Luna acompanhou a remoção de Snape até St. Mungo's. Mais do que isso, ela não arredou pé do lado do seu ex-professor. Não que ela pudesse ajudar, mas a situação de Snape não era boa.

A maldição que o atingiu não foi tão grave, mas ela interagiu com o veneno residual de Nagini e complicou a saúde do Mestre de Poções. Além disso, o tratamento experimental que o próprio Snape desenvolvia poderia estar interferindo com os esforços do St. Mungo's. Os curadores acharam melhor mantê-lo inconsciente. Luna, claro, sabia que isso era coisa dos esquitéculos.

Outras pessoas também reagiam à condição de Severus Snape. Para Xenophilius Lovegood, o resgate de sua filha era uma dívida que ele tinha com o Mestre de Poções de Hogwarts. Ele ainda se sentia um pouco constrangido depois de seus atos na guerra, quando tentara ingenuamente negociar com seguidores de Você-Sabe-Quem.

Levou tempo até Xenophilius entender o erro de suas ações. Mas não via como teria agido diferente. Nem agiria diferente se a mesma situação se repetisse. Luna era sua vida, depois que sua amada mulher se fora. Daí a dívida dele com Severus Snape. Agora ela estava junto do ex-professor há dias. Contudo, o comportamento de Luna começava a parecer exagerado até para o pai.

Xenophilius deixou a atarefada redação do Quibbler e foi ao hospital tentar convencer Luna a deixar a cabeceira de Severus Snape. A moça ficou feliz em ver o pai.

— Minha filha, nós quase não temos nos visto desde que você foi resgatada.

— O senhor está aqui agora. Estamos nos vendo.

— Filha, entendo que você seja grata a Snape. Mas você não precisa ficar de plantão aqui.

Ela praticamente se escandalizou:

— Mas eu não posso fazer isso, pai. Ele salvou minha vida.

— Sou o primeiro a admitir isso, filha, mas vocë não acha que está exagerando?

— Pai, como pode dizer isso? É uma dívida bruxa. Estou aqui por causa de Snargaloodlepods.

Xenophilius arregalou os olhos. Ele não tinha se dado conta. Como sua filha era sábia.

— Claro. Eu deveria ter me lembrado.

Apesar da compreensão de Xenophilius, nem todos os amigos de Luna concordavam com as atitudes dela.

— Luna, vim buscar você para almoçar.

— Que gentil, Harry, mas não tenho fome, obrigada.

Hermione insistiu:

— Você precisa sair um pouco, Luna. Ver gente. Neville disse que iria se juntar a nós.

— Estou bem. As pessoas vêm me ver, como vocês. Por que ninguém vem ver o Professor Snape?

— Acho que ele prefere assim. Ele é um homem muito reservado, você sabe.

— Ele nem vai me notar aqui. Mas eu devo ficar aqui.

— Mas por quê, Luna?

— Hermione não gosta que eu fale, mas é bom evitar Snargaloodlepods.

— Snarga o quê?

— Snargaloodlepods. São assombrações que acompanham uma dívida bruxa não-reconhecida. Até os Muggles conhecem.

— Mesmo?

— Claro. Conhece "Um conto de Natal"? É uma história Muggle sobre um Snargaloodlepod travestido de fantasmas. Scrooge era um bruxo, na verdade.

— E você acha que um Snargalouco desses pode assombrar você?

Harry completou:

— Cruzes. Já imaginou o fantasma de Snape assombrando você?

— Ele salvou minha vida. E ele é um homem corajoso. Você mesmo disse, Harry.

— O homem mais corajoso que eu já conheci — confirmou Harry.

Luna sorriu.

— Podem me trazer um sanduíche.

— Como? — Hermione não entendeu.

— Se vocês forem almoçar com Neville, eu gostaria de um sanduíche, se não for incômodo. Eu gosto de peru, mas serve frango.

Harry sorriu. Luna era meio esquisita, mas era assim que ela era e Harry a adorava desse jeito esquisitão.

Ele só não fazia ideia do quão esquisitona Luna estava a ponto de se tornar.

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— Não, um pouco mais para a direita, por favor. Isso, obrigada.

Severus ouviu a voz que parecia estar sempre a seu lado. Não tinha certeza de estar consciente, nem de que a voz fosse real. Não tinha certeza de coisa alguma, exceto de que se sentia seguro.

Abrir os olhos foi um esforço tremendo. Dois grandes olhos cinza, quase prateados, estavam fixos nele.

— Srta...?

— Por favor, professor, procure descansar — disse Lovegood. — Ainda está fraco.

— Poção... Frasco azul...

Ela entendeu a mensagem e após beber sua poção, Severus se rendeu ao sono.

Na próxima vez que acordou, viu Lovegood de pé ao lado de sua cama. Ela sorriu.

— Olá. Gostaria de um pouco de água?

Ele apenas assentiu e ela pegou um copo com um canudo. O esforço foi recompensado.

— Melhorzinho?

Se pudesse, Severus lançaria um daqueles olhares capazes de dar pesadelos a Hufflepuffs durante semanas. Mas ele apenas fechou os olhos, indagando:

— Quanto tempo?

— O senhor está em St. Mungo's há cinco dias. Não, sete. Eu fiquei com Neville dois dias. Ele está bem.

— Por quê...?

— Os curadores disseram que o feitiço complicou sua saúde. Mas eles esperam sua completa recuperação.

— Humpf!... Incompetentes...

— Sabe que essa atitude não ajuda muito?

De novo, Severus desejou ter seu olhar especial. Então ele se lembrou de que isso nunca funcionara muito com a Srta. Lovegood. Longbottom sim: houve uma época em que ele era capaz de se borrar tudo com um mero rosnado de Severus. Com um suspiro, o professor disse:

— Estou cansado.

Ela ajeitou os travesseiros.

— Descanse. Vai acordar se sentindo melhor.

Ele duvidava, mas deixou que o sono o vencesse.