CCNE - The night is your woman and she will set you free
Casa de Sakura Kinomoto
Sakura entrava na sala de estar da pequena casa humilde que tinha alugado assim que voltou a Tomoeda. Não era muito diferente da sua casa antiga na qual guardava memórias de infância e de adolescência. Mas agora não lhe pertencia, cabia agora ao seu pai e o seu irmão, juntamente com o seu noivo, criarem novas memórias para a pequena casa amarela. Kero barafustava ao seu lado enquanto se preparava para sair.
Kero (exaltado) - E tinhas de as deixar sair assim? E...
Sakura tentou ignorar o peluche amarelo. Notava que a blusa de seda branca de Tomoyo lhe assentava bem mas o seu fato azul escuro estava já um pouco largo, denotando uma perda de peso recente. A maquilhagem tinha feito um bom trabalho em esconder as suas imperfeições e os sinais de cansaço que vinham do período stressante que vivia. Os seus olhos verdes sobressaíam, o cabelo castanho estava sedoso e a sua franja comprida caía-lhe pelos ombros, dando-lhe um ar mais adulto por detrás da face que lhe dava um ar juvenil mesmo tendo os seus 25 anos. Suspirou fundo.
Sakura (calma) - Já chega! Já percebi.
O peluche amarelo, o seu guardião, parou de barafustar e simplesmente pairou no ar. Depois de as adolescentes partirem a única coisa que conseguira fazer foi chorar pela perda. Tinha perdido absolutamente tudo o que a fazia sentir-se útil, o seu prazo de validade tinha expirado, era apenas outro indivíduo no meio de milhões todos iguais entre si. Escondeu-se por entre os cobertores da sua cama até ser despertada do seu choro de dor por um apito familiar. Tinha recebido uma proposta por email que lhe tinha dado um motivo para sair da cama e começar de novo, preparava-se para a batalha seguinte assim. O ritmo do mundo moderno assim o exigia.
Yue (calmo) - Está muito bem.
Sakura fechou o frasco de rímmel e guardou tudo na sua bolsa. Sorriu para Yue como agradecimento ao elogio. Cerberus não cedeu e voltou a tentar a sua sorte impondo-se com o seu tom de voz alto e esganiçado.
Kero (irritado) - Não me podes ignorar! Estás a fazer um grande erro! Tens de recuperar as cartas agora!
Sakura (calma) - Já não sou uma criança, essa abordagem já não resulta Cerberus. - mostrava-se séria - Tens de aceitar que perdi e seguir em frente. Vens comigo?
Yukito - Sim, vamos lá!
Yukito conseguia agora transformar-se livremente e manter as suas memórias de ambos os estados, humano e guardião. Kero parecia inconformado com a atitude da sua mestra mas preferiu nada mais dizer e voou directo ao seu quarto, fechando a porta com força. Depois de deixar Yukito na sua antiga casa, Sakura fez uma viagem longa de carro até o centro financeiro mais importante de Tóquio. Os prédios altos e envidraçados reflectiam as luzes exuberantes de uma cidade que pulsava freneticamente mas nada disso a atraía, preferia mil vezes a calma de Tomoeda. Parou o carro em frente a um dos hotéis de luxo mais requisitados da capital e prontamente um empregado encarregou-se de parar o seu automóvel. Avançou pelo hall de entrada e sentou-se numa das mesas do opulento bar sendo abordada pela empregada de serviço.
Empregada - Posso ajudá-la?
Sakura (cordialmente) - Espero alguém.
Empregada - Muito bem, deseja alguma coisa?
Sakura (ríspida) - Não, serei breve.
A empregada acabou por a deixar com uma vénia sem dizer outra palavra. Deveria ser o tratamento a que estava habituada quando se habitualmente serve os ricos e egocêntricos. Momentos depois, o seu oponente entrou fazendo com que a sala ficasse em suspenso. Shaoran Li não tinha mudado nada. Vinha vestido exalando opulência, o seu fato de estilista, o seu cabelo curto estilizado com a moda mais recente e andava com um passo que tratava de marcar a sua posição como macho alfa. Com óculos a taparem os seus olhos castanhos, ao estilo de um cobarde, as suas belas feições masculinas chamavam a atenção das poucas mulheres espalhadas pelo espaço ainda vazio. Ignorou os dois guardas costas que o protegiam e assim que ele se sentou presunçosamente à sua frente viu os olhares de inveja que lhe eram dirigido, pensariam que seria a prostituta que tinha contratado naquela noite para o seu belo deleite.
Shaoran (ironicamente) - Como é agradável ter-te aqui! - tirou os óculos guardando-os no bolso do caso.
Sakura (indiferente) - Tu é que me chamaste aqui, se estás tão incomodado não o tivesses feito.
Shaoran mostrou um sorriso maquiavélico e virou a sua total atenção para a empregada com quem Sakura tinha interagido momentos antes. Usava o seu charme de galã pelo simples motivo de o poder fazer, era esse tipo de homem.
Shaoran - Yun, por favor traz-me um uísque duplo. - fez uma breve pausa - E um para a senhora também.
Yun (corada) - É para já, senhor Li.
Tinha pena da jovem por não conseguir ver as verdadeiras cores do homem que admirava. Shaoran manteve-se em silêncio até o seu pedido chegar, um teste para ver quem cedia primeiro. Não lhe quis dar essa satisfação por isso virou a sua atenção para os dois adolescentes que o ladeavam. Eram como o dia e a noite. O loiro parecia um modelo de capa de revista e o moreno um punk, embora ambos com um físico trabalhado, não pareciam ser guarda costas, Li era mais exigente com as pessoas que o defendiam. Balelas para manter as boas aparências. Sakura ficou aliviada quando o pedido chegou e ele finalmente começou a desbobinar a informação, estava farta de perder tempo.
Shaoran - Como sabemos que perderes as cartas é apenas uma questão de dias, apresento-te os dois rapazes que a vão recuperar para mim. Eric - o loiro deu um passo em frente - Hiroshi - o moreno deu um passo em frente - Apresentem-se à senhora.
Ambos fizeram uma vénia coreografada e retesada, mostrando que não a respeitavam. Muito o estilo de lavagem cerebral dos Li. Sorriu, percebendo que Li parecia ainda alheio a tudo. Levantou-se e pegou na sua pochette, rejeitando a bebida que lhe tinha sido oferecida.
Sakura (sarcástica) - Prazer em conhecê-los. - dito isto saiu do bar.
Shaoran Li riu. Despejou toda a bebida num copo e bebeu-a de um só gole. Levantou-se em seguida pensando em como tudo isto acabaria por se tornar divertido muito depressa. Sakura tinha uma carta na manga, os dois rapazes que guiava também tinham percebido isso, mas por enquanto não se preocuparia.
Shaoran - Estão dispensados.
Voltou para o seu quarto onde duas mulheres voluptuosas esperavam por si. Os seus discípulos seguiriam o exemplo aproveitando a sua última noite em Tóquio. Amanhã, a sua missão começaria.
Eden
Miyu - Podemos finalmente falar sobre o que se passou?
Ami sentou-se fazendo com que a relva chiasse com os seus movimentos libertando o cheiro que tanto gostava, relva acabada de cortar. Sentia as gotas de água fria nas suas mãos enquanto olhava para a sua amiga com um ar carrancudo que nada se adequava à beleza das suas feições belíssimas iluminadas pela lua e pelas estrelas num céu negro. Por vezes gostaria de ser como ela mas isso era uma impossibilidade.
Miyu (impaciente) - E então?
Suspirou. Não queria falar sobre aquilo, tinha evitado qualquer conversa sobre coisas que desafiam a gravidade, não ia simplesmente começar agora por causa de um livro estranho e cruzando os braços tentou puxar algo que a ajudasse a desviar o assunto.
Ami (aborrecida) - O que queres diga? Que ela é doida?
Miyu - É mesmo isso que pensas? - tocou no ombro de Ami - Ela não parecia doida.
Ami (sarcástica) - Pois! Todos os loucos usam roupas que não combinam!
Miyu (suspirou) - Estás a ser insuportável, sério. Se isso não é a resposta então tivemos uma forte alucinação duativa de uma fonte desconhecida.
Ami (olhava para o chão) - Duativa não é uma palavra.
Miyu (sorriu) - Agora é.
Miyu encheu-se de esperança quando Ami a olhou com determinação. Significava que finalmente, depois de anos, chegariam a uma conclusão racional de todas as balelas que lhe aconteciam. Esse era o motivo porque eram inseparáveis embora fossem pólos opostos, a sua conexão era cósmica.
Ami (séria) - Tudo bem, nunca neguei que as cartas eram verdadeiras, ela até pode ser uma óptima pessoa mas o que achas que isto não vai dar? Eu sei, mais perguntas! Nunca vão existir respostas e todas vão ser vagas ou estúpidas por isso mais vale nem tentar.
Miyu fez alguns gestos de irritação.
Miyu - Dito como uma céptica! - cruzou os braços e fez um ar presunçoso - Acho que estamos destinadas a isto, está escrito nas estrelas!
Ami - Dito como uma verdadeira crente cega! - imitou Miyu - Eu sei que queres acreditar no melhor e que tudo se vai compôr e aquelas tretas todas de filmes adolescentes mas não vai ser assim. Vamos acabar por andar como baratas tontas até eu ter de te arrancar da espiral infinita de perguntas.
Desta vez, Miyu sentiu ira da teimosia habitual da Okinawa. Conseguia perceber o lado de Ami, as suas inseguranças, a sua dor, percebia! Aquela burra teimosa nunca conseguia chegar à conclusão mesmo à frente do nariz, não se pode evitar os problemas para sempre. E desta vez, bateu o pé.
Miyu (enervada e alto) - A sério? Já paraste para pensar que estamos aqui? Amanhã voltamos aquela casa, traz o livro!
-/-
Ami observou Miyu a virar-lhe as costas e assim que a sua resposta estava pronta ouviu o som do despertador. Acordaram em simultâneo e prontas para enfrentar o dia seguinte. As rotinas seguiram o seu curso natural, saltaram da cama e vestiram-se, tomaram o pequeno almoço com Miyu a ouvir bocas do irmão e Ami a tentar recuperar um dos seus objectos pessoais da sua irmã, comeram depressa, pegaram na sua bolsa enquanto ouviam os conselhos habituais e caminharam até o Parque do Rei Pinguim onde se olharam em pontas opostas.
Ami e Miyu - Buenos dias!
Ami vestia o uniforme básico deixando o seu cabelo ondulado mal penteado cair sobre as costas numa trança. Miyu tinha dado o seu toque pessoal com alguns crachás e trazia uma maquilhagem que a fazia sobressair a sua beleza exótica. Assim que se encontraram no centro, observadas por pré-adolescentes que as observavam com desdém, Miyu tentou acertar a trança da amiga enquanto Ami tentava tapar-lhe o umbigo de Miyu com a saia visto que a camisa justa não estava a fazer o seu trabalho. Afastaram-se e caminharam em direcção à casa dando com ela rapidamente, devido à boa memória de Ami.
Miyu - Trouxe as cartas.
Ami - Trouxe o livro.
Miyu sentiu o olhar de Ami sobre si, um desafio claro. Ela tinha feito a resolução, ela teria de dar o primeiro passo para o concretizar. Se assim não o fosse, nada aconteceria. Respirou fundo e avançou decidida enquanto o seu corpo trémulo a traía. Atravessou o portão e tocou à campainha que foi aberta rapidamente pelo peluche amarelo.
Kero (contrariado) - Bem vindas, entrem.
Entraram no pequeno apartamento depressa tentando que a pequena aberração não fosse apanhada por olhares alheios. Miyu estava encantando pelo aspecto moderno e sofisticado de uma casa que parecia tão aborrecida por fora. Ami apenas conseguia pensar que iam acabar as duas numa banheira de gelo a morrer lentamente. A mulher de olhos verdes apresentou-se com um vestido azul marinho com um corte elegante e convidou-as a sentarem-se no sofá de pele branco.
Sakura (sorriu) - Chamo-me Sakura Kinomoto e antes de libertarem as cartas era a sua mestra. Infelizmente, o meu tempo já passou e elas estão novamente livres. Como vocês as libertaram têm a tarefa de as capturar ou coisas temíveis podem acontecer. Ajudaremos-vos na jornada mas isto é algo que apenas vós podem fazer.
Observou as expressões das jovens à sua frente mostravam emoções completamente opostas. A loira sensual pareceu animada e em seguida tratou de fazer as introduções.
Miyu (alegre) - Oh, eu sabia! Tinha de haver um motivo! Chamo-me Miyu e esta ao meu lado é a Ami, não se preocupe ela é tímida com estranhos mas tenho a certeza que nos vamos dar muito bem! Viste! Se calhar estávamos destinadas a este grande momento! Não se preocupe, vamos recuperar as suas cartas!
Sakura ficou aliviada por ter uma aliada em Miyu. Ami parecia estar em choque.
Ami (apática) - Não sejas infantil. - observou Miyu com dureza - Como podes acreditar nestas coisas? É mais uma fraude de certeza! Ela vai usar-nos e depois vamos nos lixar. Fixa as minhas palavras, vais precisar delas!
Em seguida, levantou-se mas Miyu conseguiu segurá-la antes que saísse pela porta. Cerberus tinha ficado mais interessado nas duas adolescentes e acabou por se sentar ao pé da sua mestra.
Miyu (cuidadosa) - Ami ela tem um peluche mágico. O livro iluminou-se como por magia, não se consegue fingir uma coisa daquelas.
Ami parecia esgotada e as palavras saíram roucas.
Ami - Truques de luzes e um robô animado. És tão ingénua! - levou a mão à cabeça.
Miyu (magoada) - E tu és fraca, uma desilusão, óbvia, amorosa e ages como se o mundo fosse uma grande armadilha.
Yue, que se tinha juntado à reunião na sala, ficou impressionado com o veneno usado nas palavras. Sakura e Kero entreolharam-se sem dizer uma palavra. Miyu, arrependida, tentou desculpar-se mas apenas foi ignorada e Ami sentou-se novamente sem olhar para a sua suposta amiga.
Ami (indecifrável) - Como é que podemos confiar em vocês?
Sakura - Usa o teu instinto, ele vai guiar-te.
Ami achou que isto era apenas mais um das frases feitas que tinha ouvido milhares de vezes mas esta parecia ser genuína. Aquela sensação de que podia confiar em Sakura tinha-se manifestado ontem e não era algo que pudesse ignorar. Assentiu com a cabeça. Achou melhor dirigir a conversa e tentar tirar toda a verdade, a Miyu apenas atrapalharia.
Ami - E como é que vamos capturar as cartas?
Sakura - Grande parte vai depender do vosso engenho mas tenho algo que pode ajudar. Podes passar-me o livro?
Ami entregou o livro, só agora apercebeu-se que o apertava como uma bóia de salvação, entregando-o à estranha. Cerberus aproximou-se da capa rosa e num gesto ele iluminou-se e duas luzes saltaram com força para fora do objecto. Quando a luz cedeu duas chaves coloridas ficaram a pairar no ar, uma de um azul escuro e outra de um laranja forte, a primeira flutuou devagar até Ami e a segunda até Miyu.
Kero - Quando se sentirem preparadas digam.
Miyu observou a sua chave na ponta tinha um círculo generoso com um leão dourado de relevo impresso juntamente com duas asinhas brancas. De esguelha, observou o de Ami que tinha duas estrelas douradas que se fundiam e também duas asas azuis brancas. Era a partir deste círculo que um fio dourada pendia e Miyu sentiu a chave quente na sua mão, dando-lhe algum conforto.
Miyu (adiantando-se) - O que faço agora? - saltou com animação.
Kero - Diz o seguinte: "Ó chave que guardas o poder do Leão sagrado revela a natureza do teu verdadeiro poder, eu Miyu, pelo poder que me foi concedido liberta-o agora".
Miyu (repetindo) - Ó chave que guardas o poder do Leão sagrado revela a natureza do teu verdadeiro poder, eu Miyu, pelo poder que me foi concedido liberta-o agora.
Assim que as palavras foram pronunciadas um bastão de tamanho considerável, do dobro do tamanho da chave, apareceu num passe de magia. Era da mesma cor que a chave e na sua ponta um trabalhado dourado decorava o objecto mágico. Miyu estava em êxtase e observava encantada a sua mais recente aquisição.
Kero - Ami as tuas palavras são: "Ó chave que guardas o poder do grande cavaleiro Gemini revela-me a natureza do teu verdadeiro poder, eu Ami, pelo poder que me foi concedido liberta-o agora".
Ami não parecia muito interessada mas lá decidiu ver se realmente funcionaria.
Ami (desinteressada) - Ó chave que guardas o poder do grande cavaleiro Gemini revela-me a natureza do teu verdadeiro poder, eu Ami, pelo poder que me foi concedido liberta-o agora.
Nada aconteceu. A feiticeira e os seus guardiões pareciam confusos e Miyu nada disse. Ami não deixou transparecer a tristeza que sentia por mais uma vez ser inferior à loira da sua idade e apenas encolheu os silêncio constrangedor invadiu o espaço sendo quebrado por Kero que continuou, sentindo-se mal por Ami, fazendo um esforço por animá-la.
Kero (rindo) - As vezes estas coisas avariam... Bem assim que apanharem uma carta escrevam o vosso nome nela para saberem que tem de vos obedecer, elas costumam ter vontade própria e como a Sakura ainda é a mestra oficial podem ignorar-vos ou atacar-vos. Podem fazer isso nas cartas que têm agora.
Miyu obedeceu e em seguida procurou na sua bolsa repleta de objectos pessoais a sua caneta dourada de eleição e rabiscou com a sua letra redonda ambos os nomes. Mostrou em seguida a Kero que abanou a cabeça afirmativamente. Miyu sorriu novamente divertida e recebeu o livro de Sakura, colocando as cartas no espaço a que pertenciam fechando-o em seguida e pousando-o na mesa de café ao centro, que separava as adolescentes de Sakura e dos seus guardiões.
Kero - Mais uma coisa - pousou dois frascos na mesa.
Pareciam pequenos frascos de perfume caro. Eram arredondados na base com estrias salientes onde pequenas pérolas saltavam à vista, diminuíam à medida que se aproximava das bordas, e ao seu lado estava tampa com várias pedras preciosas que brilhavam à medida que a luz do sol invadia a sala de estar. O conteúdo era um líquido transparente, com tão pouca substância, que aparentava estar vazio.
Kero - São as vossas gotas astrais. Se algum dia precisarem que vos substituam enquanto caçam uma carta, elas farão isso, imitar-vos-ao na perfeição. Deitem uma mecha do vosso cabelo no frasco, tapem-no e abanem durante alguns segundos e estão prontas a usar. Tirem a tampa e instruam-nas do que precisam de fazer. Quando taparem o frasco novamente elas desaparecem.
Miyu - Uau! Um clone, sempre quis ter um! - deu palminha de alegria.
Ami nada disse. Segui as instruções do peluche amarelo, tapou o frasco e guardou-o na sua bolsa em silêncio. Colocou a chave ao pescoço e em seguida fez uma vénia cordial, despedindo-se.
Ami - Obrigado pela hospitalidade.
Sakura levantou-se e aproximou-se da adolescente, dando-lhe um cartão.
Sakura - Este é o meu número, sempre que precisares de alguma coisa podes ligar-me. E sabes onde vivo, és sempre bem vinda cá.
Ami - Obrigado.
A adolescente considerou as palavras vãs e não fez muito caso. Seguiu para a porta e avançou em direcção à sua escola secundária em Tomoeda sem esperar por Miyu, que estava ainda a tratar de fazer os procedimentos e se despedir. Por vezes a sua amiga mais parecia ser a sua inimiga, tratava-a de uma forma cruel com palavras que magoavam apenas por estar frustrada e era nestas alturas que percebia porque ela e Yoko Ono, uma das raparigas que não suportava, se davam tão bem. Atravessou o portão ouvindo os comentários habituais. Claro que nada seria dito alto ou directamente mas apanhava por vezes palavras como Gaijin*, bizarra, solitária. Nada que não estivesse habituada. Caminhou até uma parte alta do pátio que ficava escondida do resto dos grupinhos que todos formavam e onde conseguia observá-los em paz, sem ser vista. Observou Miyu a chegar e viu-a a procurar por si mas assim que viu Yoko e Rika esqueceu-se completamente.
Yoko (alto) - Tenho notícias bombásticas para ti!
Miyu (guinchando) - Não! Conta!
Ami não conseguia ouvir o resto da conversa. Sabia que Yoko adorava fazer demonstrações destas, começaria a conversa alto para chamar a atenção de todo o pátio e depois baixaria o tom de voz quando fosse partilhar a informação essencial. Era apenas uma tentativa desesperada para tornar-se o centro das atenções. Sabia que este seria um mexerico que nada teria de verdadeiro mas mesmo assim fazia-a sentir-se envergonhada por poder expressar-se assim. Miyu podia ser parte chinesa mas o facto de cá ter nascido e de o seu pai ser japonês fazia toda a diferença. Não tinha marcado na cara a diferença que era um fardo na sua vida. Ami sentiu a energia do espaço mudar. Viu a aluna sentada a alguns metros de si levantar os olhos do seu ecrã e ficar embasbacada para a porta de entrada, falando rapidamente com a sua amiga.
Aluna1 - OMG! Estás a ver isto?
Aluna2 - Oh se estou!
Ami revirou os olhos quando começaram a dar risinhos que na sua opinião eram enervantes. Infelizmente desta posição não conseguia ver o portão mas à medida que que a energia se tornava mais forte ela começou a perceber a fonte que tinha captado a atenção de todas as raparigas do pátio, Miyu incluída. Eram dois alunos novos, um pouco estranho no meio do semestre, um loiro e um moreno. Ambos vestiam o uniforme escolar obrigatório embora o usassem de forma diferente, tinham diferentes perspectivas de vida mas Ami conseguiam perceber que eram próximos devido à distância que mantinham entre si. Teve um mau pressentimento. Percebia que o moreno sorria divertido com a atenção e até retribuía os acenos das suas admiradoras e os dois avançavam como se tudo lhes pertencesse. Pararam por alguns segundos quando foram abordados por Yoko que lhes fez questão de dar as boas vindas, nada de novo, se bem que Hiroshi parecia mais interessado em Miyu. E então algo estranho aconteceu, pareceu que o loiro olhou directamente para si. Fez uma expressão confusa e viu um sorriso de escárnio. A campainha tocou e despertou-a dos seus pensamentos, estava a tirar conclusões precipitadas. Levantou-se e caminhou lentamente até a sala de aula.
Pátio - Escola Secundária de Tomoeda
Miyu observava com atenção os novos rapazes que tinham chegado. Tinha sido obrigada a estar perto deles porque Yoko tinha intenção de os conquistar e Rika era demasiado tímida para ajudar. Infelizmente para Yoko, nenhum deles parecia muito interessado no que ela tinha a dizer. Miyu sentia-se pouco à vontade porque Hiroshi estava com o olhar fixo em si à já vários minutos, decorou os nomes da breve introdução forçada.
Yoko - Portanto se precisarem de alguma coisa, peçam. - piscou o olho tentando ser sensual.
Eric sorriu como se finalmente tivesse encontrado algo interessante e Miyu percebeu que era o lugar onde Ami gostava de esconder. Quando a sua amiga avançou pelas escadas percebeu que os olhos azuis glaciais do loiro ainda a seguiam.
Miyu - Bem já tocou, acho melhor ir andando. Adeus.
Conseguiu apanhar Ami com facilidade e envolveu o braço da morena. Sabia que ainda não tinha sido perdoada pelas coisas que tinha dito mas achou que valia a pena tentar. Como não foi rejeitada prosseguiu o seu discurso.
Miyu (baixo) - Aqueles gajos são esquisitos.
Ami (baixo) - Sim, muito.
Ami achou melhor não tocar mais na discussão desta manhã. Se Miyu tinha sentido o mesmo que ela então havia motivos para desconfiar ainda mais desta situação. Sentaram-se ao lado uma da outra no fundo da sala e rapidamente notaram que duas carteiras tinham sido colocadas por detrás das suas, se não fosse isso, estariam as duas na última fila da sala. Sentaram-se e Miyu tentou voltar a tocar num assunto delicado.
Miyu (sussurrou) - Desculpa pelo que disse hoje, fui uma cabra mas eu tenho razão.
Ami (sussurou) - Se achas que é assim que vou concordar contigo estás enganada.
Ambas tiravam as coisas da mochila e iam-nas dispondo em cima da mesa enquanto o resto dos alunos ainda estava e falava entre si.
Miyu (sussurrou) - Tens de concordar que está na altura de seguires em frente.
Prof. Okinawa - Tem alguma coisa que queira partilhar com o resto dos seus colegas?
Infelizmente, tão depressa como o ruído ensurdecedor surgia também desaparecia deixando-a a fazer má figura em frente aos seus colegas. Perto do quadro estavam já presentes o director de turma e a professora de literatura e toda a turma as observava de esguelha. Sendo os japoneses muito sensíveis, Miyu acabou por achar melhor se remeter ao silêncios enquanto os dois novos alunos eram introduzidos e Ami tratava de os avaliar melhor a esta curta distância.
Prof. Okinawa - Dêem as boas vindas a Eric Kieran. Por favor, apresenta-te.
Ami notou que Eric era bastante maduro para a sua idade. Tinha traços masculinos proeminentes e fortes que lhe davam um ar adulto. O seu cabelo curto estava estilizado com gel e puxado para trás, olhos azuis claros gélidos, sobrancelhas grossas e lábios finos mas longos que eram complementados com uma barba de três dias. O seu corpo estava em harmonia com as suas feições, era alto e bem constituído. Este era o aspecto do seu inimigo número 1 que lhe contemplava com um olhar que nada entregava.
Eric (amistoso)- Já sabem o meu nome, tenho 18 anos e já vivi em muitos países mas actualmente estava na China. É uma honra conhecer-vos.
Terminou a sua apresentação com um sorriso leve que arrancou alguns suspiros das adolescentes presentes, até de Miyu. Eric manteve-se direito, como uma pose de soldado, enquanto o professor Okinawa com um sorriso apresentava o outro aluno.
Prof. Okinawa - E dêem também as boas vindas a Hiroshi O' Connel. Apresenta-te à turma.
Hiroshi, para Ami, parecia estar a usar uma máscara. O seu cabelo negro e espicaçado fazia lembrar as estrelas de J-Pop, saltavam à vista os piercings nas orelhas e tinha feições masculinas delicadas, dignos de uma celebridade com a cara limpa e algum eyeliner. Trazia as mangas da camisa dobradas mostrando as tatuagens que tinha no corpo e os seus anéis e pulseiras de tema gótico. Era apenas um pouco mais baixo que Eric mas ambos tinham um porte semelhante.
Hiroshi (alegre) - 18 anos. Vim de Inglaterra. Actualmente vivia na China. Nada d'outro mundo.
Novamente murmúrios mas desta vez Miyu não parecia nada alegre. Inclinou-se ligeiramente para a carteira do lado de forma a que só a sua amiga a pudesse ouvir.
Miyu (sussurro) - Não gosto nada daquele!
Ami (sussurro) - Miyu! E eu sempre pensei que gostasses de um bom gótico. - sarcástica, fingiu surpresa.
Prof Okinawa - Posso saber porque as meninas tanto conversam aí atrás?
O professor estava de braços cruzados e Miyu acho por bem ser o alvo como forma de redenção. Levantou-se, batendo com força na mesa, num gesto dramático.
Miyu (séria) - Protesto!
Ouviram-se risos.
Prof Okinawa (suspirou) - Isto não é um tribunal, menina Shiwabara. Mas diga lá de sua justiça.
Miyu - A colocação dos lugares dos novos alunos é injusta! Esta fila está claramente em desvantagem, já éramos a fila com mais carteiras, e agora estamos todos juntinhos como latas de sardinhas. Porque não os colocar nas filas ao lado? Anh?
Hiroshi observava a rapariga erótica do pátio a fazer um discurso inteligente com fervor e sabia que tinha feito a escolha correcta, Yoko seria demasiado fácil. E isto estava a ser muito interessante. Permaneceu em silêncio à espera da conclusão desta sessão. Eric parecia ignorar tudo à sua volta, o habitual modus operandi.
Prof. Okinawa - Se prestasse atenção, veria que a sala foi reorganizada e agora estão em pé de igualdade. Mais alguma coisa?
Miyu (enervada) - Continuo a protestar!
Prof. Okinawa (calmo) - Pode fazer o seu protesto, de preferência, em silêncio. Podem ficar nas carteiras vazias por detrás da senhora advogada. Retomem os estudos.
A professora de Literatura, a senhora Miyasaki, retomou o lugar central e começou a escrever no quadro imediatamente a informação mais relevante da aula. Eric e Hiroshi caminharam lentamente e com confiança até os seus lugares. Hiroshi sentou-se imediatamente atrás de Miyu e Eric de Ami. Enquanto Yoko mandava mensagens de texto a Miyu explicando como ela era sortuda por poder estar sentada ao pé das novas aquisições a restante turma tentava prestar atenção na explicação da docente e do livro obrigatório mas todos queriam perceber mais sobre os novos alunos, deitando alguns olhares curiosos de vez em quando. Eric estava habituado a esta atenção e em grande parte odiava-a. Gostava de ser invisível mas Li tinha de lhes dar uma missão ridícula e infantil. Os seus pensamentos foram interrompidos pela morena à sua frente.
Ami (concentrada) - Professora, acha correcto afirmarmos que em Romeu o Julieta, Shakespear vê o romance entre adolescentes como vago e fugaz, e por isso, não deve ser encarado como amor e sim como uma paixão?
A professora ficou encantada por ter uma pergunta e Eric sorriu. Ela parecia estar completamente alheia a tudo o resto que se passava, mostrava zero interesse em si e no que a rodeava. Conseguia sentir a sua fraca energia. A sua e a da sua amiga. Elas eram as pessoas que procuravam e pelo ar fraco que davam isto já cá cantava. Como tinha pensado, uma perda de tempo. As horas foram passando e sendo hoje o dia em que saíam ao meio-dia, Eric e Hiroshi acabaram por ficar e conhecer o espaço e integrar-se depressa. Nada seria pior do que destacar-se e manter a distância.
Parque do Rei Pinguim
Ami tinha acabado de chegar e estava sem fôlego. Tinha passado o resto do dia na biblioteca a trabalhar para Literatura quando recebeu uma mensagem de Miyu:
Rei Pinguim. Agora.
Miyu estaria hoje no clube de moda e tinha a certeza que o grande escorrega não precisava de um fato. Não tinha a certeza do que esperar mas devia ser algo relacionado com as cartas. E tinha acertado em cheio. Estava tudo num alvoroço, vários objectos flutuavam até mesmo o grande escorrega.
Miyu (grito) - Ami ajuda-me!
Evitou rir mas não conseguiu. Miyu flutuava de cabeça para baixo com o pé preso no baloiço que dançava no ar juntamente com os caixotes do lixo formando uma linha de congo.
Miyu (irritada) - Pára de rir e faz alguma coisa!
Ami sem conseguir parar de rir com o absurdo viu que Eric e Hiroshi também estavam presentes, flutuavam no ar sendo obrigados a dançar a valsa com os bancos de jardim. Não pareciam nada contentes e tentavam lutar com a sua força bruta mas nada funcionava. A vontade de rir apenas aumentou e apenas parou quando a sua barriga já doía. Sakura parou ao seu lado nesse momento.
Sakura - Oh deus...
Ami - É simplesmente genial! - tirou a chave do pescoço e ficou séria - Achas que vale a pena tentar?
Sakura olhou para a adolescente e viu mais do que dúvida no seu olhar, viu a insegurança que a atormentava. Sorriu, tentando passar confiança. Kero tirou-lhe as palavras da boca.
Kero - Putz, a Sakura era uma desajeitada e conseguiu. Para ti vai ser canja! Quando capturares a carta diz: "Volta à tua forma original, Carta de Sakura!"
A morena respirou fundo e tentou não pensar no assunto. Este era talvez o preço de ignorar o que não conseguia explicar sobre si. Abanou a cabeça ao perceber que estava presa no mesmo ciclo vicioso e focou-se apenas em como trazer tudo ao normal. Via uma orbe com riscas roxas e azuis escuras no meio da confusão a flutuar muito depressa. Teria de trepar os obstáculos flutuantes até lá chegar mas era a sua única hipótese. Respirou fundo.
Ami - Ó chave que guardas o poder do grande cavaleiro Gemini revela-me a natureza do teu verdadeiro poder, eu Ami, pelo poder que me foi concedido liberta-o agora.
Parecia que a sua voz tinha ecoado quando a luz se libertou da pequena chave sentiu um formigueiro quente invadir todo o seu corpo. Sentia-se bem. Quando o bastão tinha-se materializado avançou por entre os destroços corajosamente. Primeiro avançou por uns baldes de lixo, saltou por entre correntes e bancos e consegui chegar ao baloiço. Deu algum balanço e assim que tinha ganho momentum libertou-se, usando as costas de Eric como apoio, chegando por fim ao cimo da orbe. Deitada de barriga para baixo, usou as palavras de Kero.
Ami (engoliu a seco) - Volta à tua forma original, Carta de Sakura!
A orbe brilhou com força e reapareceu em forma de carta. Ami agarrou-a e subitamente sentiu a gravidade a surtir efeito. Todos os objectos que flutuavam começaram a cair com força no chão mas antes que fossem esmagados os quatro adolescentes ficaram a pairar no ar. Em seguida, caíram devagar.
Miyu - Graças aos céus. - a sua voz estava rouca de gritar.
Ami - Não me digas nada. Não estavam a brincar quando disseram que elas iam criar sarilhos.
Sakura aproximou-se em passo de corrida, tinha conseguido salvá-las a tempo, certificando-se de que estavam bem. Procurou pelos guarda costas de Li mas estes tinham desaparecido. Virou-se para as suas protegidas e viu que estavam a falar alegremente entre si dando algumas gargalhadas.
Sakura (preocupada) - Estão bem?
Miyu (levantou-se) - Numa boa! - ajudou Ami a levantar-se - Agora vamos ter de arrumar isto tudo, certo?
Ami fez um sinal de afirmação com a cabeça. Miyu agarrou a carta e começou a levitar objectos enquanto Ami a comandava. Ambas testavam ainda os seus limites e Kero guiava-as enquanto o céu alaranjado perdia cada vez mais os seus tons alaranjados para a noite. Sakura deixou-as divertirem-se mas os seus olhos continuavam a varrer todo o parque. Shaoran Li era como uma presença que a assombrava constantemente e algo lhe diria que estava muito perto. Demasiado perto.
Continua no próximo capítulo.
*Gaijin - Termo perjurativo usado no Japão para se referir a estrangeiros.
~*~ AnGe Lille ~*~
