Destinos que se cruzam

Capítulo 2

Na varanda de seu aposento localizado na ala leste do Palácio Valhala, Shura contemplava o luar que magnificamente se insinuava por entre as densas e escuras nuvens. Por mais que tivesse tentado, não havia conseguido dormir e a sua insônia repentina certamente o estava incomodando.

Saiu da parte externa e voltou ao seu quarto, enquanto passava a mão nos cabelos castanhos, a fim de enxugar as gotículas de água oriundas do vento noturno. Nesse momento, seus olhos puderam avistar por entre as luzes que ultrapassavam as frestas da porta, uma sombra se movimentar rapidamente.

Seguindo um instinto que nem ele mesmo pôde identificar, abriu a porta e ao se virar, viu alguém completamente coberto por um capuz negro desaparecer ao final do corredor. Talvez o cavaleiro não fizesse menção de seguir o estranho, mas alguns fios de cabelos acinzentados que saiam do negro capuz fizeram com que o cavaleiro de Capricórnio mudasse de idéia rapidamente.

- Hilda?

...x...x...x...

Hilda POV

Acordei-me com o gralhar de uma coruja próxima à janela de meu quarto. Sentei na borda da cama, ainda sentindo dores em meu corpo, como se eu tivesse sido submetida a uma sessão de tortura medieval. Na boca, um gosto amargo proveniente dos vários remédios que me deram para cessar a febre. Sentia-me fraca, mas estranhamente assustada. Sim, assustada. Apesar de que sonhos nunca me elevassem ao medo, eu sentia naquele momento, um medo crucial, misturada ao meu misticismo de que sonhar com seres lendários sempre significava um mau agouro.

Levantei-me decidida. Tinha que interceder a Ele!

Com cuidado, vesti uma capa negra e sem levar a tocha que já crepitava fracamente, sai do meu quarto em direção ao estábulo do Palácio. Lá, vi os cinco cavalos puros-sangues que relinchavam de uma forma que eu compreendi que fosse um pedido feito por cada um daqueles animais, para que eu escolhesse bem. E creio que escolhi bem. O cavalo negro, o mesmo da época sombria... O mesmo que percorreu comigo os vales que separavam o Castelo do Ponto Zero.

Retirei o animal do estábulo com uma extremada cautela, olhando para todos os lados a fim de verificar que não existia nenhum guarda que pudesse me interceptar. E a galopes rápidos, sai do Palácio de Valhala em direção ao local onde apesar de todos os perigos que representava, me fazia sentir a criatura mais bem acolhida pelos potentes braços do senhor absoluto de Asgard.

...x...x...x...

Como era de se esperar, a ventania parecia que iria remover os céus e as terras daquela região. Entretanto, o corcel negro que guiava Hilda até seu destino era ainda mais feroz e aos poucos conseguia vencer os obstáculos naturais, até finalmente chegar às escarpas rochosas.

Mantendo uma distância considerável, Shura acompanhava todos os passos da sacerdotisa. Considerava estranha a tamanha dedicação da mulher que ainda bastante enfraquecida, enfrentava com bravura o clima hostil daquelas paragens para ir orar ao deus padroeiro de seu país. Com cuidado, o cavaleiro desceu do cavalo que montava e se protegeu por detrás de alguns arbustos a fim de simplesmente, observa-la. Entretanto, um outro fato que se sucedia bem mais próximo a ele, chamou a sua atenção.

Sons de passos foram percebidos pelo espanhol, em meio a vegetação rasteira do limite da floresta. Ao dirigir o olhar em direção ao som, Shura percebeu que uma sombra se locomovia para o coração da floresta. Pensou em correr atrás do obscuro personagem, mas percebeu – de certo modo assustado – que Hilda corria perigo.

- As escarpas...!

...x...x...x...

- Droga de dor de estômago infeliz!

Miro amaldiçoava continuamente seu estômago enquanto saia do quarto em direção – pelo menos ele imaginava que era - às alas serviçais do Palácio de Valhalla.

- Por que foi que eu inventei de comer aquele leitão ao vinho! Bom, espero que exista pelo menos um pacote de sal de frutas por aqui... Ah! Graças aos deuses... A cozinha!

Ao entrar no cômodo, o cavaleiro deu de cara com um homem encapuzado que fechava com cuidado, a porta que dava acesso ao pátio externo do Palácio.

- Guten Morgen? – Miro indagou utilizando-se do escasso alemão que possuía.

O estranho virou-se rapidamente, revelando-se ser...

- Frey? O que está fazendo aqui?

O nobre deixou cair a capa negra que cobria o rosto assustado, mas deteve-se ao cuidado de não deixar que certo objeto que trazia em uma das mãos fosse revelado.

- Eu é que pergunto o que o senhor faz aqui há essas horas?

- Atrás de um sal de frutas. – Miro respondeu, enquanto massageava a área que compreendia o estômago. – Você tem?

- Não sei do que fala senhor Miro. Acaso não está se sentindo bem?

- É... Sabe, eu comi demais e... Hei! Está sangrando!

Frey baixa os olhos e vê que sua mão estava ensangüentada. Amaldiçoou-se por ter permitido que tamanho desleixo tivesse acontecido.

- Não se preocupe. Quando desci do cavalo me descuidei e minha mão foi ferida pela sela. Nada que uma boa infusão de ervas não resolva. E quanto a sua dor de estômago, aconselho que beba leite de alce fêmea.

Assim, Frey se retira da cozinha, deixando Miro bastante pensativo em relação a atitude tão confusa que o irmão de Freiya demonstrou. Entretanto, o principal fator de suas indagações era...

- Alce não é aquele bicho galhudo...? – e arregalando os olhos, arremata. – Deus que me livre! Prefiro a dor de estômago!

...x...x...x...

Ajoelhou-se e o peso de seu corpo foi amortecido pela neve que se estendia por toda a superfície rochosa. Sem demora uniu as palmas das mãos e acendendo seu cosmos, elevou uma fervorosa oração ao deus viking. Mal abrira os lábios em voz de prece, Hilda sentiu seu ombro ser tocado. Havia mais alguém ali.

- Senhor...!

Shura a puxou firmemente pelo braço, para no segundo seguinte, pular com ela da rocha que começava a se separar do paredão principal.

- O que está acontecendo!

Corra. Corra! Shura pensava enquanto tentava vencer a distancia que os separava da do abismo. Entretanto, percebeu que não era apenas o local onde Hilda meditava que estava fissurado: todo o percurso feito de rochas que os levaria até a estrada estavam completamente trincados por algo que Shura deduziu ser tanto ou mais afiado que a mitológica espada excalibur.

- Apenas corra!

Como em uma fila de dominós estrategicamente montados, o braço de rochas onde marcava o ponto zero do reino de Asgard, começou a desmoronar gradualmente. O casal estava prestes a cair no revolto mar. Shura ia à frente e Hilda um pouco atrás, graças ao longo vestido que dificultava a sua corrida.

"O que estava acontecendo afinal de contas!" – Hilda indagou-se mentalmente. Nesse exato instante, seus pés tropeçaram na barra do vestido, a fazendo cair. O cavaleiro percebeu que se continuasse com aquele ritmo "lento", com certeza o fim deles seria algo bastante real.

Então, Shura segurou a outra mão de Hilda para impulsionar o corpo da sarcedotisa do chão e rapidamente, sua mão direita deslizou pelas costas da jovem, chegando a cintura, fazendo com que ele tivesse condições de toma-la em seus braços. Agora livre do empecilho de correr mais rápido, Capricórnio olhou apenas para frente e pediu mentalmente aos deuses que não fosse acometido por câimbras por conta dos pés descalços na neve.

A distância que os separava da queda dos rochedos não era maior que dois metros. Entretanto, a passos rápidos do cavaleiro foram mais eficazes que o efeito físico da gravidade e finalmente, eles se viram livres do desastre e seguros na área mais próxima a estrada de pedregulhos que levava ao castelo de Valhala.

Cansado pela corrida que fez, Shura respirava pesadamente. Porém, sua respiração ficou mais pesada ao sentir que outra respiração batia em seu rosto e ao ver que em seus braços, Hilda o encarava com os olhos arregalados.

- Senhorita...

- Eu estou bem... – ela respondeu antes mesmo que Shura pudesse dizer mais alguma coisa. – Só estou um pouco... Assustada.

- Compreendo. Eu também estou assustado. – Shura respondeu, enquanto pousava o corpo de Hilda delicadamente no chão. Somente nesse momento foi que percebeu que estava usando apenas uma calça de moletom preta e uma ínfima camiseta regata branca. E pior: Hilda o encarava dos pés a cabeça.

- Não é nada disso que a senhorita está pensando!

- O quê? – ela indagou, enquanto puxava o manto negro contra seu corpo, escondendo assim a longa camisola azul-clara que usava.

Voltaram a se encarar e ambos ficaram avermelhados pela situação que era no mínimo, constrangedora.

- Eu não pensei em nada a respeito do senhor... Bem, quer dizer, eu pensei sim... Bom, isso não importa agora, não é mesmo? – ela tentou disfarçar, enquanto dirigia seu olhar para o rochedo que agora, jazia no mar gelado de Asgard.

- Sim, realmente não importa... – Shura balbuciou, enquanto seus olhos não saiam da visualização do corpo esguio da jovem que instigantemente era revelado pela brisa que afastava o capuz e deixava a mostra o tecido fino da camisola que usava.

- Eu não consigo compreender...

- Nem eu...

- Então compartilha do mesmo pensamento que o meu?

Foi nesse momento que Shura percebeu que estava pensando besteiras demais.

- Pensamento...?

- Sim. As escarpas são formadas por rochas cristalinas. Portanto, não poderiam entrar em estado de erosão com tanta facilidade. Ainda tem o fato de...

- A estrada rochosa na qual a senhorita se encontrava caiu sob a forma de um dominó. – Shura analisou sério, enquanto pensava no motivo que o levou a correr feito um louco e retirar Hilda daquele lugar: as rochas haviam sido retalhadas, como se uma poderosa espada as tivessem fatiado. Uma armadilha um tanto improvável, mas com certeza, bastante eficaz.

- Vim até aqui para interceder a Odin. Compreendo que isso pode parecer um ato impensado, mas tive uma premonição há poucos momentos atrás... Bom, na realidade, tive um sonho...

Shura a ouvia com total atenção.

- Por favor, continue.

- Sonhei que percorria sozinha e a cavalo, a estrada principal que liga Asgard a Midgard. No instante em que eu me aproximava da ponte que separa os dois mundos, um terrível ser mitológico atravessou a estrada, bloqueando o caminho... Fafnir.

Shura logo associou o nome. Fafnir era o temido dragão da mitologia escandinava que foi morto pelas mãos do herói Ziegfried. Do sangue que jorrou das entranhas do animal e que banhou o guerreiro, surgiu então uma outra lenda que contava que Ziegfried se tornou um guerreiro indestrutível, graças a proteção invisível que o sangue do monstro possuía.

- E por conta disso, resolveu arriscar sua vida e vir até a floresta, orar ao seu deus?

- Arriscar a vida não seria a expressão mais correta a se usar nesse caso, senhor Shura. Eu apenas estava cumprindo o meu dever como sacerdotisa de Odin.

- O fato de achar que deve cumprir seu dever como sacerdotisa não é motivo suficiente para sair sozinha do castelo e enfrentar sozinha, os perigos da noite. Foi um ato impensado e que quase a matou.

Ao ouvir as palavras preocupadas, Hilda sentiu a nostálgica lembrança de quando Ziegfried passava longas horas a dar sermões sobre os cuidados que Hilda deveria ter ao andar de cavalo, ao passear pelas planícies de Ida sozinha... Sua tamanha dedicação que naquela época era motivo de leves aborrecimentos por parte dela, agora faziam parte de um profundo vazio que somente a saudade da partida eterna era capaz de produzir.

Hilda apenas despertou de seu transe quando Shura falou, com um tom de voz mais acentuado.

- Desculpe. Eu não tenho o direito de intervir em sua vida, senhorita.

- Eu é que peço desculpas, senhor. Creio que até hoje, meus impulsos são a causa de muitas tristezas... Minhas e dos que me são queridos.

Enquanto falava, a sarcedotisa pode então ouvir o trote macio de seu cavalo. Shura controlava o animal pelas rédeas enquanto mostrava o seu mais confiante sorriso.

- Não precisa pedir desculpas. E quanto ao que aconteceu agora, amanhã teremos tempo suficiente para pensar no que realmente aconteceu.

- O senhor sempre é tão prático? – a jovem questionou.

- Sempre que me for conveniente, sim. – ele respondeu, sorrindo com mais franqueza e a encarando de uma forma diferente. Única, por assim dizer.

Hilda sentiu seu rosto ficar quente e sem dúvida, imaginou que estaria bastante corado. Sem dizer nenhuma palavra, tomou as rédeas do animal e subindo, deixou-se ser guiada pelo cavaleiro de Capricórnio que não parecia se incomodar com o chão frio e áspero onde seus pés desnudos pisavam. Após algum tempo de caminhada silenciosa, Hilda sentiu a audácia vontade de falar.

- Obrigada, senhor.

- Não é necessário agradecer. E não me chame de senhor.

- Então do que devo chamá-lo?

- Shura. – ele respondeu, encarando-a com suavidade.

Ao se sentir invadida pelo olhar castanho e vivaz do homem que lhe salvara, Hilda permitiu-se sorrir.

- Deveria sorrir mais vezes, senhorita. – o espanhol arrematou, de certa forma hipnotizado com a beleza cadenciada da asgardiana.

- Não vejo tantos motivos para sorrir, se... Quero dizer Shura.

- E porque não? É uma líder amada pelo seu povo e pelos seus próximos. Além de que é uma mulher esplendida... Em todos os sentidos.

Hilda sentiu que o coração acelerava mais uma vez, mas fez um esforço tremendo para não demonstrar as suas emoções. Será que aquele homem tinha noção dos efeitos que suas palavras produziam nela? Não, com certeza.

- Estamos nos aproximando do Palácio. – Hilda desviou do assunto, rapidamente. – O povo de Asgard se sentirá honrado se os cavaleiros de Athena comparecerem à cerimônia de entrega da armadura sagrada de Doube ao guerreiro-deus Gunther.

- Será um prazer.

- Espero que sim.

Ao chegarem mais próximo ao palácio, Shura ajudou Hilda a descer do cavalo. O rapaz sentia o leve perfume que adornava o corpo da sarcedotisa e que a deixava ainda mais graciosa. Agora entendia o porquê da devoção de Ziegfried por ela. Apesar de humana e por isso mesmo, suscetível aos erros humanos, Hilda parecia ser diferente. Havia algo nela que a fazia única e Shura havia percebido isso desde a primeira vez que a olhou. Por um breve momento, sentiu tristeza ao saber que teria que partir de Asgard.

- Temos que nos separar por aqui. – Shura disse ainda próximo ao corpo de Hilda. – Afinal, o que sua guarda diria se a visse em companhia de um homem como eu?

- Bom... Diriam que eu estaria em boas mãos.

- Suas palavras são realmente convincentes, senhorita Hilda. – ele respondeu, enquanto segurava as mãos suaves da jovem entre as suas.

O contato da pele áspera do cavaleiro produzia leves ondas de arrepio nela. Mas era uma boa sensação. Algo gostoso de sentir.

- Por favor, não me chame de senhorita... Apenas de Hilda, tudo bem?

- É impossível. É uma princesa e devo tratá-la como tal. – ele replicou mais uma vez, aproximando seu rosto do dela, afim de que sua voz não pudesse ser escutada por mais ninguém que não fosse, por ela.

Delicadamente, ela retirou suas mãos da dele e igualmente, retrucou:

- Sou uma princesa, assim como você é o homem que me salvou. Portanto, estamos em pé de igualdade. Boa noite, cavaleiro de Athena.

- Boa noite, Hilda de Poláris.

Após a breve despedida, a jovem saiu caminhando com cautela para o interior do Palácio. Enquanto a via desaparecer por entre a penumbra, sentiu uma vontade louca de correr até ela, toma-la em seus braços e beija-la.

"¡Dios! Yo estoy pensando las cosas sin sentido demasiado!" – pensou, tentando se resignar de um sentimento que mal havia nascido e que pelo visto, estava disposto a dominá-lo por completo.

...x...x...x...

Na manhã seguinte, Hilda se dirigiu até a Sala do Trono do Palácio Valhala. Visivelmente abatida pelo mal estar que sofrera no dia anterior, a princesa asgardiana precisou insistir com os curandeiros do reino replicando que estava melhor e que tinha condições de presidir a continuação dos festejos. Já no salão, viu que mais alguém a esperava.

- Bom dia, meine dame.

- Bom dia, Frey.

Estendeu sua mão, a auxiliando na subida dos degraus que levariam até o trono. Ao ver vê-la com ar abatido, o jovem indagou:

- Parece que não teve uma noite tranqüila.

- Sim, realmente não tive. E não teve nada haver com a indisposição que sofri ontem.

- Como?

Hilda fechou os olhos e soltou um lânguido suspiro. Ao abri-los, a sacerdotisa fitou o general asgardiano nos olhos, com uma grande firmeza que já lhe era bastante característica.

- À noite, senti que Odin necessitava de orações. Fui então até o penhasco da praia e... Fui vítima de um atentado.

Frey sentiu que as palavras ficaram presas no pomo-de-adão.

- Entretanto, tenho a certeza de que fui protegida pela mão misericordiosa de Fridda, pois fui salva por um cavaleiro de Athena.

- Um cavaleiro!

- Sim. Shura de Capricórnio me seguiu e me retirou da escarpa antes que ela caísse no mar.

- Impossível... – Frey sussurrou automaticamente ao ouvir o breve relatório que ela fez, logo em seguida.

- Eu também me permito a pensar de vez em quando, que este fato foi um pesadelo, mas sei que foi real... De alguma forma.

- Bom, eu enviarei alguns homens para averiguarem a situação do penhasco. Enquanto isso, pedirei que Gunther lhe acompanhe sempre.

- Não é necessária tanta preocupação comigo, Frey.

- Como não? Como você mesma disse, quase morreu em um ataque!

- Mas não se faz necessário que Gunther fique comigo. E porque vai enviar homens para examinarem as escarpas? Por acaso alguém lhe contou sobre a avalanche das rochas?

Frey deu um sorriso nervoso.

- Claro. Alguns aldeões comentaram a respeito de uma avalanche na praia, mas jamais imaginei que você estava lá no exato momento. – e contornando o assunto, volta a falar com um tom de voz mais forte. – E como assim "não se faz necessário"! Gunther é um guerreiro-deus agora.

- Sim, Gunther é um guerreiro agora, entretanto, não quero expor nenhum guerreiro de Asgard ao perigo desnecessário, será que você não entende?

- O que eu entendo, é que você não quer não consegue aceitar o fato de que antes de serem seus amigos, os guerreiros deuses foram homens treinados e orientados a defenderem Asgard com suas vidas. Ainda sente falta de Siegfried, não é?

Ela desviou o olhar dele e passou a fitar o chão.

- Não suporto mais saber que pessoas precisarão morrer pela honra de um país. Pessoas que tinham sonhos, histórias.

- Siegfried a amava e morreu orgulhoso de saber que protegia você, Hilda.

- De que me adianta a vida se não o tenho mais! – Hilda contrapôs, sentindo que as lágrimas iriam brotar de seus olhos mais cedo do que esperava. – Você não consegue mensurar a dor que eu sinto... Cada vez que vejo a lápide de Ziegfried... Sinto-me mais culpada pela sua morte... Porque eu fui a causadora dela.

Nesse momento, ela sentiu a mão de Frey em seu ombro e então, tornou a encará-lo mais uma vez.

- O destino dos grandes heróis é morrerem jovens demais. Siegfried não poderia ser uma exceção. Tente se contentar com o fato dele agora viver em seu coração.

Nesse instante, um terceiro personagem se fez presente no salão. Um servo palaciano que prontamente se ajoelhou perante os nobres e elevou a voz, dizendo:

- Senhores, os preparativos estão terminados.

Calada, Hilda se levantou e seguiu o homem. Antes de sair do amplo salão, a jovem ainda pode escutar seu primo dizer:

- Hilda, não se esqueça do que eu disse.

Como esquecer? Como apagar da mente a realidade cruel e fria? Siegfried era um herói e todos os estimavam em demasia. A lembrança do guerreiro jamais seria esquecida pelos asgardianos. E seria apenas a lembrança dele que Hilda deveria se contentar e a duras penas, seguir com sua vida solitária.

...x...x...x...

Enquanto isso, Milo caminhava por entre os inúmeros corredores do castelo, apreciando a beleza da arquitetura medieval e também, os incontáveis quadros que guarneciam as paredes claras do local. Entretanto, seu passeio foi interrompido, graças a presença de um outro alguém.

- Senhor Milo!

Ao se virar, o cavaleiro constatou ser Gunther.

- Olá Gunther.

- Senhor Milo. Preciso de um conselho seu, por favor!

Milo não deixou de arquear as sobrancelhas, surpreso com o pedido do rapaz.

- Um conselho? Meu?

- Sim, por favor!

- Certo... – Milo concordou ainda em dúvida. – Pode falar.

- Não aqui. – o rapaz falou quase em um sussurro. – Em um local reservado. Seria melhor.

Milo estava cada vez mais abismado com a obscuridade da conversa.

- Tudo bem. Fale logo antes que eu não sinta mais vontade de ajuda-lo.

Repentinamente o cavaleiro foi puxado pelo jovem para um outro corredor e...

- Como é que é!

- Eu sei que parece estranho, mas o que eu estou sentindo...

- Eu não posso acreditar que você estava tendo esse tipo de pensamento comigo, garoto!

- Senhor...

- Não! Nem pensar!

O escorpiano já fazia menção em se retirar, quando mais uma vez foi puxado para trás por Gunther.

- Cara, como você é teimoso!

- Sei que estou sendo impertinente com o meu pedido, mas não penso em desistir!

O grego o olhou dos pés a cabeça e suspirou. Se havia uma coisa que admirava numa pessoa, era a persistência. E o irmão caçula de Siegfried parecia ter aquele adjetivo em abundância.

- Certo garoto... Eu farei o que você me pede. Mas não espalhe para os quatro ventos agora, tudo bem?

- Obrigado, senhor Milo! – o rapazote disse, enquanto dava um largo sorriso. – Até a cerimônia!

Ao vê-lo sair do corredor, o cavaleiro de ouro deu um suspiro cansado.

- Ai, ai... Crianças.

Por fim, saiu a procura de algum servo palaciano, a fim de saber a que horas a tal cerimônia iria ser realizada.

...x...x...x...

Algumas horas depois...

Milo caminhava ao lado de um Shura completamente distante, nos jardins do Palácio onde segundo um serviçal palaciano, seria realizado a cerimônia de posse da armadura divina de Doube para Gunther.

- Shura... O que aconteceu? Parece que teve uma noite bastante longa.

- Longa até demais.

- Nossa! Então foi sério mesmo!

- Miro. Já se sentiu constrangido por algum sentimento alguma vez?

- Bom... Depois de alguns foras que eu jamais imaginava levar em minha vida, sim, várias vezes. Por quê?

- Porque estou me sentindo assim, agora... Estou me sentindo o homem mais bobo do mundo.

- Isso se chama ressaca moral. – Miro disse com convicção. – E sabe como se cura uma ressaca moral?

- Se for com um porre, não me convide.

- O que é isso, companheiro! Assim você me subestima! – e passando um braço pelo pescoço do espanhol, a fim de aproximá-lo para uma conversa mais baixa, Miro conclui. – Que tal curar esse baixo astral com a visão de uma deusa?

Com o indicador, o grego aponta de forma discreta para o lado. Levado por uma incauta curiosidade, Shura levanta o rosto e dá de cara com Hilda que ladeada por Freiya e Fler, seguia montada em um cavalo, o trajeto até o altar improvisado entre as flores invernais. Mais uma vez, a senhora de Asgard parecia uma visão perfeita de uma deusa encarnada. Usava um vestido na cor vermelho-sangue e estava guarnecida de uma égide confeccionada com algum metal enegrecido. Do mesmo material, também era feito a tiara, os braceletes e a afiada lança que carregava. Uma legítima valquíria.

Hilda que até o momento apenas olhava para frente, notou que era observada e ao virar o rosto, viu-se diante do olhar castanho de Shura. Rapidamente, sentiu que seu rosto estava ficando quente e para evitar que todos notassem que ela estava envergonhada, respirou fundo e tornou a olhar para frente.

- É... – o grego ponderou toda a situação. - Estou vendo que o negócio é mais sério do que eu poderia imaginar.

- Miro se quer me ajudar, cala a boca e não faça nenhuma besteira.

- Tudo bem. – ele respondeu em meio a uma risadinha infame.

Mal terminara de ouvir a réplica do escorpiano, Shura – assim como alguns convidados que se faziam presentes na solenidade - voltaram suas atenções para o jovem que viram lutar com bravura no dia anterior. Ao lado dele, estava Frey.

- Não vou com a cara desse Frey... – Miro sussurrou e Shura logo indagou:

- Qual o problema com ele? Você mesmo disse que não seria Frey quem impediria sua aproximação até Freiya.

- Não tem nada haver com ela. Ele simplesmente não me parece alguém... Ah, deixe pra lá.

Shura logo se lembrou do acontecimento da noite passada. De fato, aquele incidente onde Hilda e ele quase perderam suas vidas parecia não ser uma obra do ocaso. Com certeza, havia algo mais escuso por detrás daquele acontecimento.

"Contarei ao Miro o que aconteceu ontem... com exceção, claro, de algumas partes..." – pensou o capricorniano, enquanto observava o desenrolar da cerimônia.

Gunther caminhava a passos firmes e decididos até Hilda que também o encarava, mas o olhar fixo parecia mais distante que o previsível. A jovem se indagava como uma mesma cena poderia se repetir duas vezes na vida de alguém... Há alguns anos atrás, ela havia presenciado a mesma cena. Entretanto, quem se aproximava dela para fazer os costumeiros votos de devoção a Asgard e a sua dirigente, era Siegfried.

"Éramos tão jovens... Siegfried..."

O irmão mais novo do falecido guerreiro se ajoelhou perante a sarcedotisa que mecanicamente, levantou a lança, num simbolismo da autoridade que os deuses vinkings haviam lhe imposto. Dessa forma, começou a proclamar com um tom de voz que era ao mesmo tempo delicado e firme.

- Estamos reunidos aqui, pela graça das Senhoras do Destino, para entregar àquele que passou com honra pelas provas de força, destreza e capacidade, a sagrada armadura que é protegida da estrela de Doube.

- Pare! Em nome dos deuses, parem com essa cerimônia agora mesmo!

Continua...

Ponto Zero: usei essa expressão para denominar o local onde Hilda fazia suas orações ao deus Odin, e onde Saori ficou orando, para que as calotas de gelo não derretessem.

Meine Dame: "minha dama", em alemão.

Notas da autora:

Finalmente, o segundo capítulo dessa fanfic. Gostaria de pedir sinceras desculpas aos meus amigos que esperavam pela atualização (que demorou mais que o planejado) de Destinos que se Cruzam. É que estou em plena temporada de provas finais na universidade e como alguns já sabem, agora eu estou trabalhando (de verdade, deixei de ser escraviária! Rsrsrsrs...) de verdade e como todos sabem, um emprego sério traz consigo, muitas obrigações mais sérias ainda. .'

Como o não nos permite mais que usemos o espaço das fics para agradecer aos reviews, eu quero deixar registrado aqui, o meu sincero agradecimento a todos que estão lendo a fic e que deixaram comentários nesse primeiro capítulo:

Juliane.chan1Fabi WashuHarpiaPersephone-samaMargaridaAkane KittsuneDama 9, Luluzinhabai, yagi, lulu-lilitsDani KatsuMegawinsoneLonestar Karina e Saory- San, eu agradeço de coração aos seus comentários. Sem dúvida, vocês demonstraram que apesar dos meus temores iniciais, a fanfic teve uma considerável aceitação. Muito obrigada! .

E em especial, gostaria de agradecer à Saory-San e a Alana por revisarem e darem dicas nesse segundo capítulo. Não é necessário dizer que este capítulo é dedicado a vocês duas! .

Bom, despeço-me por aqui. Mais uma vez, agradeço a todos que leram esse segundo capítulo e volto a repetir que me sentirei bastante agraciada se receber comentários construtivos sobre o prosseguimento dessa fanfic.

Até a próxima!

Arthemisys