CAPÍTULO V
~ Athenodora ~
Estava sentada na minha cama. Pensava em Caius Volturi. Tinha de o encontrar. Tinha de ver aquele perfeito ser diante de meus olhos. Pois meu coração batia forte por este homem misterioso cuja paixão platónica eu alimentava na minha solidão. Descrito por Fioralba como um sugador de sangue, assassino sem piedade. Mas eu não podia querer nessas velhas lendas! Tudo isso era inventado! Caius não era nada disso! Pensava no que havia dito a Fioralba. Senti que fui rude e acho que lhe devo pedir desculpas. Ela não tem culpa por acreditar nas lendas que aqueles que a criaram lhe contaram em pequena. Quando somos crianças sempre acreditamos em tudo. Mas Fioralba já não é uma criança! É uma mulher com filhos crescidos.
Os meus pensamentos foram interrompidos por alguém a bater á porta de meu quarto.
- Entre.
A porta abriu-se e vi o rosto de Fioralba a olhar-me. Fiquei surpresa pela visita dela mas feliz por lhe poder oferecer desculpas. Sorri-lhe. Ela entrou no quarto e encostou a porta.
- Devo-lhe um pedido de desculpas. – comecei – Fui muito rude com o meu comentário. Peço desculpa.
- Não precisas. – sorriu Fioralba – Mas desculpas aceites.
Ela sentou-se ao meu lado na cama.
- Eu sei que isto tudo te está a deixar muito confusa. – disse ela – Eu compreendo que reajas desse modo. É natural. Apenas estou preocupada com o teu bem-estar.
- Não necessita estar.
- Mas necessito. – garantiu-me Fioralba – Tu és uma rapariga muito… fascinante. Atrais atenções. Tenho receio que atraias a atenção dos Volturi.
- Não, isso não vai acontecer. – sorri falsamente.
Na verdade é que já aconteceu. Mas não posso deixar Fioralba preocupada, ela tem os seus próprios filhos para se preocupar.
- Esperemos que não. – suspirou ela – Para o teu próprio bem.
Ficamos em silêncio por alguns momentos. Pelo canto do olho, olhei o perfil de Fioralba. Seu rosto marcado pelos anos tinha uma expressão preocupada. Ela é uma boa mulher. E merecia uma vida melhor do que aquela que leva. Sinto-me mal por lhe mentir. E por achar que o que ela me conta são mentiras. Mas não posso acreditar que Caius seja assim como o descreve. Não pode ser!
- Já me tinha esquecido completamente! – exclamou num grito Fioralba.
Assustei-me e olhei-a.
- Hoje á noite, Volterra está em festa! – sorriu ela – Vai haver uma festa de máscaras. Estamos na altura do Carnaval!
- Sério?
Como me podia ter esquecido!? Sempre adorei o Carnaval! Em Bologna costumava-se realizar uma grande festa no meu palácio. Calculo que com a minha fuga não haja festa este ano.
- Temos de tratar dos nossos disfarces! – sorriu Fioralba, animada. – ELOISA!
Do corredor veio resmungos. A porta abriu-se e surgiu Eloisa Franca atrás de nós, com uma expressão irritada no rosto feio.
- Que foi?
- Logo á noite vai haver o baile de máscaras de Carnaval. – informou Fioralba.
- E…?
- Temos de preparar os nossos disfarces. – concluiu Fioralba – Vamos lá ao teu guarda-fatos para encontrar um vestido para a Athenodora.
- O quê?! – guinchou ela, incrédula.
- Oh, não é necessário. – disse.
- Claro que é! – insistiu Fioralba – Vais a um baile de máscaras! Tens de ir mascarada. Os vestidos da Eloisa devem-te servir perfeitamente.
- Ela não vai vestir os meus vestidos! – apontou Eloisa com uma voz ríspida. – Nem pensar!
- Que se passa aqui? – a voz de Giovanni surgiu á porta.
- A mãe quer obrigar-me a emprestar um dos meus vestidos á Athenodora!
- Ah! – exclamou em alívio, Giovanni – Porquê?
- Hoje é o baile de Carnaval. – respondeu Fioralba – Já tens o teu disfarce, querido?
- Claro. – sorriu Giovanni – Vai ser uma noite animada.
- Quero ver! – exclamou Fioralba – Mostra-me!
Fioralba saiu do quarto com o filho mais velho. Eloisa suspirou furiosa e apontou-me o dedo indicador em ameaça.
- Se pensas que vens para esta casa para seres melhor do que eu, estás muito enganada!
- Eu não tenho qualquer desejo de provar que sou melhor que tu. – respondi-lhe.
- É bom que não tenhas. – cuspiu ela – Porque não és! E nem penses que irás usar um dos meus vestidos. Usa o que sempre trazes vestido. É o único que tens!
- No meu palácio tenho milhares de vestidos. – respondi-lhe.
- Se não tivesses fugido, ainda os tinhas. – sorriu com cinismo – E senão tivesses fugido, não teria de aguentar contigo aqui em casa. E nem estarias a incomodar a vida dos outros!
Fechou a porta com força suficiente para fazer barulho. Ouvi discussões no corredor entre Fioralba e Eloisa.
- "Quem é que pensas que és, Eloisa? Para tratar assim os meus convidados! Vê se ganhas educação!"
- "A mãe é que a trouxe aqui para casa! Esperava que eu a aceitasse de bom grado? Gosta mais dela do que de mim!"
- "Uma cena de ciúmes agora, Eloisa? Talvez se fosses mais digna eu te desse mais valor!"
- "Vê como a mãe me trata?! Ela agora é a mais querida para vocês os dois!"
- "Não me metas nessa conversa, Eloisa!"
Ouvi Giovanni falar.
- "Porque não? Já reparei no modo como olhas para ela! Estás completamente apaixonado, não estás? Pois bem, desiste. Ela deve preferir os homens ricos aos pobres como tu! E que fazes tu da vida? Passas os dias a rabiscar papel com carvão em vez de ajudares o pai no trabalho!"
-"Não falas nesses modos com o teu irmão! Ele trabalha mais do que alguma vez mais trabalhar na tua vida!"
Tapei os ouvidos com as mãos. A discussão passou a ser somente ruídos sem nexo. Não era bem-vinda ali por Eloisa. Isso eu já sabia. Ela tinha ciúmes e inveja de mim. A minha intenção não era destabilizar o ambiente familiar de outra família. Apenas quis fugir do meu destino de me tornar esposa de um homem que não amo. Agora, tudo parecia desvanecer.
CONTINUA...
