Realmente aquele foi o ponto critico de todo a que ela passou em sua vida. Ela presa as correntes de Julian, não podia se aproximar de Leon, que por sinal estava com Layla, e ela novamente estava sozinha no mundo criado por Julian.
Quando saíram da praça, tomaram rumo a casa deles, ou melhor de Julian, num distrito relativamente longes do centro, mas de alto padrão, típico de dele. Tomaram um táxi, e durante o caminho nada falaram, apesar de ela estar praticamente vendo sob seus olhos tudo o que a levou àquele momento.
Cléo nasceu na região da Sicília embalada pelo cheiro do mar e de uma vontade de alcançar as gaivotas do cais e voar como um anjo.
Ao ser designada por sua família, os Valentine, que estavam em decadência, com a missão de trazer o prestigio de volta, foi levada para treinar com a maior artista de circo da região Agatha Solo, herdeira dos Solo da Grécia e ex-parceira de Alan.
Ela, por desejar o mundo, o céu, o topo, enfrentou chuva sobre sues ombros, pesos em seus braços, horas exaustivas de musculação para alcançar o topo, e chegou bem perto dele quando sua treinadora a convocou para ir a "Cidade Luz", Paris.
Treinando com Alan poderia ser dona da Técnica Angelical que era mundialmente famosa e mundialmente temida por todos os artistas de circo. Ela se julgava capaz de executá-la e acabou por cair do cavalo quando descobriu que na verdade seria dona de outra grande técnica o "Vôo do Anjos", a técnica que foi executada somente uma vez por Alan e Agatha. Sua vontade de lutar para alcançar o céu minguou mas algo a reergueu. A presença de dois belos jovens naquela casa, dividindo seus treinos, naquela cidade, fez com que ela acreditasse ser capaz.
Julian Jacques e Leon Oswald eram antes uma força pois ela sentia dó deles após saber de suas trágicas historias, sentimento esse que se transformou em alimento pois apesar de abandonados ainda assim lutavam por seus sonhos e estavam a milímetros de alcançá-los. Junto daquela força e coragem ela embarcou rumo a essa técnica, mas acabou por se enfeitiçar pelos sonhos e asas deles, mas sem saber do que um deles escondia.
Leon, jovem tímido, beleza nunca antes vista e virilidade de um semi-deus, trazia a Cléo uma sensação de paz, conforto e coragem, o mais intrigante, pensava ela, seria como toca-lo, como aproxima-lo dela. Seus braços fortes a dominar o trapézio, a leveza dos movimentos, os olhos instigados a lutar, ela queria aquilo, queria aqueles braços a protegê-la, a leveza embalando-a e os olhos azuis acinzentados sobre si. Dizer que ela o amava talvez não era o suficiente, a idolatração do anjo que um dia iria guiar outro anjo aos céus era grande, mas sua ira quando soube que ela não seria esse anjo enfureceria a princesa.
Já Julian, herdeiro do sol, de olhos apaixonantes e força de um tigre, trazia nela uma sensação de desejo, queria apenas sentir o corpo quente dele e nada mais, algo como um instinto carnal pelo tigre, nada mais alimentava ela por ele. Ele sabia ser cordial, amoroso e atencioso, diferente de Leon que era reservado demais. Ela nunca poderia pensar que ele iria tecer a mais fina teia, de tão rara qualidade e engoli-la de tal forma que nem suas chamas poderiam queimá-la.
Mas com Leon era diferente, após cerca de um mês do inicio dos treinos eles se aproximaram de forma muito sutil e doce.
Trocavam olhares, saiam juntos, viviam as mesmas experiências, compartilhavam a mesma dor, tão íntimos e ao mesmo tempo tão separados, nem Julian percebeu aquela aproximação. Foi numa noite fria quando ela saiu enfurecida que aquele amor aconteceu.
Ela estava revoltada com o treino preparatório que deveria ser para entrar em alguma escola de circo, mas sabia desde o inicio que não era aquilo, treinava para uma técnica da qual não conhecia e com dores em lugares que nem sabia que sentiam dor. Não avisou que iria sair, simplesmente saiu, quando deram por sua falta, convocaram Leon para procurá-la, ele saiu apressado, revirando ruas e becos e a encontrou a beira do Rio Sena, solitária a olhar para as águas calmas sob a noite:
- O que faz aqui? – disse ele ao vê-la apenas com um vestido preto revolto sobre o vento deixando suas pernas fortes aparecerem – estão te procurando! Se Alan e Agatha a virem assim eles me matam.
- Que matem – Cléo disse rispidamente – prefiro morrer, sabe o que não é saber o que enfrentamos? O porque treinamos tão incessantemente sem saber para que?
- Alan sempre agiu assim – Leon, que naquela época agia civilizadamente, com o pouco de coração que lhe restava consolou-a – temos que lutar e treinar e você têm que ser forte para alcançar seu sonho de alcançar o céu.
- Não! – ela gritou – eu mereço explicações, estou longe da minha casa há um ano e meio e... Não tenho ninguém para me apoiar.
As lagrimas molhavam o busto ofegante, os cabelos negros torturavam o rosto avermelhado castigado pelo frio que fez com que Leon jogasse seu casaco sobre ela e pela primeira vez a abraçou com amor de quem realmente aceita o sentimento:
- Você tem a mim, e todo o meu amor por você – ele disse acalentando aquela dor.
Ela retribuiu o abraço com o fervor daquela paixão, daquele desejo de aproximação, e timidamente Leon ergueu seu rosto pelas pontas dos dedos frios, e pode observar as curvas do rosto de Cléo, desde os olhos azuis, e a pele branca rosada e avermelhada, a seus rubros lábios aguardando para serem deflorados, e ela o mesmo, observado aquele rosto do jovem homem da qual percebera que nutria tanto amor e consideração. Ao avançar sentiu duvida que foi esclarecida por ela que avançou um pouco e ele terminou por beija-la, um beijo doce e quente, que aqueceram ambos lábios frios e os encheu de calor. Mas não perceberam que alguém os espreitava, quieto, ao longe em pleno silencio, mas com uma cólera gemendo por dentro.E permaneceram juntos, nessa relação quieta e secreta até o grande dia.
A tão dura batalha entre Leon e Julian aconteceu seis meses após aquele momento, a essa altura os rapazes tinham 17 anos e a moça 18, aquele confronto foi travado num dia de sol, estavam presentes no ginásio Cléo, os dois rapazes, Sophie, Alan e Agatha.
A prova era simples, deveriam executar o maior numero de acrobacias em 3 minutos, o que não havia muito haver com os treinos preparatórios, trazendo aos jovens duvidas do porque daquilo, mas Alan disse apenas uma frase solta no ar:
- O Vôo dos Anjos – disse Alan – Não é só uma técnica, é também uma "revelação", quem ganhar hoje irá lutar para alcançar o céu mas só alcançará se suas "asas" forem nobres, brancas e verdadeiras.
Nada aquilo esclareceu, apenas criou um vácuo na memória de Cléo que ressurgia naquele instante no carro.
Julian conseguiu vencer fácil por apenas uma volta a mais do que Leon, que ao perceber que perdera ganhou um brilho no olhar unicamente raivoso, afinal sabia do final da acrobacia, do beijo, e de seu ciúmes por Cléo, quem acabou por consolá-lo foi Sophie, mas era ela, Cléo que devia dar-lhe colo, ela!
O amor deles vivia em segredo, apenas Sophie sabia por ser irmã de Leon, nem os treinadores desconfiavam, pensava ela, mas aquela derrota soou estranho para ela, quando Alan deu-lhes os parabéns por estarem prontos para o real treino, que seria dado por Agatha:
- Bem agora que definimos isso Julian você passará a ser treinado por Agatha, a minha parte com você acabou – Alan foi sucinto e um pouco mais caloroso, sentia orgulho dele – você permanecerá aqui na França mas em outro local juntamente com Cléo, e terão a honra de participar do festival internacional de circo.
- Agradeço desde já – Julian disse.
- Mas... – Agatha interviu – ainda não acabou, agora Julian e Cléo serão os novos donos da técnica do Vôo dos Anjos, e Sophie e Leon serão contemplados com a Técnica Angelical.
- O que? – Leon e Cléo exclamaram.
- Sim, vocês – Agatha parecia ter planejado tudo – Como você Leon não reparou, Sophie vinha tendo treinos periódicos tanto comigo quanto com Alan, para essa técnica, o destino apenas jogou as cartas na ordem certa desta vez.
Cléo queria gritar, seu céu sendo dominado por outra! Para ela, Sophie era uma incapacitada, fraca e sem nenhuma condição de executar aquilo, quando ganhou o Vôo dos Anjos, e Sophie a Técnica Angelical, nada podia dizer o quanto aquilo era maçante para ela suportar, já previa como iria ser. Leon treinaria com Sophie, sua atenção se voltaria para ela, sua coragem em dizer palavras de forçam em curá-la e carregá-la nos braços quando exausta, apesar de os braços dele estarem matando-o, aquilo deveria ser dela! Pertencia a ela, sua vontade de tocar o céu acabou por se inflamar em chamas para derrubá-la, por mais que Sophie a tivesse como um ídolo iria derrubá-la e subir ao topo ao lado de Leon.
A coragem dela de vencer passou a ser alimentada por uma raiva para com a jovem, da técnica, do afeto, da atenção, da luta dela para alcançar um sonho e por suas asas. Eram brancas e puras, de invejar a todos, de iluminar por onde passa, coisa que Cléo não tinha, a sua vontade era quase uma ambição, mas toda ambição exagerada passa a ser algo doentio.
Ver Leon quando dava, sentir dores, estar longe de casa e de seu amor, consumia Cléo que cada vez mais perdia as "asas" da qual a técnica pedia, sua pureza era corrompida por ódio, ambição e inveja, mas ela iria vencer.
No tal dia do F.I.C. acabou por ir falar com Leon, desejar-lhe boa sorte, ele a tratou bem, beijou-a e desejou que vencesse o melhor, mas Leon estava perturbado, Sophie havia saído e não retornara ainda e eles seriam os próximos e nada dela.
Cléo quase viu aquilo como uma benção, mas logo em seguida foi chamada por Julian para uma breve conversa em seu quarto, despediu-se dele e subiu.
Tudo acontecera naquela hora, Sophie sendo atropelada e ela sedada por um maldito copo d'água, ferida por dentro por Julian.
Quando acordou no quarto, estava nua e se sentia sonolenta, apenas pôde ver dois vultos que aparentemente estavam voando, quando recobrou a visão, percebeu, eram Julian e Leon, brigando, mas por que? Por ela! Ela perdida naquela cama, pediu ajuda a Leon que a empurrou com tanta força que acabou por machuca-la, tinha perdido a apresentação, e tinha sido ferida:
- Você me traiu – Leon gritava – logo agora que eu mais preciso de você!
- Não estou entendendo Leon – Cléo chorava e tentava ao máximo fazer Leon abrir os olhos.
- Não percebe! Você, nua na cama, no quarto de Julian, o que acha que eu sou! Idiota!? – Leon avançou contra Julian e o bateu com toda a força que lhe restava, e toda a dor que o consumia.
- Acabou Leon, provou-se um perdedor, ela me ama e você não tem nada – consumou-se a vingança de Julian.
- Adeus Cléo e obrigada por me derrubar no mais fundo precipício de dor, a traição – Leon andou em direção a porta, bateu-a com força e desapareceu da França, da vida dela e do mundo.
- Não, não, não! – Cléo ainda gritava – enrolada a um lençol, e ajoelhada no carpete frio clamava por piedade – ele me ama, eu não quis isso, eu não fiz isso.
- Acabou Cléo, ele não te ama, provou que não acredita em você – Julian ainda sangrava pela boca mas mesmo assim a abraçou, estava somente de calça, e podia-se ver as marcas dos encontrões com a parede e os móveis, e os socos de Leon – mas eu ainda estou aqui, deixe que eu te proteja, confie em mim.
Era aquilo, o inicio da jaula, da teia ou de qualquer coisa que a prendera nesse mundo que era comandado por Julian. Seu fim e sua derrota, foi naquela noite. Logo após cerca de três meses desde o acidente, Julian mudou e assumiu, a forma do demônio sugador de vidas, a vida de Cléo, em várias das vezes em que a agredia, a violentava, ele mais e mais contava o que realmente acontecera naquela noite, do remédio para dizer que ela "traiu" Leon, do plano dele e de Yuri para afastar Sophie dos palcos, e do desaparecimento de Leon, e Julian ressaltava que apesar de amá-la Leon não voltaria atrás, por conhece-lo desde criança sabia que bastava uma "pisada" para ele nunca mais querer ver a imagem de alguém.
E ela sofria e chorava e desejava que por mais que ele a machucasse nada mudaria aquilo, principalmente por desejar o pior para Sophie, somente por uma maldita técnica e uma pessoa que era seu irmão e que tinha com ela uma paixão e um zelo nunca visto igual, era ela que estava errada e por mais que tentasse fugir de Julian cada vez mais se sentia igual a ele, frio, calculista e marcado por traumas igual ela, nem Leon, nem ninguém poderia apagar.
Ao chegarem a casa, ela entrou na frente de Julian, passou por um hall lindamente decorado com flores, e foi em direção a bandeja de vinhos que se encontrava na sala de estar, quando estava para levantar a garrafa, Julian apoiou a mão sobre o ombro dela e disse:
- Bem... Ele ainda não acredita em você – Julian começou a roçar o queixo nos ombros dela, e acabou por derrubar o xale que deixou a mostra a roupa que ela vestia, uma blusa de frente única usada em treinos, e docemente beijava seu pescoço e tocava com suas mãos calejadas o corpo da princesa – mas que pena que não pode sair daqui não é? Ficou feliz de vê-lo?
- Queria poder tê-lo beijado e ao menos relembrar de quando eu era feliz – Cléo o alfinetou, ele se afastou e ela encheu uma taça de vinho que bebeu em um gole só.
Ao se afastar dela, ela começou a consumir mais e mais vinho, tentando se acalmar. Quando de repente sentiu uma forte pancada na nuca, que a empurrou por sobre a bandeja e o buffet e acabou por rolar sobre ele derrubando a bandeja, e um vaso que se espatifou no chão, escorregando até o chão, mórbida, tremendo e com medo, viu que o autor daquela pancada era Julian:
- Não se esqueça de me respeitar, quando nos casarmos, ninguém irá poder tirá-la de mim – Julian subiu as escadas que davam de frente para a porta de entrada e deixou Cléo no chão com as mãos cortadas pelo vidro, e a boca sangrando por ter batido a boca no móvel – a fênix negra nunca mais vai se erguer, você será feliz ao meu lado e de mais ninguém, eu te amo Cléo, e vê-la ao lado de Leon seria o mesmo que assinar seu contrato de morte, OK? Amanhã teremos visitas, esteja bela como sempre, e doce como um cãozinho adestrado, boa noite.
Deitada, se sentia suja, por ter sido violentada por Julian, por perder seu amor e por não ter como se desculpar por desejar que Sophie falhasse, chorava naquela imensa sala, embalada pela luz da lua que passava pela cortina e recaia por sobre seu rosto ferido, do seu apelido de palco, a Fênix Negra, agora só era dor e pó, gritava por ajuda, e para que pudesse escapar da lamina do Estripador, que a mantinha naquela jaula chamada culpa.
