Lembranças


-A pipoca é comigo! – Riu, travesso enquanto levantava do sofá. – Farei doce e salgada.

-Querido. – Se referiu à Kanon carinhosamente. -Cuidado com o micro ondas, ok?

-Pode deixar, mãe. – Ia até a cozinha enquanto os pais e o irmão tomavam conta do filme que iam ver. Saga acabou levantando em seguida e foi também à cozinha. Chegou por trás do gêmeo.

-Bu! Quer ajuda?

-Aceito. – Sorriu. -Pega a doce para mim, por favor? – O outro sem responder, já foi realizar o pedido do outro. Abriu um pequeno compartimento da despensa e buscou alguns pacotes de pipoca de micro-ondas, além do pedido, para caso precisassem. Kanon pôs um saquinho que aprontava em seguida, buscou os bowls para colocar a pipoca pronta.

-Finalmente hoje é sexta. Amanhã poderemos ir para a praia que estamos planejando há meses, maninho. – Programou o aparelho e se virou, para olhar Saga. Sorriu novamente. Ele estava tão bonito aquela noite. Cabelos negros, soltos, lisos e caídos aos ombros. Um combinado perfeito ao delinear do rosto dele.

-Estou ansioso. Vêm sendo o meu ânimo nas provas. Que finalmente terminaram. Quer pôr algo para beber? – Se afastou para pegar os copos para os quatro.

-Me matei de estudar para essas porras dessas provas. – Riu. – Espero que eu tenha um bom resultado. Mesmo. – Brincou, com um semblante sério. -Não sei. Suco? Leite? Acho que o pai e a mãe vão querer cerveja. Bem que podíamos...

-Não. Eles não vão deixar e você não vai beber. Vamos viajar amanhã, bobo. – Ouviu o barulho do micro-ondas, anunciando que a primeira pipoca estava pronta. Pegou um bowl azul largo e pôs perto do irmão. -Usa luvas dessa vez.

-Está bem, mãe. – Debochou, olhando feio o mais velho. O outro riu divertido.

-Vai começar o filme! – Anunciou o pai.

-Já vamos! – Saga respondeu e pouco depois a travessa estava cheia. -Já volto.

Saga saiu da cozinha, deixando o irmão preparar e finalizar a rodada de pipocas, enquanto levava a pronta à mesa de centro. Perguntou o que os pais iam beber, e bem dito como o irmão, retornou e foi à geladeira. Pegou duas long necks e retornou à sala.

Pouco depois, Kanon adentrava a sala de estar, roubando algumas pipocas de chocolate que estavam em suas mãos. Pôs ao centro da mesa, também, e se jogou no sofá, ao lado do gêmeo. Com um delicado toque sentido em sua perna, deitou a cabeça no colo do mais velho, se aninhando e se ajeitando confortável a ele, que pousou a mão no tórax do mais novo, fazendo leves carinhos.

Um barulho estranho tirou a concentração do pai ao filme, minutos depois. Se levantou, desconfiado e foi até a janela da porta de entrada. Sutilmente afastou a cortina em tom creme, vendo faróis de um carro fazer contorno na rua em frente à casa. Viu um homem sair de dentro do carro, tão escuro quanto a noite que adentrava.

Longe da vista da família, foi até a pequena cômoda de parede ali perto e tirou sua arma. Estava desconfiado naquela movimentação que não existia em sua rua. Permaneceu discreto à janela.

Mas o homem se aproximava, e pouco depois viu que ele estava acompanhado de mais dois. Diferentemente deles, este primeiro estava bem vestido. Já sabia quem era.

Retornou de encontro à família e sem nada falar, desligou a televisão e as luzes. -Vocês três, lá para cima. E chamem a polícia, agora. – Seu tom foi sério, imperativo. A esposa compreende de primeira, mas os gêmeos, começaram a se apavorar.

-Mas pai!

-Kanon, me obedeça! SUBA com Saga, AGORA.

-Vamos! – A mãe pediu, igualmente séria, puxando Kanon pelo antebraço, que puxou Saga por sua camiseta. O mais novo estava ofegante, visivelmente assustado. O irmão, ao contrário, mesmo apavorado, estava mais racional. Obedeceu sem nada dizer e não soltou Kanon e nem dele por nenhum momento.

Adentrou o quarto dos filhos, buscando o celular de um deles, que estava ali perto e discou rapidamente para a ajudar. Estava aflita, mais racional que ambos os filhos, mas assustada, também. Sabia que aquilo não seria impossível. Seu marido, coronel, havia feito muita justiça na região, para desagrado de muitos criminosos.

Enquanto esperava ser atendida, praticamente jogou Kanon e Saga dentro do closet do quarto deles, que se esconderam atrás das roupas, com facilidade. A porta foi encostada.

-Mãe, que droga, vem pra cá. – Kanon já estava aos prantos. Olhava para Saga completamente perdido. Apenas, para o seu alento, o irmão lhe segurava onde tocava, com força. Ouviram a mãe balbuciar palavras ao telefone e pouco depois ficou quieta, adentrando ao armário com eles.

Os sons dos tiros foram inevitáveis, certo tempo depois. O gêmeo mais novo havia posto ao rosto um tecido qualquer que encontrara por ali, pois necessitava não fazer barulho naquele momento. Saga estava colado a ele e a mãe, abraçada ao mais novo.

A movimentação foi intensa. Ora mais tiros, ora conversas, vozes, e o nervoso dos três só se intensificava.

Minutos depois, mais passos, ali, no quarto. Saga engolia seco. Olhava de Kanon à mãe, até que o aperto na perna de Kanon foi mais intenso quando as portas do closet foram abertas.

Kanon levantou o rosto, aos prantos, seu coração falhava quando aquele estranho empunhava a arma para cada um lá dentro. Viu aquele homem sorrir, com maldade.

-Talvez seja momento de se juntarem a ele. Hum. Gêmeos? Isso seria interessante.

Depois daquelas palavras, Kanon nada mais ouviu ou viu. Nem a mãe e o pai, muito menos Saga.