CCNE - Miss sugar pink liquor, liquor lips
O céu escuro e limpo permitia ver com clareza o espaço onde se encontrava. Pousou num ramo seguro de uma árvore robusta e suspirou cansada e aborrecida. A liberdade já não tinha o mesmo gosto doce de anteriormente e sentia falta dos seus companheiros. O sereno molhava-lhe o cabelo encaracolado e a fatiota peluda amarela que fazia lembrar uma ovelha. Chegou ao seu nariz apurado um cheiro familiar que lhe deu vida e arrebitou-se em direcção à janela aberta para que o calor pudesse escapar oferecendo a porta de entrada que precisava.
Casa Shiwabara
No seu quarto, trabalhava de forma incansável nas revistas internacionais em busca de inspiração para a sua revista ao mesmo tempo que repensava o design das páginas. Era considerado demasiado pelas suas colegas mas Miyu não podia ficar com o seu currículo manchado por se descuidar no secundário. Repensando se não deveria simplesmente prosseguir sozinha e colocar o seu nome em todos os espaços da ficha editorial um grito alto despertou-a dos seus pensamentos.
Sra Shiwabara (alto) - Telefone!
De forma eléctrica, levantou-se da cadeira incrivelmente animada e correu para o piso de baixo quase escorregando com as meias no chão de madeira polido. Tinha quase a certeza de que seria o telefonema mensal do seu pai e mal conseguia conter as lágrimas. Desde que se lembrava, talvez desde os seis anos, o seu pai tinha andado de missão em missão estando quase sempre ausente. Era um médico que trabalhava nos cenários de guerra e Miyu não podia estar mais orgulhosa de tal facto, ele era o seu herói.
Miyu (emocionada) - Olá! Espera um pouco.. - limpou as lágrimas no canto do olho e aclarou a voz - Pronto. Conta tudo!
Sr. Shiwabara (calmo) - Olá querida. Tenho andando a fazer muitos curativos e temos andado por aí, tem estado calmo. Gostava mais de ouvir o que tens a dizer.
Tinha imenso a dizer, gostaria imenso de simplesmente desbobinar tudo. Mas como explicar o bastão mágico, as cartas, a mulher que as ensinava e que os seus pais nem sonhava que existia e as escapadelas à noite em que a sua gota astral cobria a sua ausência como tinha acontecido ainda ontem quando apanharam a carta The Twins*... Uma pontada de culpa atacou a sua consciência e acabou por simplesmente omitir a verdade.
Miyu - Estive muito ocupada com a revista e com o clube. Ainda estive a desenhar algumas roupas que precisava para a nova estação por isso a máquina esteve a trabalhar cá em casa.
Sr. Shiwabara - Miyu, tens tempo para estudar?
Miyu revirou os olhos e suspirou dramaticamente.
Miyu (indignada) - Por favor, não sou o outro membro desta casa.
Sr. Shiwabara - Está bem, vou confiar em ti. E como está a tua amiga? Como é mesmo... Ani? Anne?
Miyu (suspirou) - Pai, o nome dela é Ami e é embaraçoso ainda não saberes o nome dela. - baixou o tom de voz, desanimada - E já sabes quando voltas?
Sabia que não podia pedir algo assim e arrependeu-se assim que o disse mas a distância magoava-a. Parecia que ela estava sempre em segundo lugar, muitos dias era até difícil lembrar-se como é que a cara do seu pai era e isso não era correcto. Não queria ser mesquinha ou uma adolescente revoltada por isso preparou-se para a resposta ensaiada que conhecia desde sempre.
Sr. Shiwabara (sério) - Miyu tenho uma missão. Enquanto existirem pessoas que precisem da minha ajuda, não posso parar. - fez uma pausa - Em princípio farei uma pausa no Inverno, vão vir estagiários da Europa por isso talvez possa ir.
Pois, o famoso estágio europeu que nunca chega... Guardou para si o rancor e mostrou o seu melhor sorriso enquanto notava que a sua mãe não fazia um trabalho tão bom em esconder o que sentia. Evitou a expressão furiosa e cansada que se impregnava nas suas rugas e fitou o chão.
Miyu - Eu percebo. - olhou para o chão - Mas tudo bem. Vou então mandar-te uma cópia da revista quando sair a próxima edição. Até mais! - saiu um tom animado.
O altifalante quase caia no chão e correu para o seu quarto. Não queria ouvir a discussão novamente, da última vez tinha ouvido coisas tão feias que a partiram a meio. Conseguiu fechar a porta enquanto os insultos mais leves ainda decorriam e colocou um álbum de rock na sua aparelhagem e fechou os ficheiros do computador depois de os guardar. Deitou-se no cobertor confortável, acompanhada pela gata da casa que a tentava deitar da cama abaixo, e agarrou o telemóvel frio mandando mensagem a Ami com a esperança que a salvasse.
"SOS. Recarga de Açúcar, amanhã?"
Resposta imediata.
"Yup"
Sorriu e pensou em como tinha sorte em ter Ami como amiga. Ela não fazia perguntas ou exigia uma explicação, prestava ajuda e dava espaço para que pudesse abrir-se e falar quando tivesse vontade. Não sabia o que faria com a sua sanidade se ela não estivesse lá. Deixou a bateria e os acordes metálicos soarem pelo quarto enquanto tentava adormecer com a culpa a roer-lhe por dentro por começar mais uma discussão interminável.
Pastelaria Local
O céu começava a tornar-se mais azul e os raios de sol a expandirem-se com mais força à medida que davam os passos até à pastelaria que conseguiam cheirar à distância. Tinha um aspecto moderno com um edifício branco geométrico, grandes janelas que permitiam ver o espaço interior mas elas dirigiam-se ao beco onde tentariam que a senhora Kayo lhes desse acesso a alguma guloseima antes da abertura. Desde sempre, quando Miyu caia ou fazia uma birra a dona do espaço era gentil o suficiente para a acalmar com um doce e é por isso que estavam cá hoje. Claro que Ami não achava que Miyu precisava de uma pausa porque o seu verniz tinha estalado ou a unha tinha-se partido, só a situação dos seus pais a deitava a baixo e neste momento não conseguia pensar em como a fazer sentir-se melhor. Quase que era atropelada por um pasteleiro com o uniforme sujo e que passava apressado, não era um cenário comum por estas bandas. Viu a senhora Kayo na porta na sua pausa para fumar e decidiu aproximar-se.
Ami - Bom dia, senhora Kayo. O que aconteceu?
Kayo era uma mulher redonda mas com traços masculinos que lhe davam um ar duro. O seu cabelo castanho com caracóis estava escondido no barrete e os braços musculados batiam num ritmo frenético. Os ombros largos estavam caídos com o cansaço e sorriu com cansaço quando as viu. Miyu observou a cozinha profissional metálica que se tinha tornado branca com a quantidade de farinha já usada.
Kayo - Olá miúdas. Nem vos digo o que aconteceu, fizemos tudo direito como sempre mas depois quando os primeiros chefes provaram uma das experiências estava demasiado doce. Experimentamos os outros bolos para ver se tinha sido só esse mas eram todos... Tudo arruinado, tivemos de começar do zero.
Miyu - Que desastre... - mostrou-se compreensiva.
Kayo - Shikata ga nai.*
Ami e Miyu trocaram um olhar em que ambas pareciam desconfiar de isto ser mais do que um acaso do destino mas tentaram não transparecer para o exterior. Kayo estava tão cansada que nem reparou, apagou o seu cigarro. Entrou na pastelaria sem dizer uma palavra. Ambas tinham a certeza de que teria voltado ao trabalho mas quando iam começar a andar a porta das traseira abriu e Kayo voltou vinha com dois sacos de papel na mão.
Kayo - Não é muito mas foi o que escapou.
Cada uma recebeu um saco e quando espreitaram lá para dentro viram que se tratavam de scones de chocolate. Miyu ia tirar a carteira mas a pasteleira impediu-a e recusou o pagamento delicadamente.
Miyu - Tem a certeza? Teve um prejuízo bastante grande hoje.
Kayo - Sim, é um agradecimento pela visita.
As duas fizeram uma vénia respeitosa.
Ami - Obrigado. Desejos de um bom trabalho.
A porta abriu-se com violência e um dos trabalhadores fez sinal para que Kayo entrasse rapidamente. Elas afastaram-se do beco e continuaram a caminhar em direcção ao colégio para um dia de aulas. Miyu deu uma dentada no scone que estava delicioso.
Miyu - Achas que pode ser uma carta?
Ami - Oh, que carta maravilhosa que faz bolos deliciosos! - respondeu com ironia.
Miyu encolheu os ombros com a resposta desbocada da sua amiga, concordando com o seu ponto de vista. Ao saborearem os bolos acabaram por caminhar mais lentamente e perderam a noção das horas, esquecendo-se de que a aula de economia doméstica tinha sido atrasada uma hora e acabaram por correr pela vida até ao último andar. Chegaram quando a senhora Ai estava já a delinear o plano no quadro enquanto explicava em simultâneo. Ela virou-se para as duas atrasadas com falta de ar que estavam sentadas no fundo da sala e fixou o olhar enquanto explicava novamente.
Prof. Ai - Para quem chegou tarde vou repetir o que perderam - arrastou a voz com desdém voltando ao seu tom normal em seguida - Este ano, a nossa turma ficará responsável pelo café para a angariação de fundos...
Ami deixou cair a cabeça com algum desânimo. Já se tinha esquecido de que a feira escolar era por esta altura do ano e não tinha o mínimo interesse em participar e ficar encalhada num grupo que simplesmente a ia ignorar num fim de semana muito comprido. Os professores acabavam por escolher os grupos de forma a forçarem o convívio entre todos e promover a união mas acabava por nunca resultar. Deixou cair a cabeça na mesa enquanto Eric sorriu levemente com a sua frustração.
Prof Ai - Não se esqueçam de que é de extrema importância mostrar o espírito académico para a comunidade e conseguir angariar fundos para a nossa escola. Este ano os grupos serão à vossa escolha, no mínimo de três pessoas...
Miyu percebeu que as novas transferências iam ser uma escolha óbvia para as solteiras desesperadas da sua turma por isso tinha de agir rapidamente. Distância: A alguns passos, Inimigos: Localizados, Potencial sucesso: Garantido. Conhecia o discurso da professora de cor e assim que soube que estava acabado saltou da sua cadeira e colocou-se à frente dos dois rapazes que se assustaram com o soquete que Miyu largou na mesa.
Miyu - Eu, Ami, vocês os dois, grupo. Capisce?
Hiroshi - Está bem, croma... Podes relaxar? - afastou a mão de Miyu.
Miyu sorriu satisfeita com os olhares desapontados das suas colegas sabendo que a missão de manter Eric a salvo das garras das interesseiras tinha sido bem sucedida. A sua professora ia fazer um discurso para repreender o comportamento errático da jovem mas achou que não valia a pena perder tempo com algo tão pequeno. Aproximaram as cadeiras de Ami, que não fazia intenção de se levantar, e abriram os seus cadernos para apontarem as ideias para a primeira fase de planeamento do café, escolher os melhores bolos para vender.
Prof. Ai - Peço desculpa, alguém ficou sem grupo. Importam-se que se junte a vós?
Miyu ia já lançar um olhar demoníaco à magrela que se atrevia a usar uma táctica tão baixa mas quando se virou viu que se tratava de Rika. Mostrou-se confusa e olhou para os restantes membros do seu grupo. Ninguém parecia aborrecido por isso decidiu autonomear-se a porta voz do seu grupo o que fez com que Hiroshi revirasse os olhos aborrecido.
Miyu - Claro, não nos importamos. - mostrou um sorriso.
Saltou da sua cadeira com felicidade e decidiu colocar a cadeira para Rika junto de Ami que desenhava rabiscos no seu caderno. Enquanto Rika colocava as suas coisas na mesa, Miyu distribuía a sua atenção entre a sua amiga desanimada e a mesa de Yoko tentando encaixar as peças do puzzle mas Hiroshi acabou por se intrometer, comprometendo a sua missão.
Hiroshi - É, eu sei... Cozinhar bolos é daquelas coisas na vida que alguém nunca deveria ver...
Rika encolheu os ombros, a piada tinha sido um fracasso. Agora todos em silêncio observavam a rapariga o que a tornou mais nervosa ao ponto de tremer e deixar cair a caneta duas vezes. Ami prestou-lhe socorro para que deixasse de ser o centro das atenções, nada era pior do que ser forçado a falar de alguma coisa.
Ami - Que maravilha! Estão todos já prontos a cozinhar! - deu palmas leves - Para quê planear as receitas! O trio maravilha virá para o acudir nos momentos de aflição! - sorriu maliciosamente.
Foi acompanhada pelo chinês que brincava com o isqueiro.
Hiroshi - Portanto, ligue já e aproveite a oferta de duas refeições pelo preço de uma!
Ami cedeu a finalização e ambos trocaram um cumprimento com o punho. Começaram então a trabalhar e pensar no que queriam servir no café mas a atenção de Eric virou-se para o colar dourado que Ami trazia com ela e como brincava com o fio de forma descontraída, não conseguindo evitar um sentimento forte de posse, como se ela fosse sua.
Aeroporto Internacional de Tókio
Percorrendo os luxuosos corredores da zona de recepção, aperceberam-se que tinham finalmente chegado a Tomoeda. A cidade em que se tinham conhecido trazia sempre doces recordações a Tomoyo e Eriol. Tomoyo era uma elegante e esbelta senhora que tinham ainda o seu cabelo longo preso por uma trança, vestida com um vestido inspirado no Japão, parte da sua colecção. O seu rosto delicado mostrava uma beleza clássica que era observada pelo seu marido. Eriol vestia-se como um gentleman inglês, com um cabelo negro curto puxado para trás que mostrava os seus belos traços masculinos complementados por um sorriso. Com uma postura correcta e alguma elegância trazia consigo a sua pasta de trabalho. Tomoyo viu Sakura que trazia o vestido longo que lhe tinha oferecido e correu para a abraçar com força, fazendo com que quase caíssem as duas no chão.
Tomoyo - Nem acredito! - largou o abraço - Estou tão feliz por estar aqui amiga! - falou mais calma e com carinho.
Sakura - Eu sei! Também mal consigo acreditar! - saltou com entusiasmo.
Observou Eriol e apressou-se a cumprimentá-lo.
Sakura - Olá, Eriol. Ainda bem que vieram. - sorriu.
O inglês retribuiu o sorriso.
Eriol - Fico contente por estar cá. É uma pena que não possa descansar um pouco, infelizmente, o meu trabalho não o permite.
Conhecido por as suas teses de psicologia, Eriol era bastante reconhecido pelos seus livros acessíveis para as massas e ainda tinha de cumprir o prazo para acabar o manuscrito. Tomoyo depositou um beijo na face do marido e pousou a mão no ombro, tentando tranquilizá-lo. Eriol retribuiu o gesto com um afago suave na mão da esposa.
Eriol - Se ao menos o meu editor fosse assim tão compreensivo.. - vislumbrou-se algum cansaço no olhar.
Sakura apenas admirava a relação sólida dos dois enquanto procuravam o seu carro, tinha se oferecido para lhes dar boleia para o apartamento onde ficariam nestes meses. Eriol optou por seguir no banco traseiro conseguindo assim adiantar algum trabalho enquanto as duas amigas de infância conversavam um pouco pelas estradas repletas de trânsito no coração da capital.
Tomoyo - Estou em polvorosa para conhecer as tuas meninas. Quem diria que teríamos outra competição?
Sakura - Sim, acho que fomos todos apanhados de surpresa. - engoliu a seco.
Viu a dor nos olhos verdes da sua amiga e arrependeu-se de ter abordado o assunto de forma tão leviana.
Tomoyo - Oh, querida, desculpa! - disse de voz baixa - Nem pensei como deve ser doloroso para ti.
Focada na estrada, Sakura mostrou um sorriso contido e encolheu os ombros. Nesta altura tinha conseguido avançar e estava muito adaptada à sua nova vida sem magia. Ou pelo menos tentaria que acreditassem nisso. Não queria ser o centro das atenções neste momento.
Sakura - Não te desculpes, é sem dúvida emocionante. - sorriu - Tenho a certeza que vais gostar de conhecê-las, são um mimo.
Sakura pareceu ter visto Eriol a olhar para si no espelho retrovisor mas não conseguiu ter a certeza. Tomoyo mostrou-se animada com a possibilidade de poder desenhar novos uniformes para as mais recentes caçadoras de cartas.
Tomoyo - Mal posso esperar para me dedicar à costura! - os seus olhos brilhavam com animação - A Meiling disse coisas óptimas sobre elas. O Eriol também faz questão de as conhecer por isso quem sabe um dia não as trazes aqui?
Intrigada com a declaração, preferiu guardar os seus pensamentos para si. Não queria alarmar-se ainda... Talvez Eriol apenas tivesse curiosidade em conhecer novos potenciais magos e as informasse da sociedade a que pertencia que regulava todos os utilizadores de magia e afins, o Conclave. Acabou por contar o episódio do dia anterior na mansão dos Li e acabou por encontrar uma Tomoyo incrédula no fim de uma viagem mais curta do que antecipada. Com o carro estacionado em segurança, subiram até ao luxuoso apartamento moderno totalmente mobilado e no instante que pousaram as malas a campainha tocou. Eram os Li que vinham receber o casal. Meiling passou a correr pela porta para cumprimentar Tomoyo mas Shaoran foi mais contido e com um leve abraço recebeu o inglês.
Shaoran - Bem vindo. Espero que não te importes que traga uma prenda de boas vindas.
Entregou a garrafa de Cabernet Sauvignon ao recém chegado que mostrou-se satisfeito.
Eriol - Com prendas destas, és sempre bem vindo descendente.
Caminharam lentamente para a cozinha para estrear o vinho e Sakura seguiu atentamente. Li parecia estar muito mais lúcido, vestido de forma descontraída, mostrando-se até alegre na troca de impressões sobre o Japão. Ficou a pensar se ele teria tido em conta as suas palavras e foi acordada dos seus pensamentos com as duas mulheres ao seu lado a soltarem gritos muito agudos.
Tomoyo - Não posso! Não me tinhas contado nada! - fingiu estar amuada.
Meiling - É muito recente...
Tomoyo - Muitos parabéns! - abraçou Meiling outra vez - Nem acredito que já estás comprometida! Shaoran, não nos tinhas contado da novidade.
Os dois homens aproximaram-se das mulheres em celebração.
Shaoran - Ela matava-me se eu contasse. - ofereceu um copo a Sakura - Devias experimentar, é altamente recomendado.
Aceitou relutante mesmo sabendo que se tratava de uma oferta sincera tocando sem querer na mão de Li. Sentiu-se tentada a recuar aos dias que ambos eram mais íntimos do que um simples cumprimento tímido mas sabia que tinha de se manter firme. Sakura mal conseguia imaginar que ao admirar a beleza da mulher à sua frente, Li sentia-se como um adolescente inseguro e em seguida a culpa tomava conta de si por não ter conseguido agir como o adulto. Arrependia-se sempre dos seus actos mas sem nunca conseguir parar, as palavras atiradas contra si tinham feito todo sentido e era um acto de justiça, de certa forma.
Sakura - Obrigado. - sorriu levemente.
Como sempre, ela conseguia sempre sair de forma harmoniosa. Provaram os dois o líquido adocicado conseguindo concordar que era muito agradável. Sentaram-se todos finalmente e após o diálogo longo entre Meiling e Tomoyo sobre todos os detalhes do noivado, a conversa virou-se novamente para as duas raparigas guiadas por Sakura.
Tomoyo - Vá lá! Podem vir cá jantar, tenho a certeza que vão adorar! - insistiu novamente - O Eriol é um excelente cozinheiro.
Shaoran maliciosamente aproveitando o dilema em que Sakura estava metida.
Meiling - Deixei agora mensagem com a direcção aos rapazes. Tenho a certeza de que vêem cá ter. - pousou o telemóvel na mesa.
Tomoyo - Vai ser um convívio calmo, tenho a certeza. - pareceu esperançosa.
Shaoran - Controlarei os meus discípulos, se é isso que te preocupa.
Neste momento, queria muito atirar com o copo de vinho vazio à cabeça de Li. Sabia muito bem que os pais das raparigas não sabiam da sua existência e muito menos de que a ajudavam a capturar as cartas. Completamente encurralada, acabou por deixar uma mensagem a Miyu e esperar que elas resolvessem a situação por si. Já pedia demasiado das duas e tinham algum nervosismo com a insistência de Eriol em conhecê-las. Desculpou-se para ligar-lhes e foi até a varanda ficando sozinha com a vista para a cidade barulhenta. Fechou os olhos e respirou fundo, abrindo os olhos para ver Shaoran ao seu lado.
Shaoran - O teu nervosismo sente-se a quilómetros de distância. - cruzou os braços - Não estás a esforçar-te o suficiente.
Sakura dobrou-se sobre a varanda e olhou para baixo.
Shaoran - Não deve ser nada. - tentou soar confiante.
Olhou-o nos olhos e viu que nenhum dos dois acreditava na mentira dita por Li. Tinham-se passado três anos mas os dois lembravam-se perfeitamente da última vez que Eriol tinha feito tanta urgência de tratar de algo a sentença de que Sakura ia perder as suas cartas foi largada como uma execução. Nada de bom podia advir desta posição e ela sentia isso com a réstia de magia que ainda se agarrava no seu corpo. Olhos olhos castanhos nos qual procurava algum conforto mórbido apenas confirmavam as suas suspeitas, nenhum dos dois estava feliz com a exigência. Num acto de tentarem falar sem serem ouvidos, viraram-se para a vista, afastando-se da visão da sala.
Sakura - Não consigo vê-las sofrer. - confessou angustiada.
Shaoran - Ambos tememos o mesmo. - suspirou - O Eric e o Hiroshi já sofreram o suficiente.
Sakura - Este Conclave é simplesmente inútil. Uma bola de cristal servia perfeitamente no lugar deles. - soltou um riso desesperado.
Shaoran passou a mão pelo cabelo e reconhecia o veneno nas palavras que ouvia hoje em dia, reavivando a memória em que a mulher que amava começou a perder-se na depressão que lhe roubou tudo o que podia ter sido. Conseguia ver pela visão periférica como agarrava as lágrimas e impedia que caíssem.
Shaoran (sussurro) - Vamos conseguir protegê-los.
Sakura (sussurro) - Mesmo contra o Conclave?
Shaoran (sussurro) - Não tenho medo de homens de robe. E tu?
Sakura olhou para Li que mostrava o sorriso desafiador que neste momento a agradava. Retribuiu o sorriso e o seu telemóvel tocou, encerrando a conversa. Era Miyu que ligava.
Miyu - Não te preocupes! Nós vamos ahhh...!
Sakura conseguia ouvir algo metálico a cair no chão e Ami a resmungar qualquer coisa imperceptível.
Sakura - Está tudo bem, não precisavas de ter ligado bastava teres mandado uma mensagem.
Miyu - Estamos a trabalhar para a feira, não há problema. O Hiroshi deixou cair os talheres quando abriu a gaveta. -ouviu um murmúrio - Mas vamos aparecer, conta connosco!
Sakura - Está bem, vou confirmar. Até logo, então.
Miyu - Addeeeus! - disse numa voz melodiosa
Assim que terminou a chamada foram chamados para observar as fotografias da nova colecção de Tomoyo, aumentando ainda mais o nervosismo de Sakura, que apenas contava os minutos incessantemente.
Escola Secundária de Tomoeda - Sala de culinária.
Prof. Ai - Portanto espero que este aviso seja suficiente. - mostrava frustração - Agora por favor voltem ao trabalho.
Miyu guardou o seu telemóvel no bolso e amaldiçoou a sua sorte. Mal tinha passado tempo perto do seu grupo, o que tinha dado tempo suficiente para enlouquecer com as indirectas fracas e rudes de Hiroshi e animado Rika ao mesmo tempo. Teria de ser incrivelmente criativa com esta nova desculpa e tentava arrumar os talheres ao mesmo tempo que pensava em algo. Conseguia ver Ami e Eric que tinham sido encarregados de preparar a massa de todos os bolos, a sua solução malévola para que tivessem de passar o dia todo juntos. Uma verdadeira mestre do romance! Não havia nada que uma pitada de açúcar não resolvesse.
Ami - Roxo. Odeio Roxo. - respondeu focado em bater a massa - E tu?
Eric - Azul. - confessou por fim.
Ami olhou com espanto para o loiro com a cara marcada de farinha.
Ami - Azul? Como é que alguém pode detestar a cor azul? - perguntou incrédula.
Eric - É um mundo muito triste. - confessou fingindo tristeza - Uma dor inimaginável.
Sorriu cansada, o corpo começava a ressentir-se desta horrível distribuição de tarefas imposta. Tinham passado o tempo os dois entre seguir a receita e continuarem o jogo em que tentavam saber mais sobre o outro com perguntas aleatórias. Tinha de confessar que se tinha divertido à medida que Eric deixava de estar tão fechado e passava a ser mais honesto, e como consequência, também ela acabava por se abrir mais tornado a conversa mais fluída. Teve de admitir que até esperava que durasse mais um pouco e ficou desiludida assim que a última massa estava pronta para ir ao forno.
Ami - Vou à casa de banho num instante, já volto. - anunciou ao grupo.
Saiu sentindo-se cansada mas feliz. Saiu do cubículo e limpou a cara com água apanhando um susto ao ver Yoko a observá-la silenciosamente no canto da casa de banho. Sabia muito bem o que a esperava e neste momento precisava de conservar a energia para o resto do dia, visto que Miyu achou engraçado arranjar-lhe um compromisso para hoje à noite. Virou-se para a encarar e cruzou os braços.
Ami - Não tens nada melhor do que assombrar a casa de banho? - foi rude propositadamente.
Yoko - Não sei, gaijin. Tenho? - tentou soar inocente.
Claro que falhou, sabia muito bem que a imagem de menina perfeita colegial apenas mostrava o seu lado mais feio e hipócrita que Ami conseguiu ver desde o primeiro dia em que a viu. Usaria o mesmo truque vezes sem conta, o seu patético namorado traidor.
Yoko - Estou apenas a ajudar-te, Ami. - fez um tom de preocupação falso - Antes que fiques partida em mil pedacinhos com um desgosto amoroso. O Eric só te vai usar, deverias ficar com o Jun. No fundo sabes que foram feitos um para o outro.
Sádica, Yoko apontava como o seu potencial candidato o rapaz magrinho e com a cara marcada pela acne que se focava nos estudos acima de tudo e era um génio brilhante. Mas na sua mente limitada, Yoko apenas via que ele não se adequava aos seus padrões de beleza e por isso era perfeito para a rapariga que odiava.
Yoko - Não era um casamento feliz mas pelo menos nunca te faltaria nada!
Yoko soltou um suspiro e Ami revirou os olhos à infantilidade.
Ami - Acho que estás a confundir-me contigo. Não preciso que um homem me sustente.
Visto que não funcionava, Yoko tentou uma abordagem mais agressiva.
Yoko - Tudo bem, não queres o meu conselho é problema teu. Posso dizer-te que o teu namorado fica muito melhor comigo, aliás, ele nunca foi teu mas sabes disso não sabes? Ele tinha nojo em dar-te a mão, aguentou apenas aturar-te porque eras um meio para chegar a mim.
Tentou manter a atitude desafiadora mas o cansaço começava a quebrá-la. Insegura desde sempre, a traição de Yu tinha sido descarada e humilhante. Sentiu vergonha e repulsa de si mesmo por não conseguir manter o único rapaz que sequer pensava em ser vista com ela. Repensou em tudo o que tinha feito, tentar perceber onde tinha falhado mas ao vê-los em público percebeu que o seu único erro tinha sido ser cega. Yu nunca tinha gostado de si e tinha sido usada. E odiava-se ainda mais por ser esse tipo de rapariga que fica deprimida com um romance falhado e mergulhou numa espiral de raiva e depressão. Alguns dias eram melhor do que outros e infelizmente hoje era um dos que não tinha forças para ser forte. Começou a andar para fora da casa de banho tentando com que Yoko não a visse a chorar.
Yoko - Onde vais, tolinha nojenta? - falava com maldade e crueldade.
Conseguiu apressar o passo e quando virou o corredor para voltar para a sala embarrou em alguém e pelo perfume que emanava sabia exactamente quem era. Limpou os olhos turvos enquanto Yoko tentava recompor-se para a menina perfeita que aparentava ser.
Yoko - Eric! - estava derretida.
Eric aproximou-se até ficar a centímetros de Yoko que ficou corada com a audácia do que pensava ser um novo pretendente. A sua expressão calma e fria não o mostrava e os movimentos lentos controlavam a sua raiva mas a sua voz forte e gutural mostrou o seu ponto de vista, mesmo num tom quase inaudível.
Eric - Eu esfolava-te, obrigava-te a sobreviveres a isso e pendurava-te de cabeça para baixo para morreres de sede e fome. Muito lentamente... De forma dolorosa... É o que eu fazia com uma cabra como tu. Se me chega um murmúrio sequer de que algo como isto acontece outra vez, esse é o destino que te espera.
Yoko tremia em terror e choque. Tentou dar um passo para o lado mas o corpo enorme de Eric tapou-lhe a saída. Levantou-lhe o queixo para que ela o olhasse nos olhos.
Eric - Preciso que dês sinal que percebeste.
Yoko - Si-i-i-m. - abanou a cabeça com força.
Largou o queixo da rapariga lentamente e passou-lhe a mão no ombro de forma predatória.
Eric - E nem uma palavra disto ou nunca mais serás vista.
Afastou-se por fim e deixou que ela caminhasse desnorteada pelo corredor. Ami ouvia tudo enquanto limpava as lágrimas que escorriam pela cara e assim que Yoko passou virou-se para trás, encarando Eric com os lábios trémulos e a chorar convulsivamente. Deixou-se ser abraçada por ele e tentou respirar fundo.
Ami - Não po-podes salvar-me mais. - estava rouca e desanimada.
Eric - Para a próxima salvas-me tu. - levantou a cara dela levemente - Pode ser?
Ami abanou a cabeça afirmativamente e esboçou um sorriso.
Ami - Já agora, bela cena explícita. - começou a andar pelo corredor - Já pensaste em escrever policiais?
Eric - Eu acho que o meu verdadeiro talento é a escultura.
Ami - Faz sentido.
Entraram na sala e arrumaram as coisas rapidamente, após a professora assegurar que trataria da cozedura dos bolos e relembrando para deixarem os cronómetros a funcionar. Assim que todos os alunos deixaram a sala vazia e assim que a professora Ai se ausentou por alguns minutos a figura pequena de cabelos encaracolados, que tinha voado durante muito tempo até encontrar o paraíso, entrou pela janela e deu o seus toques finais nos bolos. Agora sim ficariam perfeitos. Ami tentava pensar numa boa desculpa para apresentar-se a um jantar cheio de desconhecidos sem os seus pais imaginarem o que ia fazer, Miyu parou repentinamente ao seu lado.
Miyu - Esperem! Esqueci-me da caneta!
Ami revirou os olhos e suspirou fundo.
Ami - Vão andando, depois vamos lá ter.
Não esperou pela resposta e apressou-se a seguir a loira que corria de forma desengonçada de forma a evitar que a sua super mini-saia ficasse no sítio. Esperou pela entrada de rompante que ela faria na sala mas ao não ouvir os gritos da professora, Ami começou a suspeitar da demora. Viu-a parada na porta, completamente estupefacta, como se estivesse a sofrer de alucinações. Aproximou-se devagar e quando olhou pelo vidro percebeu que se tratava de um ser pequeno mágico a flutuar. Tinha de ser uma carta! Abriu a porta com força e impôs a sua presença na sala.
Miyu - Estás doida!? - fechou a porta depois de entrar - Ela vai fugir!
Ami tinha invocado o bastão e preparava uma estratégia para apanhar a criatura mas sua surpresa não teve de se esforçar. Ela reparou em Ami, saltou de alegria e sorridente transformou-se novamente em carta, pousando na sua mão. Miyu aproximou-se de queixo caído e teve de esfregar os olhos para cair em si. Acidentalmente, deixou cair um doo seus pins da sua série favorita, Pretty Little Liars que adornava o seu uniforme e observou Ami que caminhou para a mesa onde tinham trabalhado anteriormente, agarrou a caneta e escreveu os nomes na carta The Sweet.**
Ami - Feito. Vamos embora.
Miyu - Espera... - agarrou a caneta que lhe tinha sido devolvida - Não achas que foi estranho? Quer dizer... Tivemos tanto trabalho com as outras?
Ami riu com escárnio.
Ami - Desde quando tu ficas desconfiada de alguma coisa mágica?
Miyu cruzou os braços e mordeu os lábios como recepção à ofensa. Não teve opção que seguir a sua amiga pelos corredores para chegarem a tempo ao jantar. Lembrou-se subitamente de ligar a justificar as suas prolongadas ausência e isso deu tempo a Ami para repensar o sucedido. Toda a situação tinha criado um mal estar generalizado, um aperto no peito que lhe criava um peso desconfortável. Apanharam os rapazes que tinham esperado com o seu motorista, um velhote de aspecto simpático chamado Wei que os levaria ao apartamento onde decorreria o jantar. Ficaram um pouco mais para trás e Ami pediu a Miyu para esperar um pouco, agarrando levemente no seu braço.
Ami - Acho que tinhas ra..
A porta abriu-se cortando a oportunidade que teria para desabafar e um homem alto de óculos e aspecto jovem apareceu para os receber.
Eriol - Bem vindos. Estávamos à vossa espera.
Um sorriso apareceu no rosto do adulto e enquanto Miyu ficou encantada pelas boas maneiras e o ligeiro sotaque, a Ami apenas agravou o seu mau pressentimento, como se aquele sorriso guardasse mais do que apenas uma leve cortesia.
Continua no próximo capítulo.
*The Twins - Os Gêmeos
** The Sweet - Doce
*Shigata ga nai - O equivalente a "é a vida" em português. Os Japoneses tendem a não se enervar ou irritar ao enfrentarem situações desagradáveis para eles. Por exemplo, quando alguém ultrapassa-os na fila, eles simplesmente pensam "Shigata na gai", ou é a vida, e simplesmente tentam ignorar.
É a sua mentalidade. Uma simples busca no Google pode ajudar, se quiserem saber mais.
~*~ AnGe Lille ~*~
