A Baía de Anfalas
A Baía de Anfalas. Sua visão supera qualquer descrição mortal. O azul resplandecente de suas águas espalhando-se por toda a extensão sob o Sol gigantesco num raio de milhas sem fim. Cristas alvas de ondas harmoniosas e regulares lambem a areia de grãos grandes e escuros, tentando alcançar a cadeia de rochas que circunda boa parte do litoral.
Legolas sentiu o seu coração parar ao admirar essa paisagem, não há nada que o toque mais do que o canto do mar. O clamor das trombas de Ulmo. Algo desviou a sua atenção. Uma melodia muda e silenciosa o puxou para trás. Voltou-se em direção á pertubação e se deparou com as pedras gigantes das Cavernas de Anfalas. O dormitório da tal numenoriana. Ele não estava nem aí pra tal garota, ele precisava saber quem estava nos seus sonhos. A água, a lua, as flores brancas. Telperion. Legolas nem lembrava o nome da herdeira, alguém o havia mencionado? Ele queria a Ninquelóte, a sua elfa silvestre. Linda. Ele a encontraria e a levaria para Eldamar, seria a sua esposa, mas antes precisava se livrar dessa missão. Precisava ficar livre e seguir seu próprio rumo. Maldita garota afogada!
- Ei garota! Se você estiver escutando, é melhor acordar rapidinho e facilitar as coisas!
Silêncio. Somente o canto das gaivotas. Legolas chutou uma porção de pedregulhos em direção às cavernas e correu para elas. Iria encontrar essa miseravelzinha , entregá-la para os outros e procurar por todos os lagos da terra-média pela sua Ninquelóte perdida.
Escalar aquelas pedras não era muito difícil para ele. Em questões de minutos ele já havia vasculhado quase todas as grutas inferiores, mas ainda lhe faltavam muitas.
O Sol já tinha passado pelo seu ponto mais alto e a trajetória de descida não demoraria em se adiantar, foi quando o elfo sentiu mãos agarrá-lo e cordas ásperas envolverem seus pulsos. Foi imobilizado. Gargalhadas. Pelo timbre de duas delas identificou que pelo menos essas pertenciam a outros elfos. Foi virado e empurrado de costas para uma parede rochosa.
O estado dos elfos e dos homens era lastimável. Dentes enegrecidos, pele amarelada; em um dos elfos todo o lado direito do rosto estava coberto por cicatrizes horrendas, e faltava-lhe uma parte da orelha. Olhos lunáticos, cabelos sujos e fedorentos. Legolas mal podia enxergar o brilho natural da raça naquelas duas figuras. Havia mais três homens ainda mais repugnantes, um deles não tinha metade de um dos braços e mancava pesadamente. Corsários!
O elfo que ainda tinha as duas orelhas espantou-se ao ver que se tratava de um irmão, mas sorriu ao notar as facas ricamente adornadas que o outro tinha no cinto.
- Temos jóias aqui!
- Afaste-se de mim.
- Eu não ousaria me aproximar, nobre elfo, mas a minha espada está louca para te dar um beijo!
Nisso o corsário sacou a arma e avançou contra o sinda, mas Legolas foi mais ágil e com uma hábil seqüência de movimentos com as pernas, desarmou o oponente e o levou ao chão, fez o mesmo com os outros homens, mas antes que se visse livre o elfo deformado saltou sobre ele com as mãos em torno do seu pescoço. O odor azedo de suor seco emanava daqueles trapos e o bafo que escapava da boca apodrecida atordoavam os sentidos aguçados de Legolas. O ar começou a faltar-lhe e, por mais que lutasse, suas mãos não alcançavam as armas.
Ouviu-se um zunido. O corsário élfico caíra morto no chão. O ruído se repetiu mais algumas vezes e em poucos segundos todo o bando jazia ao redor de Legolas com flechas cravadas em seus corpos. Ele se pôs de pé, desamarrou-se rapidamente e posicionou seu arco em direção à origem dos disparos. Risos.
- Se eu quisesse matá-lo já o teria feito, mestre elfo!
Uma criança saltou de trás de um rochedo e prostrou-se diante de Legolas com uma engraçada reverência.
- Eu sou Gumo, filho de Dumo, eu e meus irmãos trabalhamos para manter essa área livre de piratas e outras ralés. A partir deste ponto as pedras são sagradas. Há muitas gerações a minha família as guarda!
- Mesmo? E onde estão seus irmãos?
Gumo fez um gesto abrangendo o local ao redor.
- E os seus pais?
- Também!
- Se eles estão por aqui, por que não posso vê-los ou ouvi-los?
- Muito comum se tratando de espíritos.
- Quer dizer então que você vive aqui sozinho?
- Não sozinho, já disse! Fomos incumbidos de guardar essas cavernas, e não é a morte que vai nos impedir. Era para ser assim e a Grande Onda me poupou para continuar a linhagem.
- Grande... O que?
- A Grande Onda. De tempos em tempos ela nos visita, mantém o nosso tesouro vivo.
- Qual tesouro?
- Aquele que você quer.
- Legolas! – Uma terceira voz, familiar ao elfo, berrava alguns metros abaixo.
- Legolas, Legolas! – Um coro. Seus companheiros.
Gumo armou o arco e correu para eles, mas Legolas o impediu. O garoto abaixou a arma e olhou altivamente para o elfo.
- Se são seus amigos ficarão vivos, mas leve-os para fora daqui; volte sozinho se desejar, mas mantenha-os longe! Não continuarão a respirar se pisarem aqui novamente.
Legolas assentiu silenciosamente. Não saberia explicar como, mas algo o fez temer aquelas pedras, sentia-se cercado e observado. O mais sensato era tirar os seus amigos o mais rápido possível daquela região.
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- Acreditem em mim. É uma região maldita, mal-assombrada. Eu senti. A noite está caindo, não é bom que fiquemos perto dela. Vamos voltar amanhã!
Estavam de volta às areias da praia, todo o grupo prestava atenção às palavras de Legolas e muitos tremiam com a visão diante deles. Aquelas pedras eram de fato um mau agouro.
- Legolas, tem certeza de que está me dizendo tudo o que viu? – Gandalf sussurrou, examinava o elfo profundamente por trás de suas grossas sobrancelhas. Os olhos do mago vasculhavam a sua alma, sabia que Legolas escondia algo em seu coração, mas também estava certo de que não era maléfico para eles. Afastou o Sinda do resto do grupo, como se o chamasse para olhar as cavernas de um ângulo melhor. – Não importam as provações por quais tenha passado ou venha a passar, nós podemos ajudar. É para isso que estamos aqui.
Legolas ficou em silêncio, pesava em seu peito não poder confiar tudo o que sabia para os seus amigos, mas estava interiorizado em sua alma de que era importante passar pelo o que quer que fosse sozinho. Pousou a mão no ombro do velho, como se demonstrasse que o compreendia, e soltou um longo suspiro.
- Sinto muito, meu amigo, é uma tarefa apenas minha. Só peço que fique e mantenha todos os outros a salvo. Dê-me três noites.
- Como quiser, confio em você. Esperarei três noites, nenhuma a mais. Se não retornar iremos todos atrás de você.
- Obrigado.
- Que Eru o proteja.
