Caminhando na areia

No horizonte, além das janelas a oeste do oeste que se abrem para os limites do mundo, ameaçava fraca e silenciosamente, uma longa risca negra, cheia de ódio e sedenta de vingança. Era quase possível sentir a sua respiração arrastada e seu grunhido animalesco exalando um bafo fétido e hostil.

- Manwë Súlimo, meu senhor, por que não diz logo o que o preocupas? Não importa o quanto tente afastar-me o pensamento, sei o quão extraordinárias são suas visitas à Eldamar.

Um ser, grande demais para ser um homem ou um elfo, muito belo e resplandecente para ser desse mundo, sorriu amigavelmente diante de tal sentença. Seus cabelos eram escuros como o céu de outrora - antes que Elbereth, a Gilthóniel dos elfos, erguesse ao firmamento as lâmpadas que iluminam o mundo - cascateavam lisos pelas suas costas cobertas por uma longa manta alva, que se unia em brilho à sua áurea.

- Conhece, Elrond meio-elfo, a história de Arda quando ainda precisava ser embalada junto ao seio, como uma cria recém-nascida, antes de dormir?

O elfo, aquele que havia se pronunciado primeiro, sentiu como se todos os ventos de Arda, espiralassem em torno de si naquele instante, e sentiu seu coração tremer. Não importava quantas vezes aquela criatura majestosa viesse ao seu encontro, o poder que dela emanava era devastador, ele meneou afirmativamente a cabeça, e seus olhos se encheram de tamanho louvor quando fitaram o supremo Vala ao seu lado.

- Então sabe o que existe além das fronteiras do mundo, e sabe que aquilo anseia pela volta. Com o poder que possui tenho certeza de que também sabe o que aconteceu durante as Eras recentes, e as duas derrotas do seu melhor vassalo multiplicou de tal forma sua fúria e urgência em sua vingança, que as paredes de Arda se agitam e tremem perigosamente. As criaturas malignas do submundo sentem quando o seu mestre está preste a voltar e se reúnem por entre chiados maléficos e tramam a ressurreição das Sombras.

Elrond compreendeu aquelas palavras e sentiu medo. Havia enfrentado por duas vezes a ameaça do Escuro, mas nunca do Escuro verdadeiro.

- O que faremos então, Senhor?

- Sei de criaturas que, faz exatamente sete anos, assim como sete são os Valar, enfrentaram o maia traidor de Aulë, e saíram vitoriosos. Nove são eles e apenas dois encontram-se aqui no Oeste. Um deles é Legolas filho do rei Thranduil da Floresta das Trevas, o outro é um pequenino, Frodo, filho de Drogo, do Condado.

- Fala da sociedade do anel, mas ela fracassou. Boromir está morto, uma lacuna que não há de ser preenchida.

Neste instante, ambos pararam diante de um pequeno recife à beira do mar que se estendia ao longo de toda a extensão de Eldamar, e no centro dele havia uma cavidade arredondada preenchida pela água salgada, estava lisa e quieta como um espelho. O Vala adiantou-se até ela, seguido pelo elfo, e estendeu a mão direita com a palma voltada para baixo, acima da poça. As pedras e corais depositados em seu fundo desapareceram, e um turbilhão de cores e formas começou a se formar. Então, uma voz límpida e aguda, como o bater das gotas da chuva em cristais banhados pelo luar, encheu os ouvidos de ambos.

Gil-Galad foi um elfo-rei;

Ao som de harpas cantarei.

O último livre a reinar;

Entre essas montanhas e o Mar.

Longa a sua espada, a lança esguia.

Seu elmo ao longe resplandecia;

Milhões de estrelas lá no céu

Refletiam-se em seu broquel!

Há muito tempo foi-se embora,

E ninguém sabe onde ele mora;

Sua estrela na escuridão,

Em Mordor aonde as sombras vão.

Na superfície surgiu uma imagem, uma jovem de cabelos tão negros quanto os do Vala, e a pele tão clara quanto a Telperion. Ela estava em pé, diante de uma pia - não como as que se viam na Terra-Média, a água caía de um cano de ferro e podia ser controlada por uma espécie de registro - e olhava sonhadoramente o líquido que caía e molhava as suas mãos, ela cantava distraidamente uma rima que não se lembra exatamente onde havia aprendido, mas que traz certa paz ao seu espírito. Fechou a torneira e caminhou até uma janela. Estava em um apartamento, prédios erguiam-se a sua volta, e bem diante da sua janela, havia uma enorme extensão azul, o mar. Ela o fitava, como se buscasse algo além do horizonte, seus lábios pequeninos eram quase uma réplica dos botões de rosas que brotavam nos jardins de Yavanna, e lentamente moveram-se em um sussurro quase inaudível.

- Um dia eu encontro o meu lugar de verdade. - o fundo da poça voltou ao seu lugar, e a imagem da garota tinha sumido, como se jamais estivesse ali.

- Não o entendo Senhor. Essa criança se parece incrivelmente com os Homens de outrora, algo em sua face resplandece como o brilho perdido dos Dúnedain, ar aranatári . É possível que...?

Manwë riu-se do espanto do elfo, a paisagem à volta deles se dissolveu, e então estavam sentados nas escadarias brancas, aos pés da Taniquetil.

- "... E Númenor afundou no oceano, com todas as suas crianças, esposas, donzelas e damas altivas; - iniciou Manwë, como se relatando um escrito há muito decorado em sua mente - com todos seus jardins, salões e torres; seus túmulos e tesouros; suas jóias, seus tecidos, seus objetos pintados e esculpidos, seu riso, sua alegria e sua música; seus conhecimentos e sua tradição. Tudo desapareceu para sempre".

- O Akhallabêth, a queda de Númenor. - falou Elrond, ainda hipnotizado pelas palavras do Vala, que apenas acenou a cabeça e continuou a recitar.

- "E em último lugar, a onda que se avolumava, verde, fria e com uma crista de espuma, subindo pela terra, levou para o seu seio Tar-Míriel, a Rainha, mais bela do que prata, marfim ou pérolas. Era tarde demais quando ela se esforçou por subir pelas trilhas íngremes da Meneltarma até o local sagrado; pois as águas a alcançaram, e seu grito se perdeu no bramido do vento".

- Ainda não consegui, meu Senhor, entender a relação entre tudo isso.

- O que os Homens não sabiam, nem mesmo Ar-Pharazôn, o Rei, elfo Elrond, era que Tar-Míriel, também chamada de Ar-Zimraphel, estava grávida. E quando as ondas a levaram para o ventre do oceano, às portas da morada de Ulmo, Uinen, a Maia cedeu aos instintos maternos e se compadeceu da criança, a tirou de dentro da mãe já morta e a tomou para si. Mas o espírito do feto já havia abandonado o corpo em silêncio, e vagava erroneamente pelos jardins de Mandos, embora seu corpo se mantivesse vivo aos cuidados dos mares. Nienna, irmã dos senhores do espírito, recorreu a Eru, que concordou em fazer a criança voltar, mas não consegui ver o porquê na mente dele, abriu uma fenda no espaço, e a mandou para o outro mundo, a Arda paralela, onde as histórias e acontecimentos do reino de cá em nada influem. Apesar disso ter ocorrido há milhares de Eras, o tempo transcorrido aqui não equivale ao de lá, por isso a filha de Tar-Míriel não atingiu a maioridade, ainda.

- Uma númenoriana da Terceira geração viva! - exclamou Elrond - Nunca pensei que tal coisa pudesse acontecer!

- Uma Filha dos Homens de Outrora. A nona da sociedade. - sentenciou Manwë.

- Hîr Manwë Súlimo, arangwaew, como a traremos para cá?

- Isso não cabe a você, Elrond filho de Eärendil. Só quero que mande Legolas e o Hobbit para Gondor, e todos os outros membros da sociedade, também. Irmo Mandos e Námo Lórien cuidarão de guiá-los.

Dito isso, Elrond caiu no escuro, e quando a luz voltou aos seus olhos ele estava novamente só nas praias de Eldamar.


Reis dos Homens.

Mestre Manwë senhor do alento de Arda, rei dos ventos.