Sua respiração era rápida, ofegante, embora também cansada. Ergueu os seus olhos mistos entre o verde e azul, tentando se localizar naquele exato instante. Vultos, que se transformaram em silhuetas. Ouviu algumas gargalhadas, identificando o deboche naqueles tons. Passou a língua pelos lábios e sentiu o gosto de sangue, forte na boca. Estava sangrando, seus lábios ardiam. Provavelmente efeito da coronhada.

-Eu... Vou... – Ofegou, não conseguindo continuar naquele momento. E aos poucos, as silhuetas tomavam mais forma. Um homem que naquele momento não reconhecia, empunhava aos ombros, todo debochado em atitude, uma extensa escopeta. Fácil seria, um movimento seu, e a bala rápida onde quer que ele apontasse. –Acabar com vocês! – O dono da arma riu escandalosamente.

Saga o fitou em desafio, embora sua visão estivesse ainda turva. Mas precisava recobrar sua completa consciência e atenção para saber o que fazer. Foi então que seu olhar caiu na pessoa ao lado do atirador. Não conseguiu reproduzir qualquer som, de choque, novamente. –Claire?

-Saga, você é destemido, mas a sua ingenuidade vai te matar. – Ora ela se apoiava em uma perna, ora em outra. Sua atitude era de quem estava impaciente pelo próximo passo.

-Traidora. – Por fim, entredentes, mostrando a sua ira. A cada passo que deram, a cada passo que Kanon buscou consigo pistas, estavam sendo apunhalados pelas costas pela própria colega de trabalho.

Mas não temia por sua vida. Em limiar, não dava a mínima para isso. O que se importava e era prioridade, era qualquer erro seu no trabalho, em suas tarefas e missões, escorregar às costas de Kanon. Não toleraria ele pagar por seus erros.

Era um dos motivos pelo qual dizia, diversas vezes, ao amado irmão, que não lhe perderia. Que não teria o mesmo destino de seu pai. Pois um escorregão, e Kanon poderia tomar o seu lugar. Bendito fosse, se não pelo motivo errado.

Embora, e àquela altura, Kanon ainda não saberia do ocorrido. Mas, temeu que Claire tivesse manipulado as suas mentiras para outros colegas.

-Tudo vai se ajeitar. – Ela continuou, sem esperar que o fizesse. –Vai morrer, Kanon logo saberá e ele será o próximo. – Riu, maliciosa e a viu se aproximar. –Que foi, querido? Achou que me conheceria à poucos dias? Você não passa de um novato para mim. Mas ainda assim pensava que tivesse aprendido que as coisas são do meu jeito.

-Oras, criança. Deixe o nosso convidado em paz. – Edward adentrava o local: um depósito abandonado. Bagunçado e sujo. Como não sabia onde exatamente estava, presumiu – ainda assim – estar em um subsolo da mansão. –Temos muito tempo. – Levou aos lábios, seu charuto, enquanto exibia um sorriso maldoso e como a ex-colega fez, também se aproximou do geminiano. –O pequeno tem... Muito a me dizer. E eu... À ele. – Complementou em ironia, segurando com o dedo indicador e médio, seu fumo, nisso, gesticulava com ele.

Por um momento, o mais velho analisou a condição de Saga. As mãos atadas com uma corda grossa na cadeira de metal que estava sentado ao centro de um compartimento do depósito, que notavelmente seria um escritório; mas não só as mãos, mas os pés igualmente presos. Pouco poderia se mover. Seu rosto possuía alguns cortes, estava bem molhado de sangue e suor.

Em algum momento, poderia até lamentar. Mas sensação que desapareceu no instante seguinte, e seu sorriso maldoso se abriu.

-AH! – Exclamou, alto, assustado, suado. O pesadelo havia sido intenso e cruel. No lugar de seu pai, Saga havia dado a vida para lhe proteger.

Chegou a tremer em um fio de calafrio naquele momento. Puxou o lençol azul para as suas coxas, mas sabia que não conseguiria dormir novamente. Aquele cochilo havia sido errôneo no momento.

Pegou o celular em mãos e mexer incessante buscando alguma notificação referente ao gêmeo, mesmo que nada houvesse.

Seu coração já estava aos pulos. Mais de três horas da manhã e nenhum retorno de Saga. Acabou decidindo que não ficaria mais esperando. Levantando-se ao pulo da cama, começou a se vestir, ainda com o celular em mãos. Ligou primeiramente ao irmão, que para uma agonia maior estava sem área.

Seguidamente, ligou para um colega. Tinha o aparelho ao ombro enquanto vestia as calças.

-Kanon, eu sinto muito... Seu irmão... Está M.I.A no momento. Descobriram o disfarce dele. E Claire também.

Em choque, o celular caiu ao chão, deixando o colega a falar por si só, enquanto o geminiano mais novo perdia o chão. Aquele pesadelo, aquelas sensações, não eram à toa.

P.S.: "MIA": missed in action = desaparecido em missão.