CCNE - If I'm not number one, Than I'd rather be lonely
Um pouco cansados, molhados da cabeça aos pés e com boa disposição, Eric e Hiroshi entram na mansão Li com alguma confiança depois de terem capturado a sua primeira carta. Ao fecharem a porta principal notaram a presença de uma voz familiar mas improvável para aquele lugar. Hiroshi moveu-se rapidamente e observou Meiling a conversar alegremente com Wei. Meiling tinha crescido imenso, sendo tão alta quanto qualquer um dos homens naquela sala, com o seu longo cabelo negro e liso que lhe chegava a meio das costas preso num rabo de cavalo e com um vestido pesado de algodão que lhe cobria todo o corpo, parecia imponente, contrastando com o seu sorriso aberto.
Hiroshi (confuso) - O que raio fazes aqui?
Meiling notou a presença dos dois e cumprimentou Eric com uma vénia breve e foi respondida com uma maior reverência. Por fim abraçou o moreno de aspecto punk.
Meiling - Não sabia que tinhas ocupado o papel do meu marido. - espicaçou-o.
O rapaz retribuiu o abraço demonstrando a saudade que tinha da jovem adulta. Wei mostrou-se feliz pelo reencontro e ausentou-se para os seus afazeres. Sentaram-se os dois no grande sofá de couro que embelezava a grande sala de estar decorada numa linha europeia tradicional que apostava nos tons escuros e nas madeiras robustas.
Hiroshi (sarcástico) - Perdon madame!
Meiling(ri-se) - Estava só a meter-me contigo, vim fazer voluntariado em Tomoeda. Sabes que fica muito bem para a imagem da família.
Eric afastou-se um pouco da reunião e acabou por se conformar com o cadeirão desconfortável livre. Percebeu que o seu mestre tinha as feições carregadas com angústia e o cheiro nauseabundo fazia denotar o seu mau humor. Decidiu apenas informar o mais relevante do dia.
Eric - Capturamos uma carta hoje. - disse num tom sério e controlado.
Li (olhar vazio) - ...
A reacção tinha sido a esperada. Não houve resposta, sinal de que poderia manter-se em silêncio e suportar a conversa de tom exagerado dos dois sentados à sua frente. Serviu-se de um copo de vinho tinto e apenas observou enquanto Meiling e Hiroshi trocavam impressões.
Meiling (entusiasmada) - Mas estão a gostar de Tomoeda? É muito bonito!
O entusiasmo de Meiling era sem dúvida uma das coisas que Hiroshi mais sentia falta nesta mansão fria mas teve de se controlar com a afirmação absurda.
Hiroshi (revira os olhos) - É uma seca, nada como tinhas descrito - senta-se esparramado no sofá - Nem sequer tem nada que se goze...
Meiling riu ao perceber que o punk não tinha mudado nada nos seus pensamentos devassos. Tentou controlar o impulso de rir e tentou uma abordagem mais educativa.
Meiling - Não sejas assim! - bate na cabeça de Hiroshi - Nunca aprendes. E tu Eric? Vejo que apanhaste uma carta hoje. Qual foi?
Eric mostrou a carta The Rain* sem interesse. Entregou-a à jovem que viu os nomes escritos numa letra rude que reclamava a posse da carta mágica para os dois rapazes. Wei apareceu na sala e com uma vénia fez sinal de que o jantar estava servido. Dirigiram-se com passos ligeiros para a imponente sala de jantar com uma mesa de toalha branca com lugares suficientes para uma grande comitiva. Os pratos chineses estavam em grandes travessas brilhantes juntamente com uma grande selecção de bebidas, tudo planeado ao pormenor para receber a jovem patroa. As cinco empregadas estavam de pé perto do acesso da cozinha prontas para receber ordens.
Meiling (cordial) - Podem descansar, requisitaremos os vossos serviços na altura oportuna.
Os trabalhadores deixaram os patrões a jantarem mas para infelicidade de Meiling a privacidade dada de nada lhe serviu. Li não falou uma única vez e Hiroshi e Eric também não pois apenas podiam intervir assim que o seu mestre lhes desse permissão. Foi uma meia hora longa com olhares evitados e a apreciar os detalhes dos jarros e quadros valiosos até a exaustão. Hiroshi e Eric fizeram uma vénia e acabaram por subir. Meiling olhou com dureza para o seu primo casmurro e respirou fundo mostrando a sua irritação tentando fazer claro o que pensava com palavras.
Meiling - Não devias...
Foi rudemente interrompida com o gesto abrupto de Li, que se levantou deitando a cadeira no chão, levou duas garrafas para o seu escritório fechado e isolou-se com uma bater pesado da porta. Meiling sentiu-se envergonhada pelo comportamento infantil do primo que chamou a atenção dos servos. Fez sinal para que começassem a limpar e agradeceu com um sorriso silencioso o jantar. Foi acompanhada por Wei pelos longos corredores de uma mansão que parecia cada vez mais solitária a cada passo.
Meiling - Ele está cada vez pior, aquele vício é terrível.
O vício de fechar-se sobre si mesmo, Meiling preferiu deixar esta parte para si.
Wei - Infelizmente os homens preferem cobrir os seus sentimentos com soluções que os aproximam a um passo vagaroso da morte.
Meiling (triste) - É uma pena que ele já não siga os teus conselhos.
Wei - Não podemos obrigar a escutar quem não ouve.
Wei despediu-se da jovem chinesa que preparava para se deitar e avançou até a porta entreaberta dos dois jovens discípulos da qual emanava uma luz azulada acompanhada por sons fortes de tiros e vozes masculinas com interferências. Espreitou com cuidado, prezava a segurança e privacidade dos senhores que servia, tratando de cumprir o seu dever.
Wei - Precisam de alguma coisa meninos?
Apenas conseguia ver a silhueta escura iluminada de Hiroshi e Eric não permitindo ver as suas caras mas pelo carregar incessante dos botões percebeu que estavam concentrados no video jogo de batalha que enchia o ecrã de 30 polegadas com imagens fortes e vibrantes. Hiroshi coçou a cabeça e levantou a mão aberta, sinal de que estava bem e apenas precisava de se concentrar na partida.
Hiroshi - Nop. Fecha a porta, por favor. - dirigiu-se com uma voz vazia.
Wei - Boa noite. - disse com reverência.
Eric bateu um botão rápido saindo do jogo com um suicídio e concentrou-se. Conseguia de olhos fechados visualizar o corredor com a batida dos pés do mordomo no soalho mesmo estando almofadado por uma enorme carpete de vermelho cor de vinho. Assim que os passos soaram mais como uma batuque seco, Wei estava nas escadas e isso significava que a costa estava livre. Abriu os olhos e deitou-se na cadeira flexível jogando o comando preto no chão. Hiroshi colocou no modo de visualização, de forma a seguir o jogo de outros jogadores que providenciava barulho abafando a conversa.
Hiroshi - Explica-me o café e diz-me que é para venderes romances pirosos.
Fez com que os cigarros que tinha na bolsa ao pé da porta voassem até a sua mão e acendeu um, sugando o fumo numa golfada. Ofereceu um ao loiro que despenteava o cabelo e se debruçou sobre os joelhos.
Eric - Nop.
Era uma dupla negação, à oferta de um prego no caixão e à afirmação de Hiroshi. Olhou com frieza para o amigo que mostrava confusão no olhar.
Hiroshi - Quer dizer que 'tas mesmo interessado nela? - fez uma expressão confusa - Meu... que desperdício de tempo.
Eric agarrou na sua garrafa de cerveja e tentou pensar no que dizer encontrando-se com uma grave falta de palavras. Como explicar o momento bizarro de conexão que tinha partilhado com uma miúda anti-social e que não o fizesse parecer-se com um idiota? Não existiam palavras suficientes para este momento. A decisão foi esquivar-se.
Eric (contrariado) - Queres que te diga? - bebeu um gole - Foda-se.
Hiroshi (riu baixo) - Xi... O rapazito bonito ficou apanhadito. Olha, a primeira coisa interessante que aconteceu neste fim de mundo...
Eric - Pois...
Eric olhou para o ecrã com imagens violentas para não ter de ver o seu suposto amigo a convulsar-se a rir como se isto fosse a melhor piada do universo. Ao perceber que estava a ser ignorado, Hiroshi acabou o cigarro e acalmou-se, tentando ser compreensivo.
Hiroshi - Tava só a me meter contigo. - mostrou um sorriso sincero - Podes ser honesto, eu cubro-te. O Li só descobre depois de ela ter um anel no dedo, se for por mim.
Eric mostrou mordeu o lábio e estranhou a simpatia. Pousou a garrafa e agachou-se para apanhar o comando , sentando-se posteriormente direito na cadeira. Hiroshi acompanhou o gesto sabendo que iriam começar outra ronda.
Eric - Obrigado. - Mexeu no cabelo, despentando-o - Outra volta?
Hiroshi - Bora!
Tudo indicava que pela noite dentro iam soar tiros e gritos de mortes dolorosas e isso agradava a ambos.
Casa Okinawa - Sala de Estar
Finalmente tinham chegado a casa depois de uma longa caminhada em que o vento apenas tinha piorado a sua tortuosa penitência de atravessarem Tomoeda molhadas como um gato pingado. Miyu tinha alegremente se ocupado de conversar com a mãe de Ami que tentava chegar ao fundo da questão como se a existência do universo dependesse disso, pensou Ami, que estava saturada de ouvir as teorias idióticas quando tudo o que queria fazer era tomar banho e parar de tremer.
Sra. Okinawa - Mas e como achas que começou? Foi do nada!
Ami - Não faço ideia! Podemos mudar de assunto? - embrulhava-se na toalha que lhe tinha sido oferecida - Eu sei tanto quanto tu acerca da chuva!
Miyu (constrangida) - Tenho a certeza que a Ami está apenas cansada, ela apanhou a chuva por minha causa, obriguei-a a ter comigo ao parque porque me tinha esquecido de uma coisa.
A Senhora Okinawa iria repreender a sua filha respondona mas achou melhor deixar passar esta vez, ela estava claramente afectada pelo frio e não queria dar má imagem para os outros de que era pouco compreensiva como mãe. As duas amigas subiram em segundos para se enfiarem por debaixo de água quente e assim que estavam prontas juntaram-se a uma mesa já posta para o jantar, com pratos servidos, no qual dos dois pais e Akane esperavam por elas, Akane já impaciente e a tentar resgatar o seu jantar com os seus dedos pequenos. Todos pareciam estar interessados em partilharem e falaram dos seus respectivos dias mas Ami apenas pairava absorta na sua mente voltando para a realidade quando Akane contava os seus feitos académicos.
Akane (sorridente) - E hoje tivemos um teste surpresa de inglês e tive 100%.
Todos, excepto Ami, sorriram e fizeram trejeitos satisfeitos com o resultado obtido pelo benjamim da família.
Miyu - Muito bem! - impressionada - Bem vinda à tortura!
Sr. Okinawa - A educação e a disciplina deve começar cedo, o caminho para o sucesso trabalha-se desde o berço.
Miyu engoliu a seco o arroz discordando veemente deste pensamento, que na sua opinião, apenas tornava os jovens japoneses inseguros, nervosos e incapazes de lidarem com a pressão sofrida, o que explicava os suicídios comuns em épocas de exames. Experiente na arte de agradar pais, guardou o sem pensamento e mostrou o sem melhor sorriso. A senhora Okinawa olhou para Ami e reparou no seu olhar ausente.
Sra. Okinawa (preocupada) - Não disseste uma palavra, querida. Estás bem?
Ami (suspirou) - Ia discordar com grande parte das coisas, não me apetece discutir em frente aos convidados. - olhou para a irmã mais nova - Parabéns Akane! Sê a prodigiosa filha que eles nunca tiveram.
Akane sorriu contente com o feito. Os seus pais apenas tomaram isso como o seu habitual mau génio no que toca a assuntos sérios, Ami tinha a tendência de discordar por discorda na sua opinião, então ignoraram a sua atitude ausente durante o jantar e como ambos tinham bastante trabalho dispensaram as estudantes para a sobremesa. Akane saltou do balcão da cozinha com a sua taça colorida com as cores do arco-íris, conteúdo gelado com smarties coloridos, e saltou para o sofá tomando conta da televisão da sala. Ami revirou os olhos com a atitude infantil e tanto ela como Miyu subiram para o seu quarto, para falarem à vontade.
Miyu - Vou fechar a porta.
Ami sentou-se no seu cadeirão preferido, era vermelho, de aspecto real e já um pouco gasto nas costuras, algumas já rebentadas. Todo o resto do quarto era muito organizado e para além da cama, uma estante de livros e uma secretária com um computador que servia também de toucador nada muito saltava à vista que indicasse a personalidade de Ami. Tinha um quadro horrendo que dava a Miyu pesadelos atrás da porta e um pequeno poster com frases de filósofos que parecia ter sido escolhido por ela mas o resto podia muito bem passar por algo insípido de uma revista. E ao longo de quase 10 anos não tinha mudado nem um pouco. Aproximou-se de Ami que saboreava a sua salada de fruta na taça azul escura e atacou a sua bela taça vermelha.
Ami (comia) - Ehh ouh que-é horje? - Sentou-se no puff com a boca cheia de gelado.
Ami referia-se à habitual rotina de sexta feira onde falariam das manchetes das revistas cor de rosa, pois Miyu adorava expor a sua opinião feroz sobre a vida pública das celebridades, e Ami exporia o seu ponto de vista na actualidade política e científica, não conseguia lidar com assuntos fúteis durante muito tempo. Achou estranho Miyu não ter já as suas revistas à mão.
Miyu - Hoje um assunto mais importante leva o destaque da nossa tertúlia semanal. - pousou a taça depois de ter comido em duas colheradas o gelado - Explica-me tudo o que aconteceu na gelataria!
Teria de tentar arrancar alguma coisa da sua melhor amiga embora soubesse que dificilmente ela iria colaborar, tudo o que se tratasse de romance tinha um grande veto de Ami principalmente se fosse a sua vida amorosa. Ami evitou a questão com o seu melhor aliado.
Ami (sarcástica) - Não estavas lá? - comeu outra colher - Não me digas que a clonagem foi bem sucedida?
Miyu revirou os olhos e fez a sua pose de séria mas ligeiramente ofendida. Pousou a sua taça e deixou-a na escrivaninha de Ami. Sentou-se na cama de lençóis brancos e sentou-se de joelhos, pose facilitada pelas leggins e sueter enorme que Ami lhe tinha emprestado.
Miyu (implora) - Vá lá! - saltava na cama como uma criança - Explica já tudo!
Ami (pousou a taça) - Queixam-se tanto por tentar ser mais simpática. Finalmente sou simpática e trocem-me os miolos na mesma - suspirou - Digo já que foi a minha tentativa de evitar arrancar-lhe os olhos.
Miyu (com horror) - Que é isso! Não cometas um crime contra a beleza!
Exasperada, fez uma expressão dramática. Ami cruzou os braços, para conforto, com as feições sérias e um pouco apáticas.
Ami - Estava a passar-me, ele não me deixava em paz. Foi apenas em legítima defesa.
Miyu deitou-se e ficou pensativa durante uns minutos deixando tempo para Ami se descoser e dar o tempo para que pudesse verbalizar a sua linha de pensamento.
Ami (pensativa) - É simpático e pelo menos não é como os idiotas do ginásio ou os hipsters mas foi algo meio esquisito. Quando lhe toquei por acidente na mesa do café parece que foi electrocutada. Não sei, passei a sentir sentimentos fortes por ele.
Miyu parecia estar possuída pois contorcia-se de forma quase incontrolável sendo ignorada por Ami que estava absorvida em si mesma.
Ami (séria) - Deve ser mais um efeito colateral destas cartas e/ou magia. Não é possível um estranho ser importante para mim daquela maneira. Não é lógico.
Miyu (gritinhos) - Oh, que fofo! - deitou-se de costas, ficando com a cabeça para baixo - Um romance que atravessa os tempos, almas gémeas que não podem ser separadas pe..
Ami fez um gesto de pausa.
Ami (nauseada) - Ok, vamos parar por aí. Estou a ficar doente. - sorriu divertida pelo olhar destroçado da amiga - Deite tempo para elaborares.
Miyu - Engraçadinha! - sentou-se num ápice - E achas que lhe vais dar uma oportunidade?
Ami - Para me cortar os travões, observar a dormir e controlar tudo o que eu faço? - fingiu entusiasmo.
Miyu (exasperada) - Pára de tornar o amor de Edward e da Bella assustador!
Riram as duas com vontade e começaram a sua tertúlia habitual, por fim.
Mansão Li - Escadaria principal.
Meiling tinha acabado de buscar um copo de água na cozinha e ao passar pelas janelas altas da escadaria oponente de madeira assustou-se com os reflexos de luzes que quase a ofuscavam. Acabou por prosseguir para o seu quarto, deveria ser apenas uma das empregadas a sair do serviço.
Casa Sakura - Quarto Principal
Sakura sentia a sua pulsação descontrolada a pulsar nos seus ouvidos enquanto tentava controlar o pânico. O chiar alto de travões tinha-a despertado de um som tranquilo e um motor alto parecia ter parado perto da sua casa. Assustada, aproximou-se da sua janela, com os estores a providenciarem alguma esconderijo, e viu um carro conhecido de cor cinzenta. Pensaria estar a alucinar mas sabia que tinha de ser, era o Porsche de Li. Não conseguia perceber o que estava lá a fazer, talvez fosse um engano... Passadas duas longas horas Sakura começou a pensar que não era o caso. Cada segundo que passava era como se um peso adicional caísse sobre os seus ombros, quebrando-a aos poucos sem saber durante quanto tempo mais aguentaria. O condutor apenas permanecia imóvel, focado na sua pequena casa. Como se a estivesse a observar. O pavor tinha já à muito passado a uma imploração, de que algo acontecesse de uma vez. O toque do telefone fixo acordou-a e caminhou até a sua mesa de cabeceira, ligando a luz distraída.
Sakura (voz trémula) - Estou?
Meiling (preocupada) - Sakura? És tu?
Afastou o auscultador e respirou fundo tentando parecer calma.
Sakura - Sim, sou eu. Porque me estás a ligar do Japão? - apontou com curiosidade.
Meiling - Nada te escapa... Vim cá e gostava de saber se amanhã querias recordar os velhos tempos.
Sakura (sorriu) - Claro. Vem ter ao centro, vão fazer a exposição das barraquinhas.
Meiling - Combinado, até amanhã então.
Sakura - Adeus.
Desligou a chamada com as mãos trémulas e correu para perto da janela enquanto o som alto de motor voltou a funcionar e quando chegou à janela a máquina cinzenta tinha desaparecido. Deitou-se com o corpo perro e desperta da adrenalina que corria pelas veias, atenta a qualquer perigo que pudesse acontecer. Tentando adormecer.
Casa Okinawa
Miyu olhava o seu reflexo no espelho verificando a sua maquilhagem em tons nude, para um ar natural. Vestia o robe que estava em casa de Ami, na eventualidade de cá passar uma noite, e impaciente organizava os seus pincéis agora limpos. Acabaram por perder as horas ao verem filmes e adormeceram sem darem por isso, a sua mãe tinha sido avisada, mas agora esperava impaciente pelo idiota do seu irmão que estava imensamente atrasado. A sua roupa de emergência estava separada em malas idênticas, de cores diferentes, dependendo do que queria vestir. Ela era incapaz de perceber a dificuldade em pegar numa mala amarela, colocar no carro e trazer antes de ir para o trabalho, que segundo as suas contas já deveria ter começado à meia hora. Pensando que ganharia raízes a campainha finalmente tocou mas quando lá chegou, Ami tinha aberto a porta.
Ami - Bom dia - foi cordial - Como estás?
Tetsuya, como sempre, parecia ter sido atordoado quando Amy apenas tinha sido simpática. Era realmente um teste à sua paciência de fashionista desesperada. Não percebia porque fazia aquele sorriso meio desastrado que usava nas bimbas porque se babava, devia estar a testar se lhe ia bater em público ou não.
Tetsuya - Bom dia. Vim deixar a roupa para a Miyu. Tenho pena que tenham de aturá-la durante tanto tempo. - mostrou um sorriso alegre.
Ami - Não foi nada demais. - aceitou a bolsa - Queres entrar?
Tetsuya - Já estou atrasado para o trabalho mas agradeço o convite. Adeus.
Ami - Adeus.
Retirou levemente a bolsa das mãos de Ami e correu para o piso superior para trocar para o seu vestido longo, sandálias castanhas e muitos acessórios esotéricos, era um bom dia para ser espiritual/hippie. Quando estava a calçar-se observou que Ami tinha escolhido o vestido branco com rendas largo, que lhe dava até ao joelho, com as sabrinas castanhas gastas com o cabelo preso numa trança que Akane estava a acabar.
Miyu - Uau! Muito bem!
Akane sorriu confiante com o elogio, embora Miyu não lhe quisesse partir o coração e dizer que estava um pouco torto, Ami segurava a boneca e entregou-a à sua irmã mais nova sendo obrigada a prometer que não se esqueceriam de trazer algo para ela. Assim, caminharam pelas ruas calma de Tomoeda até a praça central onde todos os últimos sábados de cada mês uma feira com diversos artesãos exponha a sua arte. As barraquinhas de madeira eram pequenas e tinham um aspecto robusto com largos detalhes saídos de um filme de animação, com arcos e desenhos cravados, sendo algo arredondadas. Na barraca de brinquedos Ami procurava algo que fosse interessante o suficiente e Miyu deu-lhe um toque leve no ombro.
Miyu - O que achas?
Segurava um kit de costura para bonecas e acharam por bem dar a busca como encerrada. Em seguida, fizeram a ronda habitual com Ami a comprar um conjunto de canetas e Miyu a voltar à barraca onde havia uma colecção de anéis dos signos do zodíaco chinês e cada mês voltavam para que ela ficasse mais perto de completar a sua. Infelizmente, o anel não era a única coisa que Miyu gostava e isso implicava que Ami tivesse de esperar pelo menos meia hora até que ela visse tudo de uma ponta à outra. Completamente aborrecida, virou-se para o expositor mais próximo e contemplava como é que algo tão simples, fios de ouro com um berloque, pudessem custar um rim.
- Posso comprar-to.
Ami assustou-se com a voz tão próxima de si e saltou. Ao virar-se viu que se tratava de Eric, com um polo azul e calças caqui. Tentou acalmar-se do ataque cardíaco.
Ami (atrapalhada) - Estava só a ver, à espera da Miyu.
Eric sorriu, com charme. Ficou completamente desnorteada com o comportamento inusitado de quem mal lhe olhava no dia anterior e sem querer bateu com a mão na mesa branca acabando por derrubar um colar. Rezando para não partir nada, ou teria mesmo de vender um rim, acabou por suspirar de alívio quando viu a peça intacta. Eric, que também se tinha agachado para ajudar, fez com que as mãos de ambos se tocassem e Ami largou o fio com um espasmo. Toda a gente na barraca, incluindo uma satisfeita Miyu, os observava e fez com que rezasse por um buraco onde se pudesse esconder, fez a primeira coisa que se lembrou.
Ami - Sinto muito... - fez uma vénia cordial.
Proprietária (riso alto) - Deixa estar rapariga, acidentes acontecem.
Eric tinha planeado em como chamar a atenção de Ami mas parece que a simpatia foi o passo acertado, tinha-a desarmado por completo. Como o universo parecia estar a dar-lhe uma dica achou por bem continuar o espectáculo de senhor extrovertido. Olhou para o colar e decidiu subir a parada.
Eric - Vou comprar, por favor. - falou com um sorriso.
Ami ficou em choque.
Proprietária (alegre) - Sim senhor! Quer embrulhado ou a sua namorada vai já usar?
Completamente consternada, ia negar a relação não existente mas Eric foi mais rápido e interrompeu-a antes de poder dizer alguma coisa.
Eric - Para usar já, para complementar a beleza da mulher que a vai usar.
Vermelha como um tomate, evitou os olhares das mulheres que com inveja, por Eric estar com alguém como ela, e admiração, porque queriam que os seus namorados fossem assim. Observava as folhas castanhas e amarelas no chão enquanto Eric se deliciava com um espectáculo na primeira fila. Ami ponderou as hipóteses, podiam fugir, podia agarrar naquele maldito fio dourado com uma flor de cerejeira esculpida em ouro e estrangulá-lo mas sabia que isso a ficaria mal vista, com a possibilidade de ser repreendida pela sua querida mãe que tanto mantinha as aparências. Tinha ficado encurralada, a única opção era aceitar o maldito presente.
Ami - Obrigado. - mostrou um sorriso falso.
Virou-se de costas para ele e afastou a trança de Akane. Eric apreciava como as curvas eram escondidas pelo tecido largo, adicionando outra camada de mistério, e reparou em como o cabelo ganhava madeixas muito claras ao sol. Aproveitou a ocasião para roçar os dedos levemente na pele suave da rapariga, aproximando com cuidado do ouvido, para que a próxima provocação ficasse entre os dois.
Eric (murmuro) - Xeque princesa, é a tua vez.
Sabia que a tinha enfurecido, tinha de colocar o jogo em aberto, tinha de a atrair de alguma maneira. O dinheiro não tinha sido problema, Hiroshi gastaria 32 mil ienes numa só noite em Hong Kong, ser discípulo de Li tinha as suas vantagens. Ami suspirou fundo e virou-se repentinamente ficando a centímetros de Eric.
Ami (murmurou) - É melhor ficares acordado, num piscar de olhos deixo-te apenas com os peões.
Eric sorriu maliciosamente. O tom tinha saído um pouco ríspido demais mas ele merecia a sua fúria por a atormentar assim. Miyu fez uma expressão de espanto, a atracção entre os dois era forte, teria de agir rapidamente antes que o idiota do Hiroshi desse cabo de tudo. Correu para pagar as suas compras. Ele aproximava-se às 3 horas. Tirou a sua carteira. Ela acendeu um cigarro. Miyu e Eric estavam já mais distantes porque Ami afastou-se. Apressou-se mas quando saía com o saco na mão já tudo estava arruinado por conta do chinês. Ele era sem dúvida uma abominação, uma maldição que atormentava o casal. Eles trocavam ideias enquanto Ami verificava o seu telemóvel por mensagens. Mostrou o seu sorriso mais simpático.
Miyu (animada) - Não sabia que vinham cá hoje! - olhou com desprezo para Hiroshi - Pensei que era demasiado aborrecido para certos tipos.
Hiroshi - Vim cá apoiar o meu irmão nas suas conquistas, bebé. - deu uma passa no cigarro - Não te leves tanto em consideração.
Miyu respirou fundo e fez gestos dramáticos com Hiroshi a imitá-la. Ignorou o idiota ambulante e focou-se em algo mais importante, a felicidade da sua amiga.
Miyu - E estão apenas de passagem? - afastou o fumo do tabaco.
Hiroshi - Viemos para acompanhar alguém, serviço de guarda costas. - sorriu acabando o cigarro. - Ali, estás a ver? - apontou para a pastelaria.
Miyu via que se tratava de uma mulher chinesa que acompanhava.. Sakura? Ambas pareciam ter saído de um anúncio, eram absolutamente it girls com uma figura magnífica. Meiling cumprimentou Hiroshi e fez sinal de que estava tudo bem. Não conseguia acreditar que a mulher com ar profissional era mesmo a sua amiga, estava tão diferente... E Sakura partilhava a mesma linha de pensamento.
Meiling - Mal consigo acreditar que aquelas duas raparigas aceitaram mesmo ajudar-te!
Sakura - Sim, tive sorte - encolheu os ombros - Quase que só ficava com a Miyu.
Meiling - Deixa-me adivinhar, a loira de vestido hippie é a Miyu.
Sakura fez um tímido sorriso, evitando julgar Ami, e bebeu um gole do café. Gostava da pastelaria com aspecto francês, fazia com que um dia cinzento ganhassem cor com os seus doces coloridos, teria de levar algo para o Kero. Visto que Sakura nada dizia, Meiling rendeu-se.
Meiling - Tenho de as conhecer. - olhou novamente para as barracas e viu que o grupo caminhava na sua direcção - Olha eles vêem aí.
Todos foram cordiais com as jovens adultas e fizeram uma vénia. Meiling levantou-se e tratou de cumprimentar as ajudantes de Sakura que esperava um grande espectáculo de afectos. Abraçou Miyu com vontade e era como se fossem amigas há décadas.
Meiling - Muito prazer em conhecer-te, Miyu! És tão bonita! Tenho a certeza que podia falar com uns contactos aqui se quisesses fazer alguns trabalhos na moda.
Miyu (entusiasmada) - Obrigado! É tão simpática! - riu envergonhada - Mas o meu futuro está a orientar as massas para um futuro sem atentados à moda.
Trocaram as duas risos esganiçados provocando risos dos outros intervenientes. Meiling virou-se para Ami e quando a tocou o seu sorriso desvaneceu para algo socialmente cordial, uma tentativa de não ser rude embora parecesse querer fugir. Ami notou a mudança embora todos os outros a tivessem ignorado ou fingindo não o ver. Sabia que não era o tipo de pessoa a que se fosse atraído, Miyu era a escultura brilhante e ela era o pódio baço que a suportava, nada de novo aí. Era assim com todos os outros e a chinesa que parecia uma modelo não seria diferente. Esforçou-se por ser agradável.
Meiling - Ami, correcto? - mostrou um sorriso fraco - É bom conhecer-te!
Mentira. Conseguia ler Meiling como um livro aberto mas achou que não valia a pena causar confusão por algo tão insignificante, não era vingativa, não lhe trazia nada de bom. Sorriu levemente.
Ami - É bom conhecê-la. - foi séria mas cordial.
Meiling - Óptimo! - parecia constrangida - Vou sentar-me, já tirei bastante do vosso tempo... Divirtam-se.
Despediram-se todos ao mesmo tempo e caminharam em frente, deixando-as às duas na esplanada do café de tons brancos e vermelhos. Assim que pareciam estar as duas suficientemente sozinhas Sakura desatou a rir e Meiling tapou a cara com vergonha.
Sakura (sarcástica) - Agora já sabes porque tive sorte em ficar com a Ami.
Meiling - Ela conseguiu perceber-me logo! Que vergonha! - bebeu o seu café - Fiquei assustada quando a toquei, tem uma magia muito forte... Espero que ela não tenha ficado a pensar que não gostei dela.
Sakura - Não te preocupes, tenho a certeza que ficas bem.
Continuaram a falar sobre os tempos de faculdade e as adaptações ao primeiros trabalhos num tom leve. Sakura não queria discutir a noite de ontem, não precisava de ter mais uma tarde estragada por causa do ego de um homem. O grupo acabou por passar a esplanada da terceira pastelaria de seguida porque Miyu teve um súbito desejo de comer gelado de Ferrero Rocher e acabaram por se dirigir à gelataria, novamente. Miyu e Hiroshi discutiam sobre tudo no que respeitava a Hong Kong e acabavam sempre em pólos opostos. Eric e Ami caminhavam atrás relativamente próximos.
Eric - Vá lá! Tens de me contar alguma coisa sobre ti! - ria divertido.
Sempre que tentava algum tema mais significativo, Ami conseguia sempre desviar o tema da conversa. Ela tentava resistir o máximo que conseguia mas estava a tornar-se difícil, pensavam de forma semelhante, partilhavam a mesma visão de vida, ele conseguia acompanhar as suas indirectas e Ami sabia que era apenas uma fachada do jogo que partilhavam. Mas como uma adolescente hormonal idiota ela não conseguia resistir ao sorriso bonito, ao cabelo loiro rebelde que contrastava com um estilo formal com roupas bem tratadas. E estava a divertir-se.
Ami - Muito bem... E se for uma troca? - a voz saiu um pouco rouca.
Eric quase não se reconhecia, aparentando ser sociável e extrovertido apenas porque permitia que a conversa fluísse. Agora que os dados se tinham invertido não lhe apetecia partilhar informação sobre si. Observou o sorriso de Ami, não o que ela mostrava como conveniência social ou por obrigação, mas o que ela apenas reservava a Miyu, um sorriso honesto e percebeu que valia a pena sacrificar alguma coisa por ele.
Eric - Muito bem... - rendeu-se - Mas eu pergunto primeiro. Cor favorita?
Ami (confusa) - Ah.. Preto.
Eric - Boa escolha, senhorita. Também é a minha cor favorita.
Ela passou a mão trémula pela testa e sorriu envergonhada, notou Eric. Não teve oportunidade de perguntar mais nada pois tinham chegado à gelataria. Assim que entraram, o sorriso que estimava desapareceu por completo e as sua face endureceu como pedra e os olhos mostravam dor. Observou o motivo de uma mudança súbita e viu Yoko e Yu a trocarem afectos de forma muito passional que abrandou assim que Rika se juntou à mesa, vinda da casa de banho.
Hiroshi - Como raios consegues comer tantos doces?
Miyu (revirou os olhos) - Como se te conseguisse explicar...
Ami tentou controlar-se mas sabia que o silêncio tinha-a traído. Esperava que Miyu pedisse depressa para poderem sair daquele lugar mas infelizmente Yoko tinha-as visto e aproximou-se como uma abutre e teve de fazer a sua entrada escandalosa.
Yoko (esganiçada) - Querida! Ainda bem que vieste! Anda sentar-te!
Levou Miyu consigo e arrastou-a para a mesa, fazendo sinal para a empregada levar o pedido até lá. Hiroshi coçou a cabeça e endireitou o seu casaco de cabedal, repensando se valeria a pena sofrer no meio daqueles desgraçados mas por fim acabou por sentar-se nas cadeiras em miniatura. Ami apertou o saco com força, ganhando coragem para enfrentar aquela mesa infernal, respirando fundo mas sendo apanhada por um abraço inesperado que a empurrou contra o corpo de Eric.
Eric (murmurou) - Vamos sair daqui.
Ami foi arrastada para a rua petrificada. A dor que sentia era sua, seria ela a arrastar-se para fora da sua miséria, não precisava de infiltrações de estranhos mas ao mesmo tempo sentia-se grata por não ter de lutar outra batalha. Retribuiu o gesto com um sorriso e livrou-se das garras de Eric, sentando-se num banco de jardim ali perto. Yoko mostrava o desdém num amargo sorriso por a sua provocação ter falhado e tentou focar-se em outras coisas.
Yoko - E o que contas, querida? - falou de forma exagerada.
Miyu tinha sido encurralada mas ao ver as caras de desilusão do casalinho traidor por já não afectarem Ami tinha valido a pena. Rika, que até ao momento tinha estado a ler, olhou pela janela, mostrando-se alegre.
Rika (surpresa) - Não tinhas dito que tínhamos um casal novo! - deu uma palmada leve no braço de Miyu.
Yu quase se engasgou com o gelado que comia e olhou com raiva para Eric e Ami. Yoko puxou-lhe o casaco e tentou agarrar a sua atenção mas Miyu percebeu que ele não se importava muito, que bonito! Virou-se para Rika, que realmente valia um esforço.
Miyu - É uma bonita história de amor predestinado a florescer! A rapariga misteriosa e o misterioso aluno transferido. Um amor de gelo e fogo!
Miyu fazia gestos dramáticos como se apresentasse o conceito de um filme. Rika riu com vontade e as duas tentavam arranjar conceitos melhores. Hiroshi apenas observava as duas raparigas à sua frente, o seu melhor entretenimento nestes dias. Sabia que estava na hora de acompanhar Meiling a casa, protocolo da família Li, e levantou-se da cadeira desconfortável.
Hiroshi - Vocês são doidas. - coçou a cabeça - Até mais!
Miyu seguiu-o rapidamente e deu apenas um leve aceno de despedida, não podia perder a sua saída deste convívio estranho. Yoko mostrou o seu melhor sorriso de concurso de beleza e assim que a porta da gelataria se fechou, virou-se para Rika.
Yoko - Porque é que me fazes isto? - estava à beira de lágrimas - Como podes apoiar aquela?
Rika revirou os olhos e arrumou as suas coisas.
Rika - Sabes que mais, como queiras.
Estava a sair mas foi agarrada no braço com força.
Yoko (baixo) - Estavas no fundo do poço quando te encontrei, sabes que te mando para lá outra vez.
Rika ficou confusa com o tom ameaçador empregado por Yoko. Não queria perder a amizade dela mas pensava de depois de todos estes anos ela a via mais do que apenas uma seguidora. Convencida de que era uma verdadeira amiga, como estava errada. Aparentemente, ainda era apenas mais uma do seu gangue. Desapontada, libertou-se de Yoko e saiu transtornada, olhou para trás uma vez, talvez ela mostrasse algum arrependimento de a tratar assim mas foi brindada com dois amantes numa luta tragicamente idiota. Respirou fundo e tentou não chorar, andava às cegas, bateu em alguém e pediu desculpa sem perceber quem era.
Hiroshi - O que te aconteceu, miúda? - mostrou preocupação.
Rika - Na.. nada. - limpou a cara.
Hiroshi apagou o cigarro e ofereceu o braço para que Rika se apoiasse. Ela aceitou o gesto e caminharam os dois lado a lado. Não se sentia muito bem em deixar alguém como Rika sozinha a chorar, já parecia ter sido amolgada pelo mundo, era cruel não fazer nada. Hiroshi tentou que ela se animasse com algumas piadas mas sem resultado. Miyu, obviamente, apareceu completamente consternada do ar. Meu, que chata... Era sem dúvida a sua tortura. Nem acreditava que ainda tinha de levar com ela durante mais uns meses.
Miyu - Como te atreves! - fez uma pose dramática - Não atormentes a pobre madame!
Hiroshi - Com um garanhão como eu, garanto que ela fica satisfeita. - mostrou um sorriso malicioso.
Miyu fez uma expressão enojada mas Rika desatou a rir. Meiling apareceu finalmente e poderia deixar a loira para trás e ir descansar, tinha uma dor de cabeça do caralho mas tinha de se manter paciente. Aparentemente, ela ainda não tinha acabado a sua socialização.
Meiling (implorava) - Vá lá! Vais ser bem recebida lá em casa! Prometo!
Sakura cruzou os braços com incerteza enquanto era observada por pares de olhos curiosos, todos a forçarem a sua decisão para que pudessem finalmente ir para casa. Acabou por ceder à pressão e acedeu ao pedido de Meiling.
Sakura - Muito bem! Eu vou! - disse derrotada.
Ami despediu-se de todos mas quando chegou a vez de Eric ele abraçou-a com força, o que levou a que ela lhe desse um soco no estômago, dobrando-o a meio. Ami sorriu vingativa enquanto Hiroshi se partia a rir.
Ami - Xeque, idiota. E fica a saber que ninguém me toca sem a minha autorização. - virou-se para os outros - Bom fim de semana.
Miyu (confusa) - Adeus...? - encolheu os ombros e seguiu Ami.
Rika - Foi um prazer conhecê-las - fez uma vénia e seguiu-as.
Conseguiram apanhá-la já quase no fim da praça e perceberam que estava alegre. Rika apenas divertia-se no meio da situação mas Miyu queria uma explicação para o comportamento instável de Ami.
Miyu (exasperada) - O que foi aquilo?
Rika - Se não dermos um bocadinho de luta, que piada tem?
Miyu ficou ainda mais perturbada enquanto as outras duas riam-se com vontade enquanto caminhavam em direcção a casa.
Mansão Li
Sentada no confortável sofá antigo, tinha ficado a par da nova vida de Meiling. Tinha dedicado o seu tempo às mais diversas causas sociais, tinha tirado um curso em diplomacia internacional e para além disso agora tinha um noivo chamado Chun, oriundo de uma família importante chinesa, era um homem bonito, com traços que roçavam o ar andrógeno. A sua amiga garantia que estava feliz mas depois de ouvir algo tantas vezes, a dúvida permanece. Optou pelo silêncio durante o jantar e por fim, acabou sozinha quando a sua amiga atendeu a chamada do seu noivo. O momento pelo qual receava aconteceu quando Li se sentou à sua frente servido daquela bebida forte que odiava.
Li - Se vindo de outra pessoas, não recusas o convite para te servires das minhas coisas.
Sakura sentou-se direita, simplesmente ignorando o comentário frio e cruel.
Li - Hipócrita! - saiu brusco como um rosnar
Encarou-o de forma assertiva. Conseguia ver a amargura que escondia por detrás da beleza amaldiçoada que usava como uma arma, um pensamento que cruzou a sua mente devido ao facto de ter sido apenas uma das milhares mulheres que já tinha usado. Não ia tolerar aquele comportamento, não era uma boneca de trapos. Era uma mulher.
Sakura - Talvez tu é que não percebes o que é próprio. - baixou o tom de voz - Se voltas a estacionar o carro à minha porta, rego-o em gasolina e explodo-o.
Li foi apanhado de surpresa com o tom ácido da mulher que não conseguia esquecer e sentiu-se mal por ter aberto uma guerra na sua busca pelo perdão. Posou o copo e dobrou-se sobre os seus joelhos, mostrando arrependimento.
Li - Peço desculpa, precisava de me afastar desta casa. Precisava de paz.
Sakura refreou a sua raiva percebendo que o desabafo era honesto. Pousou as mãos no colo e repreendeu-se por pensar sequer em ajudar o homem à sua frente mas os seus valores falavam mais alto.
Sakura - Entendo mas para a próxima podias ir para um espaço público e não tirar uma cena cliché de um filme de terror B.
Shaoran deixou escapar um riso cansado e Sakura observou o seu aspecto. Tinha o cabelo revolto e a camisa branca estava amarrotada e suja, muito diferente da imagem do controlado director executivo/galã que tanto teimava em usar como máscara. Certos erros pagavam-se caro e ter uma vida vazia era uma delas.
Shaoran - Sakura... - olhou-a nos olhos - Por favor...
Sakura fez sinal para parar.
Sakura - A não ser que as próximas palavras sejam desculpa eu não o quero ouvir.
Conseguia ver o segundo em que o tinha destroçado e não podia negar que esta pequena vingança lhe adoçava a trágica amargurada que vivia dentro de si. Esta pequena alfinetada era suficiente para si, infelizmente, não conseguia ser cruel mesmo que merecessem.
Sakura (suspirou) - Entende que não quero qualquer relação contigo apenas porque te sentes sozinho ou perdido. Sei muito bem como isso acaba.
Li (desesperado) - Sabes muito bem que não consigo...
Sakura - Pois, eu tenho de mudar, adaptar-me, colocar-me a cada capricho teu... Novidades Shaoran, eu não quero ser o teu capacho! - tentava não chorar - Eu ainda estou a colar os pedaços, o que me fizeste nem sequer acabou de sarar.
Suspirou fundo para se controlar.
Sakura - Eu fui obrigada a crescer pelo caminho mais doloroso possível e recuso a voltar a trás. - levantou-se - Acho que está na altura de fazeres o mesmo.
Pegou na sua bolsa e Li observou enquanto deixava escapar a mulher que amava outra vez. Antes de chegar à porta, Sakura virou-se repentinamente para trás.
Sakura - Deixo-te um conselho, não te escondas por trás das garrafas e fode menos.
A pesada porta de madeira fechou-se com força encerrando a conversa. Pediria desculpa a Meiling por telefone. Não podia negar que tinha valido a pena exorcizar todos os seus demónios.
Continua...
* A Chuva.
~*~ AnGe Lille ~*~
