O que Regina estava vendo era real demais para ser apenas um retrato. Ela se aproxima para ver melhor e encanta-se com a perfeição dos traços sobre aquela tela. Era uma pintura a óleo.
A tela retratava o torso de um homem jovem, de pele clara e cabelos escuros. Pela exposição da pele, tornava claro que o modelo estava despido quando o quadro fora pintado. Que belo homem!
O quadro estava protegido por uma moldura oval em madeira ricamente esculpida, com detalhes de entalhamento minucioso. O artista tinha exigido cuidados exímios para a execução daquele trabalho. Uma moldura digna para o trabalho sobre a tela.
Regina estende a mão e toca a madeira, direcionando seus dedos para a superfície áspera da tela. Acaricia a tinta e suas proeminências, como se estivesse acariciando o corpo daquele desconhecido.
O brilho que o artista havia capturado para aqueles olhos inertes era impressionante! Era como se o jovem modelo estivesse vivo e encarando Regina com a mesma intensidade que ela o encarava. Ambos olhavam-se com atenção e curiosidade.
Ela sorri, tornando-se imediatamente apaixonada por ele. A perfeição de uma fotografia com alta resolução estava presente nos traços deixados pelo pincel de quem havia eternizado a beleza daquele modelo. Os olhos de Regina vagueiam pelo torso despido exibido naquele retrato e não conseguem sair daquela visão magnífica, daquele frescor capturado ali dentro.
O modelo parecia muito à vontade para a exposição e parecia ter total segurança de sua beleza e do que ela causava nas pessoas.
Quando finalmente consegue desvencilhar-se daquela hipnose, Regina percebe que numa mesa junto à parede onde descansava o quadro, havia um diário rústico e com muitas folhas. Sem sentir a necessidade de conter-se, ela apanha o diário e começa a folhear suas páginas amareladas. A leitura é inciada:
"Quando eu o conheci, minha vida foi preenchida e transbordada pelo brilho da juventude e do vigor de um homem recém-saído da adolescência.
Tinha o frescor do campo matutino e a altivez das flores molhadas pelo orvalho. Era lindo e viril! Forte como os potros jovens e vistoso como os garanhões em ponto de cobertura.
Seus olhos traduziam a exuberância de vida em sua alma e a curiosidade típica das criaturas jovens espalhadas pelos campos na primavera.
Os cabelos negros enfeitavam sua cabeça como a uma coroa tecida com um pedaço do manto celeste noturno. Alguém havia cortado um pedaço daquele manto celestial, isento de estrelas e deitado sobre a cabeça daquele jovem.
Nem mesmo se eu tivesse o poder de juntar estrelinhas na palma de minha mão, conseguiria criar o mesmo brilho que existia quando o sorriso dele se abria. O início do meu dia não surgia com o nascimento do Sol, mas quando eu o via sorrindo em minha direção.
Era um dos filhos das famílias que tinham vindo do norte do país em busca de trabalho em nossas terras. Minha família possuía plantações e eles surgiam todos os anos trazendo seus braços fortes e sua habilidade para o trabalho nas lavouras. Vinham muitos homens, mulheres e crianças. Ao fim das colheitas, iam embora para outra parte do país em busca de novas chances e levavam seus tesouros com eles.
Naquela ocasião, uma das famílias havia trazido um tesouro repleto de preciosidades e que atendia pelo nome de Marco. Um jovem alto, de pele clara e estupendos olhos da cor do céu matutino e sem nuvens. E que sorriso ele tinha!
Impetuoso como todos os jovens, Marco destacava-se pela sua beleza incomum. "Uma rosa vermelha não passa despercebida em meio a um campo com neve". Ele era uma rosa recém-desabrochada e eu não poderia permitir que suas pétalas ficassem murchas, antes que eu as colhesse.
Era uma pessoa feliz. Sua felicidade era contagiante e sua vivacidade também encantava as pessoas com quem ele convivia. Uma criatura singular e apaixonante!
Resolvi me aproximar dele, conquistar sua amizade e antes que a colheita fosse terminada, meu objetivo de conquistar o amor dele, deveria ser alcançado. Eu sonhava com ele em todas as noites e durante os dias, sonhava acordada, criando fantasias das mais diversas.
Usando meu arsenal de truques sedutores, consegui tornar-me próxima a ele. Foram avanços lentos e firmes, provocando inquietação dentro do coraçãozinho dele e conseguindo criar um vínculo amistoso entre nós dois.
Todas as noites, após o trabalho, íamos para a minha varanda e ficávamos conversando por horas depois do jantar. Com o passar do tempo, consegui convencê-lo a ter as conversas dentro de minha casa.
Lembro-me exatamente daquela noite em que nossa conversa extrapolou os limites da sala principal e terminou de forma romântica e intensa dentro do meu quarto. Eu havia marcado território naquele corpo e não permitiria que Marco partisse de minha vida. Agora, havíamos nos tornado carne de uma só carne e sangue de um só sangue. Ele era meu e eu era dele. Pertencíamos um ao outro e nada nos separaria, exceto a morte.
Quando a colheita acabou, todos os trabalhadores partiram com suas famílias, entretanto, Marco permaneceu comigo, como meu esposo. Estávamos recém-casados!
Em todas as manhãs, eu acordava em sobressalto, temendo o desaparecimento do meu amor. Mas ele sempre estava ali, lindo e inteiramente meu. Entretanto e infelizmente, o demônio da insegurança afligiu e dominou a minha alma.
Constantemente, esse demônio fazia-me lembrar da diferença de idade existente entre mim e Marco. Aquilo ia corroendo minha alma aos poucos, de forma dolorosa e doentia.
Num dia qualquer, acordei com uma ideia fixa de iniciar um cerco aos dias e pensamentos de Marco. Eu queria ficar presente e fazer-me muito importante na vida dele, sem saber que já era. Desde aquele dia, passei a presenteá-lo com os mais diversos mimos, tentando fazê-lo encantar-se pelas minhas atitudes.
O aniversário dele estava chegando e eu queria oferecer algo que marcava nosso relacionamento. Então, decidi presenteá-lo com o fruto de um trabalho de minhas mãos. Decidi eternizar seus lindos traços em uma tela.
Aluguei uma casa de campo e enviei para lá todo o meu arsenal para montar meu atelier de pintura. Meu assistente pessoal e eu partimos para um exílio que duraria um mês.
Durante todos aqueles dias, eu trabalhei exaustivamente com aquelas misturas de tinta em busca da perfeição que se aproximasse do viço de Marco. Várias tentativas infrutíferas quase me fizeram desistir, até que numa madrugada, consegui a exatidão dos tons.
Trabalhei de maneira alucinada, deixando o atelier apenas para banhar-me e trocar as roupas. Minha alimentação era feita ali dentro mesmo, porque a saudade comprimia meu peito e eu desejava retornar o mais rápido possível para o lado do meu amado.
A cada um dos traços sobre a tela, eu via nascer a extrema semelhança com aquele jovem. Era como se a pintura captasse a vivacidade daquele corpo e daquele rosto.
E quando eu dei a última pincelada sobre a tela, tive a horrível sensação de que aquela figura havia demonstrado estar viva. Tenho a certeza de que as pálpebras moveram-se. A figura havia piscado como se quisesse umedecer os olhos. Uma piscada lenta e pesada, como Marco costumava fazer quando estava em profundo êxtase prazeroso.
O terror tomou conta de minha razão e meus ossos congelaram-se. O demônio da obcessão sussurrava em meus ouvidos que tudo estava findado. Tudo mesmo!
O nome de Marco latejou em meu coração e imediatamente tratei de retornar para minha fazendo. Meu assistente pessoal ficou para trás e eu parti em desespero. Algo gritava dentro de mim, avisando-me sobre uma desgraça imensa. A sensação era horrenda!
Durante meu exílio, não permiti que nenhum contato com meus familiares e empregados da fazenda. E isso foi minha perdição!
Quando cheguei à fazenda, informaram-me que Marco havia sido acometido por uma doença misteriosa que ia pouco a pouco sugando sua vitalidade e saúde. Ele estava definhando e no momento em que o vi deitado sobre a cama, meu coração petrificou-se e perdi o que restava de fé em meu espírito.
Sobre a cama, ressequido e murcho como um homem com mais de cem anos, Marco olhou-me com aqueles olhos cinzentos. Não conseguiu dizer nada e apenas tentou sorrir. Vi a luz de seus olhos se apagarem como a uma chama delicada sendo soprada. Ele havia apenas esperado a minha volta para despedir-se.
Naquele momento, o monstro da obcessão sussurrou em meu ouvido que eu havia feito a escolha. Entreguei a vida de Marco para que a perfeição do resultado de minha tela, nascesse. O retrato tinha sugado a vida de meu amado e em cada uma das pinceladas, eu roubava um pouco da vida dele.
Vinte dias depois do enterro de Marco, retornei até o local onde havia sido meu atelier. Queria destruir aquela coisa maldita que havia me roubado o meu amor. Meu ódio fluía como suor pelo meu corpo e tudo o que pensava era em destruir aquela obscenidade.
Infelizmente ou felizmente, a chegar naquele mausoléu não encontrei absolutamente nada. O proprietário me informara que meu assistente pessoal havia ordenado o esvaziamento da casa. Aquilo me consolou e me entristeceu ao mesmo tempo.
Tendo retornado ao meu cotidiano sem cor, sequer questionei meu assistente sobre o paradeiro daquela maldição. Por anos a fio eu evitei qualquer informação sobre aquela tela.
Cinco anos depois, senti a necessidade de ver novamente o belo rosto de Marco. Tive de prometer e jurar que não destruiria a tela para conseguir vê-la novamente. E quando a recebi, o assombro me tomou: os olhos tinham vida e posso jurar que os vi várias vezes seguindo meus passos e tenho a absoluta certeza de que numa noite, a figura sorriu para mim.
Um artesão talhou delicada e perfeitamente uma moldura oval. Cuidadosamente esculpida, foi a moldura perfeita para uma tela perfeita. E antes de emoldurar pedi permissão à figura da tela. Eu posso afirmar conscientemente e com a sanidade mental saudável, que Marco sorriu.
Depois de emoldurado, o retrato foi exibido em minha sala principal para todos os olhos. Muitas pessoas amigas de minha família não passavam incólume àquela representação. E como me orgulhava!
Numa reunião em família, alguém fitou a tela e pergunto-me por qual motivo eu ainda não havia trazido aquele homem de volta à vida. Por que eu o mantinha preso nas limitações daquela moldura? Por que eu preferia manter sua alma aprisionada sob meu controle?
Durante décadas eu viajei pelo mundo, consultando esotéricos, alquimistas, estudiosos, mágicos e feiticeiros na busca de alguma fórmula que o libertasse e o trouxesse de volta para meus braços. Loucura? Amor? Desejo? Culpa?
E foi na Índia que alguém me disse sobre a temível Pata do Macaco. Somente ela, poderia restaurar o meu belo e viçoso marido. Retornei ao meu mundo, apenas para organizar a vida de quem vivia ao meu redor, pois iria abandoná-los para iniciar a minha jornada em busca do impossível.
Eu buscarei esse objeto, mesmo que eu liberte Marco e morra no dia seguinte."
05 de janeiro de 1956
Regina folheia o livro e observa a existência de outros inúmeros capítulos, retratando as localidades e datas das viagens da autora do diário. Mas seria uma leitura a ser feita com mais calma e em outro lugar.
- Onde você está, Regina? – a voz de Emma é ouvida do corredor dos quartos.
Rapidamente, Regina apanha o castiçal e fecha o livro. Afasta-se e sai do quarto sorrindo.
- Estava bisbilhotando os cômodos!
- E deixou-me sozinha no quarto e sem velas acesas? Bela amiga é você!
Regina sorri amplamente. Estava histérica e teria de planejar seus próximos passos.
Na manhã seguinte quando Emma acorda, encontra a cama parcialmente vazia. Havia pedido tanto que Regina não a deixasse sozinha naquela casa desconhecida.
Já arrumada, Emma preocupa-se em deixar um bilhete aos donos da casa agradecendo pela hospitalidade inconsciente e pedindo desculpas pela invasão e consumo. Junto ao bilhete, deixa algumas notas para pagar o vinho e o pão.
Ia caminhando para sair e procurar Regina, mas quase é atropelada pela morena. As duas sorriem.
- Onde estava?
- Acordei cedo e percebi que meus poderes tirados pelo relâmpago de ontem à noite, tinham retornado. Então fui ao carro, o consertei e o trouxe para cá. Agora, precisamos partir.
- Deixei algumas notas sobre o bilhete...
- Tudo bem, tudo bem! – Regina mostra-se letárgica e sem pressa m sair dali.
Por segundos, Emma desconfia daquele comportamento, mas decide ignorar e seguir a rota de volta para casa.
