CAPÍTULO 2
Era uma tarde de sábado atipicamente quente em pleno outono. Nova Iorque não é uma cidade que zela pela tranquilidade em suas ruas durante o final de semana, pelo contrário. O mundo estava fervilhando entre as principais avenidas que estavam quase entupidas de pessoas vindas de todos os lugares. Se você decidir morar na cidade que nunca dorme, mais especificamente em Manhantam, e quiser sossego, existem ainda ruas tranquilas em meio ao caos. Mas sem dúvidas a avenida Madison não era o lugar perfeito, isso foi levado em consideração na escolha de um lugar para se chamar de lar.
O silêncio geralmente reinava nos corredores do prédio localizado na W 87th St durante todos os dias da semana. Nenhum morador atrevia-se em incomodar seu vizinho com barulhos estranhos, o tráfego de veículos na rua era mínimo, um paraíso pacífico entre as nervosas ruas nas redondezas. Porém, naquele sábado em especial, no apartamento localizado ao final do corredor do oitavo andar, a rotina silenciosa dos finais de semana foi quebrada. O som era fraco, mas era possível distinguir que se tratava de uma música do estilo anos 70 que era acompanhada por uma voz feminina que oscilava entre a afinação e risadas.
~ Like a drum my heart was beating,
and your kiss was sweet as wine~
O som de uma risada alta e estridente veio na sequência.
~ But the joys of love are fleeting,
for Pierrot and Columbine~
"Ok, para mim já deu!" – a música diminuiu o volume - "Vocês darão o beijo de despedida dos amantes no final? Se sim, juro que não perco por nada!"
Abby estava nas redondezas e decidiu fazer uma visita. Geralmente ela não avisava, simplesmente aparecia com uma garrafa de vinho após uma rápida ligação para Carol, só para confirmar se as moradoras do apartamento não estavam em um momento "não perturbe".
"Não sua idiota, é uma apresentação para um público extremamente exigente. Garotos e garotas com oito anos de idade" – Carol estava sentada em sua poltrona próximo as amplas janelas da sala. Ela toma um pouco do vinho que Abby havia servido minutos atrás.
"Ah, aposto cem dólares que os pais dessas crianças estarão fantasiando coisas obscenas enquanto vocês duas cantam feito idiotas uma música idiota do The Seekers" – Abby diz levantando uma sobrancelha.
"E aposto também mais cinquenta dólares que os meninos de oito anos estarão ansiosos para ver as mães sensuais de sua coleguinha de escola darem um belo e molhado beijo"
"Abby!" – Carol retruca – "Não fale isso, ok? É muito feio... The Seekers é uma ótima banda"
Carol dá um sorriso debochado enquanto Abby soltava uma risada.
"Precisamos de mais vinho!" – Abby se levanta do sofá e caminha para agarrar a garrafa de Chianti sobre a mesa de centro – "Pena que Therese não está aqui para apreciar as coisas boas da vida: um bom vinho italiano e sua mulher cantando uma canção folk numa tarde de sábado!"
Abby caminha até Carol que estende sua taça para que completasse com mais vinho.
"Onde ela está?" – pergunta Abby que agora completa sua própria taça.
"Ela teve que resolver alguns problemas no jornal" – Carol diz antes de tomar seu vinho. Ela apoiou suas pernas sobre os braços da poltrona para assim poder balançar seus pés livremente.
"Você tinha que ter visto a felicidade de Therese ao ouvir Rindy dizer que ela e eu participaremos de um evento na escola. Ela estava tão feliz, mas tão assustada com a exposição"
"É a personalidade dela" – Abby voltou a se sentar no sofá – "Therese ao mesmo tempo em que é cheia de coragem é extremamente receosa. Feito um gato desconfiado"
"Um gato que adoro afagar e proteger em meus braços" – Carol sorri para si – "Ela tem sido uma companheira maravilhosa, você sabe. Para Rindy e eu."
"Eu sei, sei até demais!" – Abby tomou em único gole seu vinho antes de esticar sua perna para cutucar os pés de Carol com seu pé – "Mas Therese precisa relaxar, já faz o que? Mais de três anos que vocês estão juntas"
"Faremos quatro mês que vem" – corrigi Carol – "Passamos por muita coisa" – a loira levanta a taça de vinho até seus lábios, mas não o bebe.
Estava uma tarde realmente atípica de calor, pensou Carol. A sensação do álcool junto com a temperatura elevada do outono e a euforia de cantar uma canção fez seu corpo amortecer. Seus olhos cinza observavam através da janela os prédios banhados pela luz dourada do sol. Este outono estava diferente do ano passado, realmente. Therese voltaria para casa a qualquer momento.
"Mas sabe o que eu lembrei? Você era considerada a rainha do colégio" – Abby havia dito ao perceber que Carol estava distante.
"O que? Rainha? Que pessoa gentil você é!" – Carol fez careta ao lembrar-se dos primórdios anos do colegial – "Eu era conhecida como a senhorita estranha"
"Ah pare, você só era desastrada, além de excêntrica... mas era considerada uma pessoa genial!" - Abby dá um sorriso gentil. Carol em sua adolescência era uma garota completamente diferente da Carol mulher de hoje. Alguns traços de sua personalidade se tornaram sérios com o passar dos anos, mas Abby ainda via em sua amiga o velho senso de humor idiota de antigamente.
"Eu andava com os hippies e os nerds" - Carol revirava os olhos ao ajustar seu corpo sobre a poltrona.
"Verdade, você sempre foi uma garota perdida no mundo da lua. Lembra da apresentação de teatro no último ano? Você interpretou Rumpleteazer de Cats! Cara, você ficou com aquela voz irritante por uma semana!"
"Ohh... vamos lá!" – Carol se levanta de sua poltrona, ela sutilmente começa a mexer seus braços na tentativa de imitar um gato – "Mungojerrie and Rumpelteazer... We're a notorious couple of cats"
"Pare! Você perdeu a sanidade?" – Abby agarra uma almofada e lança na direção de Carol, acertando seu rosto.
"Sua idiota! Engana a quem? Você sempre foi o Mungojerrie! Somos um dueto"
"Nem morta! Sua idiota"
Carol jogou de volta a almofada em Abby e ambas começam a rir descontroladamente. As duas mulheres nem ouviram o som da porta de entrada se abrir e depois fechar.
"Você ri de mim por eu ter feito parte do grupo de teatro, a palhaça de orelhas grandes" – Carol bufou ao se jogar de volta sobre a poltrona – "Mas a verdadeira rainha do colégio era a excelentíssima senhorita Abigail Gerhard! A rainha Robin Wood do baile de formatura!" – diz Carol fazendo uma elegante reverência à Abby que lhe devolve uma careta azeda - "Sua Majestade"
"Ohh.. pare! Não me lembre dessa história!"
"Abby a rainha do baile? Devo ter morrido e ido para o céu"
As duas mulheres olharam para Therese que estava parada observando a conversa antes de avisar sua presença.
"Oh meu amor! Bem-vinda!" – Carol se levanta rápido e corre em direção à Therese para dar um beijo e segurá-la num abraço – "Senti sua falta" – sussurra no ouvido de sua querida.
"Eu também" – corresponde Therese com um beijo rápido nos lábios de Carol – "Vejo que alguém andou bebendo vinho durante o dia"
"Olá para você também, criança! Deixamos um pouco, quase nada, de vinho para você" – Abby vai em direção da cozinha buscar uma taça para Therese. E claro, dar um minuto de privacidade para as amantes apaixonadas (e ela queria poupar seu estômago do excesso de melação romântica daquelas duas).
"Quer saber como eu sabia que você estava bebendo vinho?" – Therese pergunta segurando a cintura de Carol para trazer o corpo da mulher loira sexy mais perto do seu.
"Hmmm?" - Carol resmunga com um sorriso bobo abraçando o pescoço de Therese.
Com os lábios muito próximos, Therese não consegue desviar seus olhos dos lábios de Carol. Ela não havia aplicado seu típico batom vermelho hoje, pensava distraidamente Therese.
"Você sabe... seus lábios estavam muito doces..."
"Verdade?"
"Sim..." – Therese roçou seus lábios sobre os de Carol - "E eu me senti como se tivesse ficado embriagada após experimentar seu beijo"
Therese encostou seus lábios nos de Carol, sem pressioná-los. Carol fingiu ofensa.
"Oh... pensei que era amor" – zomba Carol contra os lábios de Therese. A menina sorri ao sentir o ar quente e levemente alcoólico da respiração de Carol contra sua pele .
"Você sabe que é amor" - diz Therese em um pequeno sussurro, quase como se fosse um segredo compartilhado entre as duas. Os olhos verdes se fecham ao tocar a pele das costas de Carol por baixo da camisa branca de algodão que a loira usava.
Carol ao sentir as mãos frias dentro de sua camisa solta um pesado suspiro e empurra o corpo de Therese contra a parede mais próxima. Um baque contra a parede é ouvido por Abby que estava na cozinha. A mulher olha para onde o som surgiu e revira seus olhos.
"Vão para o quarto as duas!"
A voz protestante nem é percebida por Carol que dá a sua amada um beijo profundo. Seus corpos se fundiram em um abraço apertado. As mãos de Therese vagavam pelas costas de Carol, descendo sem rumo na procura do botão da calça jeans da loira, mas Carol interrompe as mãos ansiosas da menina. O calor do contato acendeu o desejo, mas Carol suspendeu o beijo mantendo uma de suas mãos segurando o rosto de Therese enquanto a outra apertava as mãos de sua amada para acalmar seus instintos. Os olhos cinzentos entreabertos encaravam pesadamente os lábios de Therese que ficaram vermelhos devido à intensidade do beijo.
"Rindy vai dormir na casa de Anelise hoje" – Carol começa a esboçar com seus dedos os lábios de Therese. A menina beijou cada uma das pontas dos dedos de Carol.
"Preciso de você..." – Therese sussurra antes de pressionar seus lábios outra vez em Carol. O beijo desta vez foi macio, mas representava a extrema necessidade da jovem.
Carol se afasta para respirar um pouco e acalmar seu coração. Ela passa a mãos sobre os cabelos loiros um pouco desalinhados.
"Abby!" – Carol chama.
"Eu sei, eu sei" – Abby ignorando maiores explicações passa pelas duas mulheres sem olhar para elas. Therese abaixa o olhar, fingindo que nada tinha acontecido, mas claro que ela estava completamente envergonhada. Carol, por sua vez, manteve um olhar desinteressado e sua fisionomia séria não querendo abrir oportunidade para Abby se aproveitar da situação.
Abby dá um sorrisinho malicioso e pega sua bolsa sobre uma mesinha ao lado da porta de entrada. A mulher sabia que Carol iria ficar irritada, mas não podia ir embora antes encarar Therese e abaixar seu olhar para a calça da menina que estava desabotoada.
Therese ao notar a curiosidade nos olhos de Abby rapidamente percebeu do que se tratava e abotoou sua calça, seu rosto estava vermelho feito um tomate. Como ela não percebeu que Carol tinha feito isso, perguntava-se nervosamente.
"Tentem não incomodar os vizinhos..."
"Abby, para fora... agora!" – Carol acabara de perder a paciência.
