CAPÍTULO VI


~ Athenodora ~


Era noite de festa em Volterra. Eloisa foi obrigada a ceder-me um vestido. E fez questão de mostrar mau grado nisso. Ela vestia um de veludo vermelho-sangue e usava uma máscara do mesmo tecido e da mesma cor.

Volterra mostrou-me uma cidade belíssima durante a festa. Os enfeites vermelhos e dourados brilhavam na escuridão da noite. A fogueira acesa no meio do adro, junto á igreja, aquecia o ar. Todos sorriram por detrás das mascaras que traziam. Alguns usavam máscaras de madeira, outros de veludo bordado, de outros materiais. Dançavam de mãos unidas em redor da fogueira. E havia uma banda tocando instrumentos e musicais tradicionais. Eu estava com um vestido de um branco puro, em cetim barato. O meu cabelo louro estava atado na minha cabeça. E a minha máscara era em veludo branco, que tapava-me somente a linha dos olhos.

- Pareces um anjo esta noite.

Olhei para as minhas costas e reconheci o disfarce de cavaleiro de Giovanni. Sorri-lhe.

- Obrigado. – agradeci.

- Danças comigo? – convidou-me Giovanni estendeu-me a sua mão.

Aceitei-a. Porque não? Caminhamos de mão unida no ar até junto dos outros dançantes, que agora se tinham juntado em pares. A música mudou para uma dança que iria ter a participação de todos os dançarinos, já que todos iriam dançar uns com os outros, pois ao longo da música os pares trocavam.

Os dançantes organizaram-se por duas filas com o mesmo número de pessoas. Quando a música se iniciou, avançamos e as palmas das mãos uniram-se, eu e Giovanni demos uma volta completa. Depois caminhei para a minha esquerda e uni a minha palma com outro par. E fui rodando, trocando de par. Olhava em redor, na esperança de ver Caius por entre os presentes na festa. Foi então que o vi! Por entre os pares da dança. Seus olhos negros estavam cravados em mim. Rodopiei novamente e a minha palma uniu-se com a de uma rapariga. Estávamos próximos. Estava na altura de trocar de par e rodei para a minha direita. A palma da minha mão uniu-se á palma da mão coberta por uma luva negra de cabedal de Caius. Seu semblante estava coberto com uma máscara de veludo negra e seus cabelos louros tão claros estavam atados na parte detrás de seu pescoço com um laço de cetim negro. Os nossos olhos encontraram-se. Perfurei fundo no negrume daquele semblante. E o negrume perfurou fundo no avelã de meus olhos. Era como se procurasse a minha alma. No meu peito o meu coração acelerou. Os pares trocaram novamente. Rodei para a minha esquerda e a minha palma uniu-se á de Giovanni. Os meus olhos procuram Caius, novamente. Os nossos olhos nunca se separando.

- Estás bem? – questionou-me Giovanni, discretamente.

- Nunca estive melhor.

Os pares trocaram outra vez. A minha palma regressou á de Caius. Minha respiração estava a tornar-se ofegante pelo turbilhão de emoções que explodia no meu peito naquele momento. Podia desmaiar, podia morrer olhando aquele anjo!

- Quem é o rapaz com quem começastes a dança? – questionou-me Caius.

- Giovanni. – respondi-lhe – É o filho mais velho da dona da casa onde estou a viver.

- Vós agradais a ele. – cuspiu Caius – Gostais dele?

- Meu coração pertence-vos.

A dança terminou. Frente a frente, fizemos uma vénia para encerrar. Ele fitou-me o semblante. Aproximou-se de meu rosto com uma velocidade impressionante e sua mão tocou-me o rosto e seus lábios sussurram-me ao ouvido:

- Quando o relógio soar a meia-noite. Na praça.

Afastou-se de mim e fez uma vénia, novamente. Atrás dele vinha Giovanni. Eles trocaram olhares de ódio por momentos, depois caminharam cada um o seu caminho.

- Quem era? – questionou-me em voz autoritária.

- Não o conhecia. – menti.

- Pareceu-me que o conhecias bastante bem.

- Pareceu-te. – repeti.

Caminhei para longe da zona de danças. Olhei o relógio da igreja. Marcava as onze e quarenta e cinco. Dei a mão a Giovanni e levei-o até Fioralba e seu marido. Estavam sorridentes, movendo o corpo á melodia das canções. Ao pé do balcão das bebidas estava Eloisa bebendo vinho barato e fitando-me com olhar de ódio.

- Então, queridos, estão a desfrutar da festa? – sorriu-me Fioralba.

- Sim, está a ser muito animada. – sorri. – Mas receio que estou a ficar cansada. Talvez irei regressar.

- Já? – indignou-se Fioralba – Ainda nem meia-noite é!

Esforcei-me por não revirar os olhos, por não suspirar com impaciência. Nunca iriam perceber porque eu tinha de ir. Mas Caius esperava-me.

- Sinto-me muito cansada.

- Vou contigo. – decidiu Giovanni.

- Não é necessário. – disse-lhe – Não irás perder o baile por minha causa!

- Não há problema. – ele sorriu – Haverá muitos outros bailes.

Sorri-lhe. Lamentei a minha hipocrisia naquele instante. Eloisa deixou o bar e saiu da festa, por uma rua. Acabei por concordar com Giovanni em ele me acompanhar. Caminhamos os dois em direcção a casa. Fingi que estava muito cansada e que iria dormir. Ele também se fechou no quarto, mas ficou acordado a desenhar. Senti-me irritada com ele. Meu encontro com Caius Volturi estava marcada para agora. Soava a meia-noite. Mas Giovanni não adormecia.


~ Caius ~


O relógio soou a meia-noite ao longe. A praça estava deserta. Esperei que Athenodora aparecesse. Ouvia passos de uma mulher ao longe. Mas aquele cheiro não era dela. Este era um cheiro ordinário e velho, muito diferente do perfume elegante e discreto de Athenodora. Tinha ainda um toque de álcool, de vinho barato vendido na festa. Os passos pararam atrás das minhas costas.

- Viestes ter com a rapariga rica? – questionou-me uma voz feminina.

Olhei-a e vi um rosto feio de uma mulher encarar-me. Tinha os cabelos castanhos sem formas e sujos mal apanhados na nuca. Tinha uma expressão ordinária no rosto e suas mãos esqueléticas agarravam a gola de veludo da minha capa. Olhei o pescoço descoberto dela e senti o cheiro a um líquido quente pulsante. Sangue. Aquele cheiro ferrugento tentava-me. Mas antes, iria divertir-me um pouco com esta mortal.

- Eu vi-vos ontem á noite mais ela. – continuou – Agora é a perfeita, ela. A querida e a mais bela. Mas não vos pode dar o que eu posso.

- E o que é isso?

A garota sorriu ordinariamente e fez seus dedos tísicos percorrerem o peito ossudo.

- Eu.

Ela riu-se como que embriagada.

- Como sois perfeito! – exclamou ela. – Eu posso-vos dar este corpo! Tomai-me em seus braços! Sou vossa!

As mãos ossudas dela desceram pelo seu corpo magro e levaram consigo as vestes pobres e sujas, mostrando-me os seus seios pequenos e as ossadas de sua caixa torácica. Pois era ela subnutrida. Estava aquela criatura hipnotizada pelo meu poder e seus dedos chamaram-me para ela. Ela caminhava, sorridente. Levava-me para um lugar discreto. Perfeito. Como são estas mulheres fáceis de enganar! Levou-me para uma casa velha. Estava escuro e ela tropeçava por entre as madeiras do chão. Encostou-se a uma parede e puxou-me pelo veludo negro de meu manto.

- O meu nome é Eloisa. – informou-me ela – Qual é o seu?

- Caius.

- Hmm, Caius? – repetiu – A lunática da minha mãe costumava-me contar história de um Caius.

- Ai sim? – desconfiei – E que lhe contava ela?

- E que importa isso? – riu-se ela.

Estou impaciente e agora aquela inútil bêbada colocou-se no meu caminho. No entanto, era uma refeição antes de me encontrar com Athenodora. Agarrei-lhe o pescoço e rodei-lhe a cabeça. Aquela criatura continuou a falar palavras ordinárias. No seu pescoço branco as veias pulsavam. Minhas narinas dilataram-se ao sentir o aroma do sangue. A minha boca abriu-se e senti minhas presas crescerem e tornarem-se afiadas. Meus olhos estavam vermelhos. E ela não cessava as frases. Minhas presas afiaram-se ao máximo e cravei-as na carne do pescoço. Ela gemeu de dor e senti o seu corpo a cair pela parede. O sangue dela desceu por minha garganta, cessando minha sede.


~ Athenodora ~


Finalmente senti-o a dormir. Ergui-me da cama e caminhei para o andar de baixo. Meus pés quase que caminhavam no ar de tão silenciosos. Fechei a porta. Nas ruas um frio vento bailava. Corri para a praça. Mas encontrei-a deserta. O relógio já batia a meia-noite e meia. Maldito, Giovanni! Terá Caius se cansado de esperar por mim e foi-se embora? O vento da noite era gélido e arrepiava-me a pele branca dos braços. Olhei em redor. Não havia sinal de movimento. Esperei mais um pouco. Com uma certa impaciência. Até que se tornou claro que ele se tinha cansado de esperar. Corri de volta a casa dos Franca. Deitei-me na minha cama fria e cobri-me com os cobertores.


CONTINUA...