1-Passado Fragmentado

-Mudkip, o que está fazendo aqui?-perguntou a Skitty.

-Bem, pode-se dizer que tive um sonho estranho essa manhã. Estou aqui o dia todo.-Ele parecia desanimado. Não olhava no rosto da amiga.

-Você teve um pesadelo?-perguntou Rachel, assustada. Desde que conhecera Darkrai, qualquer coisa relacionada a sonhos a alarmava.

Mesmo que Darkrai tivesse perdido a memória e estivesse bem longe dali nesse momento.

-Não, nada desse tipo!-apressou-se Mudkip em responder, percebendo a preocupação da companheira.-Foi… -Ele hesitou, mas depois continuou. –Bem, é melhor te contar como foi.

Eu estava em um pântano. Deitado, acho. Eu estava feliz, até ouvir uma voz que, por algum motivo, me desagradava.

-Swampert! Swampert! Seu mané, me escuta!

Por algum motivo sabia que era comigo que queriam falar. Vi um Pikachu correndo em minha direção. Quando chegou até mim parou, sem fôlego.

-Oi, Belgico.

-"Oi, Belgico"?-gritou ele.-Venho aqui correndo no maior pânico e você só me diz "Oi, Belgico"?

-Bom toda vez que você pessoalmente falar comigo é pra dizer: "Ai, Swampert, me desculpe, esqueci de chamar você pra reunião de ontem!" Por que eu deveria ligar pra você?

-Porque dessa vez o caso é sério.

-Ótimo! Que droga de coisa aconteceu?

-Rachel sumiu.

Silêncio.

-O QUE?-gritei.

É isso mesmo! Vem!

O Pikachu correu e eu o segui.

-E o que aconteceu depois?-perguntou a Skitty, curiosa.

-Eu acordei.

-Ah.-A Pokémon estava visivelmente desapontada. Mas -continuou ela.- é um sonho bem estranho. Você evoluído, um pântano, eu desaparecida e um Pikachu chamado Belgico… é um nome bem esquisito, aliás.-ela observou.

Mudkip não disse nada, então sua amiga continuou:

-De qualquer forma, não adianta ficar aqui tentando decifrar esse sonho. Se for algo importante, vamos descobrir. –ela se virou para o companheiro.-Vamos voltar, Mudkip.

Mudkip não deu sinais de que ia se mover.

-Mudkip,-perguntou ela, apreensiva.-o que foi?

-Não estou aqui para entender o verdade, é o contrário.

-Como assim?

-Eu sei o que esse sonho significa.

-Então o que é?

Pela primeira vez na conversa, Mudkip olhou nos olhos da amiga?

-Minhas memórias.

Rachel abriu a boca, mas não emitiu som algum. Mudkip não pareceu impressionado; já esperava essa reação.

-Eu sou como você, Rachel. –continuou ele.- Um Pokémon sem memórias.

-O que?-perguntou ela, a voz fraca. Aquilo não fazia o menor sentido.

-Na verdade, não exatamente como você. Não perdi toda a minha memória, e nunca fui humano.

A Skitty já havia perdido a capacidade de falar.

-Lembro da minha família, de minha vida aqui. Mas depois disso, há um buraco nas minhas memórias. O fim desse buraco fica mais ou menos um mês antes de eu te conhecer.

Afinal, a Skitty teve forças para falar

-Desde que… nos conhecemos… você… tem esses… sonhos?-As palavras saíram em sussurros entrecortados.

-Sim. Não contei para você porque achei que já tínhamos problemas demais.

Rachel sabia que algo ali não fazia sentido, mas sua mente parecia mais lenta que o normal. Ela pensou por algum tempo.

-Espera aí!-exclamou ela, após achar o que estava procurando. –Se esses sonhos são suas memórias, como eu existia neles.

-Aparentemente, eu conhecia outra Rachel.-disse ele, sem emoção.-Só que ela era humana.

-Isso faz menos sentido ainda! Eu era humana no futuro, não no passado!

-Eu falei que era você?

Normalmente, a Pokémon teria entendido isso, ou pelo menos achado que tinha entendido. Mas sua mente estava lenta demais para ter alguma idéia.

-Quê?

-Eu disse que conhecia outra Rachel.

Dessa vez, ela havia entendido.

-Isso não seria coincidência demais?

-Seria. Mas é exatamente isso.

-Mas e… -ela se interrompeu no meio da explicação. Do nada, seu choque se transformou em culpa. Ela baixou os olhos ao mesmo tempo em que dizia:

-Desculpe.

-Hã? –Mudkip não achou outra coisa para dizer. Ele imaginara várias reações que a amiga teria ao ouvir aquilo, mas um pedido de desculpas não passou por sua cabeça.

-Tudo que estou fazendo é perguntar, perguntar e perguntar, para que eu possa entender! Não estou pensando em como você se sentiu, suportando isso sozinho e escondendo tudo de mim, nem como se sente agora, me escutando duvidar de cada uma de suas palavras que você diz! Só estou pensando em mim mesma.

-Isso não é verdade! – disse Mudkip, tentando acalmá-la. – Eu não devia ter escondido isso! De onde você tirou de que algo aqui é culpa sua?

Ela não respondeu. Ao invés disso, aproximou seu rosto do dele, com uma expressão severa no rosto.

-Nunca mais esconda as coisas de mim!-embora as palavras fossem pronunciadas em voz baixa, tinham força suficiente para serem uma exclamação.

-Tá bom. – O Pokémon estava um pouco impressionado com a velocidade em que a companheira mudara completamente de expressão, mas pelo menos ela parara de se culpar.

O silêncio invadiu a praia então. Rachel já estava mais calma, embora não quisesse fazer sua última pergunta. Porém, Mudkip queria ouvir a última pergunta, e isso fazia com que nenhum dos dois dissesse uma só palavra. O som de passos na areia quebrou o silêncio penetrante.

-Rachel!-arfou uma voz cansada. – Mudkip!

Era Bidoof.

-O que foi, Bidoof? Está tudo bem?

-A guilda está chamando!-arfou ele em resposta.

Rachel e Mudkip se entreolharam. Não era todo dia que a guilda chamava. E quando ela chamava, significava encrenca.

-Por quê?

-Explico no caminho. Vamos!

Sem discutir mais, os dois seguiram Bidoof sem saber o real motivo disso, deixando para trás a conversa que tiveram ali. A última pergunta ficaria para depois.