CAPÍTULO II


~ Athenodora ~


Vozes distantes ecoaram no meu cérebro. Um murmúrio em meu redor. Estaria morta? Era isto que acontecia quando morremos? Milhares de vozes a ecoarem nos nossos ouvidos? Provavelmente estaria a rever toda a minha vida. Provavelmente aquelas seriam as vozes das pessoas que conheci durante a minha curta vida. Mas não eram. Eu não conhecia aquelas vozes! Igualmente o aroma que pairava no ar. Não me era familiar! Havia um perfume a bolos acabados de cozer, um doce aroma a canelas e baunilhas. Sentia calor. Uma sensação quente em meu redor. Então tive a certeza, não estava morta.

- Onde estou?

As vozes baralharam-se, numa confusão de conselhos e surpresa por eu estar viva. Agora, debatiam quem é que deveria responder-me.

- Em Volterra. – respondeu uma voz feminina que eu desconhecia.

O nome do local onde me encontrava embateu-me com choque.

- Volterra? – repeti.

Nunca havia estado em Volterra, mas sabia que ficava muito depois de Bologna, minha terra natal. Mas localizavam-se na mesma região, centro norte de Itália.

Franzi as pálpebras, esforçando-me por abri-las. Quero ver o local onde me encontro. Tentei erguer o meu tronco mas pesava-me tanto, como se tivesse um enorme peso sobre ele. Senti-me tombar para trás, novamente. Havia interjeições aflitas em meu redor.

- Tem calma, minha querida! – ouvi uma voz rouca feminina dizer.

- Nós ajudamos-te! – disse outra voz.

Senti-me a ser puxada para cima. Mãos agarravam fortemente nos meus braços finos, magoando-me. Estava sentada, mas meus olhos ainda estavam cerrados. Ou talvez estivessem abertos. Talvez estivesse cega. Uma sensação de pânico e agonia invadiu-me com este pensamento. Esbracejei, tentando libertar-me das dolorosas mãos que me agarravam. Mas estas apenas se fecharam mais fortes contra a minha pele.

- Larguem-me!

O grito desesperado e impulsivo que se libertou da minha garganta fez congelar os movimentos das pessoas em meu redor. A pressão diminuiu, até que as mãos soltaram os meus braços e estes tombaram para os lados do meu corpo. Levei as minhas mãos dormentes ao meu rosto. Estava frio. Devia ter dormido ali toda a noite, se já fosse de dia. Os meus dedos tactearam, desesperados, até aos meus olhos. As minhas pálpebras estavam fechadas. Suspirei em alívio. Não estava cega.

Lentamente, as minhas pálpebras começaram a abrir-se. Uma enorme luz invadiu os meus olhos, fazendo -os fechar-se, novamente, e franzindo o sobrolho. Quando o ardor passou, abri os olhos lentamente e a imagem começou a focalizar-se. Estava no que parecia ser uma praça. Pouco conseguia ver por causa das pessoas aglomeradas á minha volta. Eram pessoas do povo, de classe baixa.

Estava frio, isso explicava a temperatura da minha pele, e o sol iluminava timidamente o céu. Era ainda manhã cedo. O céu estava azul, limpo.

- Estás a sentir-te bem, querida? – questionou-me a voz feminina que me respondera primeiro. Aparentava ser uma mulher de quarenta anos, de olhos castanhos bondosos e rugas ao canto dos lábios carnudos. Seus cabelos eram castanhos e crespados, que usava presos na cabeça com uma touca branca.

Acenei-lhe positivamente com a cabeça.

- O meu nome é Fioralba Franca. – informou-me a mulher. – E esta é a minha filha mais nova, Eloisa.

Apontou-me uma rapariga que parecia ter a mesma idade que eu. Não era bonita, tinha uma expressão boémia e mordaz que parecia não se encaixar no seu rosto fino e magro. Tinha uma figura tísica e usava um vestido pobre, em linho branco. Seus cabelos castanhos estavam mal atados junto á nuca.

- E este é o meu filho mais velho, Giovanni.

Contrariamente á irmã, Giovanni era um belíssimo jovem. Devia ter dezanove anos ou vinte. Era alto, de cabelos encaracolados castanhos-escuros, assim como seus olhos brilhantes. Sua pele era morena e realçava-se sob o tecido branco da camisa.

- Qual é o teu nome? – perguntou-me Fioralba.

- Athenodora.

Os olhos da mulher olharam-me com indignação. Estranheza em relação ao meu nome. Os irmãos trocaram olhares.

- Porque dormiste na rua? – continuou – Pareces uma rapariga rica…!

A minha boca entreabriu-se para lhe responder. Mas não sabia a resposta aquela pergunta.

- Bem, não importa. – desistiu Fioralba – As noites em Volterra são perigosas. Vem, eu vou-te mostrar o teu quarto.

Encaminhou-se para o interior da casa. Não era uma habitação rica, mas não podia pedir mais. Estaria a ser rude se exigisse uma casa como a que deixara! Subimos umas escadas de madeira e seguimos em frente por um corredor branco. Abriu a última porta do lado esquerdo.

- Este será o teu quarto. – apontou-me a porta aberta – É pobre, mas é melhor que dormir na rua.

Fioralba fez-me sinal com o braço para eu entrar. Assim fiz. O quarto era realmente pequeno. Um rectângulo de paredes nuas revestidas a cal branca. Havia apenas uma cama, de casal, a um canto. Duas almofadas brancas estavam sobre a manta de lã acinzentada feita á mão e uma camisa de noite branca. Pendente na parede sobre a cama, estava um crucifixo de madeira com Jesus Cristo, com um terço prateado em redor do pescoço. Havia uma janela com vista sobre Volterra. Havia ainda uma cómoda com um espelho em frente e uma cadeira almofada. Sobre a cómoda havia uma Bíblia, um livro de orações, e um pente de madeira.

- Tens ali uma camisa de noite. – apontou Fioralba para a cama – Na cómoda tens o livro de orações e a Bíblia, para rezares antes de dormir. O terço, utiliza o que está no pescoço do Nosso Senhor, no crucifixo sobre a cama.

Acenei com a cabeça e sorri.

- Deixo-vos sós. – continuou – Daqui a umas horas servirei o almoço. Pode ir dar uma volta pela cidade para conhecer, se assim desejar.

Fioralba sorriu para mim e fechou a porta atrás de si.

O dia passou fugaz. O jantar foi servido no andar debaixo. Partilhei uma mesa rectangular em madeira velha com os dois irmãos, Fioralba e seu marido. Serviram-me com sopa de batata e pão de centeio. Eram uma família pobre. Mas estava-lhe muito agradecida por me terem acolhido em sua simples casa. Apesar de suas dificuldades económicas, eram pessoas de bom coração. No céu teriam um lugar á sua espera, de certeza.

Enquanto sorvia a sopa da colher, á minha memória apareceu desfocada a imagem de um anjo numa praia. De pálido rosto e cabelos louros tão claros que podia jurar serem mesmo brancos. Mas aqueles olhos. Olhos negros. Tão negros quanto a noite.

- Athenodora?

Senti uma mão no meu ombro e despertei do transe em que me encontrava. Os simpáticos olhos de Fioralba olhavam-me com preocupação.

- Está tudo bem, querida?

Sorri e acenei positivamente.

- Sim, sim! Está tudo óptimo. Apenas estava perdida em pensamentos.

Fioralba sorriu-me.

- Tenho de lhe agradecer tudo o que fez por mim hoje.

- Oh, querida, não é preciso agradecimentos! – sorriu a mulher.

- Mas são! – insisti – Muito obrigada por me receber em sua casa. Por este jantar.

- Ora essa, querida! Podes ficar o tempo que quiseres!

- Desde que comeces a trabalhar para sustentar a casa! – cuspiu Eloisa.

- Eloisa! – repreendeu-a a mãe – Que educação é essa?!

Vi a rapariga revirar os olhos em impaciência. A verdade era que sentia que ela não gostava de mim. Tinha até inveja, arriscava dizer, sem querer ser convencida. Mas a maneira como ela me olha. Parece quase ódio.


CONTINUA...