Adentrou a delegacia como um cometa. Na madrugada, a movimentação era muito menor do que o horário comum de trabalho. Passou por mesas e salas vazias, até pegar a escada e subir rapidamente até o segundo andar, onde se localizava a sua sala. Adentrou na mesma rapidez, ligou o seu computador, separou alguns documentos, até que ouviu baterem em sua porta e adentrarem.
-Kanon –
-Já recebi a notícia! – Seu tom era nervoso e imperativo. -Vou para lá agora, e vou com reforços! – Mexeu impaciente em suas gavetas, destrancando-as. Certificou-se que a sua Desert Eagle estava em uma delas. O policial saiu então de sua sala, afim de realizar as ordens de Kanon.
O mais novo pegou a sua pistola semiautomática, um pouco trêmulo, mas se recompôs e verificou se ela estava carregada, além de buscar por mais munição em suas coisas. Colocou-a na calça, pegando o que precisava. Partindo dali.
Iria salvar o seu gêmeo, o seu amado. Nem que desse a vida para isso.
-Acho que mereço a minha parte. – A voz dela zonzava na cabeça de Saga, que havia levado outra coronhada. -Trouxe o porco como pediu.
Edward balançou a cabeça, com o charuto quase a terminar, indicando que um dos capangas entregasse uma mala de dinheiro à Claire. Que pôs na mesa, atrás do geminiano, e verificou. Sorriu, maldosa. -Foi mais fácil que doce de criança. – Debochou, para Saga ouvir.
-Quero ficar a sós com ele. – O mais velho, ali, ordenou a todos os outros, inclusive à garota, para se retirarem. -O pequeno Dellis e eu temos muito para conversar. – No momento seguinte, retirou uma pistola de trás de sua calça, e deixou em cima da mesa, enquanto o local esvaziava. Fechou o escritório e tirou o charuto da boca. Aproximou-se do geminiano.
-O mundo é realmente muito pequeno. Eu, Edward Collins, jamais pensei que os filhos do coronel que quase arruinou a minha vida, vinham me caçar, como se eu fosse uma presa fácil. Aliás, tolos foram vocês, que acreditaram que não iríamos reconhece-los.
Saga tentava manter o seu foco. Sabia que a arma estava atrás de si, ao mesmo tempo que mexia com as mãos para ver se conseguia se libertar. Era ágil, então em movimentos rápidos, aquela pistola estaria em suas mãos e poderia ferir o outro.
-Mas vocês dois têm colhões. Admiro isso. Aliás, se vocês dois não fossem policiais, teriam muita utilidade comigo. Vingança, isso seria muito bom para vocês. – Gargalhou, maldoso. -Aliás, quero lhe oferecer uma oportunidade nova de trabalho.
-Não quero merda alguma de você. Assassino. Passa pela Lei, acha que ficará impune. – Lhe irritou ainda mais ouvir a continuação do riso dele.
-A Lei existe por causa de mim, Saga. E é tão fácil burlá-la. Veja pela Claire. Trabalha há anos na polícia, e é a minha garota. – Dizia, como se fosse óbvio uma situação daquela. -E você, e tipos como você, o seu pai, não passam de marionetes.
-NÃO FALE DELE!
-Ressentido! – Fingiu-se de magoado, depois, tornou a rir. -Só porque eu o matei? Saga! – Ele ia me pôr na cadeia. Você acha que eu ia permitir? – A forma como se dirigia com o geminiano, era puro deboche. Fala como se o outro fosse uma criança, um ignorante ao mundo do crime.
-Você vai pagar pelo que fez com ele.
-Blá... Blá... – Revirou os olhos. -Estou cansado dessa sua conversa. Achei que você era mais interessante. Quem sabe Kanon tem um papo melhor.
Saga reagiu, querendo sair da cadeira, ainda preso. Estava frustrado da forma que estava amarrado, seu corpo doía na posição que estava. Sentia-se humilhado e frustrado.
O assassino de seu pai estava só e diante de si e não podia se vingar, não podia prendê-lo ou mata-lo. Apertava os seus punhos com tanta força que sentia-os arder, por estarem também feridos. -Vou destruir você.
-Vai? – Tragou o charuto, para colocá-lo entre os dedos e aproximá-lo do rosto do geminiano. Sorria sádico. -Vamos ver isso. – Observou o rosto do mais novo. -Sua família é muito bonita. Seria uma pena se eu encostasse a ponta do meu charuto no seu olho... Mas ainda dá tempo de vir para o meu lado, como Claire fez...
Encostou-se à parede, respirando fundo. O medo que sentia em seu interior, de perder Saga, da dúvida de saber se ele estava vivo, ou sendo torturado, ou morto, era demais. Sentia que a qualquer momento, cederia à Ira, matando qualquer um que surgisse em seu caminho, para poder alcançar Saga.
Esperava a brecha da SWAT para poderem adentrar a parte dos fundos do galpão. A festa permanecia, não poderiam causar pânico ou um descontrole ocorreria ali dentro. Então, em escolha das ordens do próprio gêmeo mais novo, adentrariam pelos fundos, localizando então Saga.
A polícia adentrou as portas para o armazém, e o mais novo, os seguia com a sua pistola em punho. O local parecia de fato abandonado e Kanon sentiu que poderia ter uma emboscada por ali, mas para a sua surpresa, Claire apareceu diante da equipe, jogando a mala com o dinheiro, diante eles. O gêmeo, ao nota-la, esbarrou nos policiais presentes e empunhou a pistola ante à face dela.
-Vadia traidora. – Tentou ser impedido por um dos colegas, mas destravou a arma assim que viu a garota sorrir. Ela ainda segurava a própria pistola, e não se manifestou na defensiva.
-Sabe o que tem nessa mala, Kanon?
-Vindo de você, coisa suja! O Saga está lá dentro por sua culpa.
-Deixe as emoções de lado. Atenha-se que podem nos ouvir e aí sim, seu irmão vai estar perdido.
-O que quer dizer com isso?
-Nessa mala, tem parte do dinheiro que Collins lavou. – Ergueu as sobrancelhas. -Os documentos, estão na realidade, na sala onde Saga está. E ele está a sós com Edward. Sinto, Kanon, mas eu não podia pôr o meu disfarce a perder. Saga o distraiu, como era o combinado. Apenas não mencionei que eu também me infiltraria. Há meses estamos tentando pegar esses caras. – Deixou o sorriso, para olhá-lo sério. -Eu vim de outro departamento e de outro lugar, eu precisava fazer a forma com que trabalho com o FBI, do contrário, perderíamos tudo e todo o seu trabalho, inclusive, ia por água a baixo. Eles estavam sendo mais rápidos que nós.
Kanon se recompôs ao ouvir aquilo. Ainda empunhava a arma e não acreditava nela. -Como vou saber se está falando a verdade?
-Kanon, essa missão precisava mais do que vingar a família de vocês. – O geminiano ouviu a voz do chefe de Claire e Saga, adentrando discretamente o grupo. Virou o rosto para olhá-lo. -O seu irmão foi fundamental em participar disso. Ele poderia se aproximar de Edward e Ewan, sem que fosse caçado assim que pusesse os pés aqui.
-Mas o meu irmão foi caçado.
-Foi, por conta de ele ter histórico com vocês dois e a sua família. Veja que eu, ele acha que trabalhei com ele há muitos anos.
Kanon sentia lágrimas de ódio nos olhos, mas as engoliu. -Deixe a sua raiva de lado. Agora, a vida do seu irmão está contada. – Depois daquelas palavras, tornaram a invadir o lugar e Kanon continuou a acompanhar.
Respirou fundo. Entre os seus dedos doloridos, conseguiu encontrar o ponto do nó, e assim, desatá-lo, cuidadoso, em meio às ameaças do fumo em sua pele. Mas, não se importava com a tortura. Nada devia à ele, então nada teria que entregar. -Qual a razão... Hum... De querer me torturar? Não destruiu a minha família? Vai querer me matar também? Apenas mostra o assassino que é.
-Saga, eu não sujo as minhas mãos. Não sou tão mau quanto pensa. – Respondeu, cínico.
-Para o que estou aqui... Então?
-A polícia uma hora vai vir busca-lo. O seu irmão, uma hora vai aparecer aqui. – Sorriu, no mesmo sadismo. -Continuarei a caçar a sua família. E se bem me lembro, restaram apenas vocês dois, não?
-Maldito! – Aquele foi o momento. Se desfez da corda, e pegou a pistola, com um virar de corpo. Mesmo com os pés presos, virou a arma para ele, atirando.
Não esperava pela astúcia do geminiano. E como estava desarmado, seu charuto caiu no chão, e a única reação que pôde ter, foi chutar Saga. Que mesmo indo ao chão, acertou a sua outra perna, mas isso não lhe impediu de novamente o chutar, em sua mão, fazendo o loiro ficar sem a arma em punho. Pisou na mão dele.
-Agora eu não vou ter piedade. – Com raiva, buscou a arma da mão enquanto o outro gemia pela dor que sentia.
Momento depois, em que ameaçou a empunhar a pistola ante a face dele, ouviu alguns tiros, temendo aquela comoção acontecer, mas isso não lhe impediu de colocar o cano da arma na cabeça de Saga, que se debateu, conseguindo dar um soco no mais velho.
Outro tiro foi disparado, dessa vez ao chão, e o geminiano suspirou pela diferença de segundos. E foi então que ambos foram surpreendidos pela polícia dentro do escritório. Alguns fuzis apontavam para o mais velho, que ainda teve tempo de pegar a arma e recoloca-la em Saga.
-Sa! – A voz nervosa de Kanon invadiu ali, embora o mais novo fosse impedido de entrar.
-Que adorável, reunião de família.
E novamente, o som do disparo foi ouvido.
Notas:
Geeeminha!
Como mencionado na história "Bandeira Branca", essa também não foi abandonada.
O título desse capítulo significa "Ode Aos Mortos". Pois diga-se de passagem que Réquiem/Requiem na música clássica, tem essa concepção.
"Porco": De forma pejorativa, no inglês (não me recordo se em português também), policiais são chamados no mundo do crime, ou gênero, de "pigs", nada menos que "porcos".
