil bloquear a acção do espelho se assim o desejar.

- Só tens chá? – perguntou Haruka desapontada, apercebendo-se agora que o único tipo de bebida que tinha no tabuleiro era chá quente num bule.

- Mas claro, são cinco da tarde é a hora do chá. – esclareceu-a Célia bebendo outro gole, enquanto Haruka a fitava curiosa.

- É o que dá viver com uma inglesa… - resmungou, servindo-se de chá também.

- Ouvi a Rei dizer que lhe vais reconstruir o templo? – perguntou Michiru curiosa.

- Sim… - confirmou Célia. Não gosto de ver ninguém sofrer daquela maneira, sinto que é o mínimo que posso fazer.

Haruka entalou-se com o chá.

- Será que é só por causa disso? – perguntou sorrindo maliciosamente.

Célia desafiou-a com o olhar, devolvendo-lhe o sorriso de seguida.

- Não, não é só por causa disso.

- Então? – inquiriu Haruka pousando a chávena.

- Existe uma coisa no parque do templo que me interessa muito. – respondeu-lhe misteriosamente, pousando delicadamente a chávena no tabuleiro. Quando acabarem de beber, vamos servir o Mamoru.

- Um chá por favor. – pediu Usagi a Minako.

Ela, Makoto, Rei, Yuuichirou, Luna e Artemis encontravam-se em casa de Minako. O funeral havia acabado há pouco, e decidiram juntar-se para esclarecer tudo o que havia acontecido até ali.

- Então a Usagi quer um chá, a Makoto um sumo de laranja e a Rei e o Yuuichirou leite? – perguntou Minako a ninguém em particular.

- Então a mim não me perguntas o que quero? – disse Artemis irritado.

Yuuichirou deu um pequeno salto da cadeira ao ouvir o gato branco falar. Apesar de já saber toda a verdade - Rei fizera questão de lhe revelar todos os detalhes das suas identidades como guerreiras, visto que Yuuichirou testemunhara a sua transformação na noite do assassínio do avô – ainda não se tinha habituado a animais falantes.

Minako devolveu um olhar penetrante a Artemis.

- Já tens sorte se beberes da água da sanita. – disse-lhe dirigindo-se à cozinha. Ainda se encontrava visivelmente irritada devido aos comportamentos rudes que Artemis demonstrava ultimamente.

- Estou um pouco apertada. – queixou-se Makoto tentando esticar as pernas. Estavam todos sentados à volta de uma pequena mesa.

- Azar! – ouviu-se Minako a dizer da cozinha. A minha casa fica a caminho do hospital para onde a Usagi tem que ir a seguir, além de que os pais dela estão em tua casa Makoto.

Usagi voltaria para o hospital após aquela breve reunião. Apenas lhe deram alta para ir ao funeral do avô de Rei. Começava já a sentir algumas dores.

- Estás melhor Rei? – perguntou pegando na mão de Rei carinhosamente.

Esta olhou para ela com uma cara séria.

- Estou, obrigada… – disse fortemente. A partir de agora vou canalizar todas as minhas forças para combater aqueles que assassinaram o meu avô. – disse convicta.

- Não seria melhor descansares um pouco primeiro? – perguntou Makoto preocupada. Tirares umas férias, ou algo do género?

Ouviu-se um barulho de chávenas a partir vindo da cozinha seguido de uma gargalhada envergonhada de Minako.

- Nem pensar. Vou vingar a morte do meu avô custe o que custar.

Minako chegou à mesa com os pedidos de todos e começaram a lanchar. No meio de conversas paralelas, Minako interrompeu o convívio.

- É melhor discutirmos o que temos a discutir, a minha mãe não deve tardar a chegar.

Todos pousaram os seus copos e chávenas e ficaram em silêncio. A primeira a falar foi Usagi, que descreveu os factos que presenciara na noite em que fora atacada por Esmeralda na casa de Mamoru, contando também a visita que fez às Irmãs Ayakashi.

De seguida foi a vez de Rei, que descreveu pormenorizadamente o ataque de Kaorinite ao seu avô e a visão que teve.

Makoto e Minako expuseram a sua teoria acerca dos cristais arco-íris. Discutiram e argumentaram tudo o que acontecera desde que o inimigo apareceu até chegar a algumas conclusões.

- Então o primeiro ponto, o objectivo do inimigo? – perguntou Makoto recapitulando.

- Pelo que parece neste momento matar os antigos portadores dos cristais arco-íris, pelo que aconteceu com o meu avô e os restantes. – respondeu Rei.

- Roubar o Ginzuishou e acabar connosco. – concluiu Usagi.

- O que nos leva a outra pergunta, como podem existir dois Cristais Prateados? – inquiriu Minako. Sabemos que eles têm o Cristal da Usagi, que pelo que a Rei viu nas mãos da Kaorinite, está mais enegrecido e com menos poder.

- E existe outro Ginzuishou que aquela guerreira usou para curar o Mamoru da lavagem cerebral. – acrescentou Usagi.

- Talvez um Ginzuishou do futuro? – falou Yuuichirou envergonhado pela primeira vez. Pelo que a Ritinha me contou existe um desses no futuro.

Todas olharam para ele surpreendidas.

- Era uma hipótese, mas sabemos que o Ginzuishou do futuro está com a Rainha Serenity e a Chibi-Usa. – disse Makoto sorrindo para Yuuichirou. Se tivesse sido roubado já teríamos sabido.

De repente, fez-se luz na cabeça de Rei.

- «O poder do Ginzuishou é grandioso demais para ser usado pela princesa Serenity, jovem e inexperiente. Procurem pelos oito fragmentos e terão o verdadeiro Ginzuishou.»– disse Rei de uma vez só.

- Hã? – exclamaram todas em coro.

- Foi o que a Rainha Serenity do Milénio de Prata disse na minha visão. – declarou ainda espantada pelas conclusão a que chegou. E se… e se nós nunca tivemos realmente o "verdadeiro Ginzuishou"?

Usagi sentiu um arrepio pela espinha e olhou para Rei.

- Como assim…? – sorriu nervosamente. T-tu viste, vocês viram quando os sete cristais arco-íris se juntaram para formar o Ginzuishou há anos atrás, não faz sentido! – exclamou quase desesperada. Só recentemente se apercebera de quanto dependera do Ginzuishou no passado, e desde que este tinha sido roubado por Esmeralda ansiava a cada segundo que passava poder recuperá-lo para se sentir segura novamente. O facto de nunca ter tido o "verdadeiro Ginzuishou" assustava-a, significava que tudo até ali tinha sido uma farsa, não poderia ser verdade, era completamente absurdo.

- Acabaste de dar a resposta. – declarou Rei. Os sete cristais arco-íris ou seja, sete fragmentos, deram origem ao teu Ginzuishou. A rainha Serenity disse para procurarmos os oito fragmentos e obteríamos o verdadeiro Ginzuishou.

- E então o Ginzuishou que eu tive até agora foi apenas um objecto falso, um engodo? Que absurdo! – recusou-se Usagi a acreditar.

- Não exactamente. – contrapôs Rei. O teu Ginzuishou é verdadeiro, apenas incompleto, não com todo o seu poder. Para isso falta-lhe o oitavo fragmento.

Ficaram todas em silêncio, com as mentes a trabalhar furiosamente numa tentativa de acreditar ou refutar a teoria.

- Concordo com a Rei. – disse Makoto finalmente. Se o Ginzuishou fosse completo, já tinhas morrido Usagi. – olharam todos para Makoto curiosos para saber a explicação para tal afirmação. Quando utilizaste o Ginzuishou para derrotar o Reino das Trevas, a Lua Negra e por aí adiante, disseste que tinhas utilizado todo o seu poder para os vencer na altura. A Rainha Serenity morreu no instante que libertou todo o poder do Ginzuishou no Milénio de Prata para selar a Metália. A única explicação para ela ter morrido e tu não, é o Ginzuishou se ter divido em oito quando o Milénio de Prata foi destruído e tu nunca teres tido o verdadeiro poder fatal do Cristal nas tuas mãos.

Era verdade, Usagi lembrara-se de quando foram transportadas até às memórias do passado quando lutavam contra o Reino das Trevas, de como viu a Rainha Serenity, a sua mãe, morrer por ter libertado o poder do Ginzuishou para as fazer reviver num futuro distante, o actual presente. Não havia maneira de refutar a teoria de Rei, havia uma grande possibilidade de nunca ter tido o Ginzuishou completo. Sentiu-se fria, enganada, assustada, como poderia ter vivido tantos anos acreditando que guardava o mítico Ginzuishou, quando afinal nada disso era verdade? Mas agora não possuía nem a sua parte do Cristal nem o oitavo fragmento, estava completamente vulnerável.

- Então existe um oitavo Cristal Arco-Íris? – perguntou Minako tentando desvendar o mistério.

- Não. – disse Artemis seguro. Tenho a certeza de que apenas existiram sete cristais arco-íris, que deram origem ao Ginzuishou da Usagi. Se existe um oitavo fragmento não é um cristal arco-íris.

- Talvez… -disse Rei pensativa- o oitavo fragmento é o Ginzuishou daquela guerreira, Célimoon.

- Como assim? – inquiriu Usagi curiosa.

- Nenhuma de vocês duas possui o Ginzuishou verdadeiro. Talvez ambas, tenham duas metades incompletas. – concluiu, sob olhares atentos que absorviam cada uma das suas palavras.

- Possivelmente a Rainha Serenity não dividiu o Ginzuishou em oito fragmentos de igual poder. – falou Artemis pensativo. Sete fragmentos, os Cristais arco-íris, deram origem a metade do Ginzuishou, o da Usagi, enquanto que o oitavo fragmento por si só contém a outra metade.

- Queres dizer que o oitavo pedaço tem tanto poder como a metade que a Usagi tinha? - perguntou Minako certificando-se que seguia a linha de pensamento.

- Penso que o oitavo fragmento, essa metade que completa o meu Ginzuishou, está em posse da Célimoon. – esclareceu Usagi finalmente rendendo-se às evidências. Talvez ela e a Úrano e a Neptuno estejam a tentar apanhar a minha metade, roubá-la ao inimigo. Talvez elas não combatam o inimigo com o objectivo de destruí-lo, mas apenas para unirem as duas metades e formarem o verdadeiro Ginzuishou.

Reinou o silêncio enquanto pensavam na hipótese uma vez mais. Desta vez foi Rei que o quebrou.

- Sim, faz todo o sentido. Lembro-me de que quando a Kaorinite desapareceu por causa do meu ataque, o Ginzuishou caiu das mãos dela. A Úrano correu para o apanhar, mas ele desapareceu no momento em que ela o ia apanhar. – disse Rei revendo os detalhes sombrios da noite em que foi atacada.

- Então se a Kaorinite morreu…

- Acho que morreu, não tenho certezas. – corrigiu Rei.

- … e a Esmeralda também, quando o prédio do Mamoru desabou, já não temos mais inimigos? – questionou-se Usagi esperançosa.

- O facto do Ginzuishou ter desaparecido quando a Úrano o ia apanhar prova o contrário. – observou Makoto. O Ginzuishou desapareceu porque alguém o invocou.

- Concordo com a Makoto. – apoiou Minako. A Esmeralda, os 4 Generais, a Kaorinite… devem ser apenas peões do jogo.

- E não se esqueçam das Irmãs Ayakashi, a Kooan disse que alguém tinha o Safira preso, estavam a obrigá-las a voltarem para o lado negro. – acrescentou Usagi.

- Aí tens. – disse Rei olhando para Usagi. Só o que acabaste de dizer prova que existe alguém por detrás de tudo isto.

- Mas meninas… - disse Minako num tom assustado. A Esmeralda, a Kaorinite, o Safira… Não deveriam estar… - todas tiveram um súbito arrepio - mortos?

Todas sabiam que este ponto da discussão haveria de ser abordado, mas todas tentavam evitá-lo ao máximo. Era demasiado sórdido, arrepiante e impossível.

- Não existe tal coisa como reviver os mortos Minako. – disse Makoto sorrindo nervosa, pouco convicta.

- Nós morremos… Por duas vezes. – lembrou Rei. Morremos no Pólo Norte às mãos do Reino das Trevas e morremos quando nos retiraram a Semente de Estrela.

Yuuichirou olhou-as com um ar ainda mais assustado e desconfortável.

- Não foi bem morrer. – disse Minako tentando acalmar Yuuichirou. O nosso espírito apenas se desprendeu dos nossos corpos, ajudamos a Serenity a derrotar a Metália.

- E quando nos retiraram a Semente de Estrela, foi como o nosso ser estivesse latente nas Sementes, apenas esperando ser liberto. – lembrou Makoto. Nunca me senti morta.

- Como é que alguém se pode sentir morto, se está morto? – questionou Yuuichirou amedrontado.

Makoto esboçou um sorriso ténue, apercebendo-se da estupidez da sua afirmação.

- De qualquer maneira, tal como nós reencarnamos neste tempo e voltamos aos nossos corpos após essas batalhas, alguém conseguiu fazer o mesmo com a Esmerala e a Kaorinite. – disse Rei decidida ponto um ponto final na discussão.

- E com o Safira, que está preso. – lembrou-a Usagi.

- Isso ainda não sabemos, pode ter sido um bluff da Esmeralda apenas para fazer com que as Irmãs Ayakashi voltassem ao lado negro.

- Sendo bluff ou não, a verdade é que a Petz já se juntou a eles, e as outras três vão pelo mesmo caminho à força, segundo o que a Usagi nos contou. – refutou Minako.

- Podemos assumir então que os nossos próximos adversários serão as Irmãs Ayakashi? – perguntou Makoto seguindo o raciocínio.

- É o mais provável. – confirmou Rei.

- Sendo assim – disse Usagi decidida – não lhes podemos fazer mal, elas estão sob lavagem cerebral, tal como o Mamoru estava!

Todos a fitaram atónitos, e Rei subitamente teve um ataque de cólera.

- N-não lhes podemos fazer mal?! – disse levantando-se da cadeira. Yuuichirou repetiu o gesto pondo o seu braço sob os seus ombros, tentando acalmá-la. Queres que as deixemos atacar-nos sem nos defendermos? Queres que morra mais alguém do nosso lado? – perguntou quase gritando, com os olhos húmidos.

Usagi baixou a cabeça apercebendo-se de como fora insensível e pediu desculpa a Rei.

- Usagi, isto é uma guerra. – disse Makoto enquanto Rei se sentava novamente. Claro que caso elas se defrontem connosco nós tentaremos não lhes fazer mal, mas… Antes elas do que nós. – concluiu Makoto fraquejando nas ultimas palavras.

Fez-se um silêncio constrangedor. Yuuichirou olhava curiosamente para todas à sua volta, admirado com a conversa que era assustadoramente nova e desconhecida para ele. Artemis lançava olhares aborrecidos a Minako, que os devolvia, numa discussão silenciosa. Usagi mirava Makoto, tentando aceitar com algum custo a veracidade das suas afirmações. Luna lambia-se, alheia à situação, quando se engasgou com uma bola de pêlo.

- Então porque acham que estão a matar os portadores dos cristais arco-íris? – perguntou Rei com os braços cruzados.

O silêncio prolongou-se até que Yuuichirou o quebrou.

- Isso é importante agora? – perguntou inocentemente. O importante não é… proteger as pessoas envolvidas nisso? – concluiu coçando a cabeça.

Rei olhou para ele num misto de admiração e surpresa, antes de o abraçar carinhosamente.

- Sim, ele tem toda a razão. – apoiou Usagi corando com a cena que se passava ao seu lado.

- Quem eram os outros portadores? – perguntou Minako curiosa. Eu só me juntei a vocês depois disso.

- A pintora, que fez um quadro de mim e do Mamoru… - começou Usagi sonhadora.

- O padre. – completou Makoto.

- A Reika, a antiga namorada do Mário. – continuou Usagi.

- E o meu avô. – disse Rei com a voz alterada. Estes já faleceram.

- Portanto, se eram sete ainda nos faltam saber do paradeiro de três? – questionou Minako ilustrando a sua frase com os dedos.

- Falta o rapaz que costumava jogar no Game Center, que tinha o poder de fazer os objectos levitar. – continuou Makoto tentando-se lembrar de todos os acontecimentos relativos àquela época.

- O gato que se apaixonou loucamenteee pela Luna! – exclamou Usagi olhando maliciosamente para a gata, mas esta ignorou-a continuando a limpar-se.

- E mais...? – questionou-as Minako com apenas um dedo no ar.

- O Rui. – disseram Rei, Usagi e Makoto ao mesmo tempo, concluindo a lista.

- Rui? – perguntou Minako confusa. Conhecem-no?

- Era um rapaz que gostava da Ami, há muito tempo… - esclareceu Makoto. E o sentimento era correspondido.

- A Ami teve um namorado?! – exclamou Minako atónita. A Ami?! E o que fez com que eles acabassem? Sim, porque eu não cheguei a conhecê-lo!

- Os estudos, a nossa batalha contra o Reino das Trevas na altura. – esclareceu Rei. Era demais para a Ami.

- Será que ele está… bem? – perguntou Minako preocupada.

- Está. – disse Usagi segura, e todos olharam para ela desconfiados. Ele previa o futuro lembram-se? Está sempre um passo à frente de qualquer inimigo. Pode sempre evitar o ataque porque sabe como, quando e onde vai acontecer.

- Hum… és capaz de ter razão. – assentiu Makoto. Devemos concentrar os nossos esforços em encontrar o gato e o rapaz dos jogos.

- O gato é fácil. – disse Rei entusiasmada com a perspectiva de fazer algo importante. Sabemos a morada da dona, era uma criança que morava algures na vizinhança de Shodohan perto do riacho.

- Há outra coisa que me preocupa… - interrompeu Usagi com a mão perto da face, olhando para a mesa fixamente, com um ar pensativo. Como… como é que o inimigo sabe as nossas identidades? – questionou-as preocupada. Como é que eles sabiam onde era o apartamento do Mamoru? Como sabiam que nós iríamos estar todas juntas no festival do templo da Rei quando fomos atacadas pela primeira vez?

- Mas a Esmeralda não chegou a saber as nossas identidades?! – perguntou Rei aflita. Eu pensei que…

- Não. – respondeu Usagi.

- Tens a certeza de que…

- Tenho! – afirmou segura. Já passou muito tempo, mas lembro-me claramente. A Esmeralda foi derrotada sem saber as nossas identidades. A Kaorinite também não chegou a descobrir-nos.

- As Irmãs Ayakashi talvez tenham…

- Não, quando a Esmeralda as ameaçou já sabia quem éramos. Não foram elas. Além do mais não sabiam onde era o apartamento do Mamoru. – reafirmou pela última vez.

- Mais uma das muitas perguntas sem resposta. – disse Makoto após outro período de silêncio.

- E aquela guerreira? – interrogou Minako, ao mesmo tempo que Usagi assumiu uma postura soturna. Quem será ela?

- Uma ladra. – disse Usagi com frieza. Apesar de não saber se sentia o que disse, soube-lhe extremamente bem poder insultá-la.

- Ladra? – inquiriu Minako admirando-se.

- Mas é claro! – ofendeu-se Usagi. O Cristal de Ouro, o Mamoru, o meu antigo ceptro! Além de que anda com a Neptuno e a Úrano.

- O teu antigo ceptro, curioso… - disse Rei coçando o queixo. O que lhe tinha acontecido mesmo?

- Não sei bem… Depois de derrotar a Rainha Metália no Pólo Norte tudo ficou confuso. O Ginzuishou agiu sozinho, restaurou o mundo… e mais tarde quando despertei novamente o ceptro já não estava comigo.

- Ficou no Pólo Norte portanto? – persistiu Rei.

- Se calhar… É o mais provável. – confirmou Usagi.

- Então não a podes chamar propriamente de ladra pois não?

Usagi olhou para Rei com um misto de fúria e surpresa.

- E lembro-me perfeitamente de o Mamoru ter dito que o Hélios tinha entregue o Cristal de Ouro ao seu "verdadeiro utilizador". * Foi entregue voluntariamente pelo seu guardião, não podes chamar isso de roubo também. – concluiu triunfante.

- Supostamente aquele é o Ceptro Lunar Real, utilizado nos tempos do Milénio de Prata. Pertence-me a mim por direito. – refutou zangada. Tal como o Cristal de Ouro é a Semente de Estrela do Mamoru e pertence-lhe a ele.

- Mas como a Rei disse, não é propriamente roubo. – insistiu Minako.

- Ela roubou-me o Mamoru! – exaltou-se Usagi, arrependendo-se de seguida pois sentira uma dor acutilante no sitio onde a sua costela estava fracturada.

- Correcção, ela salvou-te e curou o Mamoru. Talvez tenha tido de o levar porque ele estava demasiado frágil ou talvez ele ainda não estivesse totalmente curado. A Esmeralda estava a atacar-vos e ele estava demasiado exposto. – disse Rei suavemente tentando convencer Usagi.

- Ela disse que tinha direito de estar com o Mamoru, e ainda achas que… - começou Usagi, detendo-se de seguida.

- Que se passa?

- Selene. – disse concentrando-se. Todas a escutavam atentamente. Quando o Mamoru estava possuído chamou-lhe Selene.

- Selene… - repetiu Makoto. Já ouvi esse nome em qualquer lado.

- A deusa da Lua. – esclareceu Rei pausadamente, e todas as atenções voltaram-se para ela. Selene era a deusa da Lua na mitologia romana.

- A deusa da Lua? – perguntou Minako coçando a cabeça. Ela é uma deusa?

Artemis fez um barulho de desdém.

- Francamente Minako, já não estamos na primária. – disse Artemis com um ar convencido. Não passa disso, mitologia. Senão tu serias Vénus, a deusa da beleza. E como se vê claramente, esse não é o caso.

- Seu grande… - bramiu Minako furiosa com uma veia a pulsar perigosamente na sua testa.

- O nome e as origens não são importantes. – disse Makoto segura pondo um ponto final à discussão antes que ela começasse. As acções e os objectivos é que contam.

- Vejamos… Daquela vez que ela nos salvou durante o festival*, teríamos morrido se o furacão dela não tivesse quebrado o campo de forças da Esmeralda. Ajudou-me, ou tentou ajudar-me, na noite em que o meu avô foi atacado… – enumerou Rei.

- Ajudou-te e protegeu-te da Esmeralda e do Mamoru. – lembrou Minako, já mais calma, a Usagi.

- Não me ajudou muito. – esquivou-se Usagi. Supostamente eu estava sob a protecção do Ginzuishou ou algo do género. Ela disse que aqueles, sem ser os que são próximos de mim, não me poderiam magoar muito.

- Então ela referiu-se ao Ginzuishou como nos tempos do Milénio de Prata? – acompanhou Makoto. Isso talvez signifique que ela é uma reencarnação tal como nós, mas…

- Mas com as memórias do passado totalmente recuperadas, sim. – acabou Rei. De qualquer maneira, isso significa que subitamente tens uma protecção à tua volta Usagi?

- Pelo que percebi… sim. – confirmou.

- Estranho… A metade do Ginzuishou dela protege-te, pelos vistos. - suspirou Rei. Isso só vem a confirmar a nossa teoria de que a metade dela e a tua fazem um todo, o "verdadeiro Ginzuishou".

- Ela também referiu qualquer coisa da aliança luo-estelar nessa altura. – acrescentou Usagi.

- Sim, sim! Também referiu isso quando me ajudou! – disse Rei entusiasmada.

- Aos poucos as peças do puzzle começam a juntar-se…! – exclamou Minako excitada.

- Alguma ideia do que isso é? – perguntou Artemis nervoso.

- Não. – responderam as quatro em coro.

- Então ainda não fazemos ideia do objectivo dela e porque anda acompanhada da Úrano e da Neptuno? – constatou Artemis.

- Pois, parece que não. – disse Makoto. - Mas penso que nos estejam a ajudar, não é verdade? Sempre que alguma de nós está em apuros vêm em nosso auxílio.

Rei e Minako consentiram.

- Pois eu acho que não é por isso. – refutou Usagi.

- Tinha de ser… Qual é a tua teoria desta vez? – perguntou Rei convencida com a ideia de Makoto.

- Já não vos disse? Eu acho que ela anda a tentar apanhar a minha parte do Ginzuishou! – exclamou Usagi repetindo-se. - Reparem, quando ela apareceu no festival já sabia as nossas identidades… 1

- Espera lá, como poderia ela saber as nossas identidades? – contrapôs Makoto.

- Porque a Úrano e a Neptuno naturalmente lhe disseram. – esclareceu, continuando a sua teoria. - Como estava a dizer, quando ela apareceu no festival do templo, provavelmente andava disfarçada atrás de mim a ver se encontrava o meu medalhão. Azar o dela, porque já há alguns anos que eu o deixava no cofre de casa. – rematou triunfante. Depois, quando me ajudou no apartamento do Mamoru, pensava que a Esmeralda tinha o meu Cristal com ela, mas afinal não o tinha. Por fim, quando veio em teu auxílio Rei, viu que a Kaorinite estava a usar o Cristal. Então ajudou-te na tua transformação Eterna para tu as livrares do labirinto de fogo e meter as mãos no meu Cristal. O problema é que ele se desmaterializou mal a Úrano lhe tocou. É esta a minha teoria. Só não sei porque é que a Úrano e a Neptuno a seguem incondicionalmente. – concluiu um pouco ofegante.

- Hum… Faz sentido. – cedeu Rei.

- Sim, é uma possibilidade real. – corroborou Makoto.

- Concordo! – repetiu Minako.

- Mas apesar de tudo ainda não perdi a fé na Haruka e na Michiru. Enquanto elas andarem com a tal Célimoon sabemos que seremos ajudadas quando precisarmos. – acrescentou Usagi.

O relógio da sala de Minako tocou, anunciando as oito horas da noite.

- Eu cá acho que devíamos chamar a Ami… - suspirou Minako olhando de relance para o relógio. Ela pode correr perigo.

- Eu acho que já lhe aconteceu algo. – acrescentou Rei olhando timidamente para Minako. Usagi exibiu uma expressão de extrema preocupação.

- Sentiste alguma coisa? – perguntou-lhe preocupada.

- Não, não. – esclareceu Rei. Mas acho estranho esta falta de comunicação prolongada.

- Talvez ela esteja fugida com o Rui. – disse Makoto para surpresa geral.

No momento em que Rei ia dizer algo, a porta do apartamento abriu, exibindo uma mulher de estatura média, de cabelos curtos loiros-acastanhados, muito bem vestida.

- Não, não! – exclamou ao telemóvel, ainda olhando para a fechadura sem se aperceber que tinha visitas em casa. A vaca da Rafaela não pode publicar esse artigo na revista dela, temos que ser nós a publicar na nossa… - interrompeu o seu discurso ao vislumbrar a filha extremamente corada na sala com as suas amigas.

- A minha mãe chegou… - suspirou Minako com a mão a tapar a cara corada.

- Depois falamos, até manhã. – disse desligando o telemóvel. Uh, olá? – cumprimentou a multidão.

- São estas as minhas amigas de que tanto te falei. – esclareceu Minako apresentando cada um dos presentes na sala.

- Muito praz… ATCHIM! – espirrou, banhando o cabelo de Makoto com perdigotos- JOANA! Já te disse que não quero o Artemis perto de mim, sou alérgica!

Artemis ficou com o pêlo de pé, olhando furiosamente para a mulher, dirigindo-se de seguida para o quarto de Minako.

- Ah, desculpe… A minha gata também deve estar a contribuir para isso. – disse Usagi envergonhada chamando Luna para o seu colo. Já estávamos de saída de qualquer maneira Sra. Lima.

- Oh, já? – sorriu a mãe de Minako esticando os seus lábios pintados de vermelho forte. Não deixem guardanapos em cima da mesa por favor. Adeus! – despediu-se dirigindo-se àquele que Usagi presumiu que fosse o seu quarto.

- Vemo-nos amanhã á tarde Minako? – perguntou Makoto ao que Minako acenou com a cabeça.

- Amanhã? – perguntou Usagi curiosa. Combinaram alguma coisa?

- A princesa Célia disse que eu poderia precisar de ajuda. – esclareceu Makoto. E como o Motoki não vai trabalhar, a Minako ofereceu-se para me ajudar.

- Ah, a princesa Célia… - disse Usagi desconfortavelmente. As suas dores estavam a aumentar consideravelmente, já tinha tomado os analgésicos há bastante tempo. Depois temos que falar sobre ela.

- De qualquer maneira este fim de tarde já foi bastante produtivo. – disse Makoto levantando-se.

Despediram-se e cada uma seguiu o seu rumo, enfrentando mais um Sábado que se avizinhava.

1 Referência ao Capítulo 2