A passos suaves que iam de encontro à relva sem o receio de esmagá-la sob os pés, Link caminhava a frente, pimpão, como quem não teme nada. E, de fato, após a sua pequena demonstração de habilidades minutos atrás, tinha razão, pelo menos em parte, de se fazer de guia; sabia dos perigos iminentes que poderiam surgir, principalmente com o sol se pondo. No entanto, essa sua confiança exacerbada denunciava, talvez, uma prepotência intrínseca de quem sabe que não será abatido facilmente. Quem olhasse de longe, então, poderia julgar mal o herói do tempo, precipitando-se ao pressupor sua conduta. Podia sim ser capaz de lidar com acontecimentos que necessitassem de ação súbita, no entanto, nem por isso, subestimava seus inimigos. Ao mesmo tempo que desbravava, sem hesitar, a trilha rumo ao destino, seus olhos, sempre atentos, refutavam qualquer hipótese de ameaças que pudessem intervir em seu zelo por Saria e Epona.

A garota, logo atrás, absorta em pensamentos, não se incomodava nem quando a equina tinha de galgar sobre algumas pedras. Saria mirava suas mãos sobre os pelos tenros e macios de Epona, sem se dar realmente conta de como o entardecer valorizava ainda mais o brilho prateado de sua penugem. Entrementes, o olhar distante não era fácil de se traduzir em uma única olhadela, mas seria o suficiente para despertar qualquer sentimento de preocupação vindo de Link. Por sorte, ou mera coincidência, já que a kokiri não parecia estar em posição de se preocupar caso o garoto a visse, seus olhares não se cruzaram por longos minutos. Longos minutos em que Saria parecia fora de si.

"Porque é o destino você e eu não podermos vivermos no mesmo mundo.", suas palavras ecoavam em sua cabeça, cada vez mais agudas, estridentes, não dando espaço para que quaisquer outros pensamentos ocupassem sua mente naquele instante. Não soube responder a si mesma por que estava imersa de tal forma. Até mesmo o receio bobo de outrora em conhecer alguém que Link queria lhe apresentar parecia ter sumido. Estivera tão indiferente que nem ao menos viu quando a primeira estrela brilhou no céu ao começar a ganhar os tons azul-escuro que devoraram rapidamente as nuances do crepúsculo ligeiro. Deu-se por si somente pelo solavanco súbito de Epona ao parar. O desequilíbrio fora tamanho que por muito pouco o baque da garota de encontro ao chão não fora evitado a tempo por Link. Segurou-a firme, mas carinhoso, pondo-a novamente sentada.

─ É melhor tomar cuidado – ele proferiu, sorrindo acalantador, o que fez Saria enrubescer e sentir o peito pulsar, sem resposta. – Vamos, não queremos companhias indesejáveis, não é?

Mas era tarde. O sorriso em ambos os rostos fora desmanchado por um som ímpar, e que Link conhecia bem. Seu olhar, agora sério, corria ao redor, averiguando de onde surgiriam. Não seria difícil determinar o local já que o som dos ossos se chocando era audível assim como a terra sendo escavada de baixo para cima. De repente, um par de mãos caveirosas surgiu, apoiando-se no gramado com persistência antes de erguer-se de uma vez, triunfante, balançando o corpo desajeitado e sacudindo toda terra de sua ossada.

─ Aaaah! – Saria gritou, fechando os olhos e levando as mãos até a cabeça, como quem se esconde. Outro estampido, porém, misturou-se ao grito e ela logo concluiu que outra criatura descarnada havia escavado-se para fora da terra.

─ Droga, parece que não consegui evitar que isso acontecesse. Não fomos rápidos o suficiente. – dizia Link, mas sem preocupação na voz. – Muito bem, vamos terminar isso rápido. – E antes que partisse para a ação, ele segurou a amiga pelos ombros, para fazê-la olhá-lo em seus olhos azuis vivazes. – Não tenha medo. Eu jamais deixaria que qualquer mal lhe acontecesse – E sorriu, antes de se afastar.

Agora, mais calma, Saria podia discernir melhor. Epona trotou novamente para mantê-las fora de perigo enquanto Link empunhava a espada e o escudo. Por mais que fossem dois Stalchilds, um de cada lado, ambos caminhando trôpegos, bastou menos esforço que ele havia feito contra a Peahat. Com um golpe lateral lá se foi pelos ares a cabeça de uma das caveiras, que não pareceu nada perdida, ainda indo de encontro ao seu alvo, balançando as mãos vacilantes no ar. Com um salto-mortal para trás, desviou dos ataques. Parecia fácil. Era fácil. Os inimigos ossudos deram um encontrão oco devido ao som dos ossos batendo uns nos outros. Link quase riu. Ele gostava. Era divertido, mas a brincadeira deveria terminar o quanto antes. Agachando-se nos joelhos estendeu o braço esquerdo para trás, mantendo o escudo a frente na outra mão. A atmosfera ao redor parecia ficar mais densa a medida que a lâmina parecia ganhar brilho. Espirais azuis-claras ladeavam o metal do cabo até a ponta, mesclando-se como uma dança, ganhando mais vivacidade; como se atritassem, as labaredas azuis tornavam-se um vermelho que se assemelhava às chamas, quase tenaz, o que fazia parecer ser parte da espada.

"Então ele vai fazer" - Pensou Saria, com os dedos colados sobre os lábios, animada.

Tão rápido quanto o clima fez-se pesado, desfez-se logo após Link girar sobre os calcanhares com sua espada empunhada frente ao corpo. Conforme a lâmina ganhava o ar, desprendia-se dela o fulgor, aumentando o raio de alcance do ataque, lambendo da existência aqueles amontoados de ossos que agora voavam para longe dali. Quando se virou, ele pode assistir a uma Saria animada, que parecia bater as palmas das mãos em comemoração a vitória; e, apesar disso o alegrar, sabia, contudo, que se demorassem mais alguns minutos para avançar, teria de enfrentar mais algumas levas de Stalchilds.

─ Não podemos perder tempo! – anunciou, embainhando a espada às costas. Adiantou-se em passos largos e, com um pulo, montou em Epona, já armado para galgar veloz.

Seus dedos seguravam com firmeza os pelos da equina, com o cuidado devido para não machucá-la. Saria, sentada de lado, com as pernas para fora, encaixou-se entre as pernas de Link, sem querer, evitando olhá-lo por já saber a situação de seu rosto avermelhado. Baixou a cabeça, encostando-se entre o pescoço e o ombro do amigo, encolhendo-se, segura. Só, então, o garoto apercebeu-se do contato, tão próximo, que fez seu estômago revirar-se sem explicação, como se uma lufada de borboletas sem critério algum de viagem voassem dentro de si. Por um momento, olhou para baixo, sem conseguir respirar nem mirar o rosto de Saria. Foi com dificuldade que puxou o ar para os pulmões, sugando uma enorme quantidade pela boca, antes de tomar coragem de falar.

─ Se não olhar, vai perder como é lindo aqui à noite apesar dos… Bem, você sabe. – concluiu, dando uma risada baixa. – Olha só a lua. – E a pontou com o indicador esquerdo, forçando a cabeça recostada e se erguer.

O vislumbre dos olhos da garota não poderia ser maior ao se deparar com uma lua cheia, tão resplandescente que seu brilho prateado banhava tudo que tocava. Era impressionante como até mesmo as estrelas pareciam piscar teimosas, como para chamar a atenção dos olhares excitados lançados para o céu. Ela olhou ao redor, sentindo um frescor varrer não só a grama, mas as árvores ao longe, entonando naquela bela noite o farfalhar das folhas que pareciam ter ganhado vida.

─ É linda. – disse, com certa paixão na voz, voltando os olhos para a lua.

─ É, é sim… – concordou Link, que não mirava a lua, mas tinha em sua voz e em seus olhos a mesma paixão que a garota expressara nas palavras.

Epona diminuía o cavalgar aos poucos, valendo-se de um passeio amistoso pelo campo, relinchando de raro em raro, em protesto, quando tinha de ou pular por cima de Stalchilds ou desviar deles. Saria, agora mais calma, não parecia apresentar medo, sequer falava. Mergulharam em um silêncio profundo, mas não constrangedor; não havia a necessidade de se dizer coisa alguma, apenas de se estar. Ela, agora mais reta, contudo, não com o corpo rijo, sentia o toque da bochecha de Link na sua quando uma curva ou um salto eram necessários. Seu coração pulsava forte e um sorriso estampado em seus lábios dispensava explicações. De mesmo modo, ajeitando o corpo mais para fronte, ele, intencionalmente, recostou sobre si o corpo de Saria ainda mais, o que levou-os a cruzarem o olhar. Estavam perto, quase colados, os lábios ora próximos ora afastados pelo trote de Epona.

─ Link, eu…

─ Sim…?

Saria que agora, indubitavelmente, mirava os lábios de Link, cerrava os olhos por timidez, as maçãs do rosto quentes, já nem mais conseguia respirar senão pela boca, bem devagar. Enquanto sentia a aproximação do outro sobre si, não via mais nada pois os olhos bem fechados não davam margem nem mesmo para distinguir a silhueta do garoto; e, apesar, no entanto, da força que exercia para manter as pálpebras seladas, em seu âmago, pulsando forte sob a blusa, ela sabia e sentia que seus desejos reprimidos estavam aflorando naquele momento. Ela queria. Seria agora, enfim? Uma de suas mãos segurava com firmeza a roupa de Link, e ele se surpreendeu em como aquelas mãozinhas pequenas e delicadas podiam ter tanta força. Ele sorriu. Estava parado a poucos centímetros dela, sem saber como proceder, os olhos parcialmente fechados, cada vez se aproximando mais e mais…

Entrementes, um barulho muito baixo para que pudessem se incomodar era audível caso apurassem a audição. No entanto, ambos não pareciam se importar com fatores externos, ignorando o barulho e o Stalchild que se ergueu, meio embriagado, sobre os pés incertos. Epona desviou bem a tempo, em uma manobra que quase fez Saria cair de seu corpo. Link, rápido, segurou-a com força pela cintura e puxou-a para si, tomando controle de Epona e circundando as paredes que levavam até Lon Lon Ranch.

─ Está tudo bem com você? – perguntou preocupado.

─ Sim, sim… Foi só… Só um susto. – E de fato fora, já que o coração da garota batia ainda mais forte que segundos atrás, apesar da emoção do momento anterior ser maior que a expectativa da queda.

─ Maldito! Quase que você se machuca, e tudo por que eu…

─ Não! Não foi sua culpa! Eu que… O distraí. É minha culpa.

─ Não diga isso! Eu… Eu me deixei distrair…

O silêncio empoderou-se mais uma vez, anunciando, agora, o constrangimento em não saber o que ser dito. Após verificar que Saria estava firme e equilibrada, Link soltou-a para pegar seu bumerangue e arremessá-lo certeiro na pilha de ossos que saltou e ricocheteou até cair inerte no chão. Apanhou sua arma que vinha rodopiante e guardou-a.

─ Isso para ele aprender a nunca mais ousar ferir você.

Saria o olhou por baixo, com um sorriso de agradecimento ao ver que o rosto dele ganhava um tom avermelhado igual às suas bochechas. Acomodou-se uma vez mais sobre o corpo do herói do tempo, sentindo-o rijo até, aos pouquinhos, ir relaxando.

─ Já estamos chegando. Vamos, Epona! Em frente!

E foi com um relinchar e a empinada das patas dianteiras que Epona tornou a galgar até a entrada da muralha de pedra.

A brisa primaveril parecia acompanhá-los. Rompiam pela rampa que dava acesso ao rancho com facilidade. A velocidade foi reduzida abruptamente a trotes vagarosos, o que fez Saria abrir os olhos e perceber que já haviam chegado. Podia ver uma casa bem grande à esquerda, com uma porta de entrada e janelas ao lado e em seu topo. A casa se estendia até um portal de entrada feito de madeira, cuja placa continha inscrições que Saria não conseguiu enxergar devido à escuridão. Sustentando, à direita, a outra perna de madeira do portal, outra residência, porém, baixa comparada a outra, estendia-se até onde eles estavam parando.

─ Ali é o estábulo. Há algumas vacas e cavalos. O Ingo deve estar lá também, mas não importa. Ele só é um cara chato e rabugento. - ele disse.

Não houve protestos vindos de Saria e enquanto Link descia de Epona e caminhava ao seu lado, ela voltava o olhar para frente, cujo portal, apercebeu-se, era deixado para trás, revelando um enorme espaço, flanqueado no centro por cercas que deixava bem clara a intenção daquela área ser destinada aos cavalos.

─ Foi aqui que conheci Epona. - e a égua gentilmente roçou a testa no garoto.

Se no campo de Hyrule a lua parecia tão majestosa, Saria ficaria impressionada ao olhar para o céu e constatar que o enorme satélite lunar estava bem em cima deles, acompanhado de várias estrelas persistentes que brilhavam com toda sua magnitude e força. Encantou-se, e olhou para Link em seguida, que retribuía o olhar com um sorriso afável.

─ Gostou?

─ Sim, gostei muito.

Ao longe, no silêncio, podiam ouvir um cantarolar baixo que aumentava a medida que iam se aproximando. Provinha de uma figura no meio do cercado, balançando suavemente de um lado para o outro, entonando a voz ritmicamente. Epona logo respondeu ao chamado, disparando ao entrar no cerco e ir em direção à canção. Saria concluiu que ela era a pessoa que Link queria lhe apresentar. Era jovem. Uma garota. Deveria ter a altura deles. Cascatas de emaranhados cabelos vermelhos despendiam de sua cabeça, balançando junto do vento que lavava as árvores em volta a farfalhar num cântico noturno, em sincronia com sua música.


Nota: Voltei! Mais de um ano que não posto aqui. Me sinto envergonhado. Não pareceu ser tanto tempo desde a última vez. Espero que me perdoem e que esse capítulo esteja a altura de suas expectativas. Mas temos que conversar.

Serei, portanto, sincero com vocês: até hoje eu não planejei muito bem o meio da história, a qual nos encontramos agora. O fim, eu já tenho mais ou menos traçado. Eu pretendo continuar. Eu quero. É uma promessa que eu me fiz.

Agora, eu preciso saber: Gostaram? Sentiram diferença na narrativa? O que acham que eu devo melhorar? Preciso saber porque encontrei bastante dificuldade em concluir esse capítulo e, apesar de estimulado, gostaria que não fosse tão difícil assim de escrever. Meu objetivo aqui era fazer um capítulo longo, mas creio que irei dividi-lo nessa parte e continuarei no próximo. Por favor, estou contando com o apoio de vocês. Não desistam de mim. Eu não vou desistir de Link e Saria!