Segundo tema: Cores. E o que significam para cada um deles.


2. Colors

Branco. Primeiro porque branco teoricamente não é uma cor, é a ausência delas e isso parecia subversivo o suficiente para ele. Segundo porque era tão óbvio. Era tão o oposto de tudo que ele vinha tentando fugir. Sirius Black odiava seu sobrenome, e parecia sensato que buscasse refúgio no oposto dele. Branco era calmaria, era paz, e isso era irônico se comparado com o resto de sua personalidade, mas quem se importa? Ele gostava de branco.

Ele gostava muito de neve. Padfoot gostava de carimbar suas patas nela. Ela era fofa, gelada e branca. Muito branca. Tudo ficava tão homogêneo. O chão, as árvores, o telhado das casas e do castelo. Ele também gostava das nuvens. Talvez não por causa das nuvens em si, mas gostava quando se deitavam os quatro nos gramados do castelo, ou no jardim dos Potters, e ficavam tentando decifrar suas formas. Peter e James eram obtusos demais para enxergar formas sofisticadas. Sem considerar a hiperatividade de James que logo o impedia de ficar deitado por mais de quinze minutos. Mas Sirius e Remus podiam dedicar horas a essa atividade. E ele sentia-se em paz quando o lupino lhe apontava um nuvem especialmente fofa e branca, e descrevia o que via, e imediatamente o monte fofo se transformava exatamente no que ele estava vendo. Era como se Remus desenhasse no céu.

Branco era paz. E era de paz que ele precisava, mesmo que sua personalidade constantemente demonstrasse o contrário. Quando ele olhava das nuvens para Remus, ele pensava em segredo que essa era a cor do lupino. Ele era branco. Em muitos sentidos. Como podia não ser branco, se olhar para ele o enchia de paz imediatamente? Como podia não ser branco se sua pele era quase tão pálida quanto a neve, embora não tão homogênea, porque as cicatrizes o riscavam da cabeça aos pés? Era tão branco e Sirius dificilmente resistia ao branco. Dificilmente resistia às nuvens, à neve. Dificilmente resistia a Remus.


Preto. Era por vezes a única coisa que o tranquilizava. Fechar os olhos, com força, e concentrar-se no breu que tomava sua visão. Era agradável. Às vezes podia ficar horas assim, e os outros pensavam que ele estava adormecido, mas não. Estava apenas em paz. E preto lhe trazia — ironicamente —, a ideia de paz. Mas desistira de se enganar, e sabia que gostava de preto pois quando nele pensava, não era a cor que vinha primeiro em sua mente. Era ele. Preto era ausência de todas as cores. E não era isso que Sirius Black era? Ausência de amarras, de compromissos, de um pingo de bom-senso. Sirius era livre. Seu sobrenome era preto, seus cabelos eram pretos, seus olhos eram pretos quando excitados com alguma coisa — e ele sempre parecia excitado com muitas coisas ao mesmo tempo.

Seu pelo era preto. Era muito macio também. Padfoot era tão grande quanto um urso, e Remus gostava de admirar a sombra muito escura que ele projetava no chão quando corria debaixo do sol. Sua cabeçorra preta pousava sobre algum livro que Remus vinha lendo e ele sabia que era apenas Sirius querendo chamar atenção. Fechava o livro e Sirius sacudia o rabo desajeitadamente quando acariciava atrás de suas orelhas. Quando deslizava o dedo por seus pelos escuros. Quando brincava dizendo que eles eram ainda mais sedosos do que os cabelos de Sirius, e sempre recebia um rosnado como resposta.

Preto porque era a ausência de tudo, e era o que Remus precisava. Abster-se do mundo, dele mesmo. Preto porque os braços de Black talvez fossem a única coisa que eram mais eficientes do que simplesmente fechar os olhos. Ele mergulhava no preto. Ele mergulhava em Black.


Verde. Não que ele precisasse responder caso alguém precisasse. Era meio óbvio. No começo ele detestava verde, porque remetia imediatamente a Sonserina, e ele odiava a Sonserina. Por tabela, era sua obrigação odiar verde, certo?

Mas ele não podia deixar de pensar que era agradável o modo como os raios do sol penetravam na Floresta Proibida através das copas frondosas das árvores. Jorravam uma luz verde e mansa no ambiente, e era uma das poucas coisas que acalmavam James Potter. Ele caminhava pela floresta, ouvindo ao longe enquanto Peter e Sirius discutiam alguma coisa idiota. Ouvia o barulho dos galhos secos se partindo sob seus pés, e sem olhar podia dizer onde exatamente cada Maroto estava, pois reconhecia o barulho que cada um deles fazia ao andar. Normalmente era Remus quem vinha ao seu lado, com as mãos enfiadas nos bolsos e admirando junto com ele a paisagem. Verde lembrava seus melhores amigos, suas tardes na floresta, as árvores que presenciavam suas inconsequentes empreitadas.

Só que o verde também era Evans. Era um verde tão bonito que James achava que era exatamente o mesmo verde daquelas árvores. Era um verde que brilhava, que se via de longe, e James se perdia nele tanto quanto se perdia na floresta. Perdeu-se nele pela primeira vez e soube que nunca mais conseguiria voltar, e assim foi. Perdeu-se em Lily completamente, sempre a convidando a se perder nele também. Quando aconteceu, e quando Harry olhou o pai pela primeira vez, o mesmo verde brilhou em seus olhos pequenos, e James Potter definitivamente amava verde.

Ele amava tanto a cor, que quando a luz verde do Avada Kedavra avançou em direção ao seu peito, ele sentiu que pelo menos tivera a chance de morrer diante de um vislumbre dos olhos de sua mulher e de seu filho. E sentiu-se grato por isso. A morte era tão bela e trágica como eles.


Vermelho. Talvez porque fosse sinônimo de lar. Fora o vermelho que o recebera no primeiro dia em Hogwarts, e seria o vermelho que o acompanharia até o resto de seus dias no castelo. Porque era sinônimo de James, de Sirius, de Remus. Olhava-os e não conseguia imaginar lugar melhor para estarem do que bem ali. Vermelho porque era Grifinória, e porque aquilo definia quem eram. Porque era a cor responsável por unir seus melhores amigos.

Era também cor de sangue. E Peter, por algum motivo, gostava de sangue. Nas primeiras vezes que Remus mostrara seus ferimentos pós-lua cheia, foi Peter quem deu o primeiro passo para ajudá-lo com as bandagens. Foi ele quem limpou os cortes da primeira noite, diante dos olhos surpresos dos outros três. Ele não tinha medo de sangue. Aliás, ele duvidava que pudesse sentir medo de coisa alguma. Simplesmente porque nunca estava sozinho. Tinha sempre aqueles três berrando logo ao lado dele, tomando partido um do outro em brigas idiotas. Sirius saíra com a boca arrebentada uma vez quando defendeu Peter de um grupo de Sonserinos. Na verdade, James e Sirius eram sempre os primeiros a entrar em uma briga que envolvesse seus amigos, e comumente eram os últimos a sair dela. Eles também não tinham medo de sangue.

Peter gostava de vermelhos, porque era isso o que eles eram. Seus amigos morreram honrando o vermelho, e Peter evitava pensar que provavelmente morreria traindo a cor que o recebera de braços abertos.


NA: Repensando meus sentimentos em relação ao Peter... Ele era um Maroto, afinal de contas.