CAPÍTULO III


~ Athenodora ~


Olhava Volterra pela janela de meu novo quarto. Sem explicação, sentia um enorme desejo de ir caminhar pelas ruas. Mas não podia. Já estava em camisa de noite, leve e branca, com meus cabelos louros caindo soltos sobre minhas costas. Mas algo me puxava para as ruas. Como se o vento murmura-se meu nome sem o conhecer. Algo chamava a minha alma. Tinha de ir lá fora! Olhei a porta do quarto. Já era noite cerrada, estaria alguém desperto? Caminhei a passos silenciosos até ela e rodei a maçaneta devagar, para que esta não rangesse. Abri-a, finalmente. Meus olhos procuram pessoas na casa. Estava silêncio. E cada um estava em seu quarto adormecido. Percorri o corredor e desci as escadas de madeira, corri em silêncio para a entrada da casa e abri a porta.

O vento da noite arrepiou-me a pele branca do pescoço, enquanto meus cabelos esvoaçavam atrás de mim. Caminhei descalça para a praça onde fora encontrada. Estava deserta aquela hora. Não era longe da casa dos Franca, apenas tive de caminhar por uma rua. Olhei em redor no silêncio da noite. Era ali que devia estar, sentia isso.

- Boa noite.

Congelei ao ouvir esta voz masculina. A minha respiração quase que parou e soltei um suspiro assustado. Mordi o lábio com receio. Rodei meu rosto e encarei quem me dissera tais palavras com tal voz. Podia ter desmaiado naquele momento. Era o Anjo da praia! Estava ali. Diante mim. Senti o batimento de meu coração acelerar no meu peito.

- Não é seguro que uma menina caminhe a estas horas da noite pela cidade.

Baixei a cabeça, sem saber o que dizer. Estava como que hipnotizada por aquela figura e pelo medo que me paralisava os sentidos.

- Qual é o seu nome?

- Athenodora. – respirei.

O Anjo caminhava em meu redor. Sentia seus olhos negros presos em mim. Observava-me atentamente, conseguia perceber. As minhas roupas, o meu cabelo, o meu rosto, a minha postura.

- Athenodora? – repetiu com sua voz de veludo – É um nome grego.

- Sim.

- Sois grega?

- Não, sou italiana, de Bologna. – respondi – O meu pai é grande apreciador da História grega.

- Deveras? – admirou-se – Bologna não é longe daqui. Alguma vez estive em Volterra?

- Não, senhor. – respondi-lhe - Nunca.

Seu semblante negro fitou-me. Como se estivesse avaliando o meu rosto. Meus olhos avelã olharam os dele. Nunca tinha visto olhos mais invulgares! Eram de um preto puro, da cor de asa de corvo. Sem brilho, sem vida. Sua pele era quase transparente de tão pálida, nunca vira alguém como este ser diante de mim. Quase que não parecia ser humano.

- Vós sois de uma família abastada.

Percebi que não era uma pergunta, mas sim uma afirmação. Acenei positivamente com a cabeça.

- Sou a filha do príncipe governador de Bologna.

Não consegui decifrar a expressão que o rosto dele ganhou naquele instante. Sua mão, coberta por uma luva de couro preto, tocou meu rosto, com suavidade. Seus olhos estavam fixos na minha cara. Não pestanejava. Seu rosto era tão belo! Meus olhos avelã encararam o chão e senti as minhas faces queimarem, estava a corar. Ouviu-o rir-se baixinho.

- Como sois adorável! – admirou.

- Ora tolices, senhor! – abanei a cabeça em negação.

Dei uns passos atrás, afastando-me do Anjo.

- O meu nome é Caius. – apresentou-se – Caius Volturi.

Inclinou-se para a frente e fez uma vénia.

- Caius… - murmurei. – Não é um nome comum.

- É um nome romano. – respondeu ele – Do Período Republicano, para ser mais preciso. Já viu as nossas semelhanças…?

Um pequeno sorriso esboçou-se nos meus lábios. Ele começou a andar em meu redor, mas com seus olhos negros sempre presos em mim.

- Seus pais gostam da História romana? – ri-me, nervosa.

Ouviu-o rir-se. Mas com um riso irónico.

- Os meus pais já faleceram. – informou – Há muito tempo atrás.

- Os meus pêsames. – partilhei.

A sua mão tocou o meu ombro nu. Minha camisa de noite descera e me deixava os ombros descobertos. Não sentia a pele dele em contacto com a minha, mas sim o couro das luvas que usava. Mas, ainda assim, o meu corpo estremeceu com o toque dele. Suas mãos percorreram o relevo da minha clavícula e subiram para o meu pescoço. Cerrei as minhas pálpebras, absorvendo cada sensação daquele instante.

Sentia o ar escapar dos meus pulmões. Como se aquele toque fosse fatal para mim. Meus lábios estavam entreabertos, como se estivesse a receber o maior prazer deste mundo. Uma das suas mãos afastou os meus cabelos louros e senti seus lábios em meu pescoço. Não eram quentes e suaves como imaginara, como eles pareciam. Eram frios e rígidos em contacto com a minha pele quente. Seu corpo rodou o meu com uma velocidade quase invisível. Estava agora frente a mim, com seu corpo contra o meu. Seus lábios percorriam o meu pescoço, contudo não sentia a sua respiração. Sentia os músculos de sua cara tensos e rígidos. Alias, todo seu corpo era estranhamente rígido e frio. Mas suas narinas estavam dilatadas, em sofrimento quase. Que estava a acontecer? Numa fracção de segundos, ele afastou-se de mim com expressão sofredora no rosto. Seu punho estava em seus lábios e seus olhos negros fitavam-me. Não sabia desvendar o que ele pensava.

De um momento para o outro, seu porte sofrido substituiu-se por um altivo. Caminhou dignamente para mim e fez uma vénia, enlaçando minha mão na sua, plantou um beijo na sua palma. Seus olhos negros olharam-me com um certo carinho. Um sorriso esboçou-se em meus lábios. Que homem era este Caius?

- Boa noite, signora Athenodora.

Sorri-lhe com um rubor a surgir em minhas faces. O misterioso Caius endireitou-se e sua cabeça baixou-se numa pequena vénia e movendo seu casaco de veludo negro caminhou para longe, na direcção de onde vira.

Não sabia o que fazer naquele momento. Era como se uma explosão de sentimentos confusos estivesse a ocorrer no meu peito. Não conseguia descrever, e sempre fora tão boa com palavras, aquele Caius. O efeito que ele tinha em mim. Jamais em minha existência tinha conhecido tal homem.

E que podia eu fazer? Corri para a casa dos Franca. Não podia ficar mais tempo na rua. Abri grande porta de madeira da entrada e entrei cuidadosamente. Fechei-a com todos os cuidados.

- Onde estiveste?

A voz assustou-me. Era Fioralba. Mas sua voz não estava doce como habitual. Estava ambos preocupada e ríspida. Encarei-a de rosto gelado pelo frio da noite.

- Desculpe, mas precisei de ir apanhar um pouco de ar.

- Apanhar um pouco de ar!? – exclamou ela com indignação – Abrias a janela de teu quarto! Mas sair para a rua…! A estas horas! Nunca mais faças isso, Athenodora! Nunca mais! Promete-me isso!

- Não percebo sua preocupação, Dona Fioralba. Eu estou bem. Que me poderia acontecer? Os ladrões não andam nesta zona pelo que ouvi dizer.

- Oh, mas andam seres piores que ladrões por este zona. – avisou Fioralba.

Não compreendi o que aquilo significava e a expressão no meu rosto mostrou isso. Fioralba chamou-me e sentamo-nos na mesa de jantar. Lá estava duas canecas com leite caseiro, ela estendeu-me uma e eu aceitei.

- Durante a noite, há monstros nesta cidade que se alimentam de sangue. – disse – Por isso é que a recebi em minha casa com tanta urgência. Estranhei o facto de ainda estar viva depois de dormir nas ruas de Volterra. Preferi proteger a tua vida, como meus antepassados juraram fazer.

- Com todo o respeito, Dona Fioralba, eu não acredito em contos de fadas e monstros.

- Não precisas de acreditar, minha querida. – apontou Fioralba – Os monstros mostram a sua face. E é ela perfeitamente bela. Não te lembras da noite que passaste na rua? Como vieste ter a Volterra, em primeiro lugar.

Lembrei-me do Anjo Caius na praia. Lembrava-me de tudo. Era um aglomerado de imagens da minha cabeça. Mas não o iria revelar a Fioralba.

- Não. – menti – Não me lembro de nada mais a não ser o meu nome. E é porque está escrito neste pendente.

Rodeando meu pescoço com uma corrente fina de ouro estava um pendente dourado com o brasão da minha família. No seu interior estava o meu nome; Athenodora Gisabelle. Enquanto o olhava com nostalgia, sentia os olhos preocupados de Fioralba presos no meu rosto.

- Tu és muito bonita, Athenodora. – elogiou-me – Promete-me que não voltas a sair á rua durante a noite.

Olhei-a com sorriso e acenei positivamente.

- Prometo.

Ela sorriu-me e bebeu o resto do copo de leite.

- Vamos dormir que se faz tarde.

Sorri-lhe e ergui-me da mesa. Caminhamos até ao andar superior. O quarto de Fioralba e seu marido era o primeiro. Ela colocou sua mão sobre meu ombro e sorriu-me com preocupação. Sentia que algo estava errado. Como se houvesse algo que não me quisessem contar.

- Que Deus te proteja.

Retribui-lhe a reza e caminhei para o meu novo quarto. Abri a porta e entrei. A janela mostrava-me as torres de Volterra e a lua no céu. Caminhei com os pés gelados para a cama e deitei-me nela. Sentia muito frio, mas agora estava coberta com inúmeros cobertores. Cerrei as pálpebras para adormecer. Á minha memória, só me vinha a imagem do Anjo.


CONTINUA...