CAPÍTULO VIII
~ Athenodora ~
Era noite quando chegamos a casa dos Franca. Todos vínhamos com uma expressão sofredora e triste. Afinal, apesar de Eloisa me odiar tinha sido uma grande perda para Fioralba e não conseguia ser imparcial á sua dor. E a minha dor era um modo de compaixão para com ela. O marido de Fioralba foi para a cama mais cedo. Ela e Giovanni acompanharam-me num serão na cozinha. Colocaram três canecas com leite caseiro na mesa, mas ninguém estava com apetite ou disposição para beber ou comer o que fosse.
- A minha única filha… - suspirou Fioralba.
Baixei a cabeça. Naquele momento não sabia o que dizer. Não podia elogiar Eloisa. Ela nunca me tinha dado razões para o fazer. Mas o que lhe acontecera não lho desejasse de modo algum. Apesar de, muito provavelmente, ela mo desejar a mim.
- Aqueles monstros. – rugiu entre dentes Giovanni – Pensava que jamais iriam atacar novamente. E atacaram logo a minha irmã!
Olhei-os sem compreender.
- Mas iremos ter a nossa vingança, Giovanni, meu filho. – garantiu Fioralba – Eles podem até me levar com eles, mas não sem antes eu os destruir. Deve haver alguma maneira de os matar!
- Eles? – repeti.
- Os Volturi.
Ao ouvir este momento estremeci.
- Eles assassinaram a minha irmã. – cuspiu Giovanni, com ódio espelhado nos olhos.
A minha boca descaiu, incrédula. Os Volturi assassinaram Eloisa. Caius assassinou Eloisa? Não pode ser! Tem de ser mais uma mentira. É impossível. As minhas pálpebras cerraram-se, para conter as lágrimas. Acenei em negação com a cabeça.
- Isso é uma mentira! – gritei.
Ergui-me da mesa, com o rosto manchado de lágrimas. Fioralba e Giovanni olhavam surpresos para mim. Fioralba ergueu-se, igualmente. Seu rosto estava sério e repleto de ódio.
- Aqueles monstros sedentos de sangue mataram a minha filha.
- Não pode ser! – chorei.
- Eu vi com os meus olhos a marca no pescoço dela. Sugaram-lhe o sangue, aqueles morcegos!
- Ele não é assim! – gritei-lhes.
- Ele? – ergueu-se Giovanni – De quem estás a falar? Porque que os defendes desse modo? Que tens tu a ver com os Volturi?
Tapei os meus lábios com a mão, impedindo-me de gemer em choro. As lágrimas não paravam de cair. Caius, um assassino? Que assassinou Eloisa… Tem de ser mentira.
A expressão de Fioralba mudou para uma incrédula e perdida em pensamento. Depois olhou-me com ódio.
- Todo este tempo… - cuspiu ela – Tu és uma deles!
- O quê? – questionei.
- Tu és uma Volturi! – Fioralba apontou-me o dedo indicador – Vocês assassinaram a minha filha!
- Não!
Acenei em negação com a cabeça, enquanto comecei a caminhar para trás.
- Eu não sou uma Volturi! – garanti-lhes – Só existe um! Caius.
Fioralba parou. Seu braço baixou-se.
- Só um? Que aconteceu ao Aro e Marcus?
Quem era eles? No meu rosto espelhou-se uma expressão confusa. Nunca tinha ouvido falar em tal pessoas.
- Sabes quem eles são?
Acenei negativamente com a cabeça.
- Ela não é uma Volturi. – concluiu Giovanni.
- Quem são o Aro e o Marcus? – perguntei-lhes.
- São os irmãos de Caius. – respondeu Fioralba.
Não sabia que Caius tinha irmãos. Neste momento apercebi-me de que nada sabia acerca do homem que amava mais que a minha própria vida. E que ele era um assassino.
- E eles foram-se! – cuspiu Giovanni.
- Foram-se?
- Matamo-los! Matamo-los a todos! – aquela revelação embateu contra meu corpo com brutalidade tal que podia ter caído naquele momento.
Mataram-nos? Caius Volturi estava morto? Como? Disseram que força alguma os poderia destruir. Não podia ser verdade. Meu coração podia ter parado naquele momento, tal como aconteceu á minha respiração.
- Irei deitar-me. – suspirei, com minha mão na minha testa.
Meu corpo parecia tonto. Subi as escadas e fechei-me no meu quarto. Deixei-me cair na cama e cobri-me com os cobertores. Demorei a adormecer. Mas depois a melodia do sono venceu-me e meu corpo adormeceu.
~ Caius ~
Olhando-a dormir. Assemelha-se a um anjo. Seu corpo pálido ao luar torna-se quase transcendente. Daria uma vampira deliciosa, de facto.
- Meu amor. – suspirou ela, enlaçando-me o corpo com seus braços quentes.
Abracei-a em meus braços de pedra, sentindo o corpo magro contra o meu. O seu perfume era sorvido por meu nariz. O perfume de seu sangue. Tentava-me. Beijei-lhe os cabelos louros.
- Quero estar convosco. – suspirou Athenodora – Para sempre.
- Não tendes consciência do que falais.
- Sei, sim.
As mãos quentes dela atraíram-me o rosto para o dela e nossos lábios uniram-se.
- Receava nunca mais sentir o vosso toque. – suspirou ela – Julgava-vos morto.
Puxei a mão dela para mim e posei-a sobre meu peito sem coração. No rosto dela uma expressão surpresa.
- Não existe vida neste corpo.
Um suspiro de surpresa soltou-se dos lábios dela.
- Mas vives! Vives! – admirou-se ela - O que sois vós? Necessito de saber! Tenhais de me dizer!
Baixei minha cabeça; que confusão nela.
- Sou …nada. – comecei – Sem vida. Sem alma. Odiado e temido. Estou morto para todo o mundo. Eu sou o monstro que os homens querem matar. Sou um monstro que se alimenta de sangue humano. Sou Caius Volturi.
Ouvia-a soltar um gemido de dor e choro. Lançou-se sobre mim com seus punhos cerrados a bater-me no peito.
- Assassinaste a Eloisa! – gritou ela em lágrimas.
Seus braços magros embateram contra meu peito de pedra. Apesar de nada sentir, sentia uma dor profunda. Pela dor que lhe estava a causar. Ela batalhava contra meus braços e batia-me interminavelmente, num misto de choros e rugidos de ódio.
- Amo-vos! – gritou por entre choros – Que Deus me perdoe, mas amo!
Seus punhos desfaleceram e suas mãos desceram-me pelos braços, agarrando a minha carne em necessidade.
- Eu quero ser o que vós sois! – confessou-me – Alimentar-me do que vós vos alimentais! Ver o que vós vejais! Trilhar os caminhos que vos trilhais!
- Para me acompanhares, tenhais de morrer nesta vida e renascer na minha.
- Vós sois o meu amor! E minha vida, eternamente!
Abracei-a forte em meus braços e apertei-a junto a meu peito. Inclinei-a para meu lado, segurando-lhe a cabeça com minha mão. Toquei-lhe o rosto.
- Dou-vos a vida eterna. Amor eterno. – afaguei-lhe o rosto – Dou-vos a fome de sangue e os poderes das tempestades. Caminha comigo e serás minha amada esposa, para toda a eternidade.
- Sim, sim!
Meu rosto desceu-lhe pelo pescoço. Senti o aroma tentador de seu sangue a dilatar-me as narinas. Meus lábios pousaram nele e abriram-se, revelando presas afiadas. Cravei-as na carne branca. Ouvia-a soltar um gemido de dor. O seu sangue desceu por minha garganta.
- Não! – rugiu – Não posso permitir isto!
Ela olhou-me em expressão de sofrimento.
- Por favor, não me importo!
- Serás condenada a caminhar na sombra da morte para toda a eternidade. – relembrei-lhe – Amo-vos demasiado para vos condenar.
- Levai-me para longe de toda esta morte. – gemeu ela.
Suas mãos agarravam-me o manto negro com força. Seu corpo tremia. O veneno que lhe passei para as veias ainda não era suficiente. Iria mata-la ao invés de a transformar em vampira. Minhas presas cravaram-se na ferida. Mas não lhe bebi sangue, deixei que meu veneno escorresse para o sangue dela. O corpo dela gemia em espasmos de dor. Deitei-lhe o corpo da cama, o sangue escorria-lhe do pescoço. Suas unhas cravavam-se em meus braços, na minha carne, que se regenerava de seguida. Seus olhos estavam esbugalhados em dor. Estava ofegante. O ar estava a fugir de seus pulmões. A transformação já começara.
CONTINUA...
