Foi naquele maldito dia, daquela maldita manhã, que Alan os arrastou aos seus lamentos e aos seus desafios.
Lá estavam eles, belos, perfeitos, mas assustados, parados as portas do hotel onde todos os artistas se hospedavam, que era anexado ao pavilhão do Festival. Leon Oswald e Layla Hamilton já sentiam o cheiro da carniça a se espalhar pelo ar, os olhos perfurantes estavam a poucos metros atrás daquela porta eletrônica. Parados a frente dela jaziam também seus pensamentos, na noite anterior, na qual, aliás, fora a ultima deles juntos, eles disseram que a partir do memento que cruzassem a porta eles seriam artistas, frios, calculistas e vencedores, mas a frente daquela porta era isso que queriam?
Queriam enterrar seus sentimentos? Queriam respirar aquele ar maldito? Não, não queriam, mas iriam finalmente aceitar, o Deus da Morte jamais iria poder sufocar a Fênix Dourada e ela talvez não fosse forte o suficiente para permanecer ao seu lado.
Que ambos padecessem naquele lugar, seriam, a partir daquela hora, daquele momento, apenas parceiros, a primavera deixava Paris naquela hora, o vento frio já cortava suas delicadas faces, esfriava os corações...
- Andem! Ou terei que empurrá-los! – Alan gritou em suas costas com raiva – é só uma maldita porta!
Sim, maldita porta...
Leon e Layla atravessaram a porta, ela delicadamente abriu-se para eles, e suas narinas foram surpreendidas por aqueles hálitos de veneno, pelo ar contaminado pela inveja, luxuria e ganância.
Todas as trips possíveis se encontravam lá, das mais pacificas as mais audaciosas, passando pelas em ascensão até as perigosas, e todas elas olhavam para eles. Olhares vulgares, já sabiam do romance, olhares ociosos, sabiam do favoritismo, olhares de censura, ela e ele não pertenciam ao mesmo mundo, e eles não pertenciam aquele lugar.
O Kaleido Star também estava lá, Layla viu mas preferiu disfarçar, Leon não era bem-vindo lá, ela também viu Yuri e May, e ele estava diferente ela podia dizer, seria por causa da conversa que tiveram na semana que se passara, ou era porque o escândalo daquela união se tornara publico? May, por outro lado via aquela cena com dor, no ano anterior era ela entrando com ele, com o maior e melhor artista de circo do mundo, ela agora estava sendo deixada de lado, Mia a Ana olhavam com desdém para aquela cena, e Kalos jazia serio ao lado de Sara que apesar de acompanhar os pensamentos maliciosos dos outros, percebia que algo mudara Layla, um algo intenso, novo, o que era nem ela sabia, mas fazia Layla a mulher mais radiante do Festival. Sora não estava lá, ainda, mas iria aparecer.
Leon sobrepôs a mão direita nos ombro como num movimento involuntário de defesa para com ele e Layla e a forçou a seguir, ela involuntariamente segurou sua mão com coragem, assim ele avançou para o balcão e disse:
- Oswald e Hamilton, Kaleido Star - Leon disse secamente a balconista que se derretia ao vê-lo pessoalmente.
- Quartos de solteiro ou de casal? – ela disse envergonhada.
- De solteiro – ele disse.
- De casal - ela disse junto.
Ambos se encararam.
- Pensei que quisesse ficar sozinha – Leon a interrogou.
- Isso é o que eu tenho certeza que não quero – Layla respondeu nervosa.
- Quarto de casal e ponha no meu nome – Leon terminou por se registrar.
Alan de longe observava como os dois combinavam, eles queimavam, ardiam em chamas, eram o casal perfeito, que ele iria ter a honra de destruir, afinal trato é trato.
Após concluírem o registro, Leon pegou as chaves e estavam para subir quando o orgulho da França apareceu.
Por entre a porta, surgiram Cléo e Julian. Ele estava finamente elegante, vestia uma calça social preta, blusa branca e uma sobretudo cinza riscado, seus loiros cabelos estavam presos na trança mas reluziam como ouro, um belo óculos escuros fumê cobria seus olhos, e a tira- colo Cléo. Cléo esbanjava beleza, vestia o mesmo vestido no qual Layla a vira, mas desta vez com uma faixa negra.
Eles andavam como a realeza naquele hall, arrastavam olhares e comentários, e eles apenas curtiam a sensação. Julian fez o registro, ele lançou a Leon um olhar graciosamente satisfeito, e em seguida um olhar malicioso para Layla, assinou o papel e parou a frente de Leon:
- Que grandessíssima honra concorrer com vocês, será prazeroso imaginar o resultado – Julian disse, como se comprasse briga com Leon, já Cléo encarava Leon com olhos frios e raivosos – espero que vença o melhor.
Ao longe, em meio a murmúrios, Ana interrogava Mia:
- Quem é aquela jovem que está encarando Leon? – ela questionava Mia.
- Ela é a ex-namorada de Leon, dizem que ela o traiu – Mia respondia, olhado por cima de seus óculos – com o rapaz bonitão ao lado dela.
- Ah, agora já podemos imaginar o porque ele é tão frio – Ana e Mia trocavam risadinhas.
- Quietas – Kalos as fez calar e disse serio - a vida pessoal deles fica da porta para fora.
Leon sequer respondeu a Julian, arrastou Layla para o elevador, ela o seguiu. Estava amedrontada com aquele olhar, com aqueles olhares, algo estava errado. Conforme Leon arrastava Layla, eles passaram pelo Kaleido Star, ele reparou que nem Sora nem Ken estavam lá, cumprimentou o pessoal com um aceno de cabeça, e seguiu, Layla exclamou apenas um olá e segui caminho com Leon, já Yuri fitou fortemente Leon, e principalmente as mãos dadas deles, realmente aquele seria a ultima escala de Leon em sua vida de problemas, ou resolvia tudo naquele antro, ou padeceria tentando.
Quando o elevador chegou Leon entrou e sequer reparou que Layla estava ociosa.
- Quer ficar? – ele disse.
- Não, quero ir com você...- Layla disse hesitante.
- Não precisa subir se não quiser – Leon tornou a falar, mas dessa vez friamente.
Layla então entrou no elevador quieta, olhando para o chão.
- Bem-vinda ao meu mundo – Leon disse, rígido.
- Como você vive com essas pessoas que desejam sua queda? – Layla disse triste.
- Eu não vivo...Sobrevivo –Leon a encarou friamente – quando eu disse no ginásio, que era um romance sem precedentes, e por sobre todas as conseqüências, era disso que eu estava falando, assim, eu te pergunto – Leon a empurrou fortemente contra a parede do elevador, passou a mão direita pôs seu pescoço de forma que seu antebraço roçasse sua nuca e tocou com as pontas dos dedos da mão esquerda os lábios de Layla, e ele então tomou a personalidade do real Leon que Layla sempre temeu, ele violentamente virou seu rosto, segurando-o pelo queixo e ele sussurrou tenebrosamente em seus ouvidos – você é capaz de amar e enfrentar tudo para ficar comigo? Se nem mesmo eu suporto a pressão? Eu respiro porque é involuntário, eu como, pois põem comida a minha frente, e eu vivo pois acredito que se eu me matar talvez nunca mais veja minha família, então, Layla, a que mundo você quer pertencer?
A porta se abriu, e eles se encontravam no andar do quarto deles, Leon seguiu caminho e largou Layla na parede do elevador, ela se arrastou a até sair do elevador, e em seguida se apoiou nas paredes do corredor onde escorregou até o chão e calada sentia ainda os olhares malévolos por sobre ela e ele e enfim eles.
Leon largou a porta aberta para ela entrar, sabia que ela iria se demorar, ele então entrou no chuveiro, apenas tirou o casaco cinza que o cobria e o sapato caro e deixou a água fria cair por sobre seus ombros, sobre suas roupas negras, repetia silenciosamente, enquanto a ouvia padecer em pensamentos no corredor:
- Desculpe, eu não tive escolha, eu tinha que faze-lo, Layla desculpa, mas...- Lagrimas suas se confundiam com a água fria que tocava seu corpo e assolava sua alma – você não pertence a esse mundo, você não pertence a mim, não sou seu príncipe no cavalo branco, sou apenas Leon.
Ele e ela choravam sozinhos, perdidos, desolados, ela com medo e ele culpado, fazer sua amada temê-lo era terrível, mas mais ainda eram as pessoas, que ali estavam, prontos para derruba-los e vence-los.
Layla não demorou a se recuperar, ela levantou a cabeça, secou as poucas lagrimas, essas pareciam estar secando, mas seguiu caminho e entrou no quarto de hotel. Ele era finamente decorado com moveis modernos, tinha uma linda sacada que ia de ponta a ponta do aposento e tinha um conjunto de sofá de couro marrom ao centro decorado com flores nas mesas laterais. O quarto de casal era elegante, tinha uma cama delicadamente coberta com lençóis finos, alem de ter a continuação da sacada. Era branco e tinha detalhes em preto, e por sobre essa cama jazia Leon, estava com as costas molhadas, os cabelos estavam amarrados por sobre essa, e vestia uma calça preta justa ao corpo, estava deitado de bruços na cama, e permanecia calado, Layla sentou-se ao lado dele e o interrogou:
- Tomou banho? – ela disse descalçando os sapatos brancos.
Ele não respondeu, sequer abriu os olhos, ela teve dificuldade de achar que ele estava dormindo ou apenas quieto com sempre fazia. Era estranho ver tão hostil ser dormindo, um sono calmo, belo e doce, seria ele aquele anjo de asas negras que todos viam? Ou por baixou de sua rigidez ele era apenas mais um ser maltratado por esse mundo? Layla podia ver cada gota que percorria seu corpo, cada movimento de seu pulmão e como cada uma dessas gotas desciam por entre suas costas largas, seus olhos estavam inchados e, sua face estava delicadamente perturbada, seus cabelos revoltos deixavam marcas de gotas na cama ou pingavam e sumiam no carpete do chão.
Queria toca-lo, sentir aquela alma fervorosa num momento de meditação. Talvez fosse calma. Ela esticou a mão direita em direção a ele, se ajoelhou, e sentia a respiração dele, longa com uma bela parada e via os músculos se contraírem, ociosa, ela parou a milímetros de distancia, mas depois avançou. Com a ponta dos dedos percorria os braços fortes, subia pelo sulco rígido das costas e tocou os cabelos. Eles carregavam o perfume dele, aquela era a marca registrada dele, os enrolava em suas mãos, deixava se levar por ele. Esse monstro que a encantou. Que lábios doces, que ...
Ela se assustou, foi violentamente para trás, sentia uma ponta de dor e arrependimento. Leon a agarrou firmemente pelo braço, estava com os olhos vermelhos e se sentia perdido. O que ela queria?
- O que quer? - ele disse ainda agarrando seu braço, ela estava pendurada a ele, e não conseguia se soltar, ele esfregou os olhos usando a mão na qual a agarrava, parecia que esquecera o que segurava, quando fez isso, Layla foi violentamente arrastava para frente e pendurada a ele, ficaram nariz a nariz.
- Sua mão...Está me prendendo...- Layla dizia enquanto corava levemente sentindo-o tão próximo dela.
Leon abriu a mão e ela caiu sentada no carpete. Ele tinha olhar de criança, porem ele voltava gradativamente ao seu estado de Deus. Breve ela perderia aquele jovem que ama sem precedentes, corajoso e ambicioso. Mas era chegada a hora.
A noite já podia ser vista ao longe, no horizonte de Paris. Amanha de manhã o inicio do fim iria finalmente domina-los pela ultima e mais imponente vez.
Ela sentada no chão não entendia tal reação, por que era assim? Ele apenas percorreu com as mãos os finos cabelos, e determinada hora inalou o perfume que eles exalavam. Conforme os sentia fitava-a sem dó, a pobre fênix a sua frente tinha olhos raivosos, rancorosos, derrotados, como ele tinha.
- O que pretendia? – ele perguntou rígido, tinha os olhos baixos e olhando-a de cima para baixo dava-lhe um olhar superior que a incomodava, era esse olhar que ela mais detestava nele, aquele olhar arrogante.
- Nada da sua conta - ela se levantou violentamente e andou em direção a porta – vou tomar banho – poderia sair?
"Ela quer que eu saia?" ele pensou, algo mudara realmente naquela hora, fora-se o romance, foram-se as horas de amor eterno, agora tudo voltava ao seu estado natural, o mundo dos palcos chamavam-nos de volta. Um caminho sem volta.
Que fosse assim, isso estava fadado a acontecer, aquela derrota, aquela perda, aquela paixão se apagaria de suas doces mentes, se tornaria memória, se tornaria um espaço incompreendido entre o tempo e o espaço, mas seria algo que com o tempo se tornaria real ou ilusão?
Ele saiu secamente do quarto, roubou um dos travesseiros e uma coberta e se dirigiu ao sofá, ela o aguardou sair e então fechou a porta do banheiro.
Dormiram afastados um do outro, um do calor do outro, ou melhor, sequer dormiram. Ele recostado no sofá, via a lua refletir suas memórias como na noite em que vira Julian, ele se recordou de Cléo, a moça da qual amara, maldita hora de se lembrar dela, ele a amou tanto que se esqueceu de viver, e agora vive tanto que queria amar...amar a moça do quarto ao lado.
Ela por outro lado, deitada na cama, apenas com o roupão de banho sentia que deveria pensar que Yuri estaria a algumas horas de vê-la atuar e de beijar Leon, o beijo que selaria aquele romance...Ele ainda a amaria se a visse com outro?
"Gostaria de prever a próxima porta que virá a parecer a minha frente, e saber o que haveria atrás dela" ele pensou, quando se levantou do sofá. Parou a centímetros da porta branca decorada com vidros que juntos desenhavam um pássaro, "gostaria que ela se abrisse" ela também pensou a milímetros dela. Ambos encaravam aquele mínimo trajeto, um movimento e estariam frente a frente novamente....
Mas o que um dia o os selou, já não estava mais ao alcance deles, já não eram mais capazes de sincronizar suas almas, de sentir o que o outro sentia, de perceber que não haverá aquela pessoa a quem se corre quando tudo dá errado. Eram agora como o sol e a lua, dividem o mesmo céu, aquele quarto de hotel, sabem suas funções e seus corretos momentos de brilhar e encantar, como na técnica de amanha, mas eram incapazes de se encarar, como aquela porta....
Portas que dividem momentos, que separam vidas, que aguardam para ser abertas... oportunidades que vem e vão, passam aparecem em nossa vidas, se escancaram e não a abrimos, essas horas, são as horas em que o tempo deveria voltar, e quem sabe um eclipse poderia ter acontecido ...talvez...
Eles voltaram as suas camas e dormiram, se aquele seria o dia, que o encarassem com nobreza, com ardor, como artistas, como Layla Hamilton e Leon Oswald...como estrelas. Como o sol e a lua que precisam coexistir apesar de que nunca realmente iriam se encontrar...
Treinar, sofrer, lutar, amar...Esses sentimentos refletiam aquela noite, a Grande Noite, a noite na qual eles, Cléo, Julian, Leon, Layla, Yuri e May iriam brilhar, mas nem sempre brilhar significa vencer.
Eram quase seis horas da tarde, de um dia frio, a primavera finalmente deixava Paris, numa hora em que talvez aquele singelo calor, vista e cores fossem mais necessárias do que apenas ser uma estação, seria uma fuga ao até uma salvação para as almas que sequer sabiam que nessa noite demônios iriam lutar, anjos iriam padecer e fênix iriam queimar.
Apesar de estarem no mesmo quarto agora tudo era diferente, eles estavam diferentes, acordaram na manhã em que encarariam um adeus e sequer conversaram, ela se arrumava e já se aquecia, ele mergulhava em sua mente como sempre fazia, mas o tempo passa, passa e não pára e logo a tormenta começou...
Agora restavam apenas duas horas para o inicio e sabe-se lá que horas iriam se apresentar, saberiam dali a instantes, entretanto agora já não havia mais volta...
Um homem chamava os artistas nos corredores dos andares do hotel cinco estrelas, gritava as chamadas e pedia para que os artistas descessem para a concentração, nem todos queriam descer.
Leon estava sereno, sentado no parapeito da sacada, via Layla prender os cabelos dourados num rabo que virou trança e a seguir em um coque que fora espetado por uma longa pena branca. Não estava vestida ainda, mas estava bela, nervosa, mas bela. Arrumava suas coisas rápido, vestia apenas um jeans, tênis e uma blusa azul de alça. Na noite retrasada já haviam conversado sobre suas decisões, seus anseios e duvidas porém tinham se amado, uma ultima e mais marcante noite.
Assuntos desde onde vieram, até seus grandes medos rolaram, mas assim marcaram suas almas com um amor bandido, que acabaria dali a algumas horas e um ultimo encontro fora marcado, logo apos a técnica, o encerramento e uma última batalha tudo aquilo terminaria apos um premio, um ultimo encontro no local onde tudo começou...
Layla seria levada para um hotel ao norte de Paris logo apos aquele encontro, em seguida iria para a Alemanha onde gravaria um filme, e dali para um destino incerto rumo as suas sombras ou a um novo começo, e ele, ele viveria novamente seu Deus aa Morte.
Encontrava-se a aprecia-la, afinal talvez nunca mais poderia ver tão privilegiada vista dela. Só comum uma calça semi-aberta, o peito nu exposto seus violentos cabelos desarrumados, iria interpretar o seu fim, assinar um contrato de morte e embarcar numa viagem sem volta em companhia de um demônio decadente mas que tinha orgulho do pobre órfão de pais, dono de um força de Leão, alma de guerreiro e vitima de um coração apaixonado por tantas fênix quanto sua carne podia alimentar, para se consumir em pó das cinzas, penas das asas, ora brancas que o iniciaram nos palcos a segurar suas mãos quando se equilibrava no trapézio, ora negras ao consumi-lo e por ela ser envenenado e traído, ora douradas que se inflamavam com a paixão, coragem e.. Duvida, esse era ele, belo, forte, mas apenas Leon.
Layla porém, ainda era atormentada por suas duvidas, perseguida pelos belos olhos do Deus da Morte, sentia que a foice negra do fim daquela jornada a rondava mas era friamente e dolorosamente amarrada por duras correntes de nome verdade. Aquela decisão de contar sobre Julian e Cléo agora não era tão arriscada, sabia que iria perder para Cléo de qualquer maneira, mas corria o risco de acabar por ser mais uma marca na alma atormentada dele, seu amor pertenceria a ele até a hora em que vencerem e finalmente aceitarem o fim prematuro dessa doce envenenada paixão. Seu desejo mais do que nunca era de correr para Yuri, mas este talvez não iria aceita-la. Ter algo que você acha que irá possuir eternamente é um erro árduo de tolerar, mar guardá-lo para um futuro próximo é razoavelmente melhor tanto para ela quanto para ele. Se alguém tinha que saber a verdade era ele, e quem deveria contar por bem ou por mal tinha que ser ela.
"Ah Leon porque não me abraça e me domina e me faz esquecer isso?" Layla pensava enquanto socava as roupas na mala enquanto ele a encarava docemente com aquele jeito sensual de ser e observar.
Mas foram interrompidos por uma batida seca na porta maciça.
- Chegaram – Leon disse absorto, abotoou a calça e colocou uma negra camisa de alça – espere aqui se não quiser se envolver – em seguida fechou as belas portas de correr por trás dele separou a sala do quarto.
Leon abriu a porta e deu passagem a quatro pessoas, Kalos, Alan, uma senhora e um homem de meia idade que tinha aparência de quem pertencera a magia doa palcos. Todos se sentaram no sofá de couro marrom, mas apenas Leon e Alan ficaram em pé. Leon se apoiou ao fundo da sala, enquanto Alan se servia de um caro vinho do bar.
- Bem Leon, vamos direto ao ponto - o homem começou – eu represento o Cirque du Soleil e vim aqui te propor um contrato de trabalho.
- Pelo que eu sei eu teria de ganhar, não? – Leon disse rápido e olhou para Alan. Ele o encarou duramente como se duvidasse da capacidade de seu treinador para com seu aluno.
- Bem – o homem tossiu seco – você ainda é o melhor de todos por isso estamos aqui.
O homem então começou a citar os termo do contrato, como benefícios e regras, Leon as escutava atentamente e Layla por trás da porta também. Ela quieta, ouvia tudo, desde o salário, consideravelmente alto até o fato de que passaria a morar Canadá. O Cirque era bem mais rígido do que o Kaleido Star, lá ele não poderia ter seus ataques de fúria, muito menos machucar os outros, mas teria livre escolha quanto às parceiras e se quisesse poderia até pedir a contratação de alguma. Quando mais tarde terminou a citação dos termos, o homem concluiu:
- Bom, se você concorda e aceita é só assinar e você poderá embarcar quando o festival acabar – o homem tinha um olhar ambicioso, já a mulher torcia as mãos constantemente, ela seria a testemunha na efetivação do contrato – então o que me diz?
Ele estendeu o contrato e uma caneta, Leon então ouviu um baque seco na porta a suas costas, Layla apoiara a cabeça no vidro, ele olhou para o canto, em direção a porta e pegou a caneta e o papel.
"Ele vai assinar? Eu quero que ele assine?" Layla refletia com a cabeça apoiada no vidro.
- Assine Leon – Alan pressionava-o – vamos, eu e Kalos temos mais o que fazer.
- Não me apresse! – ele respondeu rispidamente – eu já volto...- Leon se dirigiu a porta e ameaçou abri-la, mas Alan começou rapidamente a conversar com ele em italiano, língua na qual aprendeu a falar devido a sua convivência com Cléo e sua treinadora, Agatha.
- essa você perdeu, você vai consulta-la, mas já perdeu - Alan falava com raiva - sabe que por mais que não queiram vocês ganharão, confio no meu taco.
- eu posso "acidentalmente" não ir - os olhos de Leon queimavam.
- você tem um rabo muito grande para perder - Alan avançou um pouco e então o encarou - ela nunca vai ser sua, ela pertence apenas às chamas dela, você pode lutar, porem em algum tempo ela vai se apagar de uma maneira que você vai querer nunca tê-la conhecido, assine Leon, você vêm lutando contra uma maré que sempre te arrastará para lá...
Leon parou, abriu a porta e entrou no quarto.
- Não me sigam! – ela bateu a porta e então a encarou.
Layla havia se trocado, vestira a sua roupa de palco. Lembrava realmente um anjo, aquele anjo que ele desejava tanto, vestia o colan branco que formava um degrade dos ombros em direção as pernas de branco a um azul turquesa, com um laço de seda transparente branco com as pontas deste douradas decorando o fim das costas, um ombro coberto e outro exposto, as costas abertas desenhando aquele caminho que um dia seus lábios percorreram, era ela, a pessoa na qual, naquele dia iria embora. Uma maquiagem leve a iluminava e parecia que agora o tempo poderia sumir, ele ao menos estaria feliz em aprecia-la para todo o sempre.
- Estou...Pronta – sua voz tremula estava com um tom de raiva e tristeza – decidi me trocar afinal seremos chamados em breve...
- Eu posso não assinar, posso ficar no Kaleido Star se você quiser.
- Não, assine, essa luta o arrastará para lá de qualquer maneira e... por mais que não queira, talvez é isso que você precisa para crescer – parecia que o que ela queria convergia com as idéias de Alan e isso o perturbou, mas Layla ainda estava estranha, assustada mas determinada – não vou te prender...
- Diga que não quer que eu assine! – Leon se alterou sem motivo algum, avançou contra Layla, a agarrou fortemente pelos braços com suas mãos fortes e a chacoalhou um pouco – diga...O...Que...Você...QUER! – ele gritou alto, o som ecoou pelo quarto e pôde ser ouvido na outra sala o que fez todos ficarem apreensivos. Não queria ir, queria ela. Em seguida a largou. Esta se assustou com tal reação, foi meio que arremessada por sobre a cama, mas se levantou com violência, sentia sua ira de fênix de volta aos poucos afinal não tinha mais o que lutar...
- ASSINE! – ela então gritou, com força e se posicionou fortemente contra ele, contraia as mãos com violência e se impunha.
Ambos estavam parados frente a frente, ela tentava fugir de lá, e ele mantinha-se forte apesar de sua fraqueza, papel e caneta a mão, ele apoiou a folha em uma mesinha e assinou com raiva todos os campos, virou-se e se disse:
- Concordo que tenho marcas e que meu passado me persegue, mas ambas estão fechadas, seja lá o que "ele" disse, mas você...Ainda tem muito pela frente – ele se sentiu usado por tão bela, mas infantil dama, se retirou do quarto e novamente bateu a porta.
Quando ele saiu, Layla se sentiu injustamente julgada, ela não era a pessoa infantil que ele achava, ela...Só tinha algo que não podia ignorar, fosse o que fosse ela era perturbada por marcas do passado, passado esse que Leon faria parte naquele dia, "para que se enganar?" ela pensava "nós já havíamos perdido desde o inicio"...
Ele por outro lado, saiu violentamente do quarto, bateu tão forte a porta que esmigalhou um vidro e trincou outros tantos, com violência arremessou o contrato à mesa junto com a caneta e se apoiou novamente na mesma parede.
O homem folheou todos os campos rapidamente, e sorriu grato vendo que Leon fechara contrato de três anos com o Cirque. A moça e Kalos assinaram como testemunhas e Alan fechou também seu contrato de trabalho para com o Cirque, como treinador de Leon, mas todos ainda vigiavam o olhar raivoso e derrotado de Leon.
Ele bufava, inflava o peito de apenas 19 anos com virilidade, parecia que o mesmo ia explodir, mexia rápido os olhos, e determinados momentos os repousou violentamente a um jovem que abrira a porta.
Ken estava à porta já que a mesma se encontrava apenas encostada, ele delicadamente a empurrou e dirigiu a palavra a Kalos:
- Kalos, estamos prontos...- Ken encarou a robusta imagem de Leon e estremeceu, ele tinha um brilho diferente nos olhos e emitia a aura maligna de Deus da Morte, ele se perdeu no que falava – Yu...Yuri...quer...quer...
- Quer o que Ken? – Kalos disse irritado acompanhando a reação do jovem para com o francês.
- Quer falar com você – ele disse deixando os óculos escorrerem pelo nariz delicado – Quer falar como você...- ele terminou como se tivesse novamente lutado com Leon e perdido.
- Já vou – Kalos para consagrar a perturbada alma de Leon finalizou – Sora já chegou?
Violentamente Leon o encarou, tinha medo nos olhos juntamente com a moça atrás da porta. Ela estaria presente lá. O que ele iria imaginar?
- Bem – Kalos se aproximou de Leon e lhe conferiu a palavra – foi um prazer ter trabalhado com você Leon, o Kaleido Star estará sempre a sua espera.
A sua espera...Quantas vezes esperamos voltar a um local que nos marcou e dizer "eu estou de volta" e quantas vezes esse voltar pode ser um sinal de que você não pertence mais aquilo, aquela magia, aqueles olhos, agora ele iria para o mundo, desejando ficar em "casa". Continuar a mudança.
Kalos com as mãos nos bolsos, ameaçou cumprimentar Leon mas já era tarde, Leon não era mais o Leon, ele era agora Deus da Morte, frio, calculista, egocêntrico, superior, ele mudara, ou melhor voltou ao básico, a sua essência artificial forjada em sua alma, se ele iria aceitar essa farsa caberia somente a ele, mas não deixaria barato. Kalos e Alan eram velhos conhecidos muito antes de Leon ser Leon e o laço entre eles era mais profundo do que os olhos do jovem podiam capturar, mas claramente sabia que a verdade viria a tona.
- Boa sorte – cada um dos membros da sala disse. Cada qual com as suas intenções, mais uma ação, mais um presente que se torna passado, mais uma memória, ele precisava...
- Saiam! – disse seco.
Saiam. Uma ordem. A porta se fechou e mais uma vez ele ruiu. Crescer. Essa era a sua maior ambição, ou sonho roubado, nos seus belos, tortuosos e marcantes dezenove anos dos quais desde os seis anos já praticava circo agora deveria seguir em frente e encarar novamente a verdade de que agora não haveria mais volta.
- Vamos? – a bela loira disse saindo majestosamente do quarto, forte, fênix, linda, Layla. Coberta com um agasalho aguardava para descer.
- Espere um pouco – ele se encaminhou ao quarto e se trocou, suas roupas eram semelhantes às de Layla, brancas com o mesmo degrade azul, semelhante a da Técnica Espiral-demônio, mas a partir da cintura se tornavam brancas.
Ele saiu discreto. As malas seriam depois recolhidas e agora só restava descer e aguardar.
Saindo daquele quarto, descendo aquele elevador, e se prostrando a porta daquela concentração, aqueles destinos seriam concluídos, seriam fadados a se concluir. Ele iria para o Cirque e ela para os filmes, para musicais para uma nova vida.
- Podemos ir agora – ele disse vestindo o mesmo casaco preto.
"Diga meu nome" ele refletia enquanto se encaminhava a porta, "diga que não quer ir e eu largo tudo, poderíamos, sei lá, fugir?" Ele abriu a porta e lhe deu passagem e ela chamou o elevador. A ultima porta, a do quarto. Logo chegaram ao térreo, todos já estavam se concentrando para a ordem das apresentações.
Quem imaginaria que aquilo seria real? Que dali a algumas horas subiriam a um palco e executariam uma técnica de meses de treino para um algo que agora já não queriam mais, lutaram contra destinos, pessoas, passado e contra si mesmos até chegar ali, e seriam obrigados a fazer, por ela, por ele, por eles, por seus sentimentos e para um final descente e real a um fragmento de memória...Ilusão de coração adolescente, mas forte como o tempo que não se rompe apesar das incertezas.
Chegara a hora em que destino, decisões e desejos finalmente encarariam cada um a verdade absoluta, a ultima prova de fogo, a real e a incondicional.
Portas às vezes podem ser nossas escolhas, mas às vezes são elas as únicas em nossos caminhos que podem ou não nos oferecer opções, somos obrigados a encarar, olhar e entrar em seu interior. Preferiríamos às vezes jazer em frente a elas, mas para sempre saberemos que uma hora vai nos obrigar a visitá-las e a enfrentá-las, passo a passo nossa vida nos leva a portas. Somos capazes de enfrenta-las?
