Durante vários dias, a lembrança daquela imagem protegida pela moldura em madeira não sai da mente e do coração de Regina. Algo a compelia a pensar e pensar nas palavras e no rosto bonito daquele modelo.

Uma profunda saudade surge entre suas emoções. Queria estar diante daqueles olhos que pareciam pedir ajuda.

Precisava retornar àquela casa e embriagar-se da beleza daquela figura.

E no meio daquela noite, mesmo tendo prometido ao filho que não se utilizaria de truques, Regina desvanece em fumaça e transporta-se para o meio daquele quarto, indiferente de quem iria encontrar.

E o quarto estava vazio e escuro. Exatamente da maneira como havia deixado naquela noite de invasão. Ali, preso na parede estava o retrato oval, adormecido e protegendo o desconhecido de beleza ímpar.

Regina começa a folhear o diário e busca onde havia parado de ler. A partir dali, surgem relatos como se fossem de um diário de bordo. Contavam a história da busca de um talismã que talvez tivesse o poder de trazer de volta, o homem perdido.

A pessoa que amava Marco mostrava-se disposta a encontrar o objeto e para isso não se importava em fazer pactos ou negócios escusos e perigosos, desde que a informação conseguida a aproximasse da liberdade daquele homem.

Por horas, Regina perde-se na leitura daquele diário. Depois, gasta mais horas na admiração dos traços feitos sobre aquele retrato. Lindo demais! Triste e misterioso!

Era madrugada quando ela retorna para sua casa, levando todos os detalhes daquele rosto, em sua mente. Embora não quisesse reconhecer, estava começando a apaixonar-se por aquela imagem estática.

Isso não poderia acontecer. Apaixonar-se por uma imagem?

Nos dias que se seguem, Regina não consegue fugir às visitas ao quarto do retrato. Depois de toda a cidade adormecer, ela se esvai em seus truques para ressurgir dentro daquele quarto misterioso, diante daquela pintura que parecia estar viva e pedir socorro com aqueles olhos.

Por horas ficava admirando o rosto do desconhecido pintado na tela. E a cada dia, descobria algum traço que havia passado despercebido. Ao final daquele mês, Regina já poderia criar o mais perfeito retrato falado, caso fosse preciso.

Completamente conquistada pela história escrita naquelas páginas daquele diário, Regina decide que iria descobrir um meio de atender ao desejo de quem havia escrito aquelas anotações. Conseguia sentir a dor contida em cada uma das palavras em todas as vezes que as lia. Era como se tivesse acompanhado toda a história no exato momento em que ela acontecia. Era como se estivesse ao lado daquela pessoa que escrevia o diário, vendo as lágrimas que caiam sobre as páginas e produziam aquele borrão característico.

Regina iria usar seus conhecimentos e descobrir como tirar Marco daquela prisão. Iria trazê-lo de volta à liberdade e dar-lhe a chance de envelhecer. Ela o conhecia mais do que qualquer pessoa e merecia tê-lo ao seu lado e ensiná-lo a viver no mundo contemporâneo. Marco seria seu. Todo seu

Não diria nada a ninguém para evitar comentários desencorajadores ou críticas destrutivas. Queria agir sozinha e sem pedir permissão ou opiniões. Mas para isso iria precisar de alguém confiável para orientá-las nas viagens que precisaria fazer. Alguém que conhecesse vários países e culturas e que fosse discreto.

Imediatamente, a imagem de Killian surge em sua cabeça. Era um pirata que carregava muitos anos nas costas e muitas experiências em viagens pelos mares e oceanos. Conhecia pessoas, lugares e costumes, além de ter informações que certamente não estavam escritas nos livros de truques.

Naquela manhã, chega à lanchonete da cidade e encontra o Capitão a aguardando.

- Bom dia, Capitão! – Regina senta-se e recebe um sorriso sonolento como resposta.

- Sejamos direto, Majestade. O que a senhora quer?

- Eu preciso contratar os seus serviços e agora que o senhor conseguiu seu navio de volta, será melhor para meus objetivos.

- Seja direta, Majestade.

Ela se inclina para frente para que somente ele ouvisse o que iria ser dito.

- O senhor já ouviu falar num amuleto chamado "A pata do macaco"?

Killian sofre um choque e empertiga-se. Estreita as sobrancelhas escuras e mostra-se intrigado.

- Sim, Majestade. Conheço tal amuleto.

- E saberia dizer-me onde posso encontrá-lo?

O pirata ergue as sobrancelhas e fica pensativo por segundos.

- Não é um objeto único. Há vários espalhados pelo mundo. É um objeto preparado para atender um determinado objetivo.

- E como posso ter um?

- Terá de ir a algum lugarejo da Índia, procurar algum conhecedor de magia e encomendar uma aberração como esta.

Regina inspira profundamente. Estava tensa e temerosa, mas para libertar Marco, faria qualquer loucura.

- O senhor iria comigo nesta jornada? Eu usaria algum truque e iríamos onde o senhor indicar.

- Não vou perguntar por qual motivo quer uma aberração destas, mas tenho a obrigação de alertar sobre o perigo de lidar com isso. É um tiro no pé!

Um sorriso nervoso surge nos lábios pintados de Regina.

- O que quer dizer com perigo...

- A pata do macaco é um amuleto do mal. Ele concede três desejos que acontecem imediatamente após o pedido. Porém, com a realização do pedido, surge um acontecimento desgraçado logo em seguida. Digamos que eu peça para ser promovido em meu serviço. Serei atendido, mas a pessoa que ocupava o cargo, morrerá.

- E se eu pedir para libertar uma pessoa?

- Humm...então essa pessoa será libertada, mas saiba que algo ruim relacionado a esta pessoa, irá acontecer.

- Mas eu poderei usar minha magia para proteger essa pessoa depois de libertá-la...

O pirata dá de ombros.