Gimlun bêl nakhat-ze 'nNê

Na manhã seguinte Legolas se pôs de pé muitas horas antes do Sol despontar e deixou a simples residência que humildemente o hospedava junto aos seus velhos amigos. Seus pés élficos correram a toda velocidade em direção às cavernas sombrias lembrando-se do trajeto que fizera anteriormente na esperança de encontrar o pequenino guardião que poderia servi-lhe de guia na busca.

O solo se rachava e pedregulhos rolavam sob seus pés à medida que avançava, ao chegar no local onde travara a breve luta contra os corsários surpreendeu-se com o sumiço dos corpos, nada denunciava o episódio do dia anterior, exceto pelas manchas do sangue seco no chão. Não sabia para onde seguir, que rumo tomar, nem o que esperar. Decidiu seguir sua intuição, e ela apontava para o berço do Sol. Seguiu para o leste, subindo a terra escura e montanhosa, aos poucos sua visão ia melhorando com a aproximação da aurora, e se tornava possível distinguir os contornos das imensas pedras que se punham no seu caminho. A irregularidade do terreno aumentava cada vez mais, e caminhar era mais difícil, mesmo para as suas habilidades élficas, mas ele continuava incansavelmente.

Por horas incontáveis ele continuou, em silêncio, oprimido pela imponência das rochas pontiagudas e pela quietude absoluta do lugar, quebrada apenas de vez em quando pelo sussurrar fantasmagórico da brisa marítima. Atingiu um ponto alto de onde pôde enxergar que adiante o terreno descia íngreme por muitos metros e terminava numa enorme gruta, e que todas as enormes pedras e rochas das proximidades se erguiam ao seu redor, como muralhas de proteção. Quando parou em frente à entrada, o Sol já estava no seu ponto mais alto do céu, pronto para começar a sua descida rumo ao oeste.

Estava sufocando. Água por todos os lados, sentia como se fizesse parte da imensidão líquida. Sem corpo, sem mente, sem vontade. Sua consciência vagando por todos os rios, lagos e oceanos de Arda, como o Soberano Ulmo das Profundezas aquáticas, mas precisa de ar. Precisa do Sol que se distanciava pálido e frágil a cada segundo. O frio entrava por suas veias e atingia dolorosamente o seu coração. Ranger de dentes e desespero. Onde você está?

Abriu os olhos devagar. O Sol estava se pondo e a dor instalada em seus músculos o dizia que havia caído novamente e permanecera em uma má postura durante tempo demais. Antes que pudesse levantar, sentiu uma pontada em suas costas, virou-se com um rápido movimento com a faca em punho, pronto para se defender de quem quer que fosse.

- Olá pequeno Mestre.

- Olá! – respondeu a criança sorridente – Eu estava um pouco assustado, do alto daquele pico o avistei desacordado, mas quando me aproximei você voltou a se mexer.

- Desculpe-me o susto. Eu tenho passado por coisas estranhas...

- Eu sei, isso está para acabar. Adiante-se, beba um pouco da minha água e coma este pedaço de pão, o tempo está se esgotando.

Antes que o elfo desse o último gole na água, urros e trotes soaram acima deles, um grupo de dez orcs avançavam sobre eles desordenadamente. Um bando de perdidos, errantes, sem um líder forte para comandá-los, vagavam pela Terra-Média matando e saqueando para sobreviver. Suas armaduras estavam incompletas e defeituosas, as armas toscas e escassas, a maior parte deles atacaram o elfo e a criança usando os dentes e as mãos, mas não eram páreo para os dois oponentes mil vezes mais ágeis, mais preparados e armados. Assim que o último orc tombou, Gumo curvou-se até o chão, saudando Legolas e, sem dizer absolutamente nada, se retirou saltando pedreira acima.

Logo Legolas descobriu que aqueles orcs não eram os únicos, sua audição captou um grupo ainda maior se aproximando e, embora ele tivesse seu arco e suas facas, não conseguiria lidar com todos eles. Esgueirou-se para dentro da gruta. A menos de vinte passos da entrada, o túnel fazia uma curva abrupta para a direita e mergulhava em uma profunda escuridão, mas o elfo não se fez de rogado e continuou a sua caminhada. Por muito tempo caminhou sem rumo, tateando cautelosamente, e não achou sinal algum de via ou luz.

A cada passo que dava perguntava-se sobre o sentido de tudo aquilo. Por que tinha que ser ele, por que todos esses sonhos? Talvez estivesse ficando louco e aquela missão acabaria com a sua vida, descartando-o da comitiva para o bem de todos. Um elfo assomado pela loucura não é de grande ajuda, muito pelo contrário. Poderia colocar em risco a vida dos seus amigos e de toda a Arda se seus transes repentinos surgissem com mais freqüência e em horas inoportunas. Essa divagação, de certa forma, aliviou o coração do príncipe de Mirkwood. Ele já não tinha o que perder, afinal era muito provável que a sua amada elfa nem existisse, e isso o deu mais força para enfrentar o escuro diante de si.

Ouvia os ruídos de mais orcs chegando à entrada da caverna, mas nenhum deles ousou segui-lo, talvez assustados com a quantidade de companheiros mortos ou talvez tivessem um lapso de esperteza maior que a do elfo, evitando as grutas nefastas de Anfalas; mas Legolas não tinha outra saída, ele precisava encontrar o abrigo da herdeira e algo o dizia que precisava fazer aquela trilha. O desmaio diante daquela caverna em especial deveria significar alguma coisa, e só indo em direção ao desconhecido que ele teria certeza.

A caverna era muito fria e úmida, suas pedras eram escorregadias e o caminho era uma constante descida íngreme, o que obrigava Legolas a procurar apoio nas paredes molhadas, mas seus dedos deslizavam e as pedras pontudas o cortavam. Quanto mais penetrava no seio da gruta, mais difícil ficava respirar. Sentia o teto mais próximo e a estrada mais estreita. Tentou lembrar-se da sua floresta, dos campos de Rohan e do grande Sol de Gondor, mas as belas imagens eram varridas da sua mente pelo breu sufocante que encarava. Tentou novamente, agora se recordando do Grande Mar e suas alvas gaivotas, a luz do longínquo Oeste e a brisa que acariciava o seu rosto extasiado quando se posicionava na proa do navio fitando as praias brilhantes de Valimar. Sim, podia ouvir a água, o seu ruído acalentador, o embalando como um sono confortável e acolhedor. Mal percebeu quando seu pé direito não conseguiu encontrar o chão, e rápido como uma flecha caiu para dentro do abismo sem fim.

A água extremamente gelada o atingiu como milhares de facas afiadas penetrando a sua carne, e elas pareciam se transformar em pequeninos tubarões com dentes fortes que o mastigavam incansavelmente por um momento que pareceu durar a eternidade, e por todo esse tempo ele ficou imóvel, afundando, engolido pelo escuro. Aos poucos foi retomando o controle da sua mente, depois dos membros e finalmente pôde se mover. Flexionando e esticando os braços e pernas. O peso das suas armas era um estorvo, mas ele não podia se desfazer delas, não enquanto existisse a esperança de retornar e encontrar os orcs à sua espera. Então, à medida que afundava, conseguia distinguir uma perturbação no negrume que dominava sua visão. Uma luz levemente azulada, tímida e suave bailava nas profundezas, e ele sentiu seu coração bater descompassado, uma pressão no peito que o fazia querer gritar, e uma energia desconhecida se apossou do seu corpo e ele começou a nadar vigorosamente em direção a ela.

A luz ficava cada vez maior e tilintares cristalinos tomou conta dos seus ouvidos. Uma música etérea e divina soava naquele vazio, solitária e frágil, como a chama de uma vela na tempestade. Lutando para se manter viva. Então ele viu flores. Flores estreladas, vagando fantasmagoricamente ao seu redor. Milhares. Brancas como flocos de algodão. Estendeu a mão para uma delas e a aprisionou entre seus dedos, trazendo-a para perto dos olhos. Niphredil.

Ergueu os olhos e bolhas saltaram de sua boca quando não conseguiu conter uma exclamação que se perdeu sob a água. Lá estava ela! Flutuando em silêncio, numa posição fúnebre, na horizontal e mãos sobre o tórax. Olhos fechados num sono de milênios com longos cabelos escuros esvoaçantes, banhados pela luz fantasmagórica do ambiente. Seu vestido era branco como as flores que dançavam ao seu redor, e ele se abria surrealmente como tentáculos perigosos envolvendo o elfo, atraindo-o para si. Era ela, a Telperion estrelada! Ele a tomou nos braços, completamente hipnotizado, embalado pela água e pela música. Ficaria ali eternamente, para sempre dedicado a adorá-la...

- Bâ kitabdahê! (1)

Caíram pesadamente. Não havia água, música, flores ou luz maravilhosa. Estavam numa câmara de pedra e o único traço de luz vinha de uma abertura no teto, não muito alto, de onde vinha também o som das gaivotas com uma corrente de ar quente. Legolas se sentiu dolorosamente acordado, e descobriu que a dor estava instaurada em todos os seus músculos. Levantou-se com dificuldade, massageando o braço e suspirando longamente ao notar todas as suas flechas espalhadas pelo chão. Ouviu um grunhido e virou-se. A garota se contorceu e se sentou. Os cabelos desgrenhados cobriam o rosto, seus braços estavam cheios de cortes e arranhões, e o vestido era um trapo molhado e então ele percebeu que não se tratava de elfa coisa nenhuma, só podia ser a garota de Númenor, que se utilizou de sua feitiçaria do ponente corrompido para ser encontrada! Legolas quase se sentiu um tolo iludido, mas voltou a razão e viu que era isso que deveria ser, estavam numa missão de vida ou morte, não em uma história de amor.

Agachou ao lado dela e livrou seu rosto dos cabelos. Os olhos dela estavam fechados e a face conservava uma sofrida expressão de dor. E curiosamente ela estava mais velha, era uma jovem mulher, mas sua aura ainda era infantil, de extrema inocência. Não, ela não era uma numenoriana fraca, suscetível a corrupção de Morgoth, ela era superior a isso. O brilho da sua fronte vinha da majestade dos primeiros Edain, dos filhos de Elros, e por isso algo élfico iluminava o seu semblante.

- Le mae? (2) – Ele sussurrou, ela tremeu violentamente e escondeu o rosto nas mãos machucadas. - Le na vellon. Nin henial? Le na vellon. (3) – delicadamente, o elfo segurou as mãos dela e descobriu novamente o seu rosto e dessa vez foi fitado por dois expressivos olhos cor-de-mel. Ela inclinou-se para frente, tocando a face do elfo com a ponta dos dedos gelados.

- Hîr nîn... Le hannon... A tholed. (4) – Então ela tornou a se recostar na parede, arfante, seus olhos estavam vidrados, ocultos por um véu que a afastava da realidade. – Îdôn... Ni-yâdi. Ni yâdi adûnada. (5) – Mordeu os lábios quando sentiu as lágrimas rolarem. Tristeza e desespero cresciam na sua voz. Legolas não conseguia entender aquelas últimas palavras, eram de um idioma desconhecido para ele, mas sentia que, seja lá o que ela estava o dizendo, era de extrema dor. Mas ela parecia delirar, não conseguia manter os olhos abertos por muito tempo e se contorcia sob as mãos do elfo. - Ar-Pharazônun azaggara Avalôiyada! Anadûnê hikallaba, agannâlô burôda niud! (6) – Ela gritou e chorou, e Legolas, reconhecendo a palavra para terra natal dos Homens do Oeste entendeu em parte pelo que ela pranteava e se compadeceu de sua dor.

O elfo a abraços e afagou seus cabelos sussurrando uma canção que aprendera no Oeste, tentando trazê-la de volta a consciência. Ela se agarrou as vestes dele com seus dedos magros e pálidos, como se temesse cair novamente para o abismo escuro de onde viera. Não se recordava de absolutamente nada do que seu espírito vivera em outra dimensão, na sua mente só havia flashes d'A Queda, que lembranças que lhe foram passadas pela sua mãe à beira da morte e ensinamentos da sua Maia protetora, que vinha visitar-lhe na forma da Grande Onda. Aos poucos a respiração urgente da jovem entrou em sincronia com a do elfo, suas mãos afrouxaram e ela parou de tremer. Legolas voltou a fitá-la, estava sério e apreensivo, temendo que ela pudesse se descontrolar novamente, mas ela sorriu minimamente.

- Eu sou Legolas Thranduilion, da Floresta das Trevas. – Ele disse colocando uma das mãos sobre o peito e inclinando a cabeça sutilmente numa reverência – Vim resgatá-la para se juntar a mim e meus amigos numa importante missão.

- E eu sou... – Ela se calou por um momento, testa franzida, visivelmente confusa, como se pensasse em muitas coisas ao mesmo tempo. – Minha mãe e seus parentes me sussurravam Eareldë, mas aquele que não era o meu pai me chamou Ar-Azraphel, assim como todo o resto do meu povo... Mas em sua língua, Mestre-Elfo, eu sou Aeriel.

- Aeriel... – Legolas repetiu, saboreando as sílabas em seu idioma, sorrindo. – Não poderia ser mais conveniente. Infelizmente não podemos nos demorar aqui, Senhora, não sei quanto tempo estive submerso naquele sonho escuro, mas precisamos voltar com urgência, meus companheiros nos esperam.

- Um sonho escuro realmente. Não gostaria de retê-lo aqui por mais um segundo sequer!

Legolas reuniu as suas flechas e as guardou devidamente em sua aljava e, depois de uma rápida examinada na câmara, concluiu que a única saída era de fato a abertura no alto. Mais fácil do que entrar, com ambos se ajudando, conseguiram atingir o exterior. Estavam muitos quilômetros ao norte da entrada da caverna e felizmente não tinham nenhum sinal dos orcs errantes. Aeriel voltou-se para o sudoeste e respirou fundo, era de onde vinha o vento e o som das aves, e para onde deveriam voltar.


1: Não me toque!

2: Você está bem?

3: Você está com um amigo. Pode me entender? Você está com um amigo.

4: Meu senhor... Obrigada... Por vir.

5: Agora... eu preciso ir. Preciso ir para o oeste.

6: Ar-Pharazon declarou guerra aos Poderes! Númenor caiu, a sombra da morte pesa sobre mim!