N/A: Eu ía postar só sábado esse capítulo, mas viajar, então, tá aí. Bônus.
4. 20 jeitos espertos de comer bem
- Adivinha só o que eu comprei – disse Pontas irrompendo na minha sala.
- Com certeza algo que eu não queira mesmo ver – falei só pra não perder a piada.
- Ah, você está com cliente. Desculpa. Depois eu volto.
- Então, senhorita Brown, como eu estava lhe dizendo... – voltei a dizer, conversando sobre fundo financeiro, seguro social e essas chatices todas. Afinal, James podia esperar, o dinheiro não.
...
Se tem uma pessoa que tem amnésia alcoólica essa pessoa é James Potter. Ou talvez ele seja um bom ator, por que ele sempre se esquece das coisas que faz depois de beber. Tipo pular pelado no laguinho da nossa escola, pedir Lily em casamento ou me contar que tem uma fantasia gay. E quando eu digo fantasia, eu quero dizer sexual mesmo, não é como se ele virasse a Super Bicha saísse por aí defendendo os fracos e excluídos. O que seria menos pior, eu acho.
Então eu nem estava preocupado com o nosso dia seguinte. Sabe, não é como se eu tivesse que telefonar, como se ele fosse uma garota. Entrei na sala de James e o vi com a revista na mão. Aquela maldita revista...
- Ainda lendo essa porcaria?
- Essa é a Pleasurebomb do mês de maio – disse Pontas mostrando a capa. Um cara sem camisa e de sunga branca posando sob uma bica d'água. – Tem uma matéria bacana sobre...
- Hum, deixa eu adivinhar? – perguntei me sentando e depois fazendo uma cara pensativa. - Alguma entrevista com a Cher, ou talvez a Madonna, "Como ter pernas saradas até o verão" e um ensaio sensual com o gatão da capa, acertei?
- Na verdade eu tava falando sobre a matéria "20 jeitos espertos de comer bem" – ele falou folheando a revista.
- Comer o que?
- O que você quiser... – disse sorrindo.
- O que eu quiser? – perguntei já suando frio. Juro, eu pensava que Pontas estava dando em cima de mim.
- É. Na verdade eles dizem que posso ser bem flexível. Enfim, pode comer o que quiser, desde que saiba balancear.
- É? – A saliva desceu rasgando minha garganta.
- Um sanduíche maneiro com suco ao invés de refrigerante... ou... – Ele passou o dedo nas letras prensadas até achar. - Sobremesa feita com fruta ao invés de chocolate...
- Ah – resmunguei, já fraco. Passei a mão no cabelo pra me situar e tentar tirar da cabeça as memórias que bombardeavam minha mente em flashes rápidos.
- Se quiser dar uma olhada...
- Eu não vou dar nada! – falei um pouco alto.
- Cala a boca, seu idiota! – disse jogando a revista em mim. - Se o Kent nos pega aqui você vai ter que ir pra sua sala. Sabe, tem uma matéria sobre motos aí, mas já que você não quer dar uma olhada... – ele se levantou e pegou a revista do meu colo. E não, não vou comentar sobre o toque de seus dedos bem próximo da minha virilha.
- Motos? Eu pensei que gays usassem triciclos ou algo menos...
- Deixa de ser preconceituoso, Almofadinhas. Sério, a revista não fala só de putaria ou sobre coisas de mulheres. Gays não deixam de ser homens.
- Ok, passa pra cá pra eu dar uma olhada.
Tenho que admitir, a matéria era bem legal. Tinha umas motos muito bonitas, mas não pude terminar de lê-la porque Kent – sempre ele – apareceu pra acabar com a festa. Eu acabei ficando com a revista, porque eu, na minha santa inteligência, resolvi escondê-la dentro do meu paletó. Kent estava lá, então eu não iria devolver nada chamado Pleasurebomb pro Pontas. Não naquela semana.
...
Depois de ser envolto por teias de aranha, morrer de tédio na minha sala já abafada e tentar em vão buscar algo pra fazer, acabei me entregando à revista. Sim, eu a li. De cabo a rabo. E por falar em rabo, lembro que a última matéria que eu li foi a que eu mais temia "Ponto P – tudo o que você sempre quis saber sobre a próstata e tinha vergonha de perguntar".
"Quem penetra deve procurar a melhor forma de se encaixar no parceiro e assim também dar prazer ao outro"
"...deverá fazer em movimentos circulares..."
"...a idéia de que penetração se baseia apenas no entra e sai do parceiro está errada."
"O que resulta da estimulação da próstata é uma ejaculação mais solta e natural..."
Era coisa demais pra mim. Demais. Pontas abriu a porta num estrondo, sempre daquele jeito escandaloso.
- Resolveu se render à revista gay? – perguntou olhando por cima dos meus ombros. Até por que eu ainda estava meio atônito com a reportagem, as fotos e tudo mais, então nem me liguei a tempo de esconder. – Por que você ta lendo isso?
- ISSO O QUE? – perguntei fechando a revista abruptamente. A pobre ficou toda rasgada e amassada.
- Eu vi o que você estava lendo.
- Viu? E deu tempo de ver mesmo? – perguntei, tentando virar o jogo ao meu favor. – Ou quem sabe talvez você tenha lido também e já saiba do que se trata...
- Também? Ahá, então você leu a matéria sobre a próstata?
- E você acabou de se entregar – falei.
- Bom, de qualquer forma, acho que nós lemos só por...
- Curiosidade, claro!
- É. Não acho que nós sejamos nem queiramos fazer isso.
- Absolutamente – concordei.
- Então... fica combinado assim... Você me devolve a revista e eu...
- Não compra mais essas merdas.
- Isso. – Ele me olhou por cima dos óculos antes de ajeitá-los. – A gente se vê então - disse se afastando devagar.
Sim, aquilo era tensão sexual. Uma tênue linha tensa que estava prestes a romper. Ah, se estava...
"Quando vamos ter tempo de sermos apenas amigos?"
