Para Anfalas!
Legolas se certificava de que seus pertences estavam seguros no dorso do pônei. A algibeira nas costas, facas no cinto, arco armado. Agora ele se sentia completo. Todo o tempo que passou em paz em Valinor não o deixara pensar em como se sentia inválido sem seus equipamentos e agora, sentindo o peso das flechas, era como se voltasse à vida após um longo sono, sentia como se estivesse no lugar certo na hora certa, como deveria ser. Acordado depois de uma longa hibernação.
Mais pessoas se dirigiram ao pátio de Gondor, em sua maioria súditos prestativos que faziam seus últimos favores ao seu rei. Carregavam armas, mantimentos e outros utensílios para os célebres viajantes. Foi difícil para Gandalf fazer os Hobbits se adiantarem, já que não conseguiam deixar de comer as tortas que as mulheres prepararam para o desjejum de despedida. Parecia uma festa. Músicos, dançarinos e bandeiras. Aqueles guerreiros já haviam salvado a sua terra uma vez, não poderia ser diferente agora, logo estariam de volta.
- Vão em paz, meu rei e meus amigos. Nai tiruvantel ar varyuvantel i Valar tielyanna nu vilya, que a viagem seja mansa e os perigos cegos para vocês. - Disse Arwen, plantando um beijo amoroso em seu esposo e correndo os olhos pelos outros, ternamente.
- Fique em paz, minha rainha e meus irmãos. Desde já me apresso em retornar aos seus braços. Até breve! - Aragorn saltou para o seu cavalo, tendo o gesto imitado por todos os outros. O povo urrou e aplaudiu enquanto a comitiva galopava portões afora.
Galoparam durante todo aquele dia sob as sombras das Montanhas Brancas, naquele reino de paz não precisaram se esconder de espiões maléficos, e muito menos travar combates contra orcs saqueadores. Preocupar-se com isso não era necessário, não até chegarem nas praias de Anfalas com seus temidos corsários traiçoeiros.
Shadowfax parou abruptamente e soltou um alto relincho. Gandalf tentou acalmá-lo, mas o cavalo ergueu-se sobre as patas traseiras e se abaixou novamente seguidas vezes, forçando o mago a fazer uma manobra estranha para saltar da sela.
Legolas pulou para o lado do cavalo, sussurrando frases em élfico muito rapidamente até que ele se acalmasse. Gandalf pôs-se de pé de olhos fechados, inspirando profundamente.
- Não temos muito tempo até que eles comecem a agir contra nós!
- Eles quem? - perguntou Pippin.
- Os servos do Mal, seu pequeno tolo!
- Sim, a fenda está cada vez maior... - disse Legolas, fixando a sua visão élfica na faixa escura que encobria boa parte do horizonte - O cavalo sente isso.
- Certamente, mas não podemos nos deter por causa disse. Ajude-nos Shadowfax e tudo logo encontrará um fim!
Retomaram a corrida. Gimli, agarrado às costas do elfo murmurou algo como "Hunf, feitiçaria élfica..." ao notar como a montaria de Gandalf não só estava mais calma, mas também muito mais ágil do que antes do ataque; o incidente perdeu gradualmente o peso do impacto inesperado que causara no grupo no decorrer do dia. Quanto mais avançavam para o sudoeste o tempo se abria, e o calor litorâneo abrasava as suas cabeças. Ao longe, se prestassem muita atenção, poderiam distinguir o som das gaivotas nos portos. O Sol estava imenso, suas cabeças estavam realmente quentes.
Rochas, pedras escuras e afiadas. Arrastou o braço e se feriu. Sangue. Seus pés estão em uma poça de água lodosa, o ar é úmido e muito pesado. Estava difícil respirar. Pode ouvir o som da água entrando novamente, ela não queria aquilo de novo, não suportaria. Não consegue enxergar direito, estava escuro. Correu, o limo faz com que seus pés escorreguem, corria a ponta dos dedos pelas paredes em busca de uma saída. A água está subindo pelos seus joelhos. Tire-me daqui. Rochas escorregadias. Caiu. Sentiu uma forte dor na cabeça antes de perder os sentidos.
- SEU ELFO MALUCO! - O anão espanava as roupas cobertas de pó, bufava de raiva e segurava o seu machado próximo ao rosto gordo e vermelho - VOCÊ QUER ME MATAR? ENTÃO ME CHAME PARA UMA LUTA, CRIATURA DIABÓLICA! - Partiu pra cima do elfo, mas foi impedido pelas mãos de Aragorn que o ergueram no ar. Gimli ainda professou mais hostilidades e balançou os pezinhos antes de se render.
- É a segunda vez que eu vejo você dormir assim, Legolas, algum problema? - Perguntou Frodo - Isso não é normal, não pode ser normal.
- É algum resfriado élfico?
- Elfos não ficam doentes, Pippin!
- Tá, Merry, mas...
- Deve ter sido o Sol!
- Calem-se, não vê que ele está atordoado?
Todos se afastaram um pouco e Legolas percebeu que estava estendido na areia e sua cabeça doía. Ergueu-se, mas sua visão escureceu e ele voltou para o chão.
- Está sangrando! - Exclamou Sam que prontamente retirou curativos de sua sacola e entregou a Gandalf que iniciou um exame ao ferimento do elfo.
- Ai! Pode deixar, eu estou bem. Precisamos chegar a Anfalas logo, antes que seja tarde demais!
- Fica quieto, Legolas. Não foi nada grave, mas ainda pode perder muito sangue se não fechar o curativo... Pronto. Não, você vai montar comigo e Gimli fica com Aragorn.
- Eu estou bem, já disse!
- Pare de resmungar, não há o que negociar aqui. Passaremos a noite em Pinnath Gelin, lá encontraremos casas amigas e poderemos descobrir o que o aflige, senhor Greenleaf.
Luzes fluidas dançando por entre cardumes multicores. Aurora boreal subaquática em cabelos noturnais. Dedos lânguidos e pálidos buscam pela mão fora d'água. Flores brancas flutuando na água. Niphredil de lórien, Niphredil de Nísimaldar. Estrela do Oeste.
O fogo crepitava no centro do círculo. Todos o olhavam em silêncio, com ares graves e preocupados.
- Eu... Eu não sei o que está acontecendo, eu não consigo me controlar, a escuridão me traga simplesmente. E quando eu acordo... Não sei. Não sei o que é isso.
- Você sonha com alguma coisa?
Cale-se.
- Não. Se eu sonho e-eu não lembro.
Legolas se levantou e deixou a casa do homem chamado Hamfast, um humilde lavrador muito fiel ao rei.
- Ele mente. - Sussurrou o velho, assim que Legolas fechou a porta atrás de si. Gandalf nada disse, mas os outros sabiam que ele concordava. Todos temeram pelo elfo.
