Os berros de Quinn eram ouvidos por toda a William McKinley, ela gesticulava, gritava e parecia estar a ponto de avançar em Rachel. A morena por sua vez estava parada, calada e sem cor. Parecia uma daquelas estátuas que enfeitam as praças das cidades.
"-Desculpa." A voz de Rachel saiu falhada, e nem mesmo Quinn conseguiu ouvi-la. Mas o simples fato dela ter tentado dizer alguma coisa foi o suficiente para irritá-la ainda mais e no minuto seguinte Quinn estava sobre Rachel, enchendo-a de tapas e socos.
Rachel gritou, estava suada e assustada. O sonho havia sido tão real que sentia os tapas de Quinn arderem em seu rosto. Decidiu que o melhor seria uma banho, não podia arriscar voltar a dormir e continuar aquele sonho horrendo.
Depois do banho demorado, já eram quase 5 da manhã e o melhor era simplesmente não voltar a dormir. Planejou o encontro com Quinn e ensaio diante do espelho alguns pedidos de desculpa, alguns eram rápidos e objetivos para que Quinn não tivesse tempo de fazê-la se calar, outros eram longos e explicativos para que nada ficasse de fora. Na hora ela saberia o que dizer.
O ensaio do Glee club havia acabado e aquela era a hora de Rachel chegar em Quinn Fabray. Coração acelerado, boca seca e mão suando eram sensações que haviam virado rotina pra Rachel nas últimas semanas.
"-Quinn, podemos conversar? " Sua voz saiu o mais forte que era possível.
"-Fale."
Ninguém do Glee club havia saído da sala, todos fingiam estar fazendo alguma coisa para ouvir o que elas teriam pra conversar. E Rachel percebeu.
"-Pode ser em particular?" E as palavras de Rachel despertaram a ira de Santana.
"- Eu sabia que você era fraca, Berry."
Rachel preferiu não dar atenção a Santana, a raiva que sentia dela ainda fervia e a última coisa que ela precisava naquele momento era uma ida a sala do Figgins por brigar. Ela tentava com os olhos dizer a Quinn do que se tratava e a líder de torcida pareceu entender. As duas andaram em silêncio até o estacionamento do colégio, Rachel por não querer sair do seu roteiro e Quinn por não ter ideia do que dizer. As duas se encostaram no carro de Rachel e permaneceram em silêncio por alguns minutos.
"-O que você quer Rachel?" Quinn finalmente quebrou o silêncio. Mas ao contrário do que Rachel havia planejado, ela era incapaz de seguir algum dos seus roteiros e pior, mal conseguia se lembrar deles.
"-Eu contei a Santana que Beth estava com a Shelby." Ela estava chocada, não era isso que deveria dizer, não desse jeito. Ela esperou os gritos de Quinn e os tapas que ela havia sentido durante o seu sonho, mas Quinn não esboçava reação. "-Eu não fiz por mal, sabe? Eu tava magoada com a Shelby e com ciúme. Eu sei que a Santana não é a melhor pessoa pra pedir ajuda e eu estou muito arrependida de ter pedido ajuda a ela."
Rachel se calou, mas os gritos não vieram. Quinn permaneceu em silêncio, por muito tempo. Passaram incontáveis minutos que pra Rachel parecendo horas. E quanto mais o silêncio durava, mais nervosa ela ficava, aquilo doía mais que os berros, as palavras ofensivas e a agressão física.
"-Quinn?" Ela se viu obrigada a cobrar atenção.
"-Não tenho nada pra te dizer. Eu vou embora."
Quinn saiu e Rachel permaneceu encostada em seu carro por algum tempo, ela queria chorar, mas não podia, já havia chorado tanto nos últimos dias que derramar lágrimas agora não significam mais nada.
Rachel e Finn estavam sentados abraçados no sofá, assistindo RENT. Na verdade, o filme apenas passava na TV porque ele não estava interessado no filme, salvo a cena de Rosario Dawson seminua em uma boate, e ela não estava conseguindo se concentrar no filme. Ela se ajeitou nos braços dele, ainda estava magoada com a história entre ele e Santana mas não tinha como não admirar a paciência e o apoio que ele estava dando a ela naquele momento. Ele havia errado mas não deixava de ser o homem especial que ela tinha imaginado, ele só era mais especial porque não perfeito, era real.
"-Eu te amo." Ele sussurrou no ouvido dela como se lesse seus pensamentos.
"-Eu te amo também." Ela se virou e o beijou, um beijo leve, doce e apaixonado. Os dois pareceram esquecer que os pais dela estavam na sala ao lado enquanto os beijos iam evoluindo e se deixando de ser doces para serem quentes. Ela já estava sentada no colo dele e ele deslizava às mãos por baixo de sua blusa.
"-Rachel!" A voz de Hiram Berry ecoou na sala. E os dois pararam assustados. Eles tremiam e suavam. Rachel não teve coragem de olhar para o pai.
"-Não é o que o senhor está pensando Sr Berry." Finn disse ofegante.
"-A única coisa que eu estou pensando é que se Leroy tivesse entrado na sala ao invés de mim Rachel estaria de castigo pra sempre e você não iria ver o sol nascer amanhã." Ele falou sério, mas a careta no rosto do namorado da filha o fez sentir vontade de rir.
"-Desculpe, papai. Isso não vai se repetir nunca mais." Ela falou olhando para o pai com as bochechas vermelhas.
"-Eu sei que eventualmente isso vai se repetir, princesa. Mas não façam mais isso na sala. Leroy não é tão compreensivo e prefere acreditar que você ainda não faz essas coisas. Use sempre o seu quarto." Ele riu ao ver que o casal tinha o rosto completamente vermelho. "-Mas eu não vi aqui dar conselhos sobre o melhor lugar para vocês namorarem. Quinn Fabray esta aí e quer falar com você. Mando ela entrar?"
"-Sim, senhor"
Rachel ajeitou a cabelo e saia que estavam amassados pelo amasso que dera no sofá e respirou fundo. Estava apavorado com a ideia de Quinn dizer aquilo que ela merecia ouvir na frente de Finn, mas não queria que ele fosse embora.
Quando Quinn entrou na sala, seus olhos correram direto para o ex-namorado sentado no sofá. Era nítido em seu rosto o que eles estavam fazendo e porque o pai de Rachel havia demorado tanto e riu.
"-Podemos conversar na frente dele?" Foi a primeira coisa que Quinn disse pra Rachel.
"-Se você não se incomodar, podemos sim."
"-Você é quem sabe? O namorado é seu." Quinn falou de um jeito frio que assustou Rachel, será que ela diria algo que afetaria seu namoro? Seu coração apertou.
"-Então?" Foi tudo que Rachel foi capaz de dizer afinal,ela não sabia o que Quinn queria com ela.
"-A culpa não foi toda sua. Claro que pedir pra Santana te ajudar foi a maior burrice que você já fez até hoje, mas eu não deveria ter caído no jogo dela. Eu fui expulsa das Cheerios por culpa só minha." Rachel havia respirado aliviada. Ela estava livre da culpa em relação a Quinn. "-Mas por outro lado, você foi uma imbecil, mimada e idiota ao tentar prejudicar a minha filha por ciúmes da Shelby! Você ia causar dor e sofrimento pra uma criança que não tem culpa em nada disso, uma criança que foi dada pra adoção pra se livrar da irresponsabilidade dos pais seria tirada da única mãe que conhece por irresponsabilidade sua, Rachel. E isso é culpa só sua, porque por mais que Santana tivesse dado a ideia só entra no jogo dela quem quer, ninguém, faz nada obrigado." As palavras de Quinn atingiram tanto Rachel quanto Finn.
"-Eu sei, eu errei e estou arrependida. Acho que no fim das contas quem mais se magoou com essa história fui eu, e quem mais perdeu fui eu também. Eu perdi a minha dignidade ao me rebaixar ao nível de Santana, perdi o respeito dos meus pais ao fugir de casa no meio da noite, quase perdi a admiração da pessoa mais importante da minha vida." Os olhos dela encontraram o dele e ele deu um sorriso de lado, daqueles que a derretia por completo. "-E perdi a chance de aceitar que as coisas não são do jeito que a gente planeja. E se você soubesse como eu me sinto com isso tudo. Eu sei que não adianta apenas pedir desculpas, mas, mesmo assim eu peço, de verdade." Os pais da moça estavam na porta e a olhavam sem que ela percebesse. "Eu fui imatura, irresponsável e egoísta. E não há nada que eu diga que vá apagar as coisas que eu fiz e pensei em fazer. Eu usei meus pais para me vingar da Shelby e não pensei que eles estivessem magoados com tudo isso, na verdade, eu usei a mágoa deles para machucar a Shelby. E eu usei a Santana, fui eu quem procurou por ela. Então eu sou mais culpada que ela nessa história. E eu estou me sentindo um lixo e não vou me opor se vocês me tratarem como tal, mas eu estou arrependida de verdade e vou fazer o que estiver ao meu alcance para que vocês percebam isso."
"-Pra mim, basta você não se meter com a minha filha, nunca mais." Quinn falou e se preparou pra ir embora. "-E nem com a Santana. Ela é o tipo de pessoa que não gosta de ninguém e não mede esforços pra sair ganhando em qualquer situação."
Quinn passou por Hiram e Leroy Berry e só aí Rachel notou que os pais estavam ali. Ela sorriu pra eles que retribuíram o sorriso a ela antes de acompanharem Quinn até a porta. Quando ela se virou para olhar para Finn, ele estava parado atrás dela.
"-Eu to orgulhoso de você." Ele disse abraçando-a.
"-Meus pais vão passar o fim de semana fora." Ela disse quase num sussurro. "-E eu não quero ficar sozinha."
Ele sentiu uma espécie de energia estranha percorrendo seu corpo, será que ela estava pedindo o que ele achou que ela estava pedindo. Ela pareceu perceber que ele ainda não estava certo do que ela estava falando.
"-Vamos ter por dois dias a casa só para nós dois." Ela mordeu os lábios.
Definitivamente ele havia entendido certo! E agora torcia para que o fim de semana chegasse o mais rápido possível.
