Quem não desejaria ser como ele? Belo, jovem, poderoso, rico, imponente, tinha tudo para ser o que alguém invejava ou desejaria ao menos uma vez na vida, era ser como ele. Mas ele mesmo não gostava de si, desejava ser algo que não podia ter, queria ser um anjo, igual aos anjos que rodeavam-no, puro, casto, verdadeiro. Não ter asas negras, não ser racional queria amor, mas amar com paixão, queria ser forte, mas não ter a fortaleza que criou, ser apenas algo que não era ele.
Após agredir Cléo, ele subiu as escadas do hall, brancas e decoradas com uma fina madeira, naquele imenso casarão no qual morava. Foi presente do pai de uma de suas amantes, uma russa da qual não se recordava o nome, onde o pai queria mais do que nunca mantê-la ao lado de um grande artista para melhorar a visão da mais uma das famílias que tinham decaído do mundo dos circos, como Cléo, mas ele mais uma vez apenas a usou para ter aquilo. Uma mansão num local nobre de Paris, para ele e Cléo, mais um status que ele conseguira em sua escalada para o sucesso.
Julian chegou ao topo e se dirigiu para o seu quarto, no fim do corredor. Tinha as portas entalhadas e dentro via-se um belo jogo de sofás, com uma linda TV, mais a frente um banheiro enorme, e uma sacada que alcançava todo o comprimento do quarto e tinha uma visão das luzes de Paris, que estavam incrivelmente intensas naquele ano, a cama de casal, lembrava camas antigas da época dos reis, e foi palco de quase todas as agressões para com Cléo.
Julian apenas entrou, e começou a se trocar, tirou a camisa, que deixou a mostra uma serie de marcas em suas costas, várias eram de cair do palco ou do trapézio, cortes profundos de quedas e marcas de agressão não de Leon, mas de seus pais.
Foi ao banheiro onde soltou e escovou os cabelos loiros, que estavas num comprimento absurdo, passavam do meio das costas, desabotoou a calça, e se encarou no espelho, os cabelos avançavam pela face perturbada que o deixava com uma visão andrógina se aquilo na frente do espelho seria homem ou mulher tamanha beleza escondida, parou e pensou quem ele era, se o que fazia era justo, perdera as penas de suas asas e consumia-se em cinzas. Apenas chacoalhou a cabeça, passou pela porta, tirou os sapatos, encheu uma taça de vinho e sentou-se no sofá onde começou a divagar sobre seu passado...
Julian quando levado ao orfanato foi tirado de sua família, que vivia na periferia de um dos distritos da França, a algumas horas de Paris. Naquele antro, dividia lugar com seu pai, um alcoólatra que mantinha a casa com uma seqüência incrível de crimes e nunca era pego, uma mãe que apanhava dele e descontava em Julian, que era o mais novo de três irmãos.
Tinha uma irmã mais velha que era praticamente uma prostituta que trabalhava no centro de Paris, para pessoas de cargos altos, e tinha uma vida de invejar, sendo mantida por uma seqüência de "bem-feitores", ricos e influentes e um irmão do meio do qual sempre o ajudava e tinha um desejo talvez mais imponente do que os de Julian, queria crescer e ser famoso, rico, ter um futuro, ser um grande artista de circo, seu sonho seria o de ir para o Cirque du Soleil. E Julian acompanhando aquele desejo fez dele o seu também.
Sobreviver naquele lugar era tarefa de mestre, correr da policia e apanhar dela, conviver com infrações da justiça como suborno, além ameaças freqüentes. Seu pai, que sempre fugia para aquele cubículo de casa trazia "amigos" que abusavam de sua mãe, que nada podia fazer se não morria, e ele se escondia num lugar sujo da casa onde ouvia tudo e às vezes era obrigado a assistir aquelas maldades contra ela. Seus irmãos nunca estavam lá, Christine vivia no centro, vinha lá apenas para dizer ao pai dela que graças a mais um "favor" ele não seria preso e o avisava de quando ele deveria sumir para não ser pego, e ele em troca dava-lhe jóias vindas de seus furtos, seu irmão, Francis, estudava e trabalhava no centro e tinha uma conta onde guardava dinheiro para ir ao Canadá, e ele ficava isolado num mundo que ele tinha certeza de que nunca iria sair.
Após aquelas visitas, a mãe dele o pegava e batia nele até ele quase desmaiar, ele apenas chorava e gritava, afinal não poderia reagir aquilo, não tinha saída, e ela após espancá-lo jogava nele sal para que as marcas não aparecessem para que quando seu irmão voltasse, não visse o estrago.
Até o dia em que aquele mundo desabou, como se uma mão divina o tirasse daquele lugar.
Na época ele devia ter uns 10 ou 11 anos que ele podia jurar que eram uma vida interia jogada no lixo. Seu pai entrou numa grande fria, pedira dinheiro emprestado para comprar armas, mas não conseguiu pagar por elas na data estipulada. Os homens foram a casa deles, e pegaram sua mãe e a arrastaram-na até uma rua e atiraram contra ela sem dó, ela morrera na hora, em seguida vieram atrás dele. Ele corria com medo, via as balas zunirem sob seus ouvidos e corria e corria, quando viu que não tinha como fugir de tantos tiros e pessoas, virou-se e esperou para que uma bala o carregasse daquele lugar, fechou os olhos e aguardou.
Já tinha visto aquele lugar se apagando de sua memória, quando sentiu o tiro entrar, não em seu corpo mas no do seu irmão, ele se jogou a frente do tiro e mandou que ele corresse:
- Sempre aparece ajuda, você é bom Julian merece uma vida melhor, nem que para isso eu tenha que morrer – Francis ficou parado até ter certeza de que Julian estaria fora do alcance dos tiros e logo após constatar que ele estava seguro caiu na rua e logo foi abatido por mais tiros.
Julian corria e chorava, e quando chegou até uma rua deserta bateu de frente com um homem alto, que lembrava um anjo, que o pegou pelo braço. Julian com medo começou a se debater, tentando se soltar, mas o homem apenas abaixou-se na altura dele e o abraçou, e disse docemente:
- Calma, já acabou, agora você também pode descansar – o homem o abraçava com amor e calor de um pai e dizia – você lembra o meu filho sabe...
- Eu tenho medo, quero sair daqui – Julian chorava e o abraçava.
- Calma sempre quando você precisa um anjo aparece, não importa quando – o homem que dizia aquilo era alto, tinha os cabelos prateados presos em uma trança bela e imponente, os olhos eram verdes quase azuis, tinha as feições fortes e olhar doce, carregava uma arma automática e falava pelo radio de onde deveria atuar a equipe que por sinal estava atrás daquele pessoal. – não se preocupe eu comando essa operação, e você estará bem aqui comigo.
- Obrigado – foi a ultima coisa que ele disse, da qual se lembra. Daquele anjo que o salvou, queria ao máximo ser como ele, puro como ele, lutar pelo bem, mas ele sabia que não tinha sangue nobre como Alexander, estava fadado a uma vida de mentiras sobre seu passado.
Em seguida seu pai fora preso, os corpos do seu irmão e de sua mãe foram recolhidos e sua irmã também foi presa, o delegado, o homem que o abraçara, levou-o ao cemitério para o sepultamento de seus parentes. Lá Julian jurou ao seu irmão que ele teria tudo o que ele sonhara e a sua mãe teria paz, em seguida foi deixado em um orfanato onde morou até o dia em que Alan o escolhera.
Ele nunca mais soube do homem que o ajudou e o deixou naquele orfanato, que apesar de não ser o seu lar era o melhor lugar do mundo. Quando foi recebido pela dona do orfanato, ela lhe contou sobre o homem que o salvara, seu nome era Alexander Oswald.
Alexander Oswald. Seu anjo. Naquele instante ele desejou algo mais profundo de que ser grande, queria ser imponente como seu salvador, queria ser anjo como ele, ajudar os outros, e se não pudesse ajudar apenas encantar como ele o encantou. Iria deixar o cabelo crescer, e treinar muito para ser a personificação de Alexander.
Soube, porém pouco tempo depois, que ele havia morrido após uma outra missão contra um outro mercador de armas, e seus filhos seriam levados para um orfanato pois não tinham mais parentes e a mãe deles já tinha falecido vitima de um acidente no Cirque du Soleil.
E por acidente do destino conheceu Leon e Sophie, que foram levados para lá pouco tempo depois dele, Julian que até então não sabia que eram filhos de Alexander se tornou amigo deles.
Quando descobriu que Leon era filho do seu anjo, algo nele gritou. Ele nunca seria Alexander, pois havia um sangue que podia ser melhor do que ele, podia assumir o posto de "Alexander" e isso frustrou suas expectativas de ser o melhor "anjo".
Aos olhos de Julian aquilo ferira ainda mais ele que era carregado de traumas violentos contra sua pessoa, ao saber que o seu amigo era o filho daquele homem, criou nele um sentimento de inveja pelo jovem.
Leon era calmo, simples, e com essas características fazia o encanto de todos, e Julian era um "nada" que viera de um lugar sujo, podre. Ele queria aquela imagem, aquele brilho, e quando se aproximou dele viu que realmente nada que ele fizesse mudaria seu passado, quando pôs isso em sua cabeça seguiu em frente e desejou apenas os céus.
Quando foram levados por Alan, ele também descobriu que seu irmão havia lhe deixado uma pequena fortuna que ele usou com toda a sua força para ser tornar grande. Assim usou aquilo para se tornar à imagem de Alexander, e conseguira, até Leon podia dizer que aquele era o pai dele mas ele não se sentia, "Alexander". Sentia-se Julian disfarçado em marcas de roupas caras, e sorriso atraente, isso ele realmente sabia.
Depois conheceu Cléo, por quem se apaixonou. Deusa branca que estava se inflamando em chamas, dona do rosto de porcelana e dos lábios de mel, era ela que ele podia dizer, ser a personificação de sua felicidade, e nutrir algo por ela era mais fácil do que executar técnicas e tentar ser algo que ele não era.
Mas na realidade, o sentimento de frustração por não poder ser que o ele tinha desejado anteriormente já tinha tomado a maior parte do seu mundo, e já havia tomado o controle.
Assumiu o que era e como aquilo era necessário para ele, como ira ser de verdade e para sempre a pessoa "podre" que ele era, iria ao menos seria feliz com Cléo nem que ele tivesse que matar para conseguir. Conquistá-la era fácil, mas saber de seu amor por Leon foi mais do que um ardor, mas uma consumação do mal que corria em suas veias, decidiu por si mesmo que queria ela, amava ela e fez coisas terríveis por causa dela.
Quando soube que Alan o deixaria para treinar com Agatha, estava ciente do romance de Cléo e Leon. Separados pela distancia, Julian tomou as rédeas, e cercou Clé muito, apesar de dez palavras que Cléo dizia, duas eram Leon. Ele sabia do amor, sabia das noites juntos, e detalhes delas.
Como foi a primeira vez, quando eles saíram para viajar depois de ela ter se mudado, e Leon disse que ela seria dele por inteiro, de alma, e de corpo, assim consumaram o amor um pelo outro numa praia no qual foram conhecer. Bem como das brigas e do ciúme dela para com Sophie, enfim, ele era o "melhor amigo" de Cléo.
Irritado com aquela situação, ele decidiu conhecer os seus oponentes, e como por ajuda do destino conheceu Yuri, jovem russo, que tinha medo do estrago que Leon poderia causar se ele o enfrentasse, e com ele tramou o plano que matou Sophie.
Na noite em que ele chamou Cléo ao quarto, ele já tinha afastado Sophie do caminho, e quando ela chegou serviu-lhe o copo de água. Ela bebeu com coragem, pois estava muito nervosa, foi questão de minutos até ela se sentir sonolenta e finalmente cair no chão.
Ele a carregou até a cama, e apoiou-a no travesseiro. Sabia que Leon iria chegar a qualquer hora desesperado pedindo ajuda a ela sobre o desaparecimento de Sophie, ele só teria de despí-la para que Leon tivesse a impressão de que ela dormira com ele e só, mas, vê-la dormir um sono tão belo e profundo, tirar suas roupas, e examinar o seu corpo de perto, as curvas belas, dos seios brancos, da respiração ofegante, das pernas fortes, de tudo, fez com que ele não resistisse àquilo que era de Leon, e cometeu o pecado de possui-la.
Leon ao chegar no quarto pode ver apenas Cléo nua escondida na penumbra de um quarto, e Julian sentado na janela, apenas de calça, que estava aberta. A reação dele foi de querer empurra-lo, mas pelo contrario, apenas começou a bater nele sem dó, e mais uma vez Julian se sentiu o garoto usado por todos que merecia aquilo como forma de tentar pagar por ser o que não queria, por ser o demônio de asas brancas, que somente se revelam à noite.
Naquele momento percebeu o monstro que era, o sangue que tinha e o destino que estava fadado a ter. Ter violentado Cléo foi a gota d'água que se revelou nele.
Mas ele esqueceu que ele podia mudar, cegou-se com sua imagem do passado e apagou o fato de que ele é um objeto inconstante e aberto a opções, ele, Julian Jaccques é um ser que pode errar, mas pode mudar e pode crescer. Ele poderia ter sido um anjo, ou quem ele quisesse desde que acreditasse no melhor...
Julian voltou de seu transe quando Cléo entrou no quarto machucada. Mancando e sangrando viu Julian divagando e disse:
- Não vai dormir?– disse ela entrando no banheiro.
- Ainda não – ele levantou-se e seguiu-a – Vou te ajudar com os curativos.
Ele sentou-a no sofá e começou a passar remédio nas escoriações. Conforme passava, sentia o toque aveludado da pele dela e a velocidade na qual respirava. Cortes nas mãos, nos braços e nos ombros feriam a pele da Fênix Negra que foram feitos por ele, bolsas de gelo abrasavam a dor na nuca e na testa, marcada com uma forte vermelhidão, mancava pois caíra em cima do pé na hora que escorregou do móvel para o chão, conforme passava remédio nas escoriações sentia-a tremer ora por medo dele, ora por dor, Julian se sentia mal perante ela, talvez ela nunca fosse entender o amor dele por ela, e que provavelmente Leon ainda estava no coração dela, mas dadas às circunstancias, ele permaneceria ao lado de Cléo o tempo que ele pudesse agüentar.
Quando chegou a boca, contornou com os dedos os lábios que tinham um leve corte aproximou-se deles e beijou-os com doçura e amor e deixou cair uma lagrima fria por sobre as pernas de Cléo que levou um susto. Ela sabia o que era aquilo. Chamava-se culpa.
Ela conhecia toda a sua historia, pois Julian sempre oscilava entre o mal puro e o bem acalentador. Ora ele vagava em seu passado, ora o descarregava nela, e tudo o que ela sentia era dor e dó. Ele era sozinho, cresceu sozinho, apenas com uma certa ajuda do irmão do qual morrera por ele, e ele apenas era fruto do que passou.
Cléo segurou a mão dele sobre seu rosto e disse:
- Eu te desculpo – ela disse com o olhar de uma mãe, como se aquilo curasse as penitencias dele.
E ele apenas apoiou a cabeça sobre suas pernas e chorou, quieto, como sempre fazia no canto escuro do qual se escondia em sua casa, sentido os dedos de Cléo por seus cabelos longos, a olhar a janela e a noite.
O tão belo anjo acabou por perder a beleza da liberdade, consumiu-se em pó das cinzas e penas das asas que deixou partirem por não confiar de que ele era capaz de lutar e mudar.
Aquela noite, bem como aquele dia foi o mais longo de uma serie de longos dias que passariam pela França e pela vida dos jovens.
A roda do tempo gira com mais força ainda... Quando irá parar?
Em que posição deixará as almas e a que horas cessará?
Nem Cléo, Julian, Leon ou Layla podiam afirmar, mas o tempo passa e não pára, ele entra em nossas vidas e nos convida a rir ou chorar, ou nos marca para sempre...
Até quando dura o sempre?
Nota da Autora:
Esse capitulo é um esclarecimento a todas as maldades de Julian feitas até agora e parte das que ainda vão vir.
Ele nasceu numa família que nada mais fazia a não ser bater nele, daí o fato de querer crescer e ser poderoso, via a mãe ser violentada, por isso tortura Cléo, viu a frieza pela qual mataram seus parentes, por isso a frieza nas atitudes. Mas tudo isso destaca a reação dele ao seu mundo hostil no qual vivia, por isso digo que amo o Julian, ele é mais um vitima do sistema, dos atos e do que sofreu, acho então que ele apenas é o que ele assistiu e conviveu em grande parte de sua formação, na passagem da fase adulta para adolescente onde refletimos nossos atos e nos formamos como pessoas, como nós, que aprendemos algo pela experiência e adquirimos traumas devido a elas.
Julian se mostra uma pessoa calculista que não consegue sequer amar, por medo de ser usado ou desiste para não sofrer, aqui também uso ele para uma critica.
NUNCA DEVEMOS DESISTIR DE MUDAR como ele fez, devemos tentar e tentar até que não possamos mais respirar pois sempre há um "anjo" que nos salva, que pode ser uma pessoa, ou um fato, ou uma tentativa se é que vocês me entendem mais pensem a respeito.....
Gostaria que opinassem a respeito dele e dessa minha critica...
Bom o próximo capitulo não é bem um capitulo, posso dizer que é uma "one shot" ou uma historia dentro da historia, sobre...
SEGREDO!!!!
Mas... Apareceu nesse capitulo!!!!
Pensem e depois me digam OK???
Agradeço de novo quem lê, e principalmente quem posta dando opinião, das quais eu ADORO!!!
Continuem a ler OK??? Calma que ainda não acabou ...
