Quando Severus indagou o motivo da permanência de Luna Lovegood no seu quarto de hospital, foi brindado com uma explicação que só mesmo ela poderia lhe dar. Aparentemente uma criatura imaginária poderia assombrá-la se ela não se certificasse de que ele estava sendo bem tratado. Era uma espécie de dívida.
— Mas agora eu estou bem — garantiu ele. — O perigo já passou, e a senhorita já pode voltar para casa.
— Oh, não. Eu gostaria de ficar. Eu gosto daqui. Eu gosto de cuidar do senhor.
Severus a encarou, desta vez surpreso.
— A senhorita não teme ser mal-interpretada?
— Não. Qualquer interpretação será correta.
— Senhorita — esclareceu Severus, falando pausadamente, como se falasse com um aluno particularmente denso —, eu quero dizer que alguém pode achar que existe um envolvimento romântico entre nós.
— Eu gostaria disso.
— Não pode falar sério. Um boato como esse pode danificar sua reputação. Seria muito prejudicial.
— Não falo em boatos. Eu digo de verdade.
— Desculpe, não entendi.
— Quero dizer que eu gostaria de um envolvimento romântico entre nós. Um de verdade.
O choque deixou Severus mudo por diversos segundos. Ele não sabia se estava ruborizado ou pálido. Não sabia se aquilo era brincadeira, muito menos o que se passava na cabeça imprevisível de sua excêntrica ex-aluna. Ele imaginou de onde tirou forças para indagar.
— Não tenho certeza de ter entendido.
Sem se perturbar, a jovem confirmou:
— Eu disse que gostaria de me envolver romanticamente com você. Posso chamá-lo de você?
Severus ainda estava sob choque.
— Mas isso tem algo a ver com aquela criatura...?
— Oh, não. Snargaloodlepods não exigem este tipo de união.
— Mas então por que a senhorita...?
Luna o interrompeu gentilmente:
— Por favor, trate-me por você.
— Por que cargas d'água está dizendo isso?
— Porque é a verdade.
— Mas... Como... Onde...
— Eu gosto de você. Acho que posso gostar bem mais. Talvez já goste bem mais.
— Não quer isso de verdade. Pense bem: é despropositado!
— Por quê?
— Para começar, temos mais de 20 anos de diferença. Mais de 25!
— Lutamos juntos contra Você-Sabe-Quem.
— Você é uma menina!
— Sou maior de idade.
— Não temos nada em comum.
— Desculpe, mas eu discordo. Temos em comum a luta na guerra, o amor pelos livros, o desprezo da sociedade.
— Desprezo?
— Não pense que eu não sei o que dizem de mim. Loony Lovegood, é como me chamam. Pelo seu passado, você também é desprezado. Apesar de tudo o que fez para ajudar a derrotar aquele homem horroroso, você é discriminado.
Ele pensou nas palavras dela. Argumentou:
— Essa não é uma razão para o que propõe.
— Concordo. Não é uma razão, é um começo. Mais do que isso, você é um bom homem. Tem palavra, compromisso e lealdade. Como Harry gosta sempre de lembrar, é corajoso como poucos. Suas qualidades são muitas.
— Meus defeitos também.
— Assim como os meus defeitos, que também são muitos. Mas todos têm seus defeitos. Um dos meus é a sinceridade. Quais são os seus?
Severus a encarou, ainda com dificuldade de acreditar no que estava acontecendo diante dele. Ela falava sério! Pior do que isso: as coisas que ela dizia faziam sentido, e não apenas para os internados na ala psiquiátrica. Talvez ele precisasse ser transferido para lá.
— Não devem ser muitos.
O comentário de Luna interrompeu seu devaneio.
— Como?
— Eu lhe perguntei quais eram seus defeitos. Não devem ser muitos, se não consegue se lembrar de nenhum.
— Pelo contrário: eu estava tentando selecionar apenas um entre tantos.
— Conseguiu achar?
— Minha língua ferina.
— Tem razão. Essa língua pode mesmo ferir.
— Não tem medo de se machucar?
— Medo? Não, eu conto com isso. Afinal, faz parte do jogo.
— Seus amigos podem se ressentir. O jovem Longbottom pode ter um colapso nervoso.
— Se fizerem isso, mostrarão não serem realmente meus amigos. Nesse caso, a opinião deles não importa. Mesmo os meus amigos não têm peso nas minhas decisões. E saiba que Neville o admira muito. Por isso é que ele reagiu tão mal quando você se fez passar por aliado de Umbridge.
A revelação surpreendeu Severus. Longbottom o admirava? Que extraordinário.
Mas o mais surpreendente, claro, era que a moça não parecia se convencer da sandice que estava prestes a cometer.
— Isso não faz sentido — comentou ele.
— Mas não precisa fazer sentido. Não é lógico. Tem a ver com emoções.
— Esse nunca foi o meu forte.
— Não acha que é hora de aprender?
Severus suspirou.
— Acho que é hora de descansar. Por favor, deixe-me dormir.
— Claro. Estarei aqui.
Severus fechou os olhos, repassando mentalmente o diálogo inusitado. Ele ainda custava a acreditar. Talvez ele estivesse fraco demais.
Pensando bem, ele estava mesmo fraco. Prova disso era que a menina infernal ainda estava inteira e saudável. Normalmente, ela estaria em lágrimas ou vítima de uma maldição incapacitante.
Ainda havia tempo de fazer uma ou outra coisa, pensou, antes de escorregar no sono.
o0o o0o o0o
Toda a recuperação de Severus foi marcada por discussões semelhantes. Luna parecia disposta a apostar numa relação. Severus estava desconcertado com os argumentos da moça.
Então Severus parou de argumentar e gritou com Luna. Ela nem se abalou. Continuou argumentando. Ele manteve a gritaria, e o barulho atraiu os curadores. A contragosto, ele prometeu se controlar.
Mas em nenhum momento ele pensou em expulsá-la do seu quarto. Ele também se deu conta (lentamente) que a presença de Luna passou a não ser tão irritante. Na verdade, se ela não estava ali, ele indagava a todos que estivessem em sua frente onde ela fora e por que não voltara.
No momento de sua alta, Luna o ajudou a deixar St. Mungo's e a voltar para Hogwarts.
— Os curadores recomendaram muito descanso. Não se esqueça de suas poções.
— Estou muito bem, senhorita — disse Severus, irritado. — Agora, se me deixar em paz, talvez eu possa repousar.
Sem se intimidar, Luna o ajeitou na cama.
— Isso mesmo, bom menino.
Então ela se sentou na cama. Olhou em volta, as paredes cobertas por livros, papéis, material de leitura...
— Posso pegar algo para você? Um livro, talvez uma revista de poções...
— Não será necessário.
— Certo, então eu vou indo.
Ato contínuo, sem dar chance a ele de reagir, ela se inclinou e colou seus lábios nos dele. Assim, sem mais nem menos.
Severus paralisou todos os seus movimentos, a respiração suspensa, o cérebro congelado, os olhos arregalados. O toque dela era mais do que suave e delicado. Nenhuma asa de borboleta, nenhuma pétala de flor podia se comparar. E era quente como uma brisa de verão, envolvendo e confortando-o como um abraço no coração.
Luna afastou-se dele, notando pela primeira vez o impacto de seus atos estampado no rosto de Severus. Ela disse, admirada:
— Você está surpreso. Surpreso de verdade.
Ele não respondeu. Na verdade, ele não podia responder. Seu corpo se recusava a reagir, o traidor.
Luna virou a cabeça levemente para o lado, como costumava fazer quando se deparava com algo particularmente fascinante.
— Todo esse tempo eu pensei que você falava com sua mente. Você falava o que os outros iam dizer, a nossa diferença de idade, e eu pensava que você usava apenas sua cabeça — a razão. Mas agora você está mesmo surpreso. Eu não pensei que seu coração pudesse não querer isso.
Então Severus viu nos olhos dela: dor. Dor de verdade. Parecia se espalhar por todo o rosto dela, o rosto tão honesto e meigo. Seu coração se apertou ao ver aquilo.
— Senhorita... Por favor...
Ela sorriu de maneira autodepreciativa — outra coisa que Severus não suportou ver.
— Que boba, não? Nós, Ravenclaws, somos tão confiantes em nossa perspicácia, e eu não percebi que você podia querer dizer não. Seu coração pode dizer não. Não pensei... Seu coração, não a razão... Não a mente racional...
Severus finalmente reagiu, erguendo-se para dizer...
Dizer o quê?, indagou-se. Ele estava confuso demais, mais até do que a moça.
Antes que ele dissesse qualquer coisa, Luna se levantou e disse:
— Desculpe-me, Severus. Eu preciso pensar. E consultar meu coração. É o que Ravenclaws fazem melhor: pensar. Se eu o feri, desculpe. Mas não foi por mal.
As últimas palavras mal foram pronunciadas de maneira apressada, antes que ela saísse correndo, deixando Severus boquiaberto e com muito na cabeça. Por minutos, ele ficou olhando para a porta por onde ela saíra.
