CAPÍTULO IV
~ Caius ~
Minha sede pulsava forte, queimava-me a garganta, quando entrei nosso esconderijo, Volturi. Felizmente, ordenei cedo neste dia que me trouxessem um homem jovem, cujo sangue seria delicioso.
Estar tão perto daquela bela rapariga, Athenodora, era quase fatal para mim. Sentia o cheiro do seu sangue que corria fervilhante em suas veias. Desejava-o. Mas havia algo que não me deixava matá-la. Não conseguia. A ideia de ver aquele corpo transformado num cadáver era insuportável. Era um crime. Sabia que ao mais minúsculo deslize perto dela, podia acabar por a assassinar. Mas não conseguia manter-me afastado. Tinha de a ver. Apreciar a sua beleza. Era uma tentação que viciava, estar perto dela.
Abri a porta de ferro negro dos meus aposentos. Calculei que a minha refeição já estivesse lá, á minha espera. Assim espera, estava sedento. Mas quando me reparei com o cenário senti uma raiva crescer no meu interior: debruçadas sobre o homem estavam três mulheres pálidas e belíssimas. As minhas três noivas. Suas presas estavam cravadas no pescoço, pulsos e peito do homem, que gritava em prazer, hipnotizado por elas, que lhe adulteraram a mente, fazendo com que ele sentisse que estava a ter sexo com elas.
- O que é isto!? – gritei-lhes.
Aqueles morcegos afastaram-se do homem.
Valquíria, de cabelos pretos e compridos, pele pálida e mortíferos olhos negros trepou para o tecto da divisão, enquanto as minhas outras duas noivas encostaram-se às paredes; eram elas Demonia, uma vampira de cabelos encaracolados ruivos e olhos arroxeados e Guinevere, de cabelos louros e lisos, que lhe tocavam os joelhos ossudos e de sedentos olhos escarlates.
- Como se atrevem a tocá-lo? – gritei-lhes – Ele é meu!
- Vós! – Valquíria apontou-me seu dedo ossudo e branco – Vós nunca amastes!
- Eu também consigo amar. – vinquei. – E voltarei a amar, em breve.
Demonia esvoaçou até mim, com uma expressão de súplica. Ajoelhou-se aos meus pés e beijou-me as mãos frias com seus lábios de mármore.
- Não nos trazeis nada nesta noite? – questionou-me.
- Estamos sedentas! – ripostou Guinevere, aproximando-se.
- Perdoai-nos, mestre! – implorou Demonia, fitando-me com seus olhos arroxeados. – Desejávamos tanto sangue que tocamos na sua refeição.
- Perdoai-nos! – implorou Guinevere.
Aqueles morcegos sedentos e ladrões das minhas refeições! Suas unhas afiadas cravavam-se em minhas pernas, rasgando minha carne que se reconstituía de seguida. Os seus lábios de onde escorriam fios de sangue escarlate beijavam-me o manto de veludo.
- Larguem-me, morcegos!
O meu rugido afastou-as para longe. Abraçaram-se as três com expressão de terror nos olhos obscuros. Caminhei para o homem que jazia no chão. O aroma ferrugento de seu sangue subiu-me pelas narinas. Ainda estava vivo e com uma boa porção de sangue. Minhas mãos agarraram-lhe o corpo e ouviu-o gemer de dor e medo. Minhas presas cravaram-se no pescoço dele, sem piedade. O seu sangue desceu-me quente pela garganta e sentia as minhas forças serem devolvidas ao meu corpo. Quando não havia mais alimento, deixei o cadáver cair no chão.
- Vão-se daqui! – ordenei com um grito ás minhas noivas – E levem-no com vocês!
Elas rastejaram pelo chão, agarrando com suas unhas o homem morto. Valquíria era a única que estava direita com seu porte altivo e arrogante. Abriu a porta e seus mortíferos olhos fitaram-me com ódio. As outras duas seguiram-lhe atrás aos risos maquiavélicos. A porta fechou-se.
Senti-me tomado por uma raiva incontrolável. Desejava tanto o sangue de Athenodora! Mas não lhe podia tocar! Não podia! Nunca serei capaz. Mas tenho receio de me descontrolar e ser. A ideia de transformar aquele perfeito ser num cadáver... mata-me. Não literalmente. Mas corroi-me as entranhas que julgava mortas. Julgava meu coração morto. Frio. Mas ela, de algum modo, conseguiu fazê-lo voltar a bater.
~ Athenodora ~
Abri as pálpebras e logo as cerrei. A claridade proveniente da janela sem portadas picava-me o semblante ainda adormecido. Já era manhã. Levei as mãos às pálpebras e massajei-as, para despertar. Ergui o meu tronco e caminhei para o guarda-fatos. Mas ele encontrava-se vazio. E apenas tinha um vestido meu, o que trouxera no dia anterior. Suspirei de impaciência. Que iria vestir? Estava eu tão habituada aos meus luxuosos vestidos no meu palácio! Teria de vestir o do dia anterior. Não podia passar o resto dos dias com uma camisa de noite. Mas também não os podia passar com o mesmo vestido. Mas não tinha dinheiro para comprar outro. Vesti-o, de qualquer forma e desci as escadas para o pequeno-almoço.
- Bom dia, menina Athenodora. – cumprimentou-me uma voz masculina.
Assustei-me com o cumprimento e vi quem me falava. Ah! Era Giovanni, o filho mais velho de Fioralba. Sorri-lhe.
- Bom dia, Giovanni.
Ele retribuiu-me com um sorriso encantador. Era um jovem homem realmente atraente e com um rosto másculo mas com traços muito bonitos. Sobre a perna cruzada tinha uma placa de madeira e uma folha de papel branca, na mão um pau de carvão negro.
- Que fazes? – surpreendi-me.
- Estou a desenhar. – respondeu.
- Desenhas?
- Sim. – confirmou – Desde que sou pequeno. Recebi uma pequena instrução em desenho com um mestre que visitou Volterra, mas ele teve de partir inesperadamente. Desde de então nunca mais parei de desenhar.
- Não sabia que eras um artista. – sorri, descendo as restantes escadas.
Ele soltou uma pequena gargalhada.
- Não sou bem um artista. – corrigiu – Apenas gosto de desenhar, só isso.
- E que desenhas? Posso ver?
Caminhei, curiosa, para ele. Ele ergueu-se, abraçando o desenho contra o peito, com uma pose um pouco defensiva. A expressão sorridente na minha cara transformou-se numa preocupada. Será que o ofendi?
- Desculpe. A minha intenção não te era ofender.
- De modo algum me ofendeste. – sorriu ele – Apenas não sei se quero que vejas o desenho que estou a fazer.
- Porque não haverias de querer que eu o veja?
- Porque é um retrato teu.
O meu sorriso ficou pausado um pouco com a honestidade dele.
- Desculpa a minha audácia. – sorriu ele com nervosismo – Por desenhar-te sem te pedir permissão. É que és tão bela que não resisti, tinha de te desenhar.
Corei um pouco com a honra de ele me ter desenhado.
- Então eu quero ver o meu retrato. – sorri-lhe por fim.
Giovanni sorriu-me e deu-me a placa de madeira que tinha junto ao peito. Sobre ela estava uma folha de papel branco com o meu retrato desenhado a carvão. Era eu! De algum modo ele conseguiu captar toda a minha essência num pedaço de papel. Os meus olhos gritavam toda a minha personalidade e desejo de ser livre.
- Espero que não estejas muito desapontada. – corou Giovanni.
- Como poderia estar? – indignei-me – Isto é trabalho sublime! Parabéns, Giovanni. Tens um dom, tens mesmo.
- Oh, obrigada. – sorriu ele, corando. - És demasiado gentil.
- Gentil? Apenas estou a ser sincera.
Ele sorriu e caminhou para junto de mim. Em seus olhos espelhava-se um brilho diferente. Ele olhava-me com carinho. Sua expressão estava séria e aproximou-se de meu rosto. Por momentos senti-me eu própria a corar. Ele estendeu o rosto. Minha cabeça baixou-se e ele parou. Estendi-lhe a placa de madeira com o meu retrato.
- Obrigado por me ter desenhado. – agradeci-lhe – Temos de combinar um dia para eu pousar para ti e me desenhares mais formalmente.
- Sim, claro. – na sua voz havia um tom de decepção e um falso sorriso surgiu-lhe nos lábios.
Caminhei para a cozinha e enchi uma caneca com leite caseiro. Bebi-o enquanto olhava pela janela. A memória do Anjo, novamente. Porque não conseguia deixar de pensar nele? A sua pose altiva que tanto tinha de arrogante como de galante. Os seus incomuns olhos negros sem vida cuja expressão que continham não conseguia decifrar. A sua pele; tão pálida e tão fria. E a sua beleza. Tão rara e tão perfeita. O seu rosto, impossível de esquecer, parecia esculpido pelos grandes mestres da época Clássica. E as suas vestes negras de veludo; pareciam tão ricas. Ele devia ser rico, pelo porte e pelo traje. Mas não lhe importava isso; ele era tão misterioso. E fascinante.
- Em que tanto pensas? – a voz de Giovanni interrompeu-me os pensamentos.
- Há alguma família rica em Volterra?
Estava de costas para ele, não conseguia ver sua expressão, mas calculei que a minha pergunta o tenha surpreendido.
- Volturi. – completei.
- Onde ouviste esse nome? – questionou-me uma nova voz feminina.
Olhei para trás e vi Fioralba com uma expressão de choque e preocupação. Olhei-a com surpresa e não percebi o porquê da sua reacção ao apelido de Caius.
- Passei por uma loja e ouvi o nome. – menti – Disseram que é uma família muito rica.
- Isso é uma mentira. – garantiu Fioralba em tom sério – A família Volturi já não existe. Morreram todos num incêndio á anos atrás.
Uma onda de choque percorreu o meu corpo. Como podiam estar mortos? Se Caius Volturi surgiu diante mim. A não ser que ele me tenha mentido. Mas ele dissera que os seus pais morreram á muitos anos. Talvez tenha escapado! E ninguém sabido disso.
- Oh! – exclamei com tristeza.
- Estás a falar a verdade, Athenodora? – questionou-me Fioralba com desconfiança – Esse nome. Ouviste-o mesmo quando estavas a passar numa loja?
- Claro. – garanti – Onde mais o poderia ter ouvido?
Fioralba olhava-me séria. Nunca a havia visto assim. Sempre tão doce e simpática. Estava agora preocupada, indignada, chocada, séria, desconfiada. E receosa. Apenas eu não compreendia o que se estava a passar.
- Deixe-a, mãe. – entreviu Giovanni – Ela não sabe de nada.
- O que está a acontecer? – questionei-os – O que é que eu não sei? Que terra é esta onde vim parar? Quem são os Volturi, afinal? Porque reagiu assim quando eu disse o nome deles?
- Estás em Volterra, querida. – respondeu-me Fioralba – Os Volturi eram os antigos donos de Volterra. Quando as trevas reinavam nesta terra, eles comandavam. E eram tempos negros, muito negros. Nunca queiras ter vivido nessa altura. Pois se não fossem os meus antepassados e o que eles fizeram, nenhum de nós estaria aqui neste momento.
- Quem são os seus antepassados? Que fizeram eles aos Volturi? Mataram-nos?
Fioralba riu-se com ironia.
- Oh, querida! Não. Ninguém consegue matar os Volturi. Apenas os selaram de onde eles não podem sair. Antes, eles eram livres. E podiam caminhar pelas ruas durante o dia, alimentando-se do sangue de qualquer humano que se lhe atravessasse á frente. São assassinos sem piedade, os Volturi.
- Alimentavam-se de sangue? – repeti, sem acreditar no que estava a ouvir.
- Sim. – confirmou Fioralba – Mas os meus antepassados eram conhecedores de magia poderosa. Muito poderosa. E lutaram contra a natureza dessas criaturas do Diabo. Conseguiram mudá-la. E quando eles caminhassem sobre o sol ardente, todos saberiam que eles eram diferentes. E apesar de seus poderes serem poderosos, os humanos puderam-se defender.
- Magia? Criaturas do Diabo?
Estava confusa e aquela conversa era simplesmente de loucos! Sempre tomara Fioralba como uma mulher racional mas agora parecia maluca a dizer tais coisas!
- Com todo o respeito, Dona Fioralba, não acha que leva demasiado a sério as velhas lendas?
- Lendas? – repetiu – Eu não te estou a contar lendas ou mitos que os meus pais e avós me contaram! Eu estou a contar-te factos que aconteceram. E foram apagados da História! Foram tempos terríveis. E eu vivi-os! Era ainda uma pequena rapariga quando vi com estes dois olhos os Volturi a matarem pessoas no meio da rua. Mas não estão mortos. Ainda vagueiam por ai, tenho a certeza. Apenas se mantêm escondidos dos humanos, pois a ameaça dos meus antepassados foi-lhes feita. Eles irão cumpri-la. Porque apesar de assassinos sugadores de sangue, são muito cumpridores das leis.
Não sabia o que dizer. Limitei-me a fitar Fioralba, com uma expressão idiota e pasma. Onde fora ela tirar tanta imaginação? Espero que não acredite que eu vá acreditar neles contos! Pessoas que sugam sangue?
- Mantêm-te afastada das ruas á noite. – voltou a pedir Fioralba.
- Senão sou atacada por um sugador de sangue?
Não me consegui conter; era demasiado ridículo. Fioralba olhou-me com um olhar repreensivo.
- Pois sim! – afirmou Fioralba.
Caminhou para o interior da cozinha e começou a preparar o seu pequeno-almoço. Por momentos tive a sensação que me ia expulsar de sua casa. Afinal fui rude. Mas que hipótese tive? Contar-me lendas antigas de sugadores de sangue como se fossem factos verídicos!? Podia aparentar ser uma rapariga vazia por ser rica, mas fui educada com bons tutores! Tive uma instrução rica em literatura, História, filosofia, artes. Não sou nenhuma campónia que acredita em qualquer história. Além disso, como podia ser Caius Volturi um assassino sem piedade?
CONTINUA...
