Talvez, pela falta do que falar, ou a inconveniência do ocorrido, ambos permaneceram em silêncio tempo demais sem se darem conta dos minutos que corriam. Saria, em especial, não tinha nada para dizer, ou, pelo menos, não conseguia e todo o esforço para expulsar a timidez de dentro de si era inútil. Link, por outro lado, abstendo-se a esperar da outra uma reação, mesmo sabendo que dela não partiria nenhuma iniciativa, tratou de observar inutilmente como as trepadeiras se entrelaçavam umas nas outras. Na realidade, tencionava a maneira com que faria os dois saírem dali.

─ Saria?

─ S-sim…?

─ Vamos sair daqui?

─ C-claro.

Tomando a mão da kokiri, o Link levantou-se e começou a andar em direção à saída. Não tardaram em prosseguir o caminho pelos troncos de árvore, logo desembocando novamente na Floresta Kokiri. Saria, sempre acompanhando Link no ritmo que convinha ao garoto, não observava nada além das mãos miúdas dos dois juntos em um aperto firme. Ela não podia ter certeza, mas sentia de alguma forma que as maçãs de seu rosto levemente se enrubesciam – secretamente esperava que Link não a visse assim.

Ao chegarem finalmente na altura em que as casas foram construídas, depois de Link ajudá-la a descer em segurança, o laço das mãos se desfez. Os olhos se encontraram e novamente um silêncio constrangedor preponderou, mas poucos segundos, o suficiente para ser quebrado pela voz do herói do tempo.

─ Que fazemos agora? – Indagou Link.

─ Eu não sei… – Saria parecia pensativa. Tinha em frente à boca uma das mãos.

De súbito, como quando se recorda de algo, ela ergueu o olhar, não para fitar Link, mas o que estava faltando ali.

─ Link! – Talvez a voz tenha escapado um pouco mais alto que ela previra, recuando o passo, assustada – E-eh… Cadê a.. a Navi?

─ Ela… se foi…

Talvez Saria nunca tenha o visto daquela forma. Não era a forma com que falara, tampouco os ombros caídos ou a expressão de triste. Era algo que emanava dele, como quando se sabe que algo não está bem. Talvez fossem aqueles olhos azuis. Guardavam tamanha força e determinação que agora não conseguiam externar nada além de uma melancólica resposta, mostrando bem mais do que podia dizer.

─ Mas… como? Para onde?

─ Eu não sei... – Por mais que fosse um garoto a frente de seu tempo por tudo o que havia vivido, estava desolado – Após a batalha contra Ganondorf ela foi embora. Desde então eu estou tentando encontrá-la.. Já olhei Lost Woods inteira. Perguntei a todos os Skull Kids e Dekus, mas nada.

Não foi por mal que perguntara, como poderia ter feito Mido para atingi-lo de alguma forma. Era curiosidade mesclada com preocupação. O olhar que predominava na feição de Saria não era pena, tampouco gostaria que Link pensasse que este carregava tal intenção. Contudo, o instinto fez-se mais forte e, sem perceber, aproximou-se do garoto de repente. A mão o tocou suavemente no ombro e, quando se deu conta, já era tarde demais para tirá-la sem mais nem menos.

─ Link, eu…

─ Tudo bem… Eu não sou um kokiri, afinal – Ele forçou um sorriso de canto como que para demonstrar que estava tudo bem – Acho que é comum que ela se vá depois de ter me ajudado.

Visivelmente Saria não sabia o que dizer. Não havia palavras que pudessem confortá-lo. Apesar da mão em demonstração de condescendência, ela que parecia inconsolada. Por um momento, lembrou-se dos esforços indubitáveis, de todos os obstáculos e lutas pelos quais aqueles dois haviam passado. Mais do que qualquer outra pessoa, quem sempre esteve ao lado de Link fora Navi e a perda dela depois de tamanha lealdade só podia ser sentida e daquele jeito que ele esteja procedendo: em silêncio; guardando a dor da perda e a saudade somente para si.

─ Ei, anime-se! Que cara de desolação é essa? Vamos! Um sorriso combina muito melhor nesse rostinho! – E, talvez atrevido, com os dois polegares tencionou para cima ao lado dos lábios da kokiri forçando um sorriso.

Claro que ela ficaria sem graça. Era típico de Saria. No entanto, mesmo corando, a feição da garota quase não se alterara, a não ser por um sorriso sem graça que esboçou ao sentir os dedos do garoto saírem de sua face.

─ O que você vai fazer agora?

─ Bem, não sei. A princípio, continuaria procurando em Lost Woods. Lá é muito grande, e para uma fadinha não é difícil se perder ou passar despercebida.

– Você quer que eu te ajude?

– Não, tudo bem! Não se preocupe com isso! – Ele já procurava alguma maneira com que pudesse desarmá-la da preocupação. Um sorriso altruísta preponderou em seu rosto pequeno, salientando as maçãs do rosto de maneira a deixá-lo caricato.

Saria, ao dar-se conta, sem muito o que dizer, apenas virou de costas, a mão colada ao peito, sentindo o coração disparar. Ele era tão bonito. Tão atencioso e preocupado. Sempre pondo a dor dos outros à frente da sua. E, logo ele, o herói do tempo, que abdicou de uma vida para poder reestabelecer a ordem e a paz em Hyrule. Logo ele, uma criança, cujo destino se estenderá por vidas sem nunca se desvencilhar da bravura indômita e da coragem que povoam todas as suas ações.

Ela estava corada. Mantinha os olhos fechados e apenas pedia para que ele não se atrevesse a olhá-la. No entanto, sem entender, o garoto, curioso, ponderando se pudesse ter dito algo que havia sido mal interpretado, coçou os cabelos da nuca em sinal de questionamento, sem dirigir a palavra à garota. Aproximou-se, cauteloso, dando a volta até poder fitá-la nos olhos fechados.

– Eu disse alguma coisa de errado?

Antes de responder, Saria beliscou o canto inferior do lábio. As pálpebras revelaram então os olhos esmeraldinos brilhantes, talvez mais destacados devido ao marejar que de imediato chamou a atenção do rapaz.

– Saria? Por que você está chorando?

Com as costas do indicador, tratou de retirar as gotas que se formaram, respondendo-o em um aceno negativo.

– Não… Não é nada. Você não disse nada de errado. Eu apenas que estava pensando. Pensando demais.

"Pobre, Link… Chega a ser cruel não poder ter escolha da vida que nos é reservada. Ainda assim, mesmo que se pudesse optar, acredito que ele continuaria neste mesmo caminho de batalhas, solidão, mágoas e cicatrizes".

Saria teve o pensamento interrompido pela mão de Link que agora estava pousada delicadamente em seu ombro. O garoto a fitava admirado, levando no olhar certo brilho que intrigava. Ela tentou conter a emoção.

– Não há motivos para que você fique assim, calma. Seja lá o que estiver passando pela sua cabeça, está tudo bem.

E, realmente, portando aquele timbre terno e a maneira como conduzia as palavras, Saria, aos poucos, mesmo pelo nervosismo de tê-lo por perto, convencia-se de que tudo estava bem. Ela sorriu de canto para transparecer uma aparenta alegria adornada pelos olhos fechados e as sobrancelhas arqueadas.

– Obrigada, Link. Estou melhor agora.

– Isso, assim. Ótimo – Ele sorriu – Um sorriso combina bem melhor com você que aquela expressão triste. Você é mais bonita assim. Eu prefiro assim!

Não foi preciso mais que isso para que Saria se virasse novamente, envergonhada. Link já estava começando a se acostumar. Agora ele estava sem graça, mas por não saber como agir. Seriam três dias longos e tinham que aproveitar o quanto antes. Já tinham perdido algumas horas visitando Lost Woods; não podiam se dar ao luxo de perder mais tempo ainda.

– Bem, temos que aproveitar o tempo que nos resta – disse Link.

– Sim, sim.

– O que quer fazer agora então?

– Bem, eu não sei…

– Hm… Acho que já sei o que podemos fazer!

Segurou-a com firmeza pelo pulso, puxando-a em uma corrida em direção à saída da Floresta Kokiri.


Nota: Voltei. Acho que agora vai pra frente. Antes de iniciar qualquer oura fic, vou me obrigar a terminar esta e não farei isso por pura obrigação, mas por compromisso. Afinal, como irei, futuramente, escrever meus livros sem nem sequer conseguir terminar uma fic? Haha. Espero que gostem! :D Se é que tem alguém lendo. q