Mantenha a Fé
Sam dormiu muito mais do que gostaria e acabou perdendo boa parte da manhã. Saltou da cama, alta demais para ele, abruptamente quando percebeu que os outros já estavam de pé e suas vozes enchiam a pequena moradia. Deixou o dormitório e se apresentou a sala principal onde o velho Hamfast dispunha o almoço sobre uma grande mesa de madeira. O velho era desengonçado e um tanto carrancudo, mas Sam tinha gostado dele de primeira, não apenas por ter o mesmo nome que o seu pai, mas porque sentia que ele tinha um bom coração. Gandalf confiava nele, só restava aos outros fazerem o mesmo.
- Finalmente, Sam! – Frodo correu em direção ao velho amigo e o abraçou com força – Mal tivemos tempo para matar as saudades, meu velho. Com toda essa urgência e essa coisa com o Legolas acabamos deixando o reencontro esperado em último plano.
- Sim, mas veja só: estamos juntos numa aventura novamente! – Berrou Pippin atravessando a sala aos saltos.
- E me parece que você e Merry nunca irão parar de crescer! – Frodo riu e tornou a se voltar para Sam – Conte-me sobre seu casamento e suas crianças, meu bom amigo.
- Está tudo maravilhoso, senhor, tudo realmente maravilhoso, tenho uma ótima família de fato. Uma das melhores coisas que já me ocorreu!
- Fico tão contente em ver que tudo está indo bem com você, nunca esquecerei o quanto foi importante para a mim, eu não estaria aqui se não fosse v...
- Chega disso, senhor Frodo! Aventuras passadas, temos outra pela frente, como disse Pippin, e pode ser que eu não seja tão útil dessa vez, do futuro nada se sabe.
- Não seja pessimista, Sam, estamos mais preparados dessa vez. – Merry, que estava sentado num canto polindo sua armadura, brandiu a espada acima da cabeça com um largo sorriso estampado na face.
- Avante Eorlingas! – troçou Pippin, sapateando como se galopasse um corcel de Rohan, mas confundiu-se sobre os próprios pés e caiu de cara no chão levantando gargalhas dos presentes. Merry, que havia terminado de polir a última peça, jogou o pano que utilizava na cara do hobbit caído e levou as mãos à barriga, entortando-se em meio a risos.
- Parece que os cavalos indomáveis de Rohan não são para você, soldado de Gondor! – Aragorn, que estava no aposento ao lado com Gandalf e ouvira tudo o que tinha se passado, entrou rindo na sala correndo os olhos de rosto em rosto. – Que bom que levantaram com tamanha disposição! Que tal tomarmos essa refeição gentilmente oferecida pelo nosso anfitrião e começarmos a nos preparar para a primeira etapa da missão? – Os hobbits sentaram-se à mesa num piscar de olhos e com breves agradecimentos ao velho que se unira a eles, atacaram a comida como o de costume. Aragorn riu discretamente do espanto de Hamfast ao ver a quantidade de comida diminuir com tamanha rapidez.
- Onde está o elfo? – Gimli escancarou a porta da casa, estava completamente vestido e equipado para uma guerra e passou horas rondando a região à procura de perigo e "diversão".
- Tal pergunta estava na ponta da minha língua! – exclamou Aragorn – Não o vejo desde a noite. Preocupo-me com a sua saúde, alguém já foi acordá-lo?
- Não será necessário, Aragorn.
Gandalf vinha logo atrás do rei, empunhando o seu cajado, mas com a cabeça descoberta. Lançou um olhar amigável para os Pequenos que riam e se banqueteavam alheios à preocupação dos outros três. Ele se posicionou ao lado de Gimli, próximo a saída, e Aragorn o seguiu.
- O Príncipe de Mirkwood partiu hoje cedo, ele tem a sua própria demanda. – murmurou o mago.
- Mas e todos aqueles desmaios? Não é inteligente sair por aí sozinho! – Grunhiu o anão.
Aragorn continuou em silêncio pensativo. Encontrou os olhos do Istar e reconheceu uma centelha de entendimento.
- Ele voltará curado, não é? Se ele voltar... – Disse por fim.
- Tenhamos fé no nosso príncipe. – Falou Gandalf esboçando um pálido sorriso – se ele não retornar até depois de amanhã, nós iremos buscá-lo.
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O segundo dia já chegava ao fim e nenhum sinal do elfo. Desde a primeira noite sem notícias dele toda a comitiva estava bastante apreensiva e cheia de preocupações, mas agora com a notícia de que orcs foram avistados próximos à vila, a gravidade da situação começou a pesar sobre todos.
- Foi prometido que não iríamos até as grutas, mas talvez ele já tenha saído de lá. Podemos ir até o limiar, livrar o caminho dos inimigos e tentar obter alguma luz de esperança. – Aragorn sentenciou.
- Não tenho com o que rebater sua fala. – Disse Gandalf – Partiremos o quanto antes.
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Shadowfax estava tenso. Todos podiam perceber isso. Os outros animais se sentiam seguros na presença do chefe dos mearas, mas a ansiedade do grande cavalo desestabilizou todo o grupo. O céu, que reinava extremamente azul, sem uma única mancha de nuvem a encobri-lo, escureceu rapidamente e uma violenta tempestade tombou sobre a comitiva. Os cavalos perderam o ritmo e, assustados, derrubaram seus cavaleiros apenas Gandalf mantinha-se ereto e seguro sobre a sua montaria.
- Mas o que é isso? – Aragorn se questionou lutando para se por de pé em meio a chuva e os fortes ventos que os assolavam, sua voz soou gasta e baixa carregada para longe pela ventania. – Fiquem juntos! Todos vocês!
Uma névoa subiu, formada pela terra que rodopiava comandada pelas fortes correntes de ar. Por pouco Frodo não foi jogado para o alto com o vento, mas Gimli agarrou o seu braço e o arrastou para perto do mago e seu cavalo, agrupando-se com os outros. Um trovão ensurdecedor ribombou sobre eles e o sangue congelou em suas veias. O dia se tornou uma noite sem estrelas e o medo tomou conta de todas as almas.
- Acalmem-se! Acalmem-se! É apenas uma tempestade! – Ordenou Gandalf.
- Uma tempestade maligna vinda dos confins da Terra! – Respondeu Gimli apontando para o horizonte escuro além-mar. Os outros olharam naquela direção e estremeceram. A sombra pulsava e crescia, e ficava cada vez maior e mais horripilante. Da sua boca negra saíam raios e trovões, e silhuetas ameaçadoras se reuniam a sua volta.
- Sa nië úmara...(1) – Gandalf sussurrou somente para si, mas antes que pusesse em ordem os seus pensamentos, um rugido monstruoso soou acima deles, e paralisados de temor assistiram em silêncio uma enorme e grotesca criatura bater as asas sobre suas cabeças e desaparecer no horizonte escuro. E tudo se acabou. O Sol voltou a brilhar como se nunca tivesse saído do seu trono, e o céu se abriu como que acordando de um breve cochilo de verão, mas o tempo parecia ilusório e os sete companheiros não conseguiam mais enxergar a luz.
- Aquilo era...? – Pippin tentou falar, mas as palavras se escondiam dentro da sua boca, com medo de encarar o mundo exterior. Seus olhos saltados e assustados corriam por todos os rostos abatidos, mas apenas um par de olhos o encarou. Gandalf. O velho abaixou a cabeça e apertou os dedos ao redor do seu cajado.
- Estamos mortos! Mortos como carne no espeto! – Disse o anão
- Contenha-se valoroso Gimli, o seu machado nos é mais últil do que suas palavras. – respondeu Aragorn. – Agora retomem suas montarias e continuemos com o que viemos fazer, ainda não é hora de enfrentarmos nossos piores receios.
Conseguiram acalmar os cavalos com a ajuda de Shadowfax que tinha se recomposto muito mais rapidamente do que todos os outros, o vigor que o cavalo voltou a apresentar deu um novo ânimo ao grupo que a toda velocidade alcançou a borda da pedreira. Parece que o despertar do Oeste, maléfico ou não, afetava todos os seus filhos. Merry fitava Gandalf, Aragorn e Shadowfax e via as mudanças que ocorreram neles. A diferença não estava na aparência, mas algo em seus semblantes revelava que existia algo mais. Algo de mais forte e superior, maior do que tudo que o pequeno Hobbit pudesse imaginar.
Com o acampamento montado sob as poucas árvores que encontraram, o grupo se revezava na vigilância. A ronda estava extremamente tranqüila, exceto por um ou dois pequenos grupos de saqueadores vindos de portos clandestinos que foram rapidamente enxotados de volta aos seus navios, mas eles se mantinham alertas. As cavernas de Anfalas não eram amigáveis e seus corações estavam pesados. Sabiam que criaturas perversas estavam acordadas e se reagrupando, aprontando algum golpe perigoso a ser desferido sobre a Terra Média. O fim dos tempos se aproximava e eles ainda não tinham noção do que poderiam enfrentar.
- Aragorn! Gandalf! Tem alguma coisa se aproximando ali! – Sam berrou, levantando uma tocha improvisada com um pedaço de madeira. – Parece uma criatura ferida...
Gandalf bateu com a base do seu cajado no chão e um manto de luz se derramou sobre eles e à frente, mas o vulto ainda estava fora do alcance. O mago montou em Shadowfax e se dirigiu até ele desembainhando a espada. Merry, Pippin, Gimli e Aragorn foram em seu encalço, armas em punho e dentes cerrados; Frodo e Sam ficaram junto aos outros cavalos, cuidando para que eles não se dispersassem frente a algum ataque iminente. Gandalf diminuiu a velocidade ao se aproximar da figura que soltou um gemido e foi ao chão. Ele aumentou a intensidade da luz e distinguiu dois contornos, alguém que caíra sobre os próprios joelhos e carregava outra em suas costas.
- Anno dulu enni! (2) – Uma voz exclamou.
Gandalf deixou o seu cajado cair boquiaberto. Os outros que o alcançou em instantes também se detiveram chocados.
- O que significa... – Iniciou Gimli.
- Não fiquem parados, ajudem-no! – Cortou Gandalf sem necessidade, pois Aragorn já tinha corrido para eles assim que reconheceu os recém chegados.
- Elladan! – Exclamou – O que aconteceu? – Tomou nos braços o corpo desacordado que o amigo carregava nas costas. – Esse é... Minha nossa, Mirinon!
Elladan deixou que Aragorn tomasse o outro nos braços e o acomodasse junto a Gandalf no lombo de Shadowfax, desabando de costas para o solo, tamanha era sua exaustão. Aragorn o ergueu, passando um dos braços pelas costas do elfo e o levou para o acampamento, estendendo-o junto ao fogo e fazendo-o beber um pouco d'água. Aos poucos o elfo foi se recuperando e conseguiu se sentar.
- Wargs. – Disse finalmente – Montes deles. Eu, Mirinon e meu irmão estávamos em busca de vocês... Ondas enormes quase destruíram os portos cinzentos e tremores de terra levaram morte a nordeste da floresta das trevas. Galadriel e meu pai estão de volta, eles acham que mais catástrofes podem acontecer. Os anões estão construindo abrigos sob o solo, muitas criaturas estão se refugiando com medo dos ataques da natureza... E criaturas malignas também estão se movendo, bestas antigas acordaram... Dragões da montanha e... Estão tomando navios nas praias do Sul e indo para o Grande Mar, para longe... Para... A sombra. Fomos emboscados pelos lobos, matamos muitos deles, mas não foi suficiente, feriram Mirinon e tivemos que fugir... Meu irmão se separou de nós, não sei se ele conseguiu escapar... Não sei como eu consegui...
- Agora você está a salvo, meu amigo, mas ainda está muito abalado. Fique, durma, tratarei do Mirinon e assim que pudermos buscaremos o seu irmão. Amanhã enfrentaremos as grutas de qualquer jeito, um dos nossos também pode ter encontrado má sorte naquele lugar. – Dito isso, o rei deixou Elladan dormir e foi ter com Gandalf, que cuidava dos ferimentos do outro elfo. – Como ele está?
- Bastante machucado, as garras malignas avançaram muito fundo em sua carne, ele perdeu uma quantidade considerável de sangue, mas ainda existe esperança. Pode sobreviver se não desistir... Conhece a história dele, Aragorn, ele enfrentou coisas piores nos dias antigos, pode lidar com isso.
- Que os Poderes o ouçam, Gandalf, mas sombra maior essa vinda nos trouxe. Perigos maiores do que imaginávamos ameaçam Legolas, e eu não sei qual importante motivo o levou para essa missão.
- Eu tenho minhas suspeitas... Mas não tenho autoridade nem certeza para falar sobre isso.
Aragorn assentiu em silêncio e voltou a sua atenção para o elfo ferido, retirando algumas folhas da sua bolsa e esmagando-as entre os dedos. Sam passou por eles carregando uma panela de água quente para colocar algumas batatas, mas foi interceptado por Gandalf.
- Precisamos disso com mais urgência, mestre Gamgee. – Passou a panela para o Rei, que prontamente preparou uma infusão com as ervas e aplicou nos ferimentos, depois improvisou curativos com pedaços de panos aquecidos no vapor d'água. – Espero que isso ajude... Infelizmente o principal está aqui... – Pousou a mão no peito do elfo por breves segundos – E por isso nada podemos fazer além de manter nossa fé.
1: Isso não é bom...
2: Ajude-me!
