Severus foi liberado para voltar a seus aposentos, nas masmorras. Sua cabeça estava cheia de pensamentos sobre o futuro. Como sempre, ele se concentrava primeiro nos aspectos práticos: a mudança de Hogwarts, um novo lugar para morar, o tal fundo que Albus criara para ele, o que fazer com sua vida.

Ele começava a separar livros e objetos pessoais quando alguém bateu à porta. Imaginando ser Luna, ele correu a atender. Mas não era.

— O senhor está perdido, Sr. Longbottom?

— Não, eu vim falar com o senhor, Professor. Quero esclarecer sobre esse seu relacionamento com Luna.

— Aprecio sua preocupação, Sr. Longbottom, mas acredito que esse assunto não seja de seu interesse. Mas, para tranquilizá-lo, eu sugiro que discute o caso com sua amiga Luna.

— Eu já falei com ela. E ela me disse que vocês planejam se casar!

Severus deu um risinho sardônico.

— Bom, eu apresentei o pedido formal para o pai dela ainda esta tarde.

— Não pode estar falando sério!

O Mestre de Poções usou de seu olhar mais duro antes de responder:

— Sr. Longbottom, eu jamais faria pouco caso de uma instituição bruxa respeitável como rituais da corte, especialmente com a Srta. Lovegood!

— Mas o que...?

— Repito, Sr. Longobottom: seria mais eficiente levar suas queixas para sua amiga. Essa relação foi sugerida por ela.

— Se não a queria, então por que concordou? Você vai magoá-la!

— Eu não disse que não queria. Disse que a ideia tinha sido dela, apenas isso. Não ponha palavras na minha boca. Quanto a magoá-la, tem a minha garantia de que essa é a última de minhas intenções.

O rapaz apontou um dedo para o homem mais velho, ameaçando:

— É melhor mesmo você não magoá-la. Porque eu juro que vou providenciar para acabar com a sua raça se você fizer isso.

— Está me ameaçando, Sr. Longbottom? Confia tanto assim nas suas habilidades?

— Mais do que isso. Vou pedir ajuda a Harry Potter. Ele acabou com a raça de um outro bruxo, não sei se você se lembra.

Severus teve a decência de parecer incomodado. Mas não se intimidou.

— É uma discussão sem sentido, uma vez que eu jamais permitirei que Luna seja magoada. Isso tanto é verdade que estou inclinado a convidá-lo para o casamento, contra todos os meus instintos.

— Luna e eu somos amigos. E amigos defendem os amigos. Portanto, se você algum dia magoar Luna, não serei só eu e Harry que iremos atrás de você, Snape. Todos os Weasley, mais Granger, o DA, talvez boa parte da Ordem da Fênix também vão se unir para caçar você nos confins da Terra.

Severus suspirou e assentiu.

— Ameaça devidamente registrada. Fico feliz em saber que, se por um acaso, eu não puder fazer Luna feliz, ela terá amigos para ajudá-la.

— Pode apostar que sim, Snape. — Longbottom o encarou, relutante. Depois, a contragosto, completou: — Acho que, então, devo lhe dar os parabéns.

— Obrigado. Espero que aceite meu convite para freqüentar nossa casa após nossa união.

— Tropas de trestálios não conseguiriam me deter. Estarei de olho em você, Snape.

E Severus sabia que aquilo era verdade. Neville Longbottom florescera em um jovem confiante e destemido, um verdadeiro Gryffindor. Quando ele deixou as masmorras, Severus notou que tinham chegado a uma trégua.

Mais um milagre de Luna. Será que a mulher se dava conta dos milagres que estava operando em sua vida? Ele seria capaz de ficar boa parte da vida contemplando as mudanças trazidas pela loirinha avoada que pusera seu mundo de cabeça para baixo.

Mas primeiro era preciso tratar das coisas importantes.

— Luna, você mudou de ideia?

A moça sorriu:

— Por que eu faria isso, Severus?

— Talvez você tivesse voltado à razão. Recuperado seus sentidos. Desistido de se associar a um velho rabugento, mal-humorado e desiludido como eu.

Ela sorriu:

— Lamento, você está errado se pensa que eu desisto assim fácil. Aliás, falando em desistir, já pensou o que vai fazer da vida? Continuar em Hogwarts ou sair?

— Na verdade, eu quero sair. Mas não sei o que fazer fora desse castelo. Sem minhas poções...

— Ao invés de se concentrar naquilo que não pode fazer, por que não concentra naquilo que pode fazer? Ou melhor: naquilo que gosta de fazer?

— Alguma sugestão?

— Só posso falar por mim. Eu gosto de animais, por isso quero me especializar como naturalista. Magizoologia é minha área de interesse. Papai me apresentou Newt Scamander e ele pode me aceitar como aprendiz.

Severus ficou impressionado.

— Ele é um magizoólogo respeitado.

— Engraçado que eu tenha estudado nos livros dele. Ele e papai são amigos há anos. Tia Porpentina e os meninos são muito gentis. Na verdade, eu acho que papai alimentou esperanças de que eu me interessasse por um dos filhos de Tio Newt.

— E a filha dele resolve escolher um homem...

Luna o interrompeu:

— Pare com isso agora mesmo. Estamos falando de sua futura carreira profissional. Você deve ter vislumbrado alguma coisa fora de Hogwarts.

— Sim, claro que sim. — A voz dele se tornou amarga. Ele abaixou a cabeça, uma dorzinha no peito. — Pensei que eu poderia ter minha própria lojinha de poções. Claro que agora isso não será mais possível.

— Mas outra coisa será possível. Quem sabe se você abre uma loja apenas de ingredientes? Uma loja especializada, com ingredientes de melhor qualidade que os concorrentes? Você poderia ser fornecedor para Hogwarts ou para St. Mungo's. Ou uma livraria especializada em poções? Ninguém melhor do que você sabe distinguir a qualidade dos livros sobre suas preciosas poções. Ou melhor ainda: você pode escrever um livro sobre poções. Uma coleção inteira de livros didáticos, abrangendo todos os sete anos.

Severus a encarou, impressionado e admirado. Como aquela moça, tida como avoada e amalucada, podia ser tão lúcida às vezes? E como ela realmente estava atraída por ele?

Ele se aproximou dela, gentilmente envolvendo-a em seus braços.

— Você é surpreendente — disse Severus, beijando os cabelos louros. — Mexe comigo.

— Espero que para melhor.

— Se tudo isso tivesse acontecido há um mês, eu estaria nervoso, deprimido e angustiado. Não saberia o que fazer com minha vida nem de mim mesmo. Desde que eu conheci você, sinto-me estranhamente calmo. Mais tranquilo, até.

— Oh, fico feliz. Você me faz tranquila também. E segura. Como se nem mesmo um Letifold pudesse me atingir.

Severus a encarou, agora tão perto. Os olhos cinza pareciam prateados, de tanto brilho. Ele se inclinou, o coração acelerado. Os lábios se encostaram, e Severus sentiu a eletricidade percorrendo seu corpo. Não hesitou em aprofundar o beijo, delicadamente, temendo que Luna o achasse bruto ou que sua constituição delicada pudesse sofrer com toda a emoção que ele sentia. Mas estava difícil conter-se. Ele queria Luna em seus braços, ele a desejava, ele nunca tinha sentido essas coisas, ele estava tão nervoso, mas no bom sentido, e totalmente confuso.

Quando encerravam o beijo, Luna sorriu.

— Posso me acostumar com isso.

— Espero que sim, pois tenho planos de acostumá-la com essas e outras coisas. Assim, talvez, você não mude de ideia nunca.

— Não acho que isso seja possível. — Ela o encarou. — Você está bem?

Severus enrubesceu.

— Sim, claro, eu... só... estou com... er... Bom, acho que...

— Pode dizer, querido.

— São muitas mudanças — confessou. — Fico feliz que esteja comigo. Sem você, eu...

— Pode parar por aí. Não vai ter nada de "sem você". Estamos juntos. Continuaremos até você decidir que não me quer mais.

— Ou você.

— Sem chance. Sabe, eu sou teimosa. E ficar com você é apenas lógico. Nós, Ravenclaws, somo especialistas em lógica. Então não precisa se preocupar. Concentre-se em abrir as outras portas: uma casa, a loja...

Severus deu um raro sorriso para ela. Não era raro somente porque ele não tinha costume de sorrir, mas porque mesmo quando o fazia, ele não sentia genuína alegria ou tranquilidade. Agora era diferente. Severus estava contente.

Havia perspectiva real de mudança em sua vida. Enquanto isso poderia ser assustador, era também excitante. Ele sentia a eletricidade, a energia. Os anos de Hogwarts pareciam realmente terminados. Ele levaria boas lembranças e marcas indeléveis de todo o tempo que passara na escola, mas era hora de mudar.

E enquanto Luna estivesse a seu lado, ele enfrentaria até Lord Voldemort redivivo, se necessário fosse.

The End