Destinos que se cruzam

Capítulo 4


Um grupo formado por cerca de quinze homens portadores de arcos e flechas olhou a carruagem desgovernada bater contra uma rocha que ficava na beira da estrada e se espatifar desfiladeiro abaixo. O que parecia ser o líder, sorriu, mostrando uma parcela de dentes podres. Sinceramente, não imaginava que seria tão fácil dar cabo a dois cavaleiros de ouro. Virou-se para o lado e deu ordens para que dois homens levassem a preciosa carga que havia sido roubada do veículo, antes do atentado. Após vê-los desaparecer em meio à densa vegetação da floresta, o mercenário outorgou aos outros que os acompanhavam.

- Vamos ver em que estado ficaram os corpos daqueles estrangeiros.

Assim, desceram a íngreme elevação, indo até a estrada de cascalhos. Ao descerem os olhos para o desfiladeiro, viram os restos do carro sendo arrastados mar adentro. Ainda conseguiram ver flutuando o corpo do cocheiro e alguns cavalos que já haviam sucumbido à queda. Entretanto...

- Onde eles estão?! – o chefe do bando grunhiu, olhos fixos nas águas e rosto pálido pelo temor de não haver conseguido alcançar seus objetivos.

- Bem aqui, seu saco de batatas.

Todos se viraram e puderam comprovar estupefatos, a imagem de ninguém menos que Miro e Shura.

- Não... Não pode ser!

- E porque não poderia? – Miro retrucou, caminhando até eles com uma das mãos enfiada no bolso da calça. – Pensou que seria tão fácil aniquilar com dois cavaleiros da melhor estirpe? Sua burrice é tanta que chega a ser engraçado.

- Eu os vi cair no penhasco!

- Errado. Você viu a carruagem cair. Nós saímos antes e ficamos a espreita, atrás daquela rocha. – Shura apontou para uma pedra de considerável proporção que repousava na beira do precipício, no mesmo local onde o carro havia tombado. – Mas devo admitir que conseguiram colocar medo no coração do meu amigo...

- Shura. Já chega. – Miro falou enquanto uma gota nada discreta rolava por sua face.

- Tudo bem! – o moreno riu da cara do amigo.

- Homens!

Os arqueiros se posicionaram, flechas em riste.

- Miro. – Shura começou. – Termine com isso rápido, pode ser?

- Pode deixar. – o escorpiano arrematou, sorrindo de forma encantadoramente assassina.

O que se passou logo em seguida poderia muito bem ser medida em apenas dois ou três segundos. Os desgraçados mercenários nem conseguiram pensar em atirar suas flechas, pois o que viram de imediato foi uma cadente luz avermelhada surgir do dedo indicador do cavaleiro. No momento seguinte, sentiram apenas, o sublime frio da morte nascer em seus corações e se espalharem em seus corpos.

O chefe do bando, o único que restou vivo, tinha em seu olhar, um desespero que beirava a loucura. Enquanto tentava correr, balbuciava palavras desconexas e chorava copiosamente. Quando imaginou que conseguiria sobreviver àquela chacina que presenciou, sentiu seu corpo sento retesado para trás e deu de cara com o olhar castanho do cavaleiro de Capricórnio.

- Quem mandou vocês até aqui?

- Eu... Eu não posso...

- Vamos, fale logo. – Shura repetiu, mas a calma de suas palavras não escondia a frieza do olhar. O homem ficou ainda mais amedrontado e Shura pode ver que a calça dele começou a ficar bastante molhada.

- Esse infeliz é um covarde! – bradou Miro, segurando o barbado pela gola da camisa e outorgando. – Vamos logo! Fala quem te mandou até aqui pra acabar com a gente! Foi aquele tal de Frey, não foi?!

- ... Sim!

- Eu sabia! – o cavaleiro desabafou, arremessando o corpo do homem contra o solo. – Foi ele quem roubou as nossas armaduras! Para onde foi que ele as levou!?

- Valhalla... – choramingou, mal cabendo em si de tanto pânico.

- Tsc... Era só o que me faltava. – Escorpião finalizou, soltando um suspiro logo em seguida. – Estamos sem as nossas armaduras e pelo visto, está havendo um golpe de poder no reino... É, eu mereço isso.

Shura permaneceu calado. Então, as palavras de Nana que a princípio pareciam desconexas, começavam a fazer algum sentido...

- O seu sentimento à princesa será a melhor arma para você e a melhor defesa que ela terá nos próximos tempos... – o espanhol balbuciou as palavras da misteriosa mulher e voltou seus olhos em direção ao Palácio.

- Sobre o quê você está falando, Shura...? – Miro interveio.

- Vamos ter que voltar à Asgard.

- É eu sei fazer o quê... Afinal, nossas armaduras estão lá... E eu estou louco para quebrar a cara daquele principezinho medíocre...

- Ainda com raiva dele por causa de Freiya?

- Shura, sem brincadeiras: estamos passando por um momento crítico.

O cavaleiro de Capricórnio não deixou de rir ao ver o amigo tão sério e compenetrado em seu objetivo.

...x...x...x...

Castelo de Odin.

Fler caminhava por entre o longo corredor que dava acesso aos aposentos dos hóspedes do Palácio. Desde que acordara naquela manhã, sentiu seu coração ficar apertado, como se algo de ruim fosse acontecer. Foi esse mesmo sentimento que teve no dia que viu aquele que mais amou morrer em uma caverna vulcânica, pelas mãos de um outro alguém que se fez herói pela causa da justiça.

Apertou as delicadas mãos em forma de oração e apressou os passos. Não havia visto Nana desde o início do dia e isso a incomodava.

Parou na porta do quarto e bateu educadamente. Entretanto, não ouviu nada, nenhum ruído ou reação. Balbuciou o nome de Nana, mesmo assim, não obteve a resposta que almejava. Foi então que baixou o olhar e viu que a maçaneta da porta estava suja com uma espécie de líquido avermelhado. Sangue. Seu coração começou a disparar.

- Oh, não... Nana...!

Indiferente ao sangue, Fler tocou a maçaneta e a girou, fazendo a porta emitir um gemido. A primeira visão que teve, foi do rubro tapete se estender pelos seus pés para logo em seguida, dar lugar a uma outra visão do vermelho... O sangue de sua amiga que já se espalhava por todo o quarto.

- Nana! – a jovem gritou, correndo em direção ao corpo rijo e frio. – Oh, não... Pelos deuses, quem fez isso?!

- Fler? – Freiya que acabara de entrar no quarto, olhou horrorizada. – Assassinaram Nana!

Ainda chorando, a irmã de Hilda foi retirada por Freiya daquele lugar e levada para a sala comunal do Palácio. Entretanto, no meio do caminho, foram intercaladas por Gunther que parecia muito assustado.

- Gunther! – Fler o chamou, correndo até ele e o abraçando. - Assassinaram Nana!

Freiya por sua vez, notou que o rosto do rapaz ficou ainda mais lívido.

- Senhoritas... – ele falou baixo, retirando as mãos dela de seus braços com delicadeza. – Vocês precisam fugir. Agora!

- O que está dizendo, guerreiro? – a irmã de Frey indagou, completamente desnorteada.

O rapaz respirou profundamente. – O Palácio Valhalla está sendo atacado por uma facção de mercenários.

As duas pareciam não acreditar nas palavras do jovem guerreiro-deus.

- O senhor Frey me pediu para guiá-las para fora do Palácio e deixá-las em um local seguro.

- Como assim estamos sendo atacados?! Quem porventura iria atacar o Palácio?! – Freiya bradou, despindo-se de sua habitual elegância.

Gunther se calou e ambas assimilaram que ele escondia alguma coisa.

- Por favor, Gunther... Conte-nos quem realmente está nos atacando. – Fler pediu da forma mais delicada que a sua pacífica natureza poderia oferecer. O irmão de Siegfried viu que não tinha mais nenhuma outra saída a não ser, contar a verdade.

- Quem declara guerra à Asgard nesse momento... É o deus Loki e seus guerreiros berserkers.

...x...x...x...

Os cavaleiros corriam o mais depressa que seus corpos poderiam agüentar rumo ao reino asgardiano. Preferiram deixar o chefe do bando de mercenários vivo, para que ele pudesse contar ao seu superior, o recado dado por Miro.

- Miro... O que você disse ao mercenário?

- Nada demais. Apenas que o Frey tomasse conta das armaduras até eu chegar e matar ele.

Shura não se conteve e riu. Não conseguia acreditar que um dos doze de Athena era um cara como o Miro.

Nesse momento, ambos sentiram que o chão abaixo de seus pés começou a tremer, como se um terremoto começasse a se manifestar gradativamente. Diminuíram o ritmo da corrida e olhando para todos os lados, começavam a se preparar para um possível ataque.

- Mas que diabos é isso?! É uma multidão a nos atacar?! – Miro se perguntou, elevando o punho pronto a desferir seu golpe escarlate.

- Se for, prepare-se para cerca de dez mil homens. – Shura concatenou, braço em riste para um furioso golpe.

- Dez mil?!

Então, uma cena jamais imaginada por ambos, se desenrolou: do alto da floresta, surgiu a visão surreal de um ser de proporções descomunais que rastejava a uma velocidade ainda mais impressionante. Os olhos eram de um vermelho mais vivo que o sangue de um condenado e seus dentes se assemelhavam às garras de um pré-histórico predador. Entretanto, o que mais chamava a atenção naquele animal, era sem dúvida a couraça de um dourado mais límpido que o ouro e que a luz da manhã, parecia ainda mais reflexível.

- O... Que diabos... É essa coisa...? – Miro estava completamente boquiaberto.

- Eu não sei... Mas parece ser...

Antes que Shura terminasse, o animal voltou seus olhos para os dois e com uma rapidez impressionante dado o seu exagerado tamanho, levantou-se tal como uma serpente do deserto e emitindo um urro rouco, mas ensurdecedor. Soltou logo em seguida, um assombroso bufar de fogo, que atingiu impressionantes quinze metros de distância de sua bocarra e fez com que uma espessa camada de fumaça se elevasse aos céus.

- Um dragão. – Shura finalmente completou, sentindo o calor percorrer seu rosto, face ao fogo exalado pelo monstro.

- Ora, ora, era só o que faltava... Um dragão para deixar o meu dia mais feliz. – Miro ironizou e continuou.

- Você vai cuidar dele enquanto vou até o Palácio.

- Como é que é?! – o escorpiano parecia não acreditar nas palavras do companheiro. – Vem cá: porque vocês sempre deixam para mim missões envolvendo cavaleiros de bronze, heróis gregos e monstros mitológicos?!

- Bom, porque você é competente em tudo o que faz.

- Essa desculpa não foi convincente Capricórnio...

Novamente, o dragão emitiu outro grunhido acompanhado logo em seguida de um jorro de fogo. Vendo-se sem saída, pois o animal bloqueou toda a extensão da estrada, os cavaleiros se entreolharam e Shura correu em direção à floresta. Quando o monstro iria seguir o cavaleiro de Capricórnio...

- Agulha escarlate!

O golpe que apesar de imperceptível, tem um poder de destruição interna bastante considerável, pareceu nem ultrapassar a primeira camada de escamas douradas do dragão que se virou em direção do cavaleiro de Escorpião, completamente irado. Miro praguejou internamente, amaldiçoando Shura por ter deixado para ele, aquele grande problema.

- Ah, seu espanhol desgraçado...! Vou te pegar na virada!

Talvez o grego continuasse a declamar mais impropérios contra Shura, porém, o instinto de sobrevivência o fez correr do monstro que já havia decidido qual seria a sua primeira vítima, depois de incontáveis anos, encarcerado no abismo da prisão cavernosa em que estivera.

...x...x...x...

Hilda já caminhava a passos rápidos ao lado de Frey, que por sua vez, já havia dado ordens ao exército do Castelo para que ficasse em situação de defesa contra o aglomerado de homens que começavam a se reunir do lado de fora do Palácio.

- Talvez alguns berserkers já estejam dentro do Castelo a mais tempo do que possamos imaginar. – Frey comentou, enquanto analisava a expressão séria de Hilda. – Mas já lhe advirto de que Freiya e Fler estão a salvo: Gunther as levou a salvo, logo após vossa alteza ter lido a missiva que tratava da invasão.

Hilda não deixou de suspirar aliviada. Pelo menos a irmã estava segura. - E o povo asgardiano? – ela questionou.

- As pessoas que se encontram fora da rota dos mercenários ainda estão vivas.

- Então ordene o exército para que retirem todos os habitantes desse feudo agora mesmo.

- Mas senhorita, e a segurança do Castelo...

- É uma ordem, Frey!

- E a sua segurança?! – o general perguntou esbaforido.

- A minha vida está nas mãos de Odin.

Assim, a jovem rainha seguiu sozinha até o templo de Odin, localizado na ala norte do Palácio. Em sua mente, apenas constava à organização dos intempestivos acontecimentos, uma vez que tudo ocorreu rápido demais: o retorno de seus hóspedes ao Santuário grego, uma misteriosa carta a advertindo do perigo no qual o seu reino corria, a notícia do assassinato de Nana dentro do Castelo e por fim, os primeiros sinais de chegada dos berserkers em plena luz do dia.

Os berserkers... Guerreiros de péssima índole, homens que não se importavam com a claridade do dia ou com as trevas da noite para que cercassem suas vítimas e as fizessem padecer dos piores horrores que apenas a insana guerra poderia oferecer. Apenas desejavam a oportunidade perfeita e sabe lá os deuses, eles acharam que a oportunidade de guerrear contra Asgard estaria pronta naquele momento, em plena luz do meio-dia.

Entretanto, o que mais dava medo ao jovem coração da princesa, foi a revelação – dada na tal carta - do líder daqueles sanguinários homens:

- Loki... – Hilda balbuciou o nome do deus nórdico da loucura, sentindo um estranho frio percorrer sua espinha dorsal.

Se o deus da insanidade havia retornado ao mundo dos viventes, isso era um sinal claro que o apocalíptico evento que todos os nórdicos temiam, começariam a sua cruel encenação, dentro de pouco tempo.

E Hilda estaria praticamente sozinha nessa sombria jornada.

Ao entrar no recinto, sentiu um cosmo cálido lhe cobrir dos pés a cabeça. Era a proteção de Odin que transbordava naquele lugar sagrado. O templo do maior deus nórdico não possuía a opulência arquitetônica de outros locais sagrados conhecidos. Resumia-se a apenas um amplo salão de formado circular, com um orbe que era também circular. Era como uma gigante esfera partida ao meio. E no centro, em uma colunata, descansava ela, a sagrada armadura do deus Odin, que a primeira vista, se assemelhava a um amontoado de cristais onde uma bela e cristalina espada repousava.

A jovem percorreu o caminho que a separava da armadura e segurou firme no cabo da espada. Com a divina arma, planejava ir até a varanda do Palácio e erguer ao deus-padroeiro, orações como no dia em que se viu presa às amarras demoníacas do anel Nibelungos. Talvez Odin intercedesse em seu favor mais uma vez. Talvez acontecesse o milagre que tanto esperava.

Porém, no momento em que retirava a espada da bainha feita de cristais, sentiu o ar deslocar atrás de si e uma mão masculina retesar a retirada da espada, colocando a arma brutalmente em seu lugar de descanso.

- Hilda, você não vai retirar a espada Balmung.

A voz conhecida fez a mulher virar rapidamente e dar de cara com Frey que tinha um semblante completamente desconhecido a ela.

- Frey... O que está dizendo? Eu preciso da espada!

- Você não entendeu. – e com força, pegou no pulso dela, fazendo com que ela soltasse a espada à contra gosto. – Esta espada permanecerá onde está e você não irá mais fazer nada sem me ouvir antes, entendeu?!

- Frey. O que está acontecendo, realmente?

- Ainda não percebeu?

A sacerdotisa de Odin estreitou os olhos. Como não havia percebido nada antes?!

- Traidor... – ela murmurou mal cabendo em si de tanta raiva e frustração.

- Sinto muito. – ele respondeu, ainda segurando o pulso dela e com a outra mão, retirando sua espada da bainha que pendia em sua cintura.

Nesse exato instante, o general dos exércitos de Asgard sentiu um toque frio e afiado em seu pescoço.

- Se ousar pensar em cometer algum movimento brusco, juro por Athena que no momento seguinte, sua cabeça não estará mais em seu pescoço e sua alma estará vagando a esmo no Inferno.

Hilda olhou o dono daquelas firmes palavras e não deixou de se espantar com o que viu.

- Shura...?!

- Sim, princesa. Eu voltei. – respondeu, tendo Frey sob seu controle. – Por favor, retire a espada. Vamos ter que sair daqui imediatamente.

Ao sentir sua mão livre, a primeira reação de Hilda foi a de retirar a espada rapidamente e se afastar de Frey.

- Não sabem o que estão fazendo... – o asgardiano replicou e sentiu a pressão em seu pescoço ainda mais forte.

- Cale-se ou eu o mato agora mesmo. Venha princesa. – o cavaleiro falou, estendendo sua mão para que ela a tomasse. – Se pensar em se virar para trás, morrerá, entendeu?

E assim, Hilda o fez, podendo sentir a suavidade com que ele se apoderou de sua mão, a conduzindo para fora do templo.

Ao se virar, o loiro ainda conseguiu vislumbrar a imagem do casal saindo a toda pressa do templo. Foi ai que percebeu que Shura não portava nenhuma arma.

- Maldição... Não era uma espada em meu pescoço e sim, o punho daquele homem!

...x...x...x...

O espanhol e a asgardiana agora corriam pelo pátio central do Castelo, rumo à varanda onde a portentosa estátua de Odin descansava. Dada a sua natureza, era certo que Shura conseguia manter um ritmo mais rápido que a sua companheira, mas ele preferia ir mais devagar, em respeito a ela.

Durante o percurso, Hilda sentia que os dedos do homem que a conduziam, pareciam acariciar a sua mão, com movimentos leves e extremamente carinhosos. Ou seria aquilo apenas um fruto de sua fértil imaginação?

Por sua vez, o cavaleiro sentia a suavidade que era o toque da mão pequena na sua. Hilda parecia ser tão frágil, tão merecedora de cuidados... De seus cuidados.

Por isso, percebeu-se a acariciando, como se com aquele gesto, tentasse transmitir a ela o recado de que não estaria sozinha. De que ele estaria ao seu lado, pronto a protegê-la de qualquer mal que por acaso, se levantasse contra a bela princesa de gelo.

- Precisamos chegar até a estátua de Odin. – Hilda falou, ofegante pela corrida.

- É arriscado. – Shura concatenou. – Se nos virem, aqueles homens irão atacar.

- Os berserkers já estão aqui?!

- Eu vi um bom número deles se aproximando. – Shura parou, tomando fôlego. – A senhorita precisa fugir daqui. O castelo está completamente desprotegido.

Shura percebeu que o rosto de Hilda se contraiu, como se as palavras de Shura realmente demonstrassem não somente a atual situação de seu reino, como também, de sua alma.

- Sei que não é o momento adequado para arrependimentos, mas se hoje estou enfrentando tão cruel situação, devo ter em mente que Asgard está pagando pelo preço da ambição que um dia povoou meu coração... E foi essa maldita corrupção que me fez perder a paz... E eles... Os guerreiros-deuses...

Sentiu que as lágrimas começavam a encher seus olhos e virou-se, completamente arrependida de ter feito uma confissão daquela natureza a alguém que nada tinha haver com a situação.

Foi então que sentiu ser tocada no rosto pelas mãos firmes do espanhol que a mirava com um sorriso único. Enquanto a tocava e a fazia virar-se para ele de forma delicada, os polegares dele enxugavam as primeiras lágrimas derramadas.

- Há dentro de mim, um verdadeiro exército pronto a lutar pela justiça e a proteger todo aquele que ama. E neste momento, este exército determinou que lutará por um reino chamado Asgard e que protegerá somente uma princesa chamada Hilda de Poláris.

- Shura... Eu não preciso de proteção. Quem um dia me protegeu hoje caminha pelos campos de inóspitos de Hell e eu não quero...

A nórdica sentiu que seus lábios foram calados pelo indicador do rapaz que continuou.

- Sei que estou diante de uma mulher que possui além da estonteante beleza e invejável sabedoria, a coragem que apenas os maiores heróis possuem. Por isso, me presto ao papel de ajudá-la em sua batalha. Combatendo ao seu lado.

Hilda se afastou, com o rosto corado pelas palavras de Shura. Então olhou mais uma vez para o rosto petrificado de Odin, e decidiu ir até o pé da estátua. Precisava fazê-lo: por Asgard, pelos seus entes queridos e por aquele que jurou combater ao seu lado.

Antes de dar o primeiro passo, sentiu que era puxada para trás por Shura e viu no segundo seguinte, duas flechas que fincaram no chão.

Um grupo de mais ou menos trinta homens armados e protegidos até os dentes, olhava furiosamente para o casal.

- Nos descobriram. – Hilda falou.

- Princesa, se abrirmos caminho por entre eles, aonde chegaríamos?

- Seguiríamos por uma pequena estrada e terminaríamos no coche do Palácio.

- Perfeito. – ele respondeu, se pondo na frente de Hilda e tomando a mão dela novamente entre a sua.

- O que pretende homem?! – um dos soldados bradou, pondo-se na frente dos demais.

- Passar por vocês. – Shura respondeu com calma.

- Chegará do outro lado morto. – um deles ironizou.

O espanhol sorriu, ante a demasiada confiança do bando.

- É o que veremos. – o cavaleiro retorquiu, erguendo o braço para o alto. – Seus espíritos estão sedentos por carne e sangue humanos. Não merecem pisar nesse solo sagrado. Todos, sem exceção, sentirão a justiça que inflige à espada Excalibur.

Todos se prepararam para atacar e Capricórnio começou a elevar seu cosmo. Uma aura dourada começou a emergir do corpo do homem, se expandindo vertiginosamente. Quando todos estavam a uma distância de cerca de quinze metros, viram apenas um passo a frente dado por Shura e logo em seguida, suas carnes serem retalhadas junto as suas armaduras, sem um resquício de piedade.

Não houve gritos. Apenas, gemidos inexprimíveis que logo de exauriram. O que antes era um verdadeiro paredão formado por homens de porte físico temeroso, agora não passava de um monte de moribundos rastejantes em seu próprio sangue.

Enquanto passavam sobre eles, Hilda não se conteve e fechou os olhos que apesar de já terem presenciado a guerra e a morte, ainda não se acostumaram com o massacre e a decadência humana.

Logo, chegaram ao coche e avistaram apenas um cavalo em seu estábulo. Shura passou a frente e tomou o animal pelas rédeas enquanto a jovem embrulhava a espada com o manto que usava. Shura foi o primeiro a montá-lo, seguida por Hilda.

- Temos que sair do Castelo.

- E para onde vamos?

- Midgard.

- O reino da Terra?! – a jovem exasperou-se com a possibilidade de atravessar os portões que ligavam Asgard a Terra. – Eu não posso sair daqui! Não posso deixar Asgard e minha irmã expostas ao perigo!

- Princesa, eu insisto: se continuarmos aqui seremos mortos. Há de concordar que precisa está viva para poder dar cabo a esta guerra.

Ela permaneceu calada por alguns instantes, em seus pensamentos, chegou a pensar que a melhor escolha seria descer e lutar, mesmo que sozinha. Mas logo chegou a conclusão de que aquela idéia era estapafúrdia e ainda mais: colocaria a vida do cavaleiro em perigo.

"Já matei uma vez aquele que me dera seu coração. Não o farei mais uma vez." – a princesa pensou e virando-se para o espanhol, concordou com ele com um aceno.

Shura por sua vez, sentiu uma leve, mas dominante onda de eletricidade invadir o seu corpo no exato instante que o corpo da princesa encostou ainda mais ao seu e os olhos cristalinos dela o olharam com vigor.

Foi despertado pelo relinchar do animal que já começava a ficar impaciente pela espera. Com um comando dado por Shura, o animal começou a trotar velozmente para fora do Castelo, rumo a Bifrost.

Continua.


Notas da autora:

Sei, alguém deve está dizendo: "Esse Shura é um banana! Porque ainda não beijou Hilda?!" ou "A Arthemisys está enrolando um simples beijo há quatro capítulos!" Mas antes que me atirem tomates, eu quero dizer que ainda não vi uma oportunidade perfeita para o Shura e a Hilda pudessem ficar mais a vontade... Entendem? Até mesmo a minha beta-reader sugeriu um beijinho, mas eu achei que um beijo num momento como esse, de guerra proeminente, não teria um bom clima... Quem sabe, esse clima role em um mosteiro italiano, numa igrega... Completamente a sós... P

Bom, mas agora é momento de agradecimentos! o/

Puxa, se bem que dessa vez, a lista de agradecimentos ficou pequenininha...

Flor de Gelo (viu? Meti o Milo em outra enrascada, tadinho! Rsrsrs...); Harpia (pronto Lu! Fic atualizada! Beijos "fia"!); Saory-san (A Nana não foi esperta, e sim, oportunista! – como se não fosse a mesma coisa! P – Beijos!); Juliane.chan1 (obrigada por ter betado esse capítulo para mim! ); Dani Polaris (Que bom que gostou! Beijos!); Jussara (Pronto Jussara! A fic está atualizada e espero que tenha curtido esse capítulo! Beijos!); Margarida (Que bom que está gostando! ); Flávio (Obrigada pelo comentário no Panbox!).

E por fim, o meu muito obrigada a todos que acompanham a fic!

Que todos tenham um 2007 repleto de paz e felicidades!

Até a próxima!

Arthemisys